RENASCER DA ESPERANA
SANDRA CARNEIRO
(PELO ESPRITO LUCIUS)

Embora este romance utilize experincias verdadeiras vividas por diversas personagens, para aprendizado de todos ns, no se prope narrar fatos histricos, no 
obstante revele casos que ocorreram nos primrdios do Espiritismo.

Lucius


PREFCIO

O encontro da alma humana com o Criador  a experincia mais profunda e uma das mais desejadas por todos ns, quer estejamos encarnados ou fora do corpo fsico. 
Ao vasculharmos nossos mais ntimos anseios, percebemos essa necessidade, por vezes adormecida e at amortecida. Quando a alma se abre para a luz divina, inicia 
a compreenso de si mesma e do Universo  sua volta. A existncia ganha novo significado e passamos a melhor entender nosso papel no mundo; e encontrando nosso lugar, 
comeamos a fazer real diferena. Sentimos como se o mundo, antes acinzentado e sombrio, adquirisse brilho e cor. E o princpio da jornada de autoconhecimento e 
de descoberta das verdades espirituais. O homem adia essa caminhada, iludindo-se e distraindo-se com extrema facilidade; entretanto, a dor e o sofrimento o alcanam, 
levando-o a lutar p ara tirar de seu interior a angstia e o desespero. Muitos se entregam  revolta e ao desalento, desistindo da vida. Ainda assim, Deus continua 
esperando Sua Criatura acordar do torpor em que est submersa e enxergar a luz extinguvel que sempre a envolveu, sem que se desse conta. A Providncia se faz presente 
de mil modos diferentes, cuidando de ns e nos guiando. A Doutrina Esprita, codificada e sintetizada pelo grande companheiro Allan Kardec, amplia nosso entendimento 
do Criador e de Suas leis, descortinando as verdades do mundo invisvel, ajudando-nos a compreender melhor nossa existncia, nossa realidade interior e a realidade 
social a que estamos vincula dos. Em toda a histria da Humanidade, Deus conduziu os acontecimentos e, amoroso e atuante, enviou socorro queles que se desviavam 
do caminho do bem e do amor, mas que a ele desejavam retomar. Na infncia do esprito humano, os ensinos religiosos educavam com rigor, sem admitir questionamentos, 
pois ramos ainda limitados para realizar raciocnios complexos. No tempo em que o homem j estava mais preparado, Deus enviou Jesus, o esprito mais puro e perfeito 
que viveu sobre a Terra, para nos revelar as verdades espirituais e nos transmitir as lies morais de que tanto necessitvamos, e assim nos reaproximar do Pai. 
Todavia, o Mestre dos Mestres no podia ds vendar mistrios que naquela etapa o homem seria incapaz de compreender. Quando, mais amadurecida, a Humanidade viu a 
cincia florescer, trazendo o conhecimento de fatos antes encobertos pelo misticismo e pelas crendices da ignorncia, Deus enviou a Doutrina Esprita, que, penetrando 
o invisvel, harmoniza o homem com sua essncia divina. Atravs deste romance, desejamos convidar o leitor a testemunhar a experincia de homens e mulheres que enfrentaram 
seu destino e viram a esperana renascer em seus coraes, vivendo o momento histrico em que novo alento chegava  Terra: a revelao esprita acontecia por todo 
o mundo. Rogamos ao Pai que a mesma luz que um dia nos tocou, conscientizando-nos de Seu amor e Sua grandeza infinitos, possa alcan-lo, amigo leitor, despertando-o 
para a magnitude da Vida da qual fazemos parte. Somos filhos de Deus e por isso imprescindveis onde quer que estejamos. Entreguemos o melhor que temos ao Criador, 
e seremos surpreendidos pela inesgotvel fonte de bnos, sabedoria, luz e amor a que iremos nos conectar.

Lucius

Era um dia frio. O vento glido castigava o corpo cansado de Emilie, que caminhava titubeante pelas estreitas vielas de Bilbao, pequena provncia ao norte da Espanha. 
Enxugando as lgrimas que no paravam de correr por seu rosto, ela procurava desviar os olhos da indiscrio dos viandantes. Experimentava naqueles olhares fria 
curiosidade, pois sabia que ningum se preocupava com ela. No estavam interessados em sua dor, em seu sofrimento. Naquela hora extrema no havia sequer um brao 
amigo para ampar-la. Estava cansada e absolutamente s. Enquanto andava, pensava que a vida era penosa demais para ela, oferecendo-lhe apenas amargura e desgosto 
que no compreendia. Nada fazia sentido. Seguindo com dificuldade, passou duas vezes em frente ao vendedor de frutas; sentiu o aroma suave das mas frescas e quase 
lhe roubou uma. Entretanto, o temor de ser descoberta era maior do que a tortura da fome. Emilie se conteve e continuou andando. Por diversas vezes parou e se virou, 
temendo que j estivessem atrs dela. Mas o que realmente desejava era que algum a socorresse naquele instante. Uma vez mais olhou para trs e se convenceu de que 
ningum a perseguia. Voltou-se devagar e retomou a marcha, atordoada. Seus pensamentos eram confusos, descontrolados, e o corao lhe batia freneticamente no peito 
arfante. Emilie estava desesperada. Continuou vagarosamente em direo aos limites da provncia. Ao se aproximar dos portes, as sentinelas a observaram de alto 
a baixo, mas nada fizeram, tomando-a por mais uma mendiga. Estava maltrapilha, vestindo restos rotos das roupas que outrora usara; tinha os cabelos despenteados 
e embaraados. Irreconhecvel, era apenas uma sombra da jovem, bela e rica mulher que fora at poucos meses antes. Sem maiores dificuldades, ela transps os limites 
da provncia.  medida que se afastava dos portes, olhava para trs com ansiedade. Embora desejasse voltar, avanava. Ainda que continuasse vacilante, a deciso 
estava tomada. J era noite quando se desviou da estrada, entrando na floresta em direo ao mar. Sempre sentira medo da floresta, especialmente  noite. Mas quela 
altura nada a deteria, estava determinada. Caminhou por entre as rvores, afastando os galhos e o mato, quase sem enxergar nada  sua frente. As lgrimas lhe caam 
incessantemente pela face. Tropeou em um toco e foi ao cho. Permaneceu ali prostrada, chorando agoniada. Quase adormeceu entre as lgrimas, mas ento, como que 
movida por uma fora desconhecida, lembrou-se dos acontecimentos que a haviam conduzido at ali. Levantou-se e prosseguiu. Sabia que, continuando naquela direo, 
chegaria ao mar. J era noite alta quando ouviu os primeiros sons das ondas agitadas ao p do penhasco. Embora esgotada, no parou. Fazia dias que no comia, bebendo 
apenas gua. As rvores altas foram diminuindo, se espaando, e ela pde divisar o grande penhasco de onde se avistavam os navios que partiam para o alto-mar. At 
onde a vista alcanava, estendia-se o imponente penhasco; a praia se espalhava l embaixo, aos seus ps. Emilie se aproximou devagar. Seu corao batia ainda mais 
descompassado; a respirao era ofegante e seu corpo tremia inteiro. Exausta, faminta e sem esperana, mal conseguia caminhar. Cambaleante, foi chegando  borda 
do penhasco. Observou a magnificncia do lugar: o mar ao longe, a se perder no horizonte; as estrelas cintilantes acima de sua cabea e o vento que bafejava o cheiro 
do mar em seu rosto. Ali j estivera diversas vezes e vivera momentos de enorme felicidade. Quantos sonhos, quantos momentos de alegria tivera naquele lugar! Quantas 
promessas, quantas juras de amor eterno... Emilie sentou-se e contemplou o cenrio com ternura e saudade: era a ltima vez que o via. Queria afastar da mente todas 
as lembranas, esquecer o quanto havia sido feliz um dia. Agora tudo lhe fora tirado. Nada lhe restava alm da dor, da revolta e do absoluto desalento. Diante daquela 
imensido, sentia-se entregue  prpria sorte, sem foras para lutar. Havia tentado - refletia ela. Tentara de todas as formas lutar contra o cruel destino que a 
visitava. Havia buscado ajuda, pedido, implorado. Ningum a amparara. Lutara contra a indiferena de amigos e parentes, pois todos lhe haviam virado as costas. Quer 
por medo ou por indiferena, no encontrara um ombro amigo, nenhum auxlio. Muito chorara pedindo socorro a Deus, mas sentia que at Ele a abandonara por completo. 
Melhor seria que lhe tivessem tirado a vida, logo de uma vez. Assim pensava Emilie, revoltada e desiludida,  beira do penhasco. Agora, as estrelas desapareciam 
uma a uma,  medida que os primeiro s raios de sol despontavam no horizonte. Logo o dia nasceria e Emilie no queria ver o alvorecer. Levantou-se devagar e caminhou 
para mais perto da borda. Ah, recuou instintivamente. A altura sempre lhe causava vertigens. Respirou ento, profundamente, como a buscar foras. Olhava para alm 
de seus ps e via o gigantesco paredo que terminava no mar. Aterrorizada, assistia ao espetculo das ondas batendo nas rochas e pensava que l estaria em alguns 
instantes: junto  espuma das guas do mar, esquecida para sempre. Sua dor teria fim; sua humilhao e sua vida, que nada mais valia, acabariam para sempre. Olhava 
para baixo hipnotizada, como se algo a chamasse para a queda. Avanou mais e mais, com lentido, p ante p. A cada passo, despedia-se mentalmente dos que lhe eram 
mais queridos: primeiro do marido, depois dos pais, a quem no via h anos. Enquanto isso, mais seus ps se aproximavam da beira do penhasco. Emilie no conseguia 
desgrudar os olhos das guas agitadas. Chegou enfim ao limite. Mais um passo, s um, e estaria tudo acabado. Seria, finalmente, a libertao. Respirou fundo de novo: 
precisava ter coragem. Olhou mais uma vez para o horizonte. O sol estava nascendo e o som das primeiras gaivotas espantava o silncio da noite. Emilie pensou na 
filha, e despediu-se dela. Era a ltima imagem que queria ter na mente, antes da queda: Cntia, sua filha querida com o pensamento nela, preparou-se para o passo 
fatal. Quando Emilie ergueu o p direito, pronta a dar o ltimo passo, ouviu um grito abafado:
- No, mame! Por favor, no faa isso!
Emilie desceu o p e instantaneamente parou assustada. Quase se desequilibrou, porm conseguiu se sentar. Olhou em volta procurando a filha. Onde estaria? O que 
faria ali? Como teria chegado? Procurou, e no viu nada. No havia ningum, ela estava sozinha. "Deve ser coisa da minha cabea - pensou -, estou amedrontada e procuro 
uma forma de fugir ao que deve ser feito". Levantou-se. Ia prosseguir, mas, antes de se pr novamente  beira do penhasco, escutou a voz suave da filha:
- Por favor, mezinha, no desista da vida.
Dessa vez Emilie se sentou, desatando dolorido pranto. Chorava sem entender o que se passava. Onde estava a filha querida, cuja voz doce ouvia to nitidamente como 
h pouco ouvira o som das gaivotas? O sol subia vagarosamente. Os tons do cu azul misturavam-se ao verde das rvores e ao esmeralda do mar. Os pssaros saudavam 
o amanhecer com vos alegres. O vento gelado movimentava os cabelos de Emilie, como se beijasse sua face. E ela chorava e chorava. "Ser que no terei coragem, meu 
Deus? Preciso terminar com este sofrimento!" - angustiava-se. Continuou a chorar convulsivamente. Chorou por horas. Lembrando a voz da filha a ressoar-lhe na mente, 
foi incapaz de se reerguer com aquela voz a lhe pedir que desistisse, como continuar? A alvorada chegou majestosa, invadindo tudo com a alegria matutina. E Emilie, 
aps horas de angstia e dor, exausta pela longa jornada empreendida at o mar, abatida e faminta, adormeceu. Dormia profundamente quando algum lhe tocou o rosto 
com delicadeza, afastando seus cabelos:
- Voc est bem, minha jovem? Acorde, precisa de ajuda! Insistentemente a mo acariciava seu rosto e Emilie despertou devagar.
- Quem... O qu...
- O que aconteceu com voc? Como est abatida, meu Deus!
- Deixe-me, quero ficar sozinha - Emilie respondeu, tentando afastar com violncia a mo que afagava seu rosto.
- No tenha medo, deixe que a ajude. Quem  voc?
- No interessa; afaste-se, por favor, quero morrer!
- Ah, ento era isso que pretendia  beira do penhasco? Acabar com a vida?
- No  da sua conta. Deixe-me, peo uma vez mais.
- De forma alguma, precisa de auxlio! No posso abandon-la; caso contrrio, acabar por fazer o que pretendia. No lhe darei essa alternativa. J vi outros que 
fizeram isso; ficam muito feios depois, pode acreditar. Por que vm justo aqui, a este lugar lindo, para um ato to triste? Vamos, levante-se vou levar voc para 
minha casa. L poder se alimentar e receber os cuidados de que necessita.
- No, quero ficar aqui.
- Ora, vamos, est quase morta!
- Ento me deixe continuar aqui.
- Como se chama?
- No interessa.
- Qual  seu nome?
- Como  insistente!
- Meu nome  Lucrcia. Qual  o seu?
Emilie, fraca e combalida, empenhava-se na tentativa de enxergar a mulher que a socorria. Olhou-a finalmente. Grandes olhos pretos a observavam carinhosos e meigos. 
Lucrcia era uma mulher de pele escura, quase negra. Esgotada, Emilie desfaleceu sem dizer mais nada. Lucrcia sem demora tomou-a nos braos e, num esforo tremendo, 
desceu a estreita trilha que ligava o penhasco a uma pequena vila de pescadores prxima ao mar. O caminho, sinuoso e ngreme, exigia dela toda a energia. Quando 
chegou  praia, colocou Emilie cuidadosamente na areia, perscrutando mais um a vez seu rosto magro e sujo. Percebeu que sob aqueles traos marcados pela dor havia 
um semblante delicado e belo. Descansou um pouco junto de Emilie, que permanecia desacordada. Depois, levantou-se resoluta e, carregando a moa nos braos, levou-a 
at sua casa e a acomodou numa cama improvisada. O marido, que  entrada limpava os peixes que trouxera naquela madrugada, no perguntou nada. Ajudou a esposa e 
depois examinou a jovem que se debatia em pesadelos, falando coisas ininteligveis. Lucrcia, ao seu lado, procurava aliment-la. Estava ardendo em febre.
- Pobre coitada. Quem ser? Veja em que estado se encontra, Jairo!
- ... Parece jovem. E est muito abatida...
- Abatida e desesperada, ia fazer a besteira. Graas a Deus eu apareci.
- Como assim?
- Queria se matar!
- Ela tentava se jogar?
- No, mas ia tentar, eu sei; e depois ela mesma disse.
- Meu Deus, que tristeza pode carregar no peito a ponto de desejar tirar a prpria vida? Como foi que a achou? O que deu em voc para subir at o penhasco?
- Senti que precisava ir e obedeci.
Emilie continuava delirando. Pelo resto do dia e noite adentro Lucrcia, toda bondade, permaneceu ao lado da cama, desdobrando-se em cuidados. Preparou uma sopa 
forte e de quando em quando a alimentava. A noite foi longa. Emilie pedia socorro. Seus sonhos eram tormentosos, assustadores. Lucrcia pouco dormiu, buscando atender 
a pobre desconhecida. Na manh seguinte Emilie, ainda dormindo, parecia ligeiramente mais calma. Assim que o dia nasceu, Lucrcia se dedicou aos seus afazeres e 
vez por outra se aproximava da cama, atenciosa, preocupada com o estado da mulher que socorrera. Pelo meio da manh notou que Emilie abria os olhos. Carinhosa e 
solcita, procurou tranqilizar a jovem:
- Aqui est segura, no se inquiete.
- Onde estou? Quem ...
- Fique calma, voc precisa descansar recuperar as foras. E trazendo o po que acabara de fazer, ajudou a jovem a se sentar na cama, insistindo que comesse.
- Precisa se alimentar.
- H muito que no como...
- Imaginei, pelo seu estado. Mas precisa se alimentar.
- No tenho vontade... Quero morrer...
- Isso eu sei. Graas a Deus no conseguiu fazer o que pretendia. Quem  Cntia?
Emilie arregalou os olhos, dizendo:
- Como sabe de Cntia? Quem  voc? Foi enviada para me destruir, no  mesmo? No lhe direi onde ela est. Isso jamais! Minha vida pouco vale, pode tir-la. No 
direi onde ela est!
- Calma, por favor, calma. Voc repetiu esse nome diversas vezes durante o sono. No sei quem , mas deve ser querida, pois fala nela com preocupao e cuidado, 
como h pouco.
- Falei dormindo?
- Muito, nem imagina quanto.
- Fiz algo mais, alm de falar?
Lucrcia olhou-a como se soubesse em que pensava e disse:
- No teve foras para mais nada, ao menos por enquanto. Agora coma, precisa se alimentar.
Dessa vez Emilie ficou calada. Sentada na cama, comeu o po embebido em leite que Lucrcia preparara. Nem sabia quando se alimentara pela ltima vez. Ao terminar, 
Lucrcia lhe perguntou:
- Como se chama?
- Por que quer saber?
- Meu nome  Lucrcia, vivo aqui com meu marido, Jairo. No temos filhos - ou melhor, eu tive, porm me foram tirados. Esta pequena casa  nosso refgio. Apesar 
de no termos muito, tudo o que temos dividiremos com voc. Pode ficar aqui pelo tempo que precisar.  tudo muito simples, mas no ho de faltar o alimento e o teto, 
at que se sinta pronta para seguir com sua vida.
Lgrimas brotaram nos olhos cansados de Emilie. Sentiu-se quase enternecida pelo carinho, to desejado, que agora s recebia de uma estranha. Enxugando as lgrimas 
que lhe desciam pela face, murmurou quase sem voz:
- Meu nome  Emilie.
- Emilie? Esse nome no me parece estranho...  da regio ou de outra parte?
- Sou estrangeira neste pas, mas vivo aqui h muito tempo.
- Este  um bom pas, mas  preciso aprender a conviver com suas regras...
- Sim... Experimentei os seus preconceitos...
Emilie no pde continuar. Comeou a chorar convulsivamente, um pranto agoniado e dolorido. Lucrcia abraou-a com carinho, aconchegando-a ao peito; acariciou seus 
cabelos, qual terna me abraando a filha. No obstante o constrangimento de estar nos braos de uma desconhecida, Emilie no pde mover-se. Quando percebeu que 
a jovem se acalmara, Lucrcia deitou-a, dizendo:
- Agora descanse que tenho muitos afazeres me aguardando. O trabalho no pode esperar e voc deve descansar.
Emilie no respondeu. Apenas meneou a cabea em sinal afirmativo. Lucrcia deixou o pequeno cmodo em que instalara a jovem e se dirigiu ao balco onde trabalhava. 
Ficava na rea externa, em frente ao mar, e dali podia ouvir o barulho das ondas morrendo na praia. Emilie se ajeitou na cama. Embora assustada e amargurada, a cama 
quente, a comida e especialmente o carinho desinteressado da desconhecida aqueciam sua alma, trazendo-lhe um bem-estar que h muito no experimentava. Adormeceu 
envolvida por aquelas suaves sensaes. Mais tarde, Lucrcia acordou-a para o almoo, quando conversaram um pouco mais. Ao final, fez com que ela se deitasse novamente 
e repousasse. Sentia especial carinho por aquela jovem desconhecida. E algo de familiar nela a compelia a mais e mais se dedicar. Segredou ao marido, aps assegurar-se 
de que a jovem dormia:
-  curioso, Jairo, sinto que conheo essa moa de algum lugar. Algo nela me parece extremamente familiar. No sei o que : se o nome, Emilie, se o rosto, ou se 
as duas coisas, no sei. Mas ela me parece mesmo muito familiar...
- O nome dela  Emilie de qu?
- No sei. Ela no contou e eu tambm no perguntei. Foi um custo faz-la dizer o primeiro nome.
- E por qu? De que ser que tem medo?
- No sei... O que sei  que est assustada...
- Precisa descobrir um pouco mais, Lucrcia. Temos de saber quem amparamos em nossa casa. Voc sabe bem que nos dias difceis que vivemos, de desconfiana e perseguies, 
todo o cuidado  pouco.
- Sim, sem dvida. Devemos manter total segredo sobre Emilie. Ningum deve saber que est aqui, assim teremos tempo de averiguar melhor...
Quando Lucrcia levou o jantar para Emilie, deparou com a jovem sentada, tentando se levantar. Ao v-la com o prato de comida, disse:
- Preciso ir embora.
- Para onde?
- No sei. Para qualquer lugar.
- Est muito fraca, Emilie. Fique um pouco mais conosco.
- No me sinto bem aqui parada, comendo e bebendo... Voc nem sabe quem eu sou!
- Sei, voc  uma jovem que precisa de ajuda... Que tem uma pessoa muito querida chamada Cntia e que deseja muito voltar a v-la. E sei que est fraca, tremendamente 
fraca. Precisa se alimentar e descansar para recuperar as foras. Coma e descanse esta noite. Amanh, se estiver melhor, mais refeita e disposta, ento concordo 
que parta.
Convencida, Emilie se sentou e jantou. A comida era saborosa e comeu como h muito tempo no fazia. Lucrcia teve o cuidado de preparar alimentao substanciosa 
e ao mesmo tempo leve, para readaptar o organismo debilitado da recm-chegada. No podia ignorar que sentia simpatia e atrao por aquela estranha. Depois do jantar, 
Emilie procurou dormir. Demorou um pouco para se tranqilizar, mas finalmente, vencida pela exausto que ainda a dominava, adormeceu. O sono da jovem foi por demais 
atormentado. Teve pesadelos que acordaram Jairo e Lucrcia. Esta correu a acudir a jovem, que gritava desesperada:
- No! Por favor, no mate minha filha! Meu Deus! Cntia!
- Calma, acorde,  s um sonho - acudia Lucrcia -, s um sonho. Acorde, vamos!
- Eles tiraram minha filha de mim!
- Calma, j passou!
- Por qu? Por que tanta maldade? Por que fizeram isso comigo?
- Calma, j passou, est tudo bem. Emilie continuava chorando:
- Quero minha filha! Quero minha vida!
- Emilie, tente se acalmar, tudo ficar bem!
- Eles tiraram minha filha, tiraram minha vida. Roubaram tudo o que eu tinha!
- Calma. Quer conversar sobre o assunto, contar o que houve?
- Di demais...
- Ento durma, descanse.
A muito custo, Lucrcia conseguiu faz-la acalmar-se e voltar a dormir. Ento, retomou para a cama pensativa: "O que ter acontecido a essa jovem? Quem ser ela?" 
Foi intrigada e penalizada que Lucrcia acabou por adormecer. Enquanto dormia, seu corpo espiritual se desprendeu e caminhou at onde estava Emilie. Estacou na porta, 
horrorizada. Em tomo da moa havia quatro entidades espirituais em terrvel estado, que sussurravam no seu ouvido. Ela tentava desvencilhar-se das criaturas, debatendo-se 
na cama. Eram dois homens duas mulheres. Ao perceberem a aproximao de Lucrcia, afastaram-se ligeiramente e falaram em tom ameaador:
- No adianta tentar ajud-la. Ela deve morrer. Ela tem de morrer. Merece sofrer.
Lucrcia olhou para aqueles espritos em estado lamentvel, sentindo profunda ternura por eles. Observou o rosto de cada um e depois, movida por intensa compaixo, 
pediu, quase suplicante:
- Meus irmos, quem so vocs? Por que perseguem essa moa? O que querem com ela?
- Voc no sabe o que est fazendo ao acolher uma assassina em sua casa. Ela tem de pagar. Tem de morrer!
- A justia pertence a Deus. Se ela fez algo errado, no precisam se preocupar, ir colher as conseqncias. - E olhou para Emilie com carinho - Pelo estado em que 
se encontra, acho que j est colhendo...
- Pode ter certeza de que ela vai pagar. E vai pagar caro por tudo o que nos fez sofrer. Ela nunca vai sair dessa situao, jamais! Tem de pagar! Tem de morrer! 
E voc est se metendo onde no deve. Est comeando a atrapalhar. Ns quase conseguimos, quase!
Uma outra entidade, feminina, disse:
- Ela estava apenas a um passo, um passo do desastroso fracasso. Mas tiveram de ajud-la!
A outra entidade feminina disse com desdm:
- Foi a filha.
- No importa. Ela no h de escapar impune. Lucrcia insistia generosa, buscando demover as criaturas da inteno de perturbar Emilie:
- Irmos, de nada adianta ficarem assim,  volta dela, como moscas sobre o mel. Tambm precisam de ajuda. Olhem para vocs! Esto em farrapos!
Uma das mulheres afirmou:
- No importa. Enquanto ela no se juntar a ns, no desistiremos. Nem adianta voc falar nada. Para o seu bem,  melhor que ponha essa mulher na rua. Caso contrrio...
Lucrcia enfrentou com olhar firme a criatura que lhe ameaava a tranqilidade do lar:
- No adianta ameaar, minha irm. Nesta casa, acreditamos no amor e na justia de Deus. Acreditamos em Jesus. Ele nos ensinou que devemos amar e fazer o bem a todos, 
tratando-nos como verdadeiros irmos. E assim agimos.
- Pior para voc. Se insistir em ajudar essa mulher, sofrer igualmente.
Lucrcia, sentindo-se estranhamente ligada quelas criaturas infelizes e brutalizadas, ainda tentou conversar um pouco com elas; no entanto, intuindo que o trabalho 
seria demorado e rduo, voltou para seu quarto. Colocou-se ao lado da cama, vislumbrando o corpo espiritual do esposo que, sentado, meditava. Juntou-se a ele e permaneceram 
orando por longo tempo. Amanhecia quando retomaram ao corpo fsico, para o novo dia que se anunciava. Ao despertar, Lucrcia se lembrou vagamente do que vira como 
se fosse apenas um sonho. Mesmo assim teve a certeza de que Emilie necessitava de socorro. Seus problemas eram graves, muito mais graves do que ela prpria conseguia 
perceber. Estava sendo perseguida por entidades espirituais que desejavam, ardentemente, prejudic-la. Levantou-se naquela manh pedindo ajuda a Deus para que pudesse 
ser realmente til. Foi at o outro quarto, preocupada. A jovem ardia em febre. Lucrcia correu  cozinha e preparou gua fria com algumas ervas, para fazer baixar 
a temperatura. Colocou o emplastro na testa de Emilie e ali o deixou por algum tempo, sem obter qualquer resultado. Quando Jairo entrou no pequeno cmodo, ela lhe 
pediu:
- Precisa buscar um mdico. Esta jovem est muito mal.
- Mas no temos dinheiro, Lucrcia. Um mdico vai cobrar caro!
- Jairo, temos de fazer algo, ou ela vai morrer! A febre est muito alta.
- Ento vou pedir ao Belisrio que venha ajudar com suas oraes.
- No! Precisamos de um mdico. O caso dela  grave! V buscar o mdico e, quando chegar, eu me entendo com ele sobre o pagamento. Comprometo-me a fazer uns pes, 
a trabalhar para ele, no sei. Traga-o, da veremos.
Jairo saiu sem dizer mais nada. Confiava na esposa e percebia a gravidade da situao. Decorrido algum tempo, voltava trazendo o doutor. Fora difcil encontrar um 
que aceitasse ir at a pequena cabana que ficava um pouco distante da vila, numa regio pobre, onde s viviam simples pescadores. Finalmente, falando em nome de 
Miguel, um amigo que residia em Barcelona e tinha tambm negcios em Bilbao, Jairo alcanou seu intento. Por sorte, Miguel lhe falara desse conhecido mdico de Barcelona 
que ultimamente vinha passando temporadas na provncia. Lucrcia, aflita, aguardava o marido:
- Que bom que chegaram. A febre no cede, ela est piorando.
- Este  o doutor Francisco. Minha esposa, Lucrcia, que encontrou a jovem no penhasco.
- Senhora...
- Ela est muito doente.
O mdico se aproximou da cama, levando pequena maleta preta e o estetoscpio. Sentou-se na beira da cama. Afastou os cabelos da jovem e ao ver seu rosto empalideceu, 
levantando-se assustado.
- No posso fazer nada.
- Como no, doutor? Ela est muito mal!
- No posso. No h nada que possa fazer para ajud-la. Ele estava plido e agia como se tivesse medo de alguma coisa.
- Mas, doutor, esta moa precisa de ajuda ou no vai resistir. O mdico tentou sair do quarto, porm Lucrecia segurou-o pelo brao e lhe disse, sem pensar:
- No fuja do passado, enterrando o presente. Francisco olhou-a e respondeu, espantado:
- No sei do que est falando.
- Nem eu tampouco, s sei que no quer dar ajuda a algum que precisa muito. Por qu? O senhor  mdico e seu trabalho  salvar vidas, no ? Seno socorrer esta 
moa, ela acabar morrendo! Precisa fazer algo.
Surpreso e sem saber bem o que fazer, Francisco retomou  beira da cama. Sentou-se, tirou seus equipamentos da pequena mala e comeou a examinar Emilie, sob a vigilncia 
atenta de Lucrecia e Jairo. Por fim, fechou a maleta, dirigiu-se ao casal e entregou receita prescrevendo alguns medicamentos:
- A senhora tem razo,  muito grave. Suspeito de pneumonia. Dem a ela esses medicamentos. Deveria voltar amanh para mais uma visita, mas no quero que ningum 
saiba que estou ajudando.
Jairo perguntou ao mdico, hesitante:
- Qual o problema, doutor?
- No sabem quem  essa jovem?
- No. Como disse meu marido, encontrei-a l em cima, no penhasco. Acho que pretendia se matar no mar, & por algum motivo no conseguiu.
- Quando foi isso?
- Dois dias atrs.
- ...  o tempo que esto procurando por ela.
- Quem?
- Familiares, mdicos, policiais, entre outros.
- Por qu?
- Fugiu de uma clnica que trata de doentes mentais.
- Doentes mentais? Ela no me parece doente - disse Lucrcia, pensativa.
- No sabem mesmo quem  ela? - insistiu o mdico.
- No!
-  Emilie de Bourbon e Valena.
- Emilie de Bourbon e Valena... - Jairo procurava na memria onde ouvira aquele nome. De sbito, disse - Aquela que foi acusada de tentar matar o marido e a filha?
- Sim, isso mesmo. Tive a oportunidade de conhec-la meses antes da tragdia.
- E  verdade tudo o que dizem sobre essa jovem?
- Conhecem a histria?
Foi Lucrcia quem respondeu:
- Ouvimos alguns comentrios a respeito. Entretanto, ela no nos pareceu doente mental.
- Temo que estejam acobertando uma assassina em sua casa. Precisam avisar a polcia.
Antes que ele terminasse, Lucrcia pediu energicamente:
- No, por favor, no fale nada a ningum. Essa moa precisa de ajuda, doutor Francisco. Ela no  criminosa, tenho certeza disso.
- Como pode estar to certa se mal a conhece?
- No sei, apenas sinto que ela  inocente.
Francisco hesitou e olhou para o casal, desconfiado. Todavia, intrigado, especialmente pela figura de Lucrcia, enfim respondeu:
- Por enquanto no direi nada. Se algum me perguntar se estive aqui, ou se sei de alguma coisa, negarei com veemncia. A responsabilidade  toda de vocs. Pode 
ser perigoso ajudar essa moa. Ela incomodou pessoas influentes e importantes da nossa sociedade. Lucrcia insistiu:
- Estou certa de que no fez nada.
- Como pode ter essa certeza?
- Apenas sei. O doutor poder vir de novo amanh, por favor?
- S se for durante a madrugada, antes que o sol nasa. Assim ser mais difcil que me vejam.
- Para ns est timo, aguardaremos pelo senhor ao amanhecer.
Jairo foi com o mdico at a porta e perguntou:
- Quanto nos custaro essas visitas, doutor?
- Ainda no sei. Cuidarei da moa por algum tempo para ver se ela apresenta alguma melhora. No entanto, insisto que vocs a entreguem  polcia. Ela representa encrenca 
sria.
Lucrcia e Jairo,  porta da pequena casa, observaram o mdico desaparecer trilha acima. Os dois se entreolharam sem coragem de falar, mergulhados em reflexes sobre 
o que deveriam fazer. Lucrcia, depois de prolongado silncio, fitou o marido e disse:
- Ns temos de ajud-la.
- Como poderemos?
- Ainda no sei. Apenas sinto que  o que devemos fazer. No consigo explicar.
- Costumo confiar em suas intuies, Lucrcia, mas no acha que estamos nos arriscando demais? E se ela for mesmo doente? E se for perigosa e nos causar algum dano? 
No sei, estou preocupado.
- Confie em mim, Jairo. No tenho dvida de que devemos ajud-la. Algo me diz, aqui dentro do peito, que essa jovem precisa de ns. Do jeito que est, se a desprezarmos 
agora, o que ser dela?
- O pior  que ela fugiu de um manicmio. Tem noo do  isso? Pode ser louca! E se for? Se a polcia est  procura dela, deve realmente ser perigosa. Como disse 
o mdico,  uma fugitiva a quem estamos dando proteo. Seremos considerados cmplices...
- Jairo, pense comigo: por que o mdico, reconhecendo a jovem, decidiu deix-la conosco? No acha estranho? Se tivesse tanta certeza de sua culpa, por que concordaria 
em cuidar dela, mesmo em segredo?
- No sei, pode ter ficado com pena de ns.
- Por qu? Quem somos ns, simples pescadores, para que ele nos d qualquer tipo de importncia? No, Jairo, no creio que seja esse o motivo. Ele deve ter outra 
razo para ajudar Emilie. De alguma forma essa histria soa esquisita, e precisamos ir com cautela. Voc bem sabe que tudo o que nos acontece tem uma razo.  preciso 
ler nas entrelinhas. Nunca vou ao penhasco. A bem da verdade, aquele lugar me causa calafrios. Sinto aflio assim que me aproximo.  como se ouvisse vozes, voc 
sabe.
- E por que foi at l naquela manh?
- No sei. Apesar da angstia que o lugar me causa, fui atrada para l, sem razo aparente. E naquela manh encontrei Emilie, desfalecida, quase morta de cansao 
e fome. Com certeza ela ia pular Jairo, e algo a impediu. Depois e u cheguei. Para mim, diante de tudo o que temos aprendido, so sinais de que devemos ajud-la.
- Muito bem, voc me convenceu. Vamos ajud-la, ento, mas devemos ser muito cautelosos. No sabemos nada sobre os fatos que envolvem a vida dela.
- Concordo plenamente. Sinto que se trata de uma situao complicada. Primeiro quero ganhar a confiana dela, compreender bem o que se passa e depois, sim, pensamos 
no que fazer.
- E nenhuma palavra a ningum sobre a presena dela aqui.
- Claro, vamos manter isso em segredo, ningum na vila precisa saber.
- Agora tenho de cuidar da vida, ou no teremos o que comer.
Jairo abraou carinhosamente a esposa e a deixou com os afazeres domsticos. Lucrcia se desdobrou o dia todo em atenes para com Emilie, que continuava delirando. 
Dizia coisas sem sentido e por vezes Lucrcia estranhou o que ouvia. Em seus delrios, pedia:
- Por favor, afastem-se de mim! No se aproximem mais, por favor! J me tiraram tudo! No suporto mais. Vo embora, parem de me atormentar!
Lucrcia fitava Emilie, intrigada. Sabia que ela poderia estar falando com entidades espirituais, assunto que conhecia bem. Ela prpria, por diversas vezes, j fora 
vtima de espritos infelizes. Somente o estudo constante e o esforo em compreender e aplicar as leis divinas a haviam levado a superar aquelas crises. Agora tentava 
ajudar a jovem, que parecia ter problemas semelhantes. Cuidava carinhosamente de Emilie, falando-lhe ao ouvido palavras de incentivo:
- Eles no podem lhe fazer mal algum, Emilie. Confie em Deus, pea ajuda a Ele!
A jovem, inconsciente, continuava atormentada, dando a impresso de nada registrar. Entretanto, Lucrcia no se poupava. Preparou diversos chs elaborados com ervas 
medicinais que a fazia ingerir a todo momento. Continuava muito preocupada com seu estado de sade, que parecia no melhorar. No incio da tarde, foi at o quarto 
e conferiu suas economias, para ver se poderia dispor de algo com que comprar rnedicamento que o mdico prescrevera. Procurou em vo: o que poupara era insignificante. 
Vasculhou os armrios em busca de algo que pudesse vender qualquer coisa. Ela sequer sabia direito o que procurava, pois o casal no dispunha de objetos valiosos; 
viviam to-somente do resultado da pesca, que o marido arduamente conseguia todos os dias, nas guas do Atlntico. Mas Lucrcia no desistiu. Instintivamente, semi 
atentar para os prprios atos, revirava e remexia tudo, at que afinal encontrou esquecida no fundo de um ba que quase no abria uma carta: a que receber a da me 
ao deixar sua terra natal, na esperana de uma nova vida. Lucrcia nascera em Marrocos e deixara o pas, com Jairo, fugindo de sua sorte. Na partida, a me colocara 
a carta em suas mos, pedindo que lesse apenas quando estivesse longe. Junto lhe entregara uma moeda antiga, que estivera na famlia por muitas geraes. A me queria 
que ela mantivesse o elo com suas razes, mesmo vivendo distante. Lucrcia no teve dvidas com a moeda nas mos, fechou o ba e se levantou decidida. "Por certo 
esta moeda deve ter algum valor! - pensou, entusiasmada - Se a vender bem, conseguirei dinheiro para comprar os remdios". Como no poderia sair enquanto o marido 
no chegasse, guardou a moeda no bolso do avental e prosseguiu nas tarefas ao mesmo tempo em que pensava: a quem procurar para obter' um bom preo pela venda? Quando 
Jairo surgiu na ponta da praia arrastando a rede, Lucrcia correu at ele:
- Jairo, ela no melhora. Precisa do remdio que o doutor receitou. 
- Mas se no temos dinheiro, como vamos pagar o remdio?
- Tenho isto! - mais que depressa e tirou a moeda do bolso.
- O que ?
- Lembra-se daquela moeda que minha me me deu quando deixamos o Marrocos?
- No, Lucrcia, isso no!  da sua famlia!
- No temos escolha, Jairo! A moa est piorando! Precisamos fazer alguma coisa!
Jairo olhou-a resignado. Sabia que nada a demoveria da idia. Continuando a caminhar, perguntou:
- O que fao ento? Quer que venda a moeda?
- No sei. Pensei muito, e no sei onde poderamos obter melhor valor. Na vila, acho difcil encontrar algum que pague. No conheo ningum que mexa com isso. Na 
provncia, no saberemos a quem recorrer. Se demorarmos a obter os remdios talvez ela no sobreviva. Acho que deveria ir at o doutor e lhe pedir que fique com 
a moeda, em troca do remdio.
- Ser que ele ir aceitar? Apesar de atender ao nosso pedido, ele me pareceu muito indiferente.
- Temos de tentar. Conte a ele sobre a origem da moeda.  um homem inteligente, da cidade grande, sabe das coisas. Acho que vai apreciar uma antigidade. S precisa 
fazer com que se comprometa a comprar todos os remdios em troca da moeda. Sei que ele gosta dessas coisas, vai concordar.
- Como sabe que ele gosta de antigidades? Voc pouco conhece o doutor Francisco.
- Algo me diz para tentar. Afinal, que mais poderamos fazer? Agora v, Jairo. Largue tudo a, as redes, os peixes, deixe tudo! V depressa ou a moa pode no resistir.
Sem dizer mais nada, Jairo entrou em casa e deu uma espiada em Emilie, que molhada de suor continuava delirando, febril; foi para o quarto, trocou as roupas e partiu, 
no sem antes prometer a Lucrcia que faria o melhor para trazer os remdios. Ele no conseguia dizer no  esposa, mesmo nas Muitas ocasies em que no concordava 
com suas idias. Na verdade, ele no podia reclamar, pois desde que a conhecera Lucrcia tinha premonies, intuies e pressentimentos. E os sonhos... O que ele 
mais temia eram os sonhos. Pelo menos agora, depois que eles haviam descoberto, atravs dos princpios espritas, a relao entre o mundo material e o mundo invisvel, 
a mulher parecia ter mais controle e compreenso daqueles estranhos fenmenos. Jairo foi at Bilbao procurar pelo mdico. Assim que ele saiu, Emilie piorou. Debatia-se 
mais e mais, gritando desesperadamente:
- No! No faam isso! Por favor, me deixem! Lucrcia tentava acalm-la:
- Sossegue Emilie, tenha calma. Tudo vai dar certo. Subitamente, como que sonmbula Emilie abriu os olhos, fitou Lucrcia com olhar parado e disse:
- No se meta com essa mulher! Afaste-se dela enquanto  tempo! No poder ajud-la. Ningum pode!
Lucrcia se assustou. At a voz parecia outra. Enchendo-se de coragem, disse:
- Jesus a protege! Fiquem longe dela!
Com voz estranhamente alterada, Emilie respondeu:
- Nunca! - e soltou uma gargalhada aterradora. 
Lucrcia baixou a cabea e comeou a orar. Pediu com fervor que Deus socorresse Emilie. Lgrimas desciam pela sua face. Sem poder raciocinar, Lucrcia compreendia 
com o corao que a jovem estava profundamente perturbada, precisando de socorro. Sentia-se at aliviada por entender o impulso que a movia. Estava, sem dvida, 
no caminho certo. Se no recebesse ajuda, Emilie iria sucumbir. Ao curto dilogo seguiu-se o silncio. Enquanto orava, crescia em Lucrcia a vontade de ajudar. E 
mais veemente se tomava a prece. Por fim, Emilie se acalmou. Lucrcia, ento, viu pela pequena janela que estava anoitecendo. O tempo passara muito rpido. Ela se 
levantou e comeou a preparar o jantar. Estava quase tudo pronto quando, finalmente, Jairo chegou. A mulher olhou para ele ansiosa:
- E ento? Conseguiu? Emilie est piorando.
- O doutor vem aqui amanh para v-la.
- Graas a Deus. E o remdio?
Jairo sorriu.
- Voc tinha razo. Ele gosta muito de antigidades. Quando bateu os olhos na moeda, no conseguiu desgrudar dela. No s saiu para comprar os remdios, como me 
deu comida tambm. Disse que ela precisa se alimentar bem, para o tratamento dar certo. Prometeu que ir providenciar todo o remdio necessrio. Acho que a moeda 
 mais valiosa do que pensvamos.
- No importa Jairo. O que interessa  que nos foi til.
- A ns, no; a essa desconhecida.
- Vai salvar uma vida, Jairo! E ns estamos ajudando!
- S mais uma coisa.
- O qu?
- O mdico realmente no quer que ningum saiba que est cuidando dela.
- Conseguiu descobrir o porqu?
- Ele afirmou que Emilie  mesmo louca e tentou matar o marido; que foi bem educada e  uma moa de boa famlia, mas enlouqueceu de uma hora para outra. Ela tem 
uma filha chamada Cntia, que est com a famlia do marido. Disse que formavam uma famlia feliz, antes que ela ficasse totalmente louca. 
- Louca como, Jairo?
- Ele no explicou.
- Mais cedo ou mais tarde, ns iremos descobrir. Agora, o importante  que est com os remdios.
Tirando tudo da mo do marido, Lucrcia correu para o quarto e ministrou a dose inicial. A noite foi longa. De hora em nora, Lucrcia dava, alternadamente, os remdios 
que o mdico indicara e os chs de ervas que preparava. Aos primeiros raios do alvorecer, Emilie estava um pouco mais tranqila e a febre comeava a ceder. A partir 
da, apesar de Emilie engolir os remdios com dificuldade, Lucrcia no desistia de dispensar-lhe cuidados cada vez mais atentos. Na pequena casa, simples cabana 
de madeira, o vento penetrava pelas diminutas frestas e o fogo que servia para aquec-los  noite nem sempre tinha fogo. Para protegei a jovem, Lucrcia colocou 
algumas de suas poucas roupas de inverno sobre ela, pois sabia que o frio iria dificultar ainda mais sua recuperao. O mdico retomou na madrugada seguinte; depois 
de demorado exame, continuava ctico em relao s possibilidades de melhora:
- O estado dela  muito grave, no creio que conseguir resistir. Est muito fraca, o organismo no ter condio de combater a pneumonia, ainda mais nesta poca 
do ano. E vocs se cuidem, que essa doena  contagiosa.
- No se preocupe doutor, estamos tomando vrias precaues.
-  bom mesmo que se cuidem - reiterou-o, sem demonstrar maior interesse pela sade do casal.
Lucrcia conhecia muito sobre o poder curativo das ervas. Sua me lhe ensinara algumas receitas que ela aprimorava com elas vinha cuidando de si e do esposo, pois 
j desconfiava que o problema da jovem fosse srio. No esperou pela confirmao do mdico. Antecipou-se, buscando na natureza toda a proteo que conhecia. Doutor 
Francisco terminou seu exame, deu o remdio que trouxera consigo e disse, ao sair:
- Bom,  tudo que posso oferecer. Continuem tentando fazer a febre baixar.
- Vou cuidar dela, doutor, e estou certa de que ir melhorar.
O mdico sorriu ironicamente, sem dizer nada, e partiu. Lucrcia mostrou-se animada:
- Ela vai ficar boa, Jairo, sei que vai.
- Voc est obstinada com essa idia, no est?
-  evidente que essa jovem precisa ser auxiliada. No aprendemos que devemos ajudar aqueles que necessitam? No estamos aprendendo que a caridade e a fraternidade 
so prticas que temos de aplicar no nosso cotidiano? Ento, homem! Voc  o primeiro a defender isso em nossas reunies. E na hora em que a oportunidade aparece, 
fica em dvida? No podemos agir assim, Jairo. Se vemos algum sofrendo, e est ao nosso alcance algo fazer em seu socorro, por que negar?
- Neste caso pode ser perigoso.
- Jairo, ser cristo  de certa forma viver em perigo; e ser esprita, ento, nem se fale!
- Baixe a voz que o mdico ainda pode estar por perto.
- No, ele j est longe - disse Lucrcia, olhando pela porta. Jairo prosseguiu:
- Tenho conversado com algumas pessoas sobre o caso. Ela est muito encrencada.
Puxando uma cadeira para junto da cama de Emilie, a mulher indagou:
-  mesmo? E o que falam sobre ela?
- Foi pega tentando envenenar o marido e a filha, a nica filha.
- Cntia?
- Sim, parece que o nome  esse.
- Mas tm certeza de que ela estava tentando envenen-los?
- Ela havia colocado veneno no vinho e no prato que ia servir ao marido e tambm no refresco que daria  filha.
- E como descobriram?
- Um pouco antes de cearem, chegaram uns parentes, junto com um mdico...
- Com um mdico?
- .
- E como eles sabiam?
- No sei. Parece que estavam desconfiados e a pegaram em flagrante. No havia como negar, eles tinham provas: como o marido no acreditou, levaram a bebida a um 
laboratrio e deram a um animal de pesquisas, que morreu horas depois de ingerir algumas doses. Continha veneno, efetivamente.
- Meu Deus, que coisa! E por que ela faria isso?
- Parece que era uma pessoa estranha. Dizem que era adoentada, e que o melhor seria intern-la para tratamento.
- E ela, concordou?
- No teve escolha. Coube ao marido decidir: ou a internao em clnica para doentes mentais ou a priso comum.
- Pobre Emilie...
- Pobre do marido e da filha, Lucrcia.  o que estou tentando lhe dizer. Essa jovem est doente, mas doente da cabea, e talvez o melhor fosse lev-la de volta 
ao lugar de onde saiu.
Lucrcia meditou por instantes e ento respondeu: 
- Jairo, esperemos que melhore. Quando recobrar a conscincia, estudaremos atentamente o seu comportamento; se acharmos alguma coisa inadequada, ento concordo com 
voc em lev-la de volta. Est bem assim? No lhe parece justo darmos a ela uma chance?
Jairo fitou bem os brilhantes e negros olhos da esposa e perguntou:
- E se ela for realmente louca?
- Est muito fraca para fazer qualquer coisa que nos prejudique. Se agirmos com ateno e cautela, dado seu estado, nada de mal poder fazer a nenhum de ns. E no 
discutiremos mais esse assunto at ela melhorar. O que acha?
Sem poder discordar da esposa, Jairo consentiu, afinal. A cada pequeno progresso, Lucrcia ficava satisfeita e entusiasmada. Dedicava-se agora  jovem Emilie com 
tanto empenho como se fosse sua prpria filha. E aos poucos, gradativamente, desfrutando seu desvelado carinho, a jovem passou a apresentar indcios de melhora. 
Aps dias de intensos cuidados, a febre diminuiu. Para Lucrcia aquilo era o maior sinal de que precisava. J no tinha dvida de que Emilie iria se recuperar. Naquela 
manh, em especial, ao verificar que a febre quase desaparecera, animou-se ainda mais. Os remdios estavam comeando a fazer efeito. Porm, acima dos medicamentos 
estavam o amor e a dedicao de Lucrcia, bem como a orao e a leitura do Novo Testamento, que ela fazia trs vezes ao dia, pedindo a proteo de Deus para aquela 
vida. A f e a determinao daquela mulher estavam sendo fundamentais na recuperao espiritual de Emilie. Enquanto orava com carinho e desvelo, luzes suaves fluam 
de seu corao, envolvendo a mente e o corpo de Emilie, que, enredado por densas e pesadas energias, ia sendo beneficiado por aquelas emanaes sutis. Embora ainda 
aflita e agitada, quando Lucrcia orava a jovem experimentava alvio momentneo, o que a fortalecia mais e mais. A muitos quilmetros dali, Cntia custava a dormir, 
com imensa saudade da me. No lhe haviam dito que Emilie fugira da clnica e, embora contasse apenas doze anos, estava atenta a tudo o que se passava. Mesmo sem 
saber da fuga, sentia-se estranhamente preocupada. Rolou na cama e antes de o sol nascer j estava de p. Foi com a tia que comentou,  mesa do caf, a dificuldade 
de dormir. Filomena desconversou, autoritria:
- Cntia, sua me no est bem,  natural que voc se preocupe.
- Mas estou muito apreensiva. Gostaria de v-la.
- Nem pensar. Sabe que no pode! No admitem crianas naquele lugar!
- No sou mais criana, tia. E estou com saudade dela!
- Sabe que seu pai no vai deixar. Sua me est doente, Cntia. Quando ela melhorar, quem sabe?
- Minha me no est doente!
-  claro que est, ora essa! Quem  voc, fedelha, mal sada das fraldas, para saber de alguma coisa? Seu pai jamais concordaria com coloc-la no hosp... naquele 
lugar, se ela no precisasse de ajuda.
- Tenho certeza de que ela no est doente, tia Filomena. Vocs vo ver... - Cntia afastou-se da mesa chorando e foi para o grande ptio que contornava a manso.
Quando saa, Fernando entrou e sentou-se, interrogando Filomena:
- O que se passa?
- Deixe-a. Fiquemos de olho. Precisamos saber se a filha no puxou  me.
- Que idia! Ela  uma menina saudvel!
- Todos pensavam que Emilie tambm fosse no se lembra? E olhe agora. Que vergonha! Uma louca, uma bruxa em nossa famlia! Precisamos manter Cntia longe dela. Foi 
o que o bispo nos pediu. Mais que isso: disse que  fundamental para toda a famlia. No devemos sequer visit-la. Ele foi muito claro. Se deixarmos que Cntia a 
veja, sofreremos as conseqncias. Talvez tenhamos de internar as duas!
Fernando aceitou o ch que a prima lhe oferecia e a repreendeu:
- Parece esquecer que Ricardo  seu irmo e est sofrendo.
- E da? Ele vai encontrar outra mulher. E espero que dessa vez escolha a pessoa certa, e no uma jovenzinha francesa com idias extravagantes. Uma moa daqui mesmo 
de Barcelona, de famlia tradicional e com profundas convices catlicas, ser muito mais adequada para Ricardo. E melhor que tudo tenha acontecido agora do que 
mais tarde; assim ele tem tempo para reconstruir a prpria vida. E foi providencial que tivessem uma nica filha. Quando se casar outra vez, meu irmo poder encher 
a casa dos filhos desse novo casamento e pronto! No se lembrar mais de Emilie, nem quando olhar a primeira filha que, alis, a cada dia se parece mais com a me!
- No acho as coisas to simples. Ele tenta disfarar, especialmente na presena da filha, mas est cada vez mais calado e amargurado. 
- Melhor assim. Ricardo tem mesmo de refletir para dar mo mais acertado  vida. Deus nos livre, Fernando, de ele criar mais problemas para nossa famlia! Meus pais 
morreriam de desgosto.
Fernando sorveu j em p o ltimo gole de seu ch e despediu-se, apressado:
- Preciso ir, tenho muito que fazer. Volto mais tarde para conversarmos com calma. 
Beijou Filomena na testa e, sem esperar por qualquer comentrio, saiu depressa. Aps longa caminhada, Cntia se sentou sob frondoso arvoredo. Eram oliveiras antigas 
que se amontoavam nos limites do jardim da manso. Os dias ainda estavam menos claros naquele final de inverno e, por causa dos rigores da estao, Cntia no podia 
se refazer ao sol como lhe dava tanto prazer. Aquela seria a primeira primavera sem a presena da me. A esse pensamento, a menina baixou a cabea e chorou dolorosamente. 
Na manso luxuosa e confortvel, a agitao prosseguia. Filomena comeava a preparar a festa tradicional que a famlia promovia h muito tempo. Nela se congregavam 
e confraternizavam a poderosa famlia de dom Felipe e dona Isabel de Valena e os mais ilustres e influentes membros e autoridades da Igreja Catlica que vinham 
de toda a Espanha. Os fortes elos que uniam aquela famlia e a Igreja se fortaleciam atravs de vrias geraes e o encontro entre elas era sempre motivo de orgulho 
e celebrao. Mesmo parentes que haviam fixado residncia em pases distantes faziam questo absoluta de comparecer  festa, que se realizava anualmente. Aquela 
era uma oportunidade em que a fora poltica dos Valena se legitimava Pessoas de prestgio na sociedade eram convidadas, e a Igreja aproveitava o momento para distribuir 
bnos e angariar a colaborao de todos. Com fora poltica e o apoio da Igreja, a famlia se mantinha poderosa. Fernando, primo de Filomena e de Ricardo havia 
ingressado no ministrio clerical e vinha rapidamente se destacando. O tio depositava nele grande expectativa. Dom Felipe desejara muito que algum da prpria famlia 
se tomasse um servidor da Igreja. Ricardo era afeito s questes religiosas, gostava demais das missas, s quais comparecia invariavelmente. Fora uma surpresa quando 
ele apresentara! Emilie  famlia, e uma profunda decepo. Ningum esperava que se envolvesse com uma jovem to diferente deles. Filomena ainda se lembrava do desconforto 
de todos! Quando Ricardo a parecera com Emilie, por ocasio da festa anual. E para agravar ela era francesa: na famlia era consenso que as moas francesas eram 
muito progressistas. E isso no agradava de forma alguma aos pais de Ricardo, orgulhosos de sua estirpe aristocrtica e conservadora. Quando Ricardo anunciara o 
casamento, estavam quase acostumados com a idia de que ele realmente no se tomaria padre. A despeito disso, a escolha daquela moa continuava sendo motivo de viva 
contrariedade. Apesar de Emilie ter boa educao e se esforar por ser amvel com todos, no confiavam nela. Tudo acontecera muito depressa e no houvera meio de 
impedir o casamento. No entanto, todos observavam avidamente as atitudes da moa, sua conduta,  procura de uma palavra, um gesto, uma frase que pudesse compromet-la 
perante os rigorosos padres da famlia do marido. Aparentavam tolerncia, mas tanto Filomena como Isabel, ao menor deslize, prodigalizavam-lhe reprimendas e censuras. 
Filomena relembrava as inmeras vezes em que ela e a me haviam conversado sobre a cunhada, quando Isabel, descendo as escadas, a encontrou imersa em pensamentos:
- Bom dia, Filomena. Ermelinda pode servir-me o desjejum!
- Mame, at que enfim se levantou! Estava  sua espera. Temos muito que decidir para a festa.
- Conversava exatamente sobre isso com seu pai. Deveremos tomar alguns cuidados em especial, com referncia  situao daquela... voc sabe.
- Nem precisa dizer. Algum sinal dela?
- Ainda no. E Cntia, onde est?
- Caminhando l fora.
- Nesse tempo?
- Sabe como  essa menina, mame.
- Temos de ficar atentas Filomena. Ela me parece esquisita, como a me.
-  uma menina...
- Mas  filha dela e pode ter algum trao, alguma semelhana. Filomena fez o sinal da cruz e afirmou, dissimulando o relativo prazer que sentia ao ouvir os receios 
da me:
- Deus me livre, me. Ricardo no poderia aceitar isso. Voc sabe que ele adora a filha.
- Ele sabe que est sendo punido por Deus. Jamais deveria ter desistido de ser padre. Agora, minha filha, est sofrendo o castigo do Altssimo, porque se afastou 
do caminho.
- Nossa! Tambm no  assim. Ricardo  um homem de bem. Talvez no tivesse mesmo vocao, quem sabe...
- Quem sabe? Justamente. Nunca saberemos. Sem pensar duas vezes, ele escolheu outro caminho. Agora aguente. Mas vamos esquecer um pouco os pequenos dissabores. Quanto 
ao caso dessa moa, eu j sei que medidas tomar.
- De toda forma, acho que seria bom intensificar a busca.
- Sem dvida. J pedi a seu pai que ponha os empregados em alerta. Ela pode aparecer em qualquer lugar, a qualquer momento.
- Cntia falou novamente nela esta manh.
- No se preocupe Filomena. Se a menina nos der trabalho, vou convencer Ricardo a envi-la para um internato. H timas opes em Madri. Vai para l e s retoma 
quando moa ou... melhor ainda...nem retoma. Quem sabe se tomaria uma boa freira... No seria interessante? Ricardo se redime entregando a filha para o servio  
Igreja, o que acha?
-  uma tima idia, me. Acho que Cntia se adaptaria bem.  uma menina sensvel.
- Sensvel demais, talvez. Bem, isso no importa. Se convencer Ricardo, ela no ter alternativa. Quem manda, afinal?
Filomena sorriu contrafeita. Ainda bem que a me no a obrigara ao servio religioso. Embora gostasse de ir  igreja e apreciasse a religio em que nascera jamais 
desejara ser freira. Sempre pensara em se casar, ter a prpria famlia. Como a me era autoritria e temida, Filomena nunca se opunha a ela; ao contrrio, buscava 
de todas as formas corresponder-lhe aos menores desejos. Conhecendo bem suas reaes quando contrariada, no queria de maneira alguma desafi-la. Isabel se levantou, 
determinada.
- Vou falar com Felipe hoje mesmo sobre esse assunto. Parece-me um excelente modo de proteger a menina de sua possvel herana. E vou encontrar um meio de convencer 
Ricardo.
- E se ele no quiser ficar longe da filha?
- Acharemos um jeito de dobr-lo, no  mesmo, Filomena? Ns haveremos de convenc-lo, como j o fizemos antes.
- Sem dvida...
Isabel saiu da sala pouco antes de Cntia voltar do jardim.
- Est frio l fora Cntia?
- Est tia Filomena.
- E em que pensava?
- Em minha me.
- Ela est num bom lugar, Cntia. Vai ser tratada e quando melhorar retomar ao nosso convvio. J disse isso muitas vezes.
-  que eu queria tanto v-la... Papai no permite... Ningum me deixa ver minha me...
- Cntia, voc sabe que deve obedecer, no sabe? A menina balanou a cabea afirmativamente.
- Sua me vai ficar bem. Agora esquea um pouco dela e pense em seu pai, que tambm precisa de voc!
- Tem razo, tia. Onde ele est?
- No chegou ainda, mas por certo vai ficar triste ao v-la assim, chorosa. Vamos mudar essa cara! V se lavar e pare de chorar. Logo ele estar aqui.
Um pouco mais animada, a menina subiu as escadas para seu quarto, obedecendo  tia. Filomena, observando-a, suspirou fundo e disse:
- Pobrezinha...
Ricardo finalmente chegou, trazendo correspondncias e carregado de pacotes.
- J h cartas de confirmao, voc acredita?
- Que timo Ricardo. Contudo, ainda vejo uma tristeza em seu olhar...
- O que voc queria? Que estivesse feliz?
- Ao menos conformado. Melhor que seja assim...
- Alguma notcia de Em...
Filomena antecipou-se  meno do nome da cunhada:
- Nenhuma. Continuam procurando, mas at agora nada, ao menos de que tenhamos notcia.
Ricardo suspirou tentando dissimular a aflio.
- Ora, Ricardo, pense em sua filha. Ela precisa de voc.
- Eu sei. Como ela est?
- Abatida tambm. Vejo em voc o mesmo olhar magoado da menina. Acho que essa mulher enfeitiou vocs...
- Ora, Filomena, cale-se! No sabe o que est dizendo. Emilie est doente! Por causa disso Cntia e eu fomos privados de sua companhia. Nossa famlia est desfeita 
e voc ainda no compreende minha tristeza?
- Mas voc concordou que era melhor para ela.
- E concordo. Quem est doente precisa se tratar. E ela est gravemente doente. Jamais faria o que fez, se no estivesse No creio que tentasse aquilo em s conscincia.
- Ser que voc a conhecia direito? Talvez tenha sido sempre assim.
- No acredito. Vivemos por um bom tempo com alegria e felicidade. Como poderia ser doente sem que eu percebesse algum sinal?
- Vai ver ento que  mesmo de famlia, Ricardo. Aquela av materna, voc a conheceu?
- No.
- Vai ver o problema aparece com o tempo. Ricardo puxou pesada cadeira, forrada de seda fina e elegante, e se sentou desolado.
- Jamais imaginaria que ela pudesse fazer aquilo... Se vocs no me socorressem, teria morrido. Como poderia supor que ela fosse capaz de colocar veneno em minha 
comida e na bebida de Cntia? Jamais! Mesmo quando vocs pediram que no comesse, gritando comigo, no pude acreditar. S depois que o mdico constatou a presena 
do veneno foi que admiti o que ela fez. E a reao que ela teve, esbravejando e berrando como louca... Estava doente... ficou doente... sei l. Filomena se levantou 
e abraou o irmo.
- Vamos, Ricardo, anime-se! Ainda bem que voc e Cntia esto vivos. E se no consegussemos chegar a tempo? Vocs poderiam estar mortos. Felizmente tudo acabou 
bem!
- Nem tudo, Filomena, nem tudo. Perdi minha esposa.
- Antes ela do que a vida. Mulher voc arranja outra; h muitas moas que o apreciam e adorariam t-lo como esposo. J a vida...
- Ainda estou muito machucado. No consigo pensar em ningum.
- Isso vai passar, Ricardo, no se preocupe. O importante  que ambos queiram esquecer o passado, aceitando o que aconteceu. Melhor que ela fique internada, sendo 
tratada.
- Como, se fugiu?
- Eles a encontraro, no tenha dvida. Sempre os encontram. Todos os loucos teimam em negar a loucura e gostam de fugir de sanatrios e casas de recuperao. Mas 
eles j esto acostumados e os encontram onde quer que se escondam... As fotografias dela esto espalhadas por toda parte. No conseguir ir muito longe. Ricardo 
suspirou pensativo. Teve a ateno atrada pela filha, que a sorrir descia a escada correndo, alegre por v-lo:
- Papito! Que bom que chegou! Estava com saudade.
- Eu tambm, minha menina! Vim o mais depressa que pude!
- No gosto de ficar longe de voc, pai!
- Nem eu, minha filha, mas tinha assuntos urgentes para resolver.
- E tinha de ser voc? O vov no podia ter ido?
- Ele tinha outras coisas a fazer. Mas agora no importa! Estou aqui, no estou?
Cntia se agarrou ao pescoo do pai, que a ergueu e girou no ar. Filomena contemplava a cena, calada, enciumada do profundo amor que os unia. Filomena se encontrava 
na biblioteca, distrada com o planejamento da festa, quando Fernando entrou pisando firme. Fechou a porta com fora atrs de si:
- Por que no fui informado da fuga daquela doida?
- Calma, Fernando, est tudo certo.
- Como, Filomena? Como tudo certo? Se essa mulher encontra algum que acredite nela, nosso plano pode ficar comprometido!
- Acalme-se, vamos. Sente-se. Quer beber algo? Fernando sentou-se, arrumando cuidadosamente a batina, para no amassar.
Filomena finalizou o que preparava, fechou o caderno onde anotava as providncias que faltavam e calmamente dirigiu-se at o primo, servindo-lhe uma xcara de ch.
- Tome, relaxe.
- Vocs deveriam ter me avisado antes. Eu saberia lidar com a questo.
- No se preocupe, Fernando; papai j adotou todas as medidas cabveis. Temos toda a polcia atrs dela. Vamos ach-la, no se preocupe.
- Mas j faz dias que ela fugiu e at agora nada! Precisamos localiz-la sem demora. Estou preocupado, sim, Filomena.
- J disse que no h motivo para isso.
- Ela deve estar escondida em algum lugar. Deveramos ser mais rpidos. Solta ela representa perigo...
- Olhe, Fernando, j pusemos a polcia atrs dela. Todos os padres, de todos os cantos deste pas, sabem a respeito da fuga, tratamos de comunicar a todas as dioceses. 
Todos esto informados.
- Entretanto, nem todos conhecem os detalhes...
- No importa, sabem que devem obedecer  Santa Madre Igreja. Se a moa aparecer em qualquer lugar, seremos notificados. Alm disso, Fernando, ningum lhe dar crdito. 
Ela no deve estar em situao de ter alguma ateno. Afinal, conseguimos dar um destaque abrangente ao ocorrido. Todos sabem. Todos os jornais noticiaram, inclusive 
fora do pas. Em Paris, por exemplo, sei que o caso foi amplamente divulgado. Quem seria tolo o suficiente para acobertar uma assassina desequilibrada, uma bruxa? 
Diga-me! Por aqui, todos ainda falam do caso. Ela no ter chance, pode sossegar. Quanto a isso, estou totalmente tranqila. Agora, vamos a assuntos mais produtivos. 
Como esto os comentrios sobre a festa deste ano?
- Filomena, voc no tem jeito. S pensa nessa festa!
- E h algo melhor para pensar?  o acontecimento do ano. Todos estaro aqui. Alm do mais, papai fica satisfeito comigo por organizar a festa com perfeio em todos 
os detalhes.  bom para que ele perceba o quanto sou importante e necessria.
- Voc e esse cime do seu irmo...
- No  cime, no, Fernando,  apenas um desejo incontrolvel de...
- De...
- De ser mais til - completou ela, retomando ao caderno.
- Esto animados para o evento.
- E pensa que todos viro?
- No sei, estou fazendo o que sempre fao: convidando com muita antecedncia e insistindo para que compaream. Mas no sei se todos viro. Possivelmente este ano 
muitos faltem.
Filomena interrompeu suas anotaes e fitou o primo:
- Por qu? Todos saem daqui to satisfeitos!
- Muitos esto preocupados com esse movimento que parece alastrar-se como uma praga.
- Ora, no esto sendo tomadas medidas enrgicas? No est sendo feito tudo para impedir que essa aberrao ganhe mais adeptos?
- E apesar disso, parece uma verdadeira praga: continua se espalhando e conquistando novos adeptos. Especialmente as pessoas cultas esto comeando a defender essas 
idias absurdas.
- E acha que por causa disso alguns no viro? Ainda falta tanto tempo.
- Alguns bispos esto extremamente apreensivos com a propagao das novas idias, voc os conhece bem. No vo admitir que aumente o nmero de adeptos aqui na Espanha.
- E na Frana, como anda esse movimento?
- Crescendo, tambm.
- E as autoridades da Igreja francesa, no fazem nada? 
- L, como aqui, a Igreja vem se dedicando a conter as idias espritas; contudo, parece que l as novidades ganham fora mais depressa.
- Do mesmo modo que crescem havero de desaparecer, por certo. So idias absurdas que no resistiro por muito tempo!
- No sei Filomena. Esse movimento cresce muito rpido. Preocupo-me com nosso povo, que  crente, porm aprecia o sobrenatural, o fantstico.
- Provaremos que so todos do diabo, como diz Sua Eminncia o bispo dom Antnio. Vamos ajudar a Igreja a desmoralizar essa gente que gosta de mentiras, de fanatismos... 
Faremos isso por bem... ou por mal!
Fernando ficou quieto por alguns instantes, perdido em seus pensamentos. Filomena aproximou-se e, colocando as mos sobre seus ombros, bateu neles com gentileza:
- Vamos, Fernando, no se atormente tanto. Afinal, a Igreja  slida e h de vencer essas aberraes sem fundamento...
Fernando ergueu a cabea e fitou a prima. Seus olhos tinham um estranho brilho quando disse:
- Uma forma de ajudar a Igreja  achar aquela maluca. J disse e repito: temos de fazer isso!
Filomena afastou-se, parecendo entediada com a insistncia do rapaz:
- Est bem, Fernando vou pensar se h algo mais que possa ser feito. Papai est cuidando de todas as providncias. Falou com todos que conhece para que tragam notcias 
dela. No vejo por que nos inquietarmos mais com esse caso; ainda assim, se lhe agrada, vou pensar em alguma outra coisa que nos ajude a localiz-la.
Filomena encarou o primo, que continuava pensativo como a buscar alternativas, levantou-se de um salto e disse entusiasmada, abraando-se ao pescoo dele e beijando-lhe 
a face:
- Pronto! J tenho uma idia brilhante, Fernando!
Ele afastou-a, segurando-lhe os ombros com as duas mos e pediu:
- Conte logo o que pensou. Sua ltima idia foi bastante audaciosa!
- No foi s minha; foi principalmente de minha me.  ela que tem idias espetaculares. Mas acho que esta poder ajudar.
- Ento fale logo.
Filomena soltou-se e andou vagarosamente em volta do primo, depois disse:
- E o que ganho se contribuir ainda mais? Fernando olhou-a fixamente ao afirmar:
- A Igreja lhe ficar ainda mais agradecida.
- Somente a Igreja?
Fernando segurou delicadamente as mos da prima. Levou uma delas  boca, beijando-a com suavidade, enquanto seus olhos faiscavam no anseio de abra-la e beij-la. 
Porm, ele apenas a fitou e respondeu:
- Uma vez mais lhe serei profundamente agradecido. Comunicarei seus esforos a titio e a dom Antnio.
Filomena puxou a mo com rispidez e perguntou, irritada:
- S isso?
- As coisas vo se somando, minha prima, vo se somando... Mas no disse qual  sua idia. Quero ouvi-la antes que tome qualquer atitude.
- Vou sugerir a papai que d uma recompensa por informaes sobre o paradeiro de Emilie. Quanto mais exata a informao, maior o valor da recompensa. Assim, creio 
que muito em breve a levaremos de volta ao hospcio.
- Brilhante, priminha. Brilhante! A idia  fantstica. Cr que tio Felipe ver algum problema?
- No, absolutamente. Pode ser at que j tenha ele prprio tido essa idia. Como disse, est empenhado em localiz-la. Caso no tenha pensado nisso, acho que gostar 
da sugesto.
Fernando aproximou-se da prima, que agora, junto  grande janela da biblioteca, observava os extensos jardins da manso. Abraou-a pelas costas, dizendo:
- Nunca irei esquecer. Voc me ajudou muito hoje, obrigado. Sem sequer dar a Filomena tempo de se virar, Fernando j abria a porta da biblioteca.
- Espere, aonde vai?
- Depois da sua idia brilhante para resolvermos o problema, voltarei s minhas tarefas. Tenho muito a fazer e vou dizer ao bispo que achamos uma soluo. Eles esto 
preocupados com outras coisas e quero estar perto para auxiliar.
Antes que Filomena pudesse det-lo, Fernando havia sado pela porta principal da manso. Enquanto ele se despedia, Cntia apareceu descendo as escadas e com seu 
entusiasmo infantil, gritou:
- Tio Fernando!
Ele abraou com carinho a filha do primo.
- Como vai a minha mocinha?
- Estou bem. J comearam os preparativos para a festa?
-  claro que sim!
Filomena alcanou os dois e perguntou, aborrecida:
- Por que est interessada na festa, menina?
- Ora,  uma festa importante, tia.
- E quem disse que voc ir participar dela? No  festa para crianas.
- Meu pai disse que posso...
- Terei uma conversinha com seu pai. No acho conveniente... 
Fernando interrompeu-a bruscamente:
- No  hora de falarmos nisso. Ainda faltam alguns meses para a festa. At l, veremos; no , Filomena?
Sem poder resistir ao olhar firme que o primo lhe dirigia, concordou:
-  claro, temos tempo. Veremos.
Ele se despediu e saiu apressado. Foi diretamente para a parquia onde trabalhava. Sua vocao religiosa fora incentivada desde cedo. Era uma tradio antiga da 
famlia que a cada gerao um jovem fosse destinado aos servios da Igreja. Assim, gerao aps gerao, um de seus jovens era preparado para isso. Fernando gostava 
de ir  missa e era o primeiro a estar pronto, na porta, esperando a famlia. Nunca demonstrava resistncia ou dificuldade para captar os ensinamentos que recebia. 
Tinha interesse genuno pelos assuntos da religio. Ao chegar  adolescncia, sua indicao fora natural. Todos j esperavam que se tomasse um servidor da Igreja. 
Mas, ao contrrio do que pensavam, quando recebera a notcia do pai de Filomena ele no ficara contente. Embora o atrassem sobremaneira os temas religiosos, no 
desejava ser padre. Em momento algum isso lhe passara pela mente. Respeitava e admirava o trabalho dos sacerdotes, apreciava-lhes a companhia e as longas conversas 
de que participava na casa do tio; j ser padre era outra coisa. Assim, a indicao o deixara desesperado. No queria de modo algum, tinha outros planos para sua 
vida: desejava se casar, ter filhos - ele adorava crianas -, pretendia formar seu prprio lar; alm do mais, sentia forte e secreta paixo por Filomena, que desde 
adolescente lhe retribua o afeto e as intenes. Apesar de tudo, ele no pudera recusar. A presso da famlia fora intensa demais e acabara convencido de que possua 
a vocao sacerdotal. Ingressara no seminrio e acabara envolvido por completo. Em decorrncia da inclinao que desde cedo revelara, fora facilmente cativado pelos 
estudos e absorvido pelas questes da Igreja; e finalmente se entregara quele ministrio, com especial interesse pelas crianas desamparadas. Fernando era sincero, 
e abraara a f e o servio a Deus buscando dar o melhor de si. Ele regressava para a parquia pensativo. Estava se preparando para reforar as fileiras de padres 
que, enviados ao continente americano, expandiam a fora da Igreja no Novo Mundo. Enquanto esperava o momento de partir, Fernando se dedicava zeloso as suas funes, 
auxiliando o proco local e o bispo de Barcelona. No caminho, no podia deixar de se lembrar de Cntia, pulando em seus ombros. Ainda sentia o abrao apertado e 
carinhoso que ela lhe dera. Aquilo o incomodava. Sabia que a menina sofria com a separao da me. A despeito de ter decidi do colaborar com a Igreja em tudo, e 
de saber que o que fizera era um bem para muitos, a dor que causara  menina lhe oprimia o corao. Com a me no se preocupava. Acreditava que ela constitua mesmo 
um perigo para o prestgio da famlia at para a prpria filha; ento no o comovia saber que fora um dos responsveis pelo que lhe acontecera. Nem mesmo o sofrimento 
do primo o fazia sentir culpa. Ver Cntia entristecida era o que mais o tocava. Fernando prosseguia meditando. Ricardo havia contribudo para aquela situao. Se 
desse ouvidos  famlia e escolhesse acertadamente procurando uma moa com a mesma formao rigorosa, aquilo no teria acontecido. Ele no sentia pena do primo. 
Sua nica preocupao era Cntia. Sabia que a tia e a prima no eram exatamente um exemplo de bondade e poderiam fazer a menina sofrer. Ao entrar na parquia, permanecia 
com o pensamento em Cntia. Vendo-o chegar, o padre interrompeu sua reflexo e perguntou:
- E ento alguma notcia?
- At o momento, no.
- Nada? Como  possvel?
- Tomaremos outras providncias. Essa moa h de aparecer,  s uma questo de tempo. Filomena me garantiu que o tio est empenhado em localiz-la e que, de toda 
forma, ela ir sugerir que se pague uma recompensa a quem vier com informaes.
-  uma excelente idia.
- Tambm me pareceu boa. Fiquei mais tranqilo.
- Ainda me parece preocupado. Por qu?
- Cntia.
- A menina?
- . Fico pensando no quanto deve estar sofrendo sem a me. Elas eram muito apegadas.
- Por isso mesmo voc deveria estar mais aliviado. A me seria, indiscutivelmente, m influncia para a menina. No percebe Fernando? J conversamos bastante a respeito, 
quando decidimos agir.
- Eu sei bem, e fico repetindo isso para mim mesmo toda vez que me pego perturbado por causa de Cntia. Estou convencido de que a me acabaria por lhe fazer mal. 
No entanto,  inevitvel. Vejo naqueles olhinhos a tristeza e sei que sente muita saudade. Por diversas vezes j a vi chorando escondida de todos. Alm disso, Filomena 
e minha tia tm afazeres demais para dar-lhe ateno. Ela fica sozinha, sem ningum com quem conversar. E Ricardo, embora aceite o que houve - no teve alternativa 
-, est desnorteado. Precisa de tempo para se acostumar com a nova situao. Procura estar com a filha, mas sua dor tambm  grande e ele se isola, viajando com 
freqncia.
- Por que ento voc no se aproxima mais dela?
- Como?
- Leve-a para passear, conviva mais com a menina. Se est to desejoso de v-la receber carinho e ateno, por que no lhe dedica algum tempo extra? Alm do mais, 
Fernando, no ser sacrifcio. Sei que gosta muito de crianas.
- Acontece que meu tempo  muito restrito, quase nada restando para lazer e diverso.
O padre refletiu um pouco e disse:
- E por que no a leva quando for ao orfanato? Ela at poderia ajudar. No disse que  uma menina meiga, doce? Ento, far bem s outras crianas. E voc poder 
estar mais com ela.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Fernando. A idia lhe agradava.
- Acha que no haver risco em lev-la comigo? Ela  muito jovem, menina ainda; ser que no se impressionar com os problemas? Digo, crianas doentes, sem pai, 
sem me, abandonadas... E tantas outras histrias...
Fernando olhou significativamente para o padre, que lhe retrucou sem hesitar:
- Ora, Fernando, das intimidades dos problemas ela no precisa participar. Dos problemas em geral  at bom que participe, assim vai conhecendo a realidade da vida 
e aprende, desde cedo, a valorizar o que tem.
- Ser que Ricardo concordar?
- E por que no? Voc no acabou de dizer que ele passa pouco tempo com a menina?
- , mas ela fica em casa com a av e a tia.
O proco bateu levemente em seu ombro e disse:
- Se houver resistncia, conversarei com ele. Encontrarei um modo de convenc-lo.
Fernando apenas o fitou e se levantou, dirigindo-se ao corredor que levava aos fundos da parquia. Sumiu corredor adentro, deixando o padre com seus fiis; era hora 
de confisses e a primeira senhora chegava. Fernando continuou matutando na sugesto de levar Cntia consigo para o trabalho, no orfanato que ele montara com os 
recursos da herana deixada pelo pai. Com o que recebera, conseguira comprar uma casa confortvel onde recebia crianas abandonadas pelos pais e outras que vinham 
de relaes ilcitas, rejeitadas pela famlia ou pela sociedade. Assim, muitas jovens davam  luz naquele lugar, em um pequeno cmodo que ele construra exclusivamente 
para isso. Era afastado da casa, de modo a que as crianas no percebessem o momento do parto. Ali, naquela pequena sala, inmeras mulheres de famlias influentes 
traziam seus filhos ao mundo, e por fora das circunstncias ou de imposies sociais os deixavam no orfanato. A idia de estar mais prximo da menina o alegrava. 
Daquela noite, refletiu ainda uma vez sobre a soluo aconselhada e, depois de decidido a adot-la, voltou a concentrar a ateno no novo movimento que se expandia 
da Frana e comeava penetrar na Espanha. Leu no jornal sobre os ltimos acontecimentos e em determinado momento se levantou, indignado. Pegou o jornal e foi at 
o quarto do proco. Bateu na porta de leve:
- Est acordado, padre?
- Sim, estou acabando de preparar o sermo de amanh - ele respondeu ao mesmo tempo em que abria a porta.
- Leu esta notcia?
O padre levou alguns instantes lendo o jornal, e ento reagiu furioso:
- Isso  um absurdo! Um verdadeiro absurdo. Temos de fazer algo, tomar providncias! Esses hereges esto ficando atrevidos!
- O que vamos fazer?
- Primeiro falar com o bispo. Tenho uma idia, mas preciso conversar com ele. Sei que conhece bem o dono do jornal. Tem influncia. Vamos ver.
- Precisamos ser cautelosos, padre. Nestes novos tempos, as pessoas esto...
- As pessoas no esto nada! O povo continua crente e fiel. So alguns hereges que vm trazendo essas idias, essas crendices perigosas, divulgando-as como constataes 
cientficas!  um absurdo! Como podem chamar isso de cincia?
- Nem posso imaginar.
Aps pensar um pouco, o padre falou em tom quase cochichado:
- Como diz dom Antnio, isso  mais uma investida do demnio contra nossa f!
E fitando Fernando, aduziu:
- Pode deixar a notcia comigo? Quero mostr-la ao bispo.
- Claro padre.
Continuaram ponderando os perigos que o movimento esprita, que se espalhava, representaria para eles. J era tarde quando Fernando voltou para o quarto. Em Barcelona, 
situada a noroeste da Espanha, as opinies eram contraditrias. Havia os que aceitavam os conceitos espritas e os apoiavam acaloradamente. Por causa da proximidade 
da fronteira com o sul da Frana, era fcil receber notcias do movimento, que ento se propagava por todo o pas. Muitos tentavam compreender os acontecimentos 
que envolviam as pesquisas espritas, atingidos por inesperado interesse. Os que mais prontamente, aceitavam a revelao das verdades espirituais sentiam como se 
as esperassem h muito tempo. No entanto, o nmero de inimigos era igualmente enorme. E as discusses cresciam fervorosas, em tomo do assunto. Miguel, um dos mais 
ativos e bem-sucedidos negociantes de Barcelona, era estudioso dos postulados espritas e defensor do movimento. Para ele, o s fatos espritas eram muito mais do 
que uma curiosidade ou mesmo uma nova filosofia; reconhecera neles verdades inegveis que respondiam aos mais profundos questionamentos de sua alma. Vivia em Barcelona, 
mas viajava a Bilbao (onde possua pequena propriedade) com freqncia, quando cuidava dos negcios ligados  pesca e revia muitos amigos. Naquele dia, Jairo l 
estava a fim de tratar, com negociantes da regio, das condies para venda de seu pescado. Bilbao, j naquela poca, era um dos mais importantes portos da Espanha, 
por onde se escoava o farto e abundante produto da pesca nas guas do Atlntico. Dessa vez, encontrou tambm Miguel:
- Pois , Miguel, estou s voltas com esse problema.
- Se Lucrcia tem tanta certeza, deve ter razo, Jairo.
- Eu sei, mas temo por ns dois. Voc sabe que precisamos ter maiores cuidados l na vila. As pessoas no so instrudas como as que residem nas grandes cidades. 
J fomos agredidos uma vez. Chamaram Lucrcia de bruxa e atiraram pedras em nossa casa. Tivemos de ficar alguns dias fora e samos escondidos durante a noite. Recorda-se 
disso?
- Sim, e como esqueceria? Vocs tiveram de se esconder at que as coisas se acalmassem. Lembro que enviei um de meus colaboradores de confiana para tomar conta 
das suas coisas. Foram dias difceis.
- Ento! O povo de l  muito supersticioso e no consegue enxergar a realidade.
- Pacincia, meu irmo. O tempo vai mostrar a verdade a todos. O progresso no pode ser freado. Ele  como uma grande onda que se forma ainda em mar alto, fazendo 
sentir seus reflexos aqui na praia. Embora a mudana e a renovao assustem o homem, ele acaba percebendo que  impossvel conter a verdade.
- Por acreditar nisso, buscamos apaziguar aos poucos os nimos de nossos agressores, demonstrando atravs de nossas atitudes que s queremos o bem de todos. Foi 
e ainda  difcil.
- Houve mais ataques como aquele?
- No, graas a Deus; ataques diretos, no. Entretanto, temos de ser cautelosos o tempo todo: cuidar do que falamos, de como agimos. E Lucrcia restringiu sua ajuda 
com as ervas ao nosso pequeno grupo de estudos. Agora, oramos reservadamente, em nosso grupo ou em casa, sempre que algum da comunidade necessita de ajuda. Precisamos 
estar atentos. Sentimos como se houvesse sempre gente  espreita, esperando cometermos algo de errado para nos acusar.
- E h muitos  espreita, meu irmo, muitos... Alm de vizinhos, h as testemunhas invisveis; e essas, sim, fazem maior diferena. No se esquea nunca disso, Jairo.
- Entende por que me preocupo com a situao? O que ser de ns se algum descobrir que acobertamos uma assassina?
- Pelo pouco que sei, ela no matou ningum.
-  verdade; mas e se no matou s porque no houve tempo hbil? At onde sei, foi impedida de cometer o crime.
Miguel, homem ponderado, que havia apresentado a nova doutrina a Jairo e Lucrcia, pensou por alguns instantes e, olhando nos olhos do amigo, disse:
- E se essa jovem tiver sido vtima de injria, como voc e Lucrcia? E se ela for inocente?
- Como, Miguel? Quem faria uma coisa dessas? Inventar uma mentira, para qu?
- No sei, Jairo. Estou apenas raciocinando sobre o que voc mesmo acabou de dizer. E se essa jovem for inocente? Se estiver sendo realmente cometida alguma injustia 
contra ela, como foi cometida contra vocs? Como se sentiria?
- Ia querer ajud-la! Isso no se faz!
- Ento acho que, apesar do perigo a que indiscutivelmente voc e Lucrcia esto expostos,  preciso tentar compreender a situao. Tenho visto muitos amigos atacados 
e injustiados como voc e Lucrcia, apenas por expressarem simpatia pelo movimento esprita.
- Quer dizer que continua acontecendo tambm em Barcelona?
- Continua e se acentua. Poderosos opositores tm tramado s escondidas, tentando criar todo tipo de empecilho ao crescimento e  disseminao desse abenoado movimento. 
Muitos tm sido discriminados e perseguidos, em pleno sculo das luzes e das idias. Portanto, tenha um pouco de pacincia. O objetivo de vocs  nobre e isso contar 
a favor dos irmos.
Jairo no respondeu. Estava preocupado, mas a possibilidade de a jovem ser vtima de algum tipo de perseguio sensibilizou-o mais do que todas as palavras da esposa. 
Permaneceu calado por instantes e depois mudou de assunto, falando sobre o principal motivo que o levara  provncia. Os dois amigos passaram a tarde em animada 
conversa com outros negociantes sobre preos e condies para a pesca, canais de escoamento e tcnicas de conservao do pescado. Ao entardecer, depois de se despedirem 
dos demais, Jairo comentou:
- Miguel, voc acha mesmo que  possvel uma cilada preparada para Emilie?
- E por que no? Sabe quo poderosa  a famlia  qual ela pertence?
- Mais ou menos.
- Os pais do marido so donos de metade da Espanha.
- So to poderosos assim?
- Muito. Creio que mais do que possamos imaginar. Tm muita influncia em todos os setores de nossa economia. Trata-se de famlia tradicional, que enriquece mais 
e mais  medida que o tempo passa. Alm disso, eles tm estreita ligao com a Igreja e j so famosos pelo apoio que, incondicionalmente, tm dado ao clero. Para 
voc ter uma idia, so eles que realizam aquela famosa festa.
- Aquela festa gigantesca, que traz bispo at de Roma?
- Exatamente, meu amigo.
- Meu Deus...
Seguiam em direo  casa de Miguel, onde Jairo se hospedava sempre que ia a Bilbao, quando o primeiro comentou:
- Jairo, gostaria de passar em uma livraria; voc se importaria de me acompanhar antes de irmos para casa?
- De forma alguma!
Miguel sorriu para o amigo de longa data e foram para a pequena e agradvel livraria. Jairo cumprimentou com cordialidade o dono da loja, que os recebeu pessoalmente, 
mas se manteve retrado. Sentiu-se sem jeito. Embora apreciasse os livros, no sabia ler. Lucrcia era quem, com o pouco que sabia, lia para ambos. Jairo procurou 
se distrair folheando alguns exemplares, enquanto Miguel conversava com o proprietrio. Por fim, ele se despediu levando alguns livros. Ao sarem, Miguel entregou 
um pacote a Jairo, dizendo:
- Este  para voc e Lucrcia.
- Obrigado por esse e pelos outros que nos mandou. Tm sido de grande valia.
- Fico satisfeito! No imagina como fico feliz em v-los to bem. Sou testemunha do quanto j sofreram, por isso me alegro muito quando os vejo progredindo.
Jairo sorriu, agradecido. Miguel era para eles o protetor amigo que o s acolhera em um momento difcil. Ao fugir de Marrocos, sua terra natal, traziam somente o 
endereo de um primo que residia em Madri e que talvez os pudesse receber. Chegando, souberam que o primo se mudara para Barcelona com recursos mnimos, suficientes 
apenas para a viagem que terminaria ali, precisaram seguir muito alm e economizaram at na comida. No final, depararam com a dura realidade: o primo no estava 
tampouco em Barcelona. Ningum ouvira falar dele no endereo que lhes fora dado pelo senhorio da casa em Madri. Sem ter o que comer e sem nenhum recurso, Lucrcia 
e Jairo ficaram na rua, em pequena viela, e tentaram achar trabalho. A dificuldade se agravava dia a dia. Buscaram ajuda nas igrejas, mas o fato de serem mulumanos 
complicava tudo. Sem alimento e sem trabalho, passaram a mendigar nas esquinas. Quando estavam totalmente sem foras, a ponto de desistir de tudo, encontraram Miguel. 
Ele se aproximou como que atrado pelo casal maltrapilho que pedia esmolas. Ao invs de lhes dar alguma moeda e se afastar, como fazia a grande maioria, comeou 
a conversar com eles. Ficou profundamente sensibilizado com sua histria e naquele mesmo instante os tirou da rua, alojando-os em pequeno albergue prximo de sua 
casa. Depois, ajudou Jairo a arranjar trabalho e aos poucos tudo comeou a melhorar. Uma slida amizade se estabeleceu entre eles. Passados alguns meses, Miguel 
tomou conhecimento de que Lucrcia enfrentava outras dificuldades: ela freqentemente ouvia vozes e s vezes via pessoas mortas. Miguel, ento, falou-lhes da Doutrina 
Esprita e de como seus ensinamentos esclareciam tais fenmenos. Participaram das primeiras reunies de estudos espritas, onde Lucrcia comeou a compreender o 
que se passava com ela e como poderia utilizar aquele dom em favor de outros. Mais tarde manifestaram o desejo de sair do albergue. Miguel lhes sugeriu que fossem 
para uma vila, perto da praia, pois Jairo poderia continuar trabalhando com a pesca. Mais uma vez Miguel se desdobrou em cuidados, instalando os amigos em pequena 
casa nas imediaes de uma vila de pescadores. Por tudo o que havia recebido de Miguel, Jairo apreciava e respeitava o amigo com ele aprendera a essncia do Espiritismo: 
no apenas uma nova filosofia, uma srie de fenmenos maravilhosos ou um conjunto de poderes milagrosos, mas sim o cristianismo primitivo em toda a sua simplicidade. 
Ele mesmo havia presenciado inmeras ocasies em que Miguel levara pessoas desamparadas e doentes para a prpria casa, provendo-lhes o necessrio para a recuperao. 
Aprendia muito com aquele amigo. Admirava-lhe cada vez mais as qualidades de amor e dedicao s criaturas carentes. Na manh seguinte Jairo se despediu do amigo 
e voltou para casa. Agora, depois de tudo o que Miguel dissera, estava com o corao mais tranqilo. Quando Jairo regressou a sua pequena casa  beira-mar, Lucrcia 
o esperava com ansiedade. Assim que o avistou, largou tudo o que estava fazendo e correu-lhe ao encontro.
- Que bom que chegou, querido! Jairo a abraou com carinho.
- Sentiu saudade?
- Sabe que sempre sinto muito a sua falta, no importa por quanto tempo se ausente.
Lucrcia caminhava de braos dados com o marido. Jairo lhe entregou o pacote, um tanto tmido, envergonhado de no saber ler. Sentia uma ponta de tristeza toda vez 
que via a esposa lendo. Ao receber o embrulho, ela perguntou:
- O que  isso?
- Um novo livro que Miguel comprou para ns.
- E que livro ? No perguntou?
- Sabe como fico sem jeito com essas coisas, Lucrcia. Ela abriu o pacote e disse exultante:
- Eu no acredito Jairo. Que maravilha!
- O que ?
- Um novo livro de Allan Kardec.
- E sobre o que  o novo livro?
- Voc no vai acreditar!  sobre a parte prtica do Espiritismo, sobre a mediunidade. No  fantstico?
- Como assim, parte prtica?
- Preciso ler com calma, mas parece elucidar muito Problemas sobre os quais ainda estamos confusos.
Lucrcia abriu o livro em uma pgina qualquer e leu trechos. Depois disse ao marido, que aguardava curioso:
- Era o que nos faltava, Jairo. Sempre desejei entender melhor o funcionamento da mediunidade, descortinado pelas pesquisas espritas. Estou certa de que agora muitas 
de minhas dvidas sero esclarecidas.
Ela fechou o exemplar de O Livro dos Mdiuns e voltou para o marido os olhos molhados de lgrimas. Jairo percebeu a emoo da esposa, perguntou:
- O que foi Lucrcia? Qual  o problema?
- Eu tenho uma surpresa.
- O que foi?
Sem dizer nada, Lucrcia puxou-o pela mo e, passando em frente  pequena casa, conduziu-o em direo ao mar. Ao chegarem mais perto da praia, Jairo avistou Emilie 
sentada bem junto da gua.
- Ela est melhorando. Acho que os remdios esto dando resultado.
- Os seus remdios, voc quer dizer?
- Todos eles, Jairo, especialmente o Evangelho.
Jairo olhou para a esposa com ar interrogativo, e ela prosseguiu:
- Venho orando e lendo trechos do Novo Testamento para Emilie desde que ela chegou. Nesses momentos, sinto intenso calor me envolver e percebo que ela apresenta 
visvel melhora.
Vendo a jovem, que permanecia observando o mar, de costas para o casal, Jairo perguntou:
- E como ela est?
-  sobre isso que preciso conversar com voc. Embora a febre tenha cedido e ela esteja melhorando, ainda no me parece bem de fato. Despertou e quis imediatamente 
se levantar; est tambm um pouco agressiva.
- Agressiva, como?
- Ela me parece assustada e angustiada.
- Comentou algo sobre sua priso, sua fuga?
- Claro que no, Jairo, e eu nem permitiria. Ainda est muito fraca.
Caminhei um pouco com ela, que logo se cansou e foi obrigada a parar. Assim que se sentou, comeou a chorar. Tentei conversar, mas depois achei que era melhor deix-la 
s. J faz algum tempo que est ali.
- Ento no disse nada?
- Jairo, ela mal consegue andar e tambm no pode falar muito. Afinal, est se recuperando de uma doena que poderia t-la matado. Como quer que j saia falando 
sobre o que aconteceu?
- Temos de saber, Lucrcia. Precisamos entender o que realmente houve com ela.
Jairo fitou a esposa nos olhos e, limpando a garganta, fez se ainda mais srio quando disse:
- Pensei muito sobre esse assunto e conversei com Miguel a respeito. No quero ser injusto com ningum; portanto, concordo em que descubramos a verdade, antes de 
tomar qualquer atitude.
Lucrcia sorriu, abraando o marido com evidente alegria. Antes que dissesse alguma coisa, ele a afastou ligeiramente e prosseguiu:
- No se entusiasme tanto, eu ainda no terminei. Mesmo ansiando ser justo, no quero nos prejudicar. Devemos descobrir o mais rpido possvel o que houve: se ela 
 culpada ou no do que a acusam. Precisamos saber depressa, Lucrcia, especialmente agora que ela comea a caminhar por a. Se descobrirem que est em nossa casa, 
no sei o que ser de ns.
- Compreendo sua preocupao, Jairo e sei que tem razo. Por isso, estou tomando todos os cuidados. Por exemplo, depois que voc partiu, notei que ela estava melhorando 
e decidi mandar dizer ao mdico que no iramos mais precisar dos seus servios. Informei que a mandaramos para algum hospital, pois no poderamos continuar cuidando 
dela. Quando recebeu a mensagem, quis vir imediatamente, mas tive a precauo de deixar claro que ao ser entregue o recado ela j estaria bem longe. De qualquer 
forma, acho que ele ficou aliviado. Estava louco para se ver livre.
- Por que acha isso?
- No sei, Jairo, eu pressenti algo. 
Alguma coisa no olhar dele, no jeito como a tratava, como a olhava, no sei dizer com preciso.
- Ento por que ajudou?
- No sei, talvez o dinheiro...
- No creio que seja isso. Fico muito preocupado. E se ele nos denunciar?
- No acredito.
- E por que no? O que o impediria?
- Se desejasse, j o teria feito. Emilie est aqui h mais de dez dias, tempo suficiente para que nos denunciasse. Deve haver outra razo, Jairo.
Lucrcia calou-se por instantes, e depois disse:
- Talvez ele seja muito ambicioso. Quem sabe esperasse que de onde veio aquela moeda sassem outras...
- Pode ser, Lucrcia. Concordo plenamente com voc: Elene pareceu extremamente ambicioso. Mais uma vez eu digo, temos de tomar cuidado.
Lucrcia assentiu, olhando o marido com ternura. A pele queimada de sol era quase negra, como a sua; os olhos igualmente negros, profundos e sinceros, revelavam 
muito dele. As rugas marcavam o rosto humilde e rude, habituado  dura exposio ao tempo. Lucrcia o acariciou com carinho e respeito ao dizer:
- Obrigada por confiar em mim, Jairo. Sei que depois de tudo pelo que passamos no  fcil para voc. Mas sei tambm que no se arrepender.
Ele apenas sorriu. Enquanto o sol se punha lentamente no horizonte, invadindo a paisagem com suas nuances douradas e formando um quadro de esplndida beleza, Jairo 
e Lucrcia observavam a jovem que, sem se mover, parecia tambm inebriada pelo encanto do entardecer. Ao longe, o som das gaivotas era com o lamento da natureza 
a se despedir do dia. O sol se ps e a escurido aos poucos tomou conta da praia. Emilie se levantou devagar. Ao ficar de p, sentiu forte vertigem e caiu. Lucrcia 
e Jairo correram para socorr-la. A mulher perguntou, enquanto a levantava:
- Est se sentindo bem, Emilie?
- Estou, foi apenas uma tontura.
Amparando-a, Lucrcia de um lado e Jairo de outro, caminhavam de volta  pequena cabana. Lucrcia, ento, apresentou o esposo  jovem, que sem emoo disse:
- Como vai? Sua esposa  muito forte. 
Ao que Jairo respondeu sem titubear:
- Voc no imagina quanto!
Seguiram devagar para o humilde casebre. Assim que entraram, Lucrcia acomodou Emilie em uma cadeira junto ao fogo.
- Aqui ficar confortvel.
Emilie no disse nada. Seus olhos estavam vermelhos e as lgrimas ainda desciam pela face alva. Jairo ameaou perguntar algo  jovem, porm Lucrcia fez que no 
com a cabea e, levando o dedo indicador aos lbios, pediu-lhe silncio. Enquanto Lucrcia preparava o jantar, trocando algumas palavras com Jairo sobre a viagem, 
Emilie permaneceu muda. De olhar perdido, parecia completamente distante. De vez em quando, lgrimas teimavam em descer dos seus olhos. Foi quando mencionaram o 
lugar onde residia Miguel que ela pareceu despertar de um sonho. Fitando Jairo, indagou:
- Seu amigo vive em Barcelona?
- Sim, ele  de l!
Fez que ia continuar, mas, como se lhe faltassem foras, silenciou outra vez. Durante o jantar Lucrcia insistia com ela para que se alimentasse:
- Preparei a sopa especialmente para voc.
- No quero comer.
- Ora, vamos, Emilie, precisa se alimentar. J est fraca. Se no comer, como poder melhorar?
Alterando inesperadamente a voz, Emilie berrou:
- Quem foi que disse que quero melhorar? Eu quero morrer! Foi voc que se meteu na minha vida e me impediu de fazer o que devia! Queria estar morta!
- No  verdade, Emilie - respondeu Lucrcia calmamente, pedindo com o olhar que Jairo ficasse tranqilo. E continuou:
- Se realmente queria morrer, por que eu a encontrei no penhasco? Por que no se jogou?
Emilie recomeou a chorar em desespero:
- No pude. Eu queria, queria muito, e no consegui!
- Ento no queria de verdade morrer! Levantando a voz ainda mais, ela gritava:
- O que voc sabe de mim, da minha vida? Eu queria morrer, sim, para isso fui at o penhasco. Fugi daquele lugar pavoroso para pr fim ao meu sofrimento mais depressa. 
Voc no entende? L dentro eu ia morrer de qualquer forma. Nem posso lembrar o que faziam comigo. Melhor morrer! Por isso fugi.
Ela parou, impotente para conter as lgrimas. Depois, olhando com desespero para os dois, disse:
- Eu queria morrer, entendem? E no consegui... Como Lucrcia e Jairo se mantivessem calados, ela baixou a cabea e se entregou a pranto convulsivo.
Lucrcia se ergueu e, abraando-a com bondade, disse:
- Algo a impediu, no foi, minha filha? Como Emilie no respondesse, a outra insistiu:
- O que a impediu? O que foi maior do que seu desespero?
- Mi...nha... fi...lha - respondeu Emilie, com as palavras entrecortadas pelos soluos.
Lucrcia ergueu-lhe a cabea, limpou com seu avental as lgrimas que desciam e disse suavemente:
- Mas sua filha no estava l...
- Quando estava prestes a me atirar, bem na borda do penhasco, ouvi a voz dela me pedindo que desistisse. Ela pediu que eu no pulasse. No pude...
- Ento sua filhinha salvou sua vida.  isso?
Emilie no parava de chorar. Voltando ao seu lugar e se acomodando na cadeira, Lucrcia pediu com brandura:
- Ento continue viva por ela, Emilie. Alimente-se, melhore e viva. J que esta foi sua opo, por ela, lute um pouco mais. Precisar ficar forte para poder v-la 
de novo.
Emilie puxou o prato de sopa bruscamente e, num supremo esforo para comer, murmurou:
- Nunca mais voltarei a v-la...
- No diga isso, Emilie. Se o amor que as une  forte a ponto de ela a distncia salvar sua vida, to certo como o dia vai amanhecer vocs voltaro a se encontrar. 
Confie em Deus, Emilie. Ele h de ajud-la a reencontrar sua filha.
- Deus? Que Deus? Deus no existe, ou h muito me abandonou.
- No diga isso. Deus est sempre cuidando de ns! 
- Voc no sabe o que  sofrimento. No tem idia da dor por que passei. Tiraram-me tudo! Tudo o que eu tinha e que me era mais precioso. Voc no pode imaginar 
o que  isso!
Lucrcia sorriu para ela e apertando a mo de Jairo, que se mantinha quieto, disse:
- Sei muito bem o que  perder tudo, Emilie. Inclusive filhos. 
Pela primeira vez, Emilie olhou para Lucrcia com algum interesse e pensou: seria possvel que aquela mulher, de sorriso tranqilo, tivesse sofrido o que ela sofrer? 
Qual seria o seu segredo? Contudo, estava cansada demais para fazer qualquer indagao. Esforou-se o quanto pde para dar conta do prato de sopa e, ao acabar, retomou 
abatida e em silncio para a cama improvisada. Lucrcia, percebendo que Jairo se irritara com o comportamento da jovem, sussurrou em seu ouvido:
- Tenha pacincia, ela vai melhorar.
To logo Emilie se afastou, Jairo comentou com a esposa em tom exasperado:
- Que mal-educada! Alm de no agradecer pela ajuda, ainda nos agride!
- Fale baixo, no quero que nos escute.
Como Jairo insistisse, Lucrcia puxou-o pela mo e levou-o para fora da casa; puseram-se a caminhar pela praia, onde fria brisa soprava. Lucrcia abraou-se carinhosamente 
ao marido, procurando aquecer-se, e disse:
- Entendo sua indignao, Jairo, mas ela est descontrolada e confusa; nem sequer sabe o que diz.
- S que isso no lhe d o direito de falar o que bem quer...
-  claro que no d, porm ela est muito machucada; voc consegue compreender? Perdeu tudo, e sofre especialmente por causa da filha. Conheo essa dor, Jairo. 
Por isso no lhe podemos cobrar nada. Emilie precisa de apoio, isso sim. Vamos dar a ela o melhor que temos. Lembre-se de que tambm fomos muito amparados em nossos 
momentos difceis...
Todavia, ele continuava irritado com o comportamento de Emilie:
- Admiro seus sentimentos nobres para com essa moa, o que no me impede de ach-la muito arrogante! Onde j se viu? Para receber ajuda,  necessrio um pouco de 
humildade. Em nosso caso, que voc acabou de citar, fomos receptivos e agradecidos ao Miguel pelo seu auxlio e nunca o tratamos com agressividade por causa de nossos 
problemas.
- Ns tnhamos uma conscincia diferente, Jairo. Essa jovem ainda no se encontrou, sobretudo do ponto de vista espiritual. Como nos poder dar o que no tem? Acha 
que algum pode dar aquilo de que no dispe?
Jairo parou para refletir, e enfim indagou:
- Ento, o que faremos? Vamos deixar que nos destrate desse modo?
- Vamos dar algum tempo a ela. Tenho certeza de que ir melhorar.
- Como, se continuar com esse jeito arrogante de agir? Jairo, o toque suave de Deus no corao humano pode transformar gua em fogo, ou seja, frieza em calor, indiferena 
amor. S Deus pode dissolver dio em perdo. Para isso nos enviou Jesus: para renovar a vida das pessoas. Sei que Emilie ainda no conhece a fora do amor de Jesus.
- A despeito de ser catlica. Pelo que vi traz um crucifixo pendurado ao pescoo.
- Eu tambm notei. Mesmo assim, desconhece o poder transformador do Cristianismo. Talvez conhea na teoria, sem ter provado na prtica.
Jairo seguiu ao lado da esposa, sem dizer nada. Ao retomarem, j na porta da casinha, perguntou:
- Como pode ter tanta certeza do que diz Lucrcia?
Ela sorriu e abraou-o ao asseverar:
-  que conheo na prtica tudo aquilo em que acredito. S isso.
No tendo o que acrescentar, Jairo acompanhou a esposa na arrumao dos utenslios do jantar, que permaneciam sobre a mesa. Emilie j dormia, mas seu sono era agitado. 
Ao terminar os afazeres, Lucrcia foi at a cama da jovem e chamou Jairo:
- Veja, toda noite  igual. Ela se debate, se remexe e s se aquieta enquanto leio o Evangelho.  incrvel: ela se acalma, e quando a leitura acaba volta a se agitar. 
Est perturbada...
- E voc no teme que traga algo de ruim para nossa casa?
- Embora tenha meus receios, acima de tudo confio em Deus. Sei que estou fazendo o que Ele espera de mim; sinto que o Pai quer que a ajudemos. Ento haver de nos 
dar proteo para conseguirmos cumprir nosso dever.
Lucrcia pegou o Novo Testamento, como tantas vezes fazia, e antes de se deitar leu um pequeno trecho  beira da cama de Emilie. Depois de sentida orao, tambm 
se deitou. A alguns quilmetros da vila, na provncia, Francisco pensava em Emilie. Ficara contrariado diante do recado de Lucrcia, avisando que iriam mand-la 
para longe. Tivera mpetos de impedir que o fizessem, porm no ousara; seria muito arriscado. Sabia perfeitamente o perigo que o casal corria por ter dado proteo 
a ela e no queria o mesmo para si. No entanto, foi outra notcia recebida naquela tarde que mais o perturbou. Logo que o mensageiro de Lucrcia partiu, sua assistente 
falou da recompensa oferecida para quem informasse sobre a jovem:
- Quantos esto oferecendo? - perguntou ele a Carmem.
- So duzentos pesos por informao.
- Minha nossa! Por uma s?
-  o que est escrito aqui: Cada informao diferente d direito a isso. Puxa! Esto mesmo querendo pr as mos nela!
Francisco desabou em sua cadeira, segurando o papel que Carmem lhe dera. Leu atentamente, e depois concordou:
- Tem razo. Querem pr as mos nela, e rpido.
- Pobre menina - suspirou Carmem, saindo da sala do mdico.
- A quem voc se refere? A Cntia?
- No, estou falando de Emilie.  uma menina, perdida em tudo o que lhe aconteceu.
- Por que diz isso? Ela  uma mulher, j bem crescidinha.
- Era inocente demais... Ser que pensou mesmo que seria aceita sem reservas por aquela famlia?
- Que idia  essa, Carmem? A moa est doente, com problemas, tentou matar o marido...
- Ser?
- O que est insinuando?
- Nada. Apenas sei que aquela famlia  muito poderosa. Emilie  totalmente espontnea, diz tudo o que pensa, e estava com aqueles problemas que voc vinha tratando.
Em seguida, olhando o mdico, perguntou sria:
- O que exatamente essa moa tinha, doutor Francisco?
- Ora, Carmem, isso  segredo mdico, no posso divulgar as condies de meus pacientes. Seja discreta. Ela est gravemente doente. Tinha alucinaes, vises, esses 
distrbios que as doenas mentais desencadeiam. Pesquisei os antecedentes familiares, que tambm no so bons. Pelo que ela prpria me disse, sua av materna apresentou 
problemas semelhantes. Ela est doente e seria muito bom se a encontrassem depressa.
- Bom, com o estmulo dessa recompensa, creio que no demoraro a ach-la. O valor  significativo. Quem no se interessar por localiz-la, prestando um servio 
 ilustre famlia e ao mesmo tempo recebendo uma retribuio to vultosa? Por certo ser encontrada em breve.
O mdico olhou para a assistente e ficou calado. Baixou a cabea, remexendo os papis em sua mesa. Depois, ao perceber que ela permanecia a observ-lo, disse rspido:
- O que  isso, Carmem, ainda a? Vamos, temos de trabalhar. Quem  o primeiro paciente?
-  a viscondessa Delisan, daqui a meia hora.
- Ento me deixe organizar meu dia. Traga minha agenda, quero confirmar todos os compromissos.
Carmem obedeceu rpido. Em alguns segundos, voltou com a agenda e seguiram trabalhando sem tocar de novo no assunto. Francisco saiu do consultrio tarde da noite 
e preferiu voltar andando, para refletir. Estava indeciso. No tinha dvida de que poderia transformar o que sabia em dinheiro. Era s enviar um mensageiro a dom 
Felipe, que ele conhecia to bem, e tudo estaria resolvido. Se fosse inteligente, conseguiria inclusive incrementar as informaes, de modo a que rendessem mais. 
Quando entrou em casa, estava cansado de tanto pensar. Livrou-se do casaco e dos papis que trouxera, acendeu a lareira e se sentou em frente a ela, tendo nas mos 
o folheto que fornecia detalhes sobre a recompensa. Ficou ali contemplando o crepitar do fogo que estalava de quando em quando. O ambiente, antes frio, tomou-se 
suavemente aquecido. Francisco preparou uma bebida. O pensamento vagava, ainda indefinido: devia ou no comunicar o que descobrira? Por outro lado, lembrava que 
quela altura Lucrcia e Jairo j teriam mandado Emilie para bem longe. Sentiu forte aperto no peito: talvez no voltasse a v-la to cedo... Francisco se recostou 
no sof e ficou a recordar a ltima em que a vira no hospcio. A cena lhe veio toda  mente. Parecia escutar a voz de Emilie suplicando: - Tire-me daqui! Voc sabe 
que no estou doente. Eu jamais faria tal coisa, Francisco, jamais! Voc sabe que no sou agressiva. Contei-lhe minha vida inteira. Conhece tudo o que penso; sabe 
que nunca, em momento algum, manifestei qualquer tipo de pensamento ou sentimento contra meu marido ou minha filha. Voc sabe disso, Francisco, por que no me ajuda?
- Voc sabe muito bem o porqu.
- No sei, no entendo a razo. Por que no me refresca a memria?
- No tenho nada mais a dizer.
Ele saiu do quarto e se afastou, ouvindo-a berrar:
- Pelo amor de Deus, Francisco, me ajude! Voc sabe que no tenho nada! O que ser de minha filha? Tem de me ajudar, pelo amor de Deus...
Aqueles gritos ainda ressoavam em sua cabea e vinham perturbando seu sono. Depois da fuga de Emilie, sentira ligeiro alvio. Ao menos estaria livre daqueles gritos. 
S que isso no acontecera. Na noite em que Jairo o procurara, ele estava exausto das noites em que no conseguira dormir direito, despertando assustado com os gritos 
da moa. Atendera ao pedido - ainda que a contragosto - porque Jairo havia buscado ajuda em nome de Miguel. Francisco no costumava fazer nenhum tipo de concesso 
no valor de seus honorrios mdicos. Acreditava que, como estudara muito para chegar onde estava, no deveria abrir mo dos pagamentos, nem dar descontos. Raramente, 
e s por solicitao de algum amigo influente, fazia um atendimento gratuito. Ao encontrar Emilie na cama daquele casebre, quase morta, tivera dificuldade em examin-la, 
primeiro porque sabia que era uma foragida considerada perigosa e procurada pela polcia; no queria se comprometer. Contudo, Lucrcia fora to incisiva em sua rogativa 
que ele no pudera negar assistncia. Percebendo que a jovem estava gravemente enferma, sentira-se ligeiramente incomodado e ao mesmo tempo aliviado, pois se livraria 
dela. Depois da notcia de que a jovem tinha melhorado e ido embora, no sabia o que fazer. Francisco tinha vontade de denunciar Emilie, Jairo e Lucrcia e encerrar 
a questo, engordando um pouco mais sua conta bancria. Em contrapartida, algo o impedia. Ele matutava e matutava diante da lareira sobre o motivo de ainda no ter 
enviado o mensageiro a Felipe. Deu profundo suspiro, bebeu o que restava em seu copo e se deitou confortavelmente no sof. Estava quase adormecendo, e ento balbuciou:
- Emilie, Emilie, por que no cedeu? Por que foi to correta, minha querida? Agora, vou denunciar voc e aqueles que a ajudaram.  preciso, entende...
Antes de terminar a frase, foi dominado pelo cansao e adormeceu. Com menos de duas horas de sono Francisco recebeu uma visita espiritual, que lhe pedia:
- No conte nada sobre ela. Deixe-a, por favor. Ela precisa encontrar seu caminho.
Era Cntia, que sussurrava baixinho ao ouvido do mdico. Parecia mais velha e Francisco, cujo corpo espiritual tambm estava desperto, perguntou:
- Quem  voc?
- No importa. Peo apenas que a deixe livre. J chega o que vem sofrendo. J  suficiente.
- No concordo. Ela merece sofrer muito mais.
- Francisco, por favor, seja piedoso, ao menos uma vez na vida! Esse dinheiro, proveniente de algo to aviltante, no lhe poder fazer nenhum bem!
- Ora, que bobagem! Dinheiro  dinheiro, e s me far o bem. Mas quem  voc? Seu rosto me parece familiar... 
- Sou uma amiga de Emilie. Ela me  muito querida, por isso peo que no lhe faa mais mal do que j fez.
Ao ouvir as ltimas palavras, Francisco acordou assustado. Sentou-se no sof, atordoado, tentando compreender o que acontecia, pois por alguns instantes acreditou 
que havia algum com ele na sala. Olhou em tomo, procurando, e no viu ningum. Na lareira, as poucas brasas ainda acesas anunciavam que j era muito tarde. Levantou-se, 
apagou-as e subiu para o quarto, preparando-se para dormir. Ao fechar os olhos, pensou de novo Emilie. Refletiu que talvez fosse melhor deix-la em paz; afinal, 
j tinha o que merecia: estava pobre, infeliz, e perdera tudo. Virou-se de lado e pensou: "Acho que j tem o suficiente". E voltou a adormecer. Nos arredores de 
Barcelona, a noite foi longa e conturbada para Fernando. O movimento esprita que surgia e atraa adeptos em diversas partes da Espanha o incomodava demais. Na solido 
de seu quarto, na quietude da noite, Fernando perdeu por completo o sono. Levantou-se, foi at a cozinha e preparou um ch quente. Em silncio voltou ao quarto e 
sentado na cama sorveu gole a gole, buscando serenar os pensamentos. Contudo, vrias perguntas insistiam em ocupar sua mente. Por que Deus permitia que uma seita 
como aquela surgisse? Por que admitia que pessoas fossem enganadas daquela forma? Ao mesmo tempo, idias contraditrias o assaltavam. E se houvesse algo de verdade 
naqueles ensinamentos? E se (somente "se") pudesse haver outras verdades ainda no totalmente claras para a Igreja? E se houvesse questes a serem complementadas? 
E se houvesse outros elementos a conhecer? Fernando sabia que a Igreja, com seus preceitos doutrinrios, no conseguia resolver todas as angstias e dvidas da alma 
humana. Sabia, por dolorosas experincias, que havia falhas. Mas essas eram sempre atribudas a homens imperfeitos e infiis a Deus; jamais se podia questionar um 
s dogma, um s ensinamento. No era permitido. E ele, inquieto, continuava a refletir. E se houvesse alguma verdade naqueles princpios novos? E se eles trouxessem 
alguma resposta? Abruptamente se levantou, dizendo em voz alta:
- Que absurdo  esse? Como  possvel que esses novos conceitos tragam algo de bom? So do demnio! Ele deve estar por aqui, querendo me iludir! Tentando se infiltrar 
em meus pensamentos! Saia daqui, no vou permitir que me engane!
Incapaz de afastar da mente aqueles questionamentos, dirigiu-se resoluto  clausura. Subindo as escadas em passo firme, exclamava:
- No quer me deixar por bem, vai embora por mal! Haverei de chamar a ateno de nosso Senhor Jesus Cristo com minha penitncia e Ele haver de afast-lo daqui.
Abriu a porta de pequeno cmodo, acendeu a vela que ficava na mesa e trancou a porta atrs de si. Arrancou a roupa e, agarrando o chicote que tinha pequenos pedaos 
de ferro nas pontas, comeou a flagelar as prprias costas, em penitncia. Urrava de dor enquanto dizia:
- Afaste-se de mim, que sou de Jesus! Afaste-se de mim, que sou de Jesus! Sou representante de Jesus na terra! No me tente com idias que no so corretas!
O sangue brotava das feridas e Fernando parecia enlouquecido, chicoteando as costas e gritando. Quando suas foras se esvaram, junto com o sangue que corria, ajoelhou-se 
e de bruos na cama desmaiou. O dia surgiu radiante e com ele o burburinho das pessoas que chegavam para a missa matinal. O proco, impaciente, aguardava Fernando, 
que devia dirigir a missa e no aparecia Foi procur-lo no quarto e bateu  porta:
- Fernando, que se passa, meu filho? O salo est lotado.
Como no obteve resposta, bateu novamente, e ento virou a maaneta, percebendo que estava destrancada. Entrou e viu a cama desfeita. Notou a xcara sobre a mesa. 
Levou-a ao nariz para identificar que tipo de bebida era aquela. Percebeu que se tratava de um ch relaxante. Pensou um pouco mais e imaginou que o jovem tivera 
dificuldade para dormir. Decidiu ele mesmo cuidar da missa. Depois conversaria com Fernando sobre sua irresponsabilidade. Conduziu o ato litrgico como de costume, 
mas de quando em quando pensava no rapaz. Observou ainda que faltavam alguns fiis naquela manh de domingo. Isso no costumava acontecer - no na missa de domingo. 
E assim, o padre celebrou-a entre preocupaes com Fernando e com os paroquianos ausentes. No final foi abordado por vrios fiis da comunidade, que queriam sua 
orientao ou aprovao para um assunto ou outro. Uma jovem tmida aproximou-se, tremendo:
- O que foi, minha filha? Algum problema?
- Preciso falar com o senhor, padre Enrico.
- Parece assustada...
- , estou muito assustada.
- Espere que falarei com voc, logo que termine de conversar com os outros. Aguarde aqui ao lado.
Aps atender a longa fila de fiis a desfilarem suas dificuldades e angstias, o padre despediu o ltimo e se virou para a jovem, perguntando:
- E ento, o que a aflige, filha?
-  minha me, padre. Ela pediu que no lhe dissesse nada, mas estou to preocupada!
- O que aconteceu?
- Est desertando da f...
- Como, desertando da f? O que me diz?
- Ela... bem... acho melhor deixar para l. Levantando-se, a jovem fez meno de sair; entretanto, o padre a segurou pelo brao e afirmou:
- No tenha medo, filha, estou aqui para ajudar. Pode me contar, sem temor, qual o problema. Que houve com sua me?
A jovem ainda hesitou um pouco; depois, chorando, comeou a falar:
- Ela est se tomando esprita, padre, esprita! Est acreditando naquele monte de bobagens que o senhor falou que so horrendas! No sei o que fazer... Ela est 
mudando...
Chorando convulsivamente, a jovem ansiava por ser consolada. O proco, no entanto, ergueu-se resoluto e disse:
- Vamos j  sua casa. Quero falar com ela agora mesmo!
- No, padre, por favor; ela me fez prometer que no diria nada. No pode vir comigo! Tem de falar com ela...
- Cale-se j! Est sob influncia desses ensinamentos perniciosos. Vamos j  sua casa, antes que o estrago se faa maior. Quem sabe consigo colocar um pouco de 
juzo na cabea de sua me. Desde que seu pai morreu, ela vem agindo de maneira estranha...
- No  verdade, padre. Minha me tem conduta impecvel. Ela trabalha, se esfora,  me e pai para ns! Ela  ntegra! S que agora comeou a acreditar nessas coisas...
- Ora, o que sabe voc, jovem como ? Sua me vem se comportando de forma estranha, sim, todos me dizem isso. No  nenhuma novidade.
- Que diz? No, no  verdade!
- Menina, est se descontrolando. Vamos, acalme-se. Iremos ver sua me a pretexto de sua ausncia na missa hoje. S isso. E a conversarei com ela. Tenha calma.
O sacerdote j ia saindo com a jovem, ento parou e lhe pediu:
- Espere aqui vou resolver uma pequena questo e j volto.
Enquanto a jovem, de cabea baixa, chorava baixinho, padre Enrico encarregou um auxiliar de levar mensagem ao bispo, pedindo que o encontrasse na casa daquela famlia. 
Ao retomar deu de cara com Fernando, que abatido e ensangentado se dirigia lentamente para o quarto. O padre sabia bem o que eram as noites de penitncia, por isso 
no disse nada. Passando por ele Fernando beijou-lhe a mo:
- Sua bno, padre.
- Deus o abenoe, meu filho. Vou visitar uma mulher que est se bandeando para o lado do mal.
- Como assim?
- Est se tomando esprita. Bem aqui, em minha parquia.  inacreditvel, esse movimento estende suas garras por toda parte! Temos de tomar medidas enrgicas! Se 
preciso for, vamos excomung-la ainda hoje!
Fernando arregalou os olhos e ia dizer algo, mas no teve tempo; o padre reclamou impaciente, enquanto saa:
- Esse movimento nos esquenta a cabea, Fernando, esse Espiritismo... 
Fernando ergueu a cabea, estufou o peito e explodiu:
- Pois que a mulher seja anatematizada! Aqueles que afrontam nossos dogmas devem pagar o preo de sua infidelidade!
O padre estranhou o tom de Fernando ao proferir aquelas palavras, uma vez que o jovem era sempre o apaziguador, aquele que pedia clemncia e tolerncia. Contudo, 
estava com muita pressa e limitou-se a dizer:
- Tenho de ir. Cuide de tudo por aqui. Se precisar de mim... O padre olhou de leve para as costas do rapaz, recomendando:
- Cuide de voc e de tudo por aqui. J  suficiente. 
Encontrou a jovem sentada, aguardando. Ainda chorava e, tremendo, quis saber:
- Padre, o que vai acontecer com minha me?
- Nada que ela no queira. No se preocupe, minha filha, voc agiu bem. Tem irmos, precisa zelar por sua famlia. Principalmente por ser a mais velha, deve cuidar 
deles...
- S peo que nada acontea a ela. Desejo apenas que volte a ser como sempre foi e deixe de acreditar nessas maluquices espritas.
Sem dar maior ateno  lamria da jovem, o padre seguiu com ela para a pequena casa. L chegando, encontraram a senhora na cozinha, em rdua tarefa no fogo. Ermnia 
trabalhava em casa fazendo doces e compotas que vendia aos hotis, restaurantes e padarias. Esse servio garantia o sustento da famlia e o estudo dos filhos. Ao 
avistar o padre junto com a filha, sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo. Lavou as mos e foi receb-los  porta da cozinha:
- Padre, Mariana... Aconteceu alguma coisa?
A jovem tinha os olhos vermelhos. A me logo imaginou o que se passara. Mariana era a filha mais velha e a mais religiosa.
- Vim visitar a famlia, pois senti sua falta na missa e imaginei que algo srio deveria ter ocorrido.
- Pois vamos entrar padre.
A me endereou olhar compreensivo  filha, como a pedir-lhe que se acalmasse. Ofereceu a cadeira ao padre, que se acomodou, ajeitando a batina com cuidado. Ermnia 
olhou para a filha e pediu:
- Mariana, v ver seus irmos, por favor. Faz horas que esto l dentro e receio que estejam aprontando alguma arte.
- A garota deve ficar.
- Por favor, padre, de minha famlia eu cuido. V, Mariana.
Sem saber o que fazer, porm aliviada por poder descansar um pouco, a menina se retirou. Seguiu-se curto silncio. O padre, limpando a garganta, comeou a falar 
em tom grave:
- Por que faltou  missa hoje, minha filha?
- Tive muitos afazeres, padre. Sabe que sou pai e me para meus filhos, desde que Carlos se foi.
- Pois . Tem muitos afazeres, e dentre eles creio que assistir  missa  fundamental, no?
O padre a olhava fixamente nos olhos, como a querer intimid-la. Mas Ermnia, tranqila, respondeu:
- Deus  minha prioridade, padre.
- Pois  o que digo: a missa, a igreja.
- No, padre. Deus, seus ensinamentos, a vida espiritual. 
Ao ouvir tais palavras, o padre se levantou e spero disse:
- Vida espiritual? O que voc sabe dessas coisas?
- Caso esteja mesmo interessado, padre, sente-se; vou dizer.
Sem tirar os olhos da mulher, o padre sentou-se vagarosamente. Ermnia foi at o fogo, mexendo algumas panelas e organizando rapidamente alguns vidros. Depois retomou 
e ocupou uma cadeira ao lado do padre. Mentalmente, preparava-se para enfrentar a fria que poderia surgir de suas declaraes.
- Bem, padre, desde que Carlos morreu, tenho arcado com tudo em casa. O trabalho tem sido muito duro, o senhor sabe. No me queixo disso; trabalhar nunca me assustou. 
 que no ltimo ano vinha sofrendo terrveis dores na cabea e tambm pelo corpo.  noite tinha pesadelos e muitas vezes acordava molhada de suor. Vinha pedindo 
a Deus que me amparasse, porque no podia cair doente. Quem cuidaria de meus filhos? As dores foram aumentando. Consultei o mdico, e de nada adiantou. Continuei 
rezando, intensifiquei ainda mais meus pedidos a Deus; nada acontecia, eu s piorava. Foi a que uma amiga me convidou a ir com ela a uma... - Ermnia hesitou um 
breve segundo e ento prosseguiu - a uma reunio esprita.
O padre se levantou novamente, bateu a mo com toda a fora sobre a mesa e bradou:
- Isso  um absurdo! Quem  esse lobo perigoso que anda entre as ovelhas do meu aprisco?
- Ainda no terminei, padre. Gostaria que me escutasse. 
Ele sentou-se outra vez, mostrando crescente inquietao.
- Pois bem, resolvi aceitar. Fui com ela a essa reunio. No  nada demais, padre. So reunies que falam de Jesus e esclarecem diversas questes espirituais, s 
isso.
- As questes espirituais esto a cargo da Igreja, no se iluda. Ningum mais na terra tem autoridade para discuti-las; somos os nicos representantes de Deus!
- A verdade, padre,  que desde que passei a freqentar essas reunies descobri coisas novas, aprendi muito e percebi que os ensinamentos de Jesus comearam a ficar 
mais claros para mim; hoje os compreendo como nunca! Tem sido maravilhoso, padre, como um renascer. E alm disso, minhas dores desapareceram. Sei agora que estava 
sob influncia espiritual que me prejudicava. Minha f em Deus cresceu sobremaneira.
- H quanto tempo freqenta essas reunies?
- H uns seis meses.
- Seis meses! Seis meses de traio!
- No tem nada a ver com traio. Estou apenas procurando alimentar minha alma com algo que a possa satisfazer.
- Ento se tomou adepta desse movimento maligno? Deixou-se enredar pelas teias dessa doutrina?
Ermnia, que tentava manter-se calma, ficou sria. No sabia ao certo o que fazer. Se assumisse sua nova f, as conseqncias poderiam ser desastrosas. Mas se no 
assumisse, que f seria a sua? Resolveu, portanto, sustentar a verdade:
- Sim. Tomei-me esprita e posso lhe dizer que  bem diferente do que falam por a. No existe nada de maligno nessa doutrina!
- Chega, no quero ouvir mais nada.
- Mas, padre, no quer que seus fiis sejam felizes? No  isso o mais importante?
- Certamente no vou discutir com a senhora o que  ou no  importante, em termos de f. No tem a menor condio de discutir religio comigo, no percebe?
- No quero discutir religio; quero apenas que entenda que o que aconteceu em minha vida  real; os fatos no foram inventados. Aplicados, esses novos conhecimentos 
s trazem o bem! Clareiam a mente, fortalecem a f em Deus e em Jesus. S promovem o bem de todos, padre, e nos aproximam de Deus.
- Chega, j disse! Voc tem uma chance: negue agora mesmo, perante mim, essa heresia. Est apostatando de sua f e vai sofrer as conseqncias! Negue a f nessa 
doutrina e volte imediatamente ao aprisco da sagrada Igreja, refugie-se l desses assdios do mal e perdo seu deslize. Agora, se no concordar, ser excomungada 
para sempre!
Ermnia sentiu o sangue sumir-lhe da face. Seu corpo tremia. Sabia bem o que seria para ela, viva, a excomunho. Numa comunidade onde todos eram catlicos fervorosos, 
fatalmente passaria a ter dificuldades ainda maiores. Todavia, no teve tempo para mais nada. O bispo entrou, ofegante e irritado:
- Ento, resolveram as coisas?
- No, Eminncia. Ermnia confirma que aderiu  nova doutrina.
Sem rodeios, o bispo perguntou  mulher: 
- Diga, o que vai decidir? Se desertar, ser excomungada. 
Ermnia, consciente de todas as implicaes de sua atitude, respondeu com voz trmula:
- No posso negar o que houve comigo. So fatos, senhor, no posso negar a realidade.
O padre a interrompeu:
- A Igreja  a nica que nos pode levar at Deus, o resto  mentira! Vai insistir nessa sua deciso?
- No posso recuar.
- Pois bem, ento no temos nada mais a conversar, nem a fazer. A partir de hoje, est excomungada. Nem voc nem seus filhos devem pisar mais o solo santo de qualquer 
igreja catlica. E isso, obviamente, ser divulgado em todos os cantos desta cidade.
O padre a fulminava com o olhar. No aceitava que um dos membros de sua parquia se tomasse esprita. Era demais para ele. Alm de ver o movimento crescer e espalhar-se 
por sua cidade, teria agora de dar explicaes aos superiores. Logo ele, que era ferrenho opositor daquele novo sistema de pensamento, se via frente a frente com 
uma de suas fiis a passar para o lado deles. A idia o enchia de ira, que ele no disfarava. E diante do silncio de Ermnia, o bispo ordenou:
- Chame seus filhos. Queremos que saibam o que estamos fazendo e o porqu de nossa atitude.
Ermnia pediu:
- No gostaria de envolv-los nisso, no h necessidade!
- Chame-os. Eles tm o direito de saber de nossa boca o que est acontecendo.
Mariana, que do corredor ouvira tudo, entrou na cozinha:
- Pode deixar que eu chamo, me.
- Mariana, estava escutando a conversa?
- Depois que verifiquei que os meninos estavam bem, vim ver se precisava de mim, e no pude deixar de ouvir.
- Ento chame seus irmos - pediu o padre. 
Mariana saiu e em alguns segundos retomou com os quatro irmos. Assustados, todos aguardavam em silncio, de p um bem junto do outro. O bispo se levantou e disse 
solenemente:
- Meus filhos, hoje aconteceu algo muito triste a esta famlia. A me de vocs desertou da f catlica. Como todos devem saber, resolveu aderir a essa nova crena, 
que em breve h de se extinguir. Pois bem, assim procedendo, no nos deixou outra escolha que no excomungar a todos vocs...
- A todos no, bispo, por que isso? Deve punir somente a mim. Meus filhos no optaram por nada, so ainda muito jovens... Quem fez essa opo fui eu...
- Mas sabe que  chefe da famlia e vai influenci-los, com certeza, se  que j no o fez; portanto, no temos alternativa. Esto todos, desde agora, excomungados.
Diante do olhar perplexo dos cinco irmos, e das lgrimas que vertiam dos olhos de Ermnia, o bispo ergueu-se dizendo ao padre:
- Vamos, temos muito a fazer. Precisamos descobrir uma forma de frear a expanso desse movimento, que nos faz ver lares como este entregues ao mal...
O padre seguiu o bispo e se retiraram. Ao cruzarem a porta, Mariana gritou, indignada:
- Mentiu para mim, padre Enrico, vai nos prejudicar a todos!
O padre no respondeu. Apenas olhou para ela e saiu. Mariana prorrompeu em pranto. Alberto, o menino mais velho compreendia um pouco do que se passava. Aproximou-se 
da me e a abraou. Ermnia chorava copiosamente. Sabia o que os esperava, dali em diante. Quando a informao de sua excomunho chegasse at aqueles que compravam 
seus doces, obviamente no iriam mais ajud-la.
- No chore, me. Vamos dar um jeito em tudo, no chore, a abraou o rapaz, chorando em seus ombros. Mariana no se conformava:
- Est vendo, me, no que deu sua escolha? S vai trazer desgraa para nossa famlia. Devia ter dito que no acreditava mais em nada; voc teve a chance, ele avisou! 
Como pde fazer isso conosco? O que vai ser de ns? E o que vai ser da nossa alma? Vamos todos para o inferno! Para sempre!
- No diga isso, minha filha, que vai assustar seus irmos! Ningum vai para o inferno por pensar diferente da Igreja.
- Claro que vai, me, claro que vai! No compreende? Vamos todos para o inferno por sua causa. Por sua causa!
Mariana saiu da cozinha, chorando. Alberto ia atrs dela, quando a me o deteve:
- No, Alberto, deixe que ela v, precisa desabafar um pouco.  melhor.
E olhando para os filhos menores, que nada entendiam, disse acariciando o rosto dos trs:
- No se preocupem. Vocs confiam na mame, no confiam?
Os meninos concordaram com a cabea.
- Ento, Jesus h de nos proteger, h de nos dar tudo aquilo de que necessitarmos. Ele nunca nos abandonar, ainda que todos nos abandonem. Jesus estar sempre perto 
daqueles que confiam e buscam fazer o bem, conforme Ele ensinou.
Sem dizer mais nada, Ermnia abraou-se fortemente a Alberto, buscando energias para continuar acreditando. Dom Antnio e padre Enrico seguiram para a parquia e 
se trancaram em pequena sala, onde confabulavam:
- Precisamos tomar medidas eficazes contra esse movimento  afirmava o padre, enftico.
- Insistimos para que os sacerdotes, em todas as missas, realcem o perigo que essa mentira representa. E voc, na missa de hoje  tarde, dever anunciar a excomunho 
dessa famlia; no deixe para amanh. Quanto mais rpida e veementemente nossas decises forem comunicadas, mais intimidaremos possveis iludidos.
- Acato suas orientaes, que seguiremos  risca. Entretanto, insisto que alguma atitude mais vigorosa precisa ser assumida no ao de inibir essa seita que se alastra 
e - o que  pior - cresce e um poderoso homem de negcios que se interessa por princpios, ora  um intelectual de renome e influncia que a envolver por essa dita 
filosofia. Em outro momento, so assim, simples, que se entregam a suas prticas bizarras... a coisa precisa ser feita, depressa...
- No se atormente tanto, padre. Estamos falando com as autoridades e com todas as famlias mais poderosas. Contamos com o apoio da grande maioria, que mantm o 
juzo. Brevemente iremos adotar algumas aes que por certo detero os aventureiros. O povo tem de entender que essa  uma doutrina perigosa e perniciosa. Faremos 
com que entenda.
- Como se espalha to depressa? Nunca os vejo pregando em lugar algum, tampouco difundindo seus princpios. Apenas essas reunies...
- Mas as reunies atraem muita gente. Alguns gostam de ver as tais mesas que giram e falam, de ouvir os barulhos que fazem e as supostas manifestaes dos mortos. 
As pessoas, em todos os tempos, gostam do que  mgico, sobrenatural... Acima de tudo, e mais perigosos do que os outros atrativos, esto os livros...
- Os livros?
- Sim. So os livros que vm divulgando amplamente esses estudos diablicos.
- J os viu, Eminncia?
- Sim, tive alguns deles em mos. So perigosssimos.
- E por que so to ameaadores, visto que se trata de uma doutrina cheia de misticismos, charlatanismos e mentiras?
-  interessante, mas os livros apresentam tamanha lucidez e clareza filosfica tal que fazem deles um perigo, padre, um grande perigo...
- E o que faremos? Como vamos combater esse movimento que penetra em todas as reas?
- No obstante ser a disseminao dessa doutrina atravs dos livros sobremodo preocupante, tenha calma. Encontraremos um jeito de acabar com eles. Continue falando 
dos perigos crena, durante as missas. No  possvel que, diante das seqncias que atingem os que se deixam seduzir, muitos dem um passo atrs.
Os dois permaneceram algum tempo imaginando alternativas a serem adotadas para precaver os fiis dos riscos que o movimento esprita poderia acarretar. Ao se retirar 
o bispo aconselhou:
- Padre, caso essa mulher se arrependa, receba-a de volta.
- Como? Depois de ser excomungada, no posso faz-lo.
- Seja generoso. O povo gosta de demonstraes de bondade. Se ela o procurar, imponha muitas penitncias e a faa falar, publicamente, do engodo em que caiu. Que 
ela pinte com todas as tintas as cenas horrveis que viveu. Seu testemunho poder ajudar, se vier a se arrepender.
- Acho difcil. Viu que est firmemente decidida.
- O que acha que a faria desistir?
- No sei.
- Pense, padre. Pense em como poderia ajud-la a regressar ao aprisco...
E assim dizendo, o bispo partiu, deixando o padre a meditar sobre suas ltimas palavras. Aps longa preparao para celebrar a missa da tarde, o proco saiu de seu 
quarto  procura de Fernando. Verificou por toda parte e concluiu que o jovem no se encontrava na parquia. Chamando o ajudante, perguntou:
- Jos, onde est Fernando? Estou procurando por ele e no o acho em lugar algum. Fernando saiu logo depois do almoo e ainda no retomou.
- Disse para onde ia?
- No, padre. Esteve a manh inteira em seu quarto e no almoou. Perto das duas horas, saiu e disse apenas que no sabia quando voltaria.
O padre, contrafeito, saiu resmungando:
- Assim as coisas vo mal. O que pensa Fernando? Tem obrigaes! No pode abandonar seu posto e sumir pelo tempo e bem entende...
O rapaz ficou observando o padre, que caminhava afobado. Baixou a cabea e continuou preparando o material que seria utilizado nos trabalhos religiosos da tarde. 
Na manso, o relgio bateu cinco horas. Fernando estava sentado perto da janela, com uma xcara de ch nas mos. Filomena, em silncio, bordava delicadas toalhas 
para a festa. Os pensamentos do rapaz se espalhavam como as folhas que voam das rvores nas frias tardes de outono. Filomena largou o pequeno bastidor que utilizava 
para bordar e encarou o primo. Sua testa franzida e seu olhar srio no a estimularam a falar; baixou a cabea e retomou o bordado.
De repente, a casa grande e fria se encheu de movimento e de sons. Era Ricardo que chegava com Cntia. Ela, alegre e ruidosa, contava ao pai o quanto se divertira 
nos brinquedos, vendo as mgicas e tudo o mais. Quando entraram na biblioteca, a menina ficou ainda mais feliz:
- Tio Fernando! Estava com saudade.
Cntia correu para o primo, que, sem pensar duas vezes, colocou a xcara de lado e se levantou para peg-la no colo, como costumava fazer. Ento lembrou-se das feridas 
nas costas e se deteve.
- Que foi tio? - perguntou a garota ao v-lo descer os braos.
-  que no vou poder abraar voc hoje, pequenina. Estou com muita dor nas costas!
- O que houve? - perguntou ela com doura. 
Quase envergonhado, Fernando olhou-a e disse:
- Bobagens de adultos, querida. Fiz alguns trabalhos mais pesados, no me cuidei adequadamente, e agora estou com dores.
- Que posso fazer para ajudar, tio? - perguntou a menina ainda mais docemente.
- Nada, apenas sente-se aqui perto de mim e me conte como foi seu dia.
Filomena mal cumprimentou o irmo e a sobrinha. Continuou bordando. Alguns minutos depois, quando Cntia, empolgada, narrava suas aventuras da tarde, a tia disse:
- J chega Cntia, est bom, j entendemos que se divertiu bastante.
- Que maravilha!
Fernando reagiu:
- Ora, Filomena, deixe a menina falar. Que coisa! Conte, Cntia. O que mais?
Cntia ia prosseguir, porm de sbito seu rosto se apagou. O sorriso desapareceu e os olhos ficaram tristes. Sobre a mesa, ao lado da xcara de ch, ela viu pequena 
notcia com a foto da me. Levantou-se e, antes que o pai pudesse impedi-la, abriu o jornal e leu a matria.
- O que  isso, pai? Esto dando dinheiro pela minha me?
- No  bem isso, Cntia; ns s queremos encontr-la.
- E por que ningum me disse que ela havia sado daquele lugar?
- Ela no saiu; ela fugiu minha cara - disparou Filomena, mal-humorada.
Ricardo aconchegou a filha nos braos e disse:
- No queramos que voc ficasse triste, Cntia, s isso.
- No  verdade. Esto me escondendo as coisas. Onde pode estar minha me a esta hora? Como pode ter sumido? Onde ela est, pai?
- No sabemos filha, por isso estamos pedindo a colaborao de pessoas que tenham algo a informar. Entendeu?
- Aqui diz que ela  assassina e perigosa... No  verdade!
- Claro que  Cntia! Por que acha que... 
- Chega Filomena - interveio Fernando, com voz firme. E dirigiu-se  menina: Olhe Cntia, sua me est doente. Quando as pessoas, por alguma razo, ficam doentes, 
s vezes fazem coisas que no conseguem controlar. Foi isso que aconteceu  sua me.
- Como, doente? At o dia em que a levaram de nossa casa, estava perfeitamente bem. Eu passava o tempo todo com ela e nunca vi nada de estranho!
Fernando olhou para Ricardo pedindo reforo, mas foi Filomena quem respondeu:
- Vai ver voc tambm precisa de ajuda, por isso no percebe...
Fernando se ergueu bruscamente e pegou Cntia pela mo.
- Vamos andar um pouco. Voc gosta de caminhar pelo ptio, no gosta?
- No quero, tio - disse a menina, mantendo o corpo imvel e rijo, inconformada com a notcia.
- Vamos, querida, vamos conversar um pouco. Quero lhe contar algumas coisas que voc gostar da saber. Fique calma, logo encontraro sua me.
- Ah, isso  verdade, Cntia, vo localizar sua me, custe o que custar... - aduziu Filomena.
Fernando puxou Cntia e conseguiu que sasse com ele da biblioteca. Desceram as escadas imponentes da entrada da casa e ele, apertando a mo da menina, comeou a 
conversar com ela, que agora chorava.
- No chore, Cntia, vo achar sua me.
- Por que, tio? Por que fizeram isso com ela?  uma pessoa boa, nunca fez mal a ningum!
- No esto fazendo nada... - tentava disfarar Fernando, sentindo profundo mal-estar pelas palavras da menina.
- Ora, tio, por que vocs a prenderam?
- Ns?
- , todos vocs. Voc estava l naquela noite horrvel em que a levaram!
- Foi preciso, para o seu bem e o de seu pai. E tambm de sua me, que precisava de cuidados especiais.
- O que foi que ela fez, tio? - Cntia estacou e fitou Fernando com firmeza.
- Ela est descontrolada, com problemas emocionais, Cntia;  difcil para voc compreender.
-  porque ela  diferente, no ? Porque dizia coisas estranhas, tinha aquelas vises esquisitas; no  isso?
- Tudo o que se passava era sintoma da doena, dos distrbios emocionais que esto afetando sua me. Recebendo o tratamento adequado ela vai melhorar; tudo vai ficar 
bem, voc vai ver.
- Vocs pensam que me enganam, no ? Porm a verdade  mais forte do que tudo e vir  tona.
Fernando gelou ao ouvir as palavras da menina. O que significariam?
- Que verdade, Cntia? Do que est falando?
- De tudo que tentam encobrir, por medo de enxergar. 
Cada vez mais espantado com o que a menina dizia, bem como com o seu tom de voz, agora alterado, Fernando sentou-se em um banco a observ-la. Cntia calou-se e baixou 
a cabea, chorando inconsolvel. O jovem padre tentou de todas as formas alegr-la, mas percebeu que a garota sofria profundamente. Veio-lhe ento  mente a idia 
do proco de lev-la ao orfanato, e sem pensar muito convidou:
- Quer auxiliar outras pessoas, que sofrem como sua me? 
Cntia, pela primeira vez, ergueu os olhos e enxugando as lgrimas perguntou:
- O qu?
- Quer me ajudar no orfanato?
- Posso?
- Eu gostaria que me acompanhasse uma vez por semana e me ajudasse com as crianas. Muitas delas no tm me, Cntia.
- Como eu, tio.
- No, voc tem sua me. Algumas nunca viram as mes... Seu sorriso era terno ao comentar:
- Pobrezinhas... Gostaria muito de ir, tio. Ser que vou poder colaborar?
- Claro. Tem doze anos e j pode cuidar de pequenas tarefas. H muito que fazer por l. S precisamos convencer seu pai, Cntia. Ele no gosta muito desse tipo de 
trabalho. Nunca foi visitar o orfanato. Temo que no concorde, ns teremos de insistir.
- Deixe que falarei com ele, sei como pedir. Quantas crianas tm o orfanato?
- Quase cinqenta.
- Mesmo? E voc cuida de tudo sozinho?
- No conseguiria. Tenho alguns ajudantes. E como ajuda nunca  demais, ser bem-vinda.
Cntia imediatamente envolveu-se com a idia de acompanhar Fernando em suas tarefas. Continuaram o passeio, lenta e pausadamente. Ao retomarem, a menina estava mais 
aliviada e j no falava na me. Quando entraram e Ricardo a olhou, quase a perguntar como estava, a menina disse:
- Pai precisamos conversar.
Puxando-o pelo brao, subiu com ele para o quarto. Fernando ainda se demorou um pouco, mas quando dom Felipe e Isabel chegaram o sobrinho estava saindo. Cumprimentou-os, 
j na porta:
- Boa tarde tio Felipe, tia Isabel.
- O que est fazendo aqui a esta hora, Fernando? Tem de celebrar a missa das seis?
Fernando empalideceu. Esquecera por completo o compromisso.
- J estava de sada, tio.
- Em cima da hora. A missa comea em dez minutos!
- J estou indo. At logo, Filomena, at logo.
E saiu em passos rpidos. Seguiu ofegante pela estrada que ligava a propriedade do tio s terras da parquia. Quanto mais se aproximava, menos vontade sentia de 
rezar a missa naquela tarde.  medida que se afastava da manso do tio, foi desacelerando os passos at andar bem devagar. J era noite quando chegou  igreja. A 
missa havia acabado e os fiis se despediam do vigrio. Fernando entrou pela porta dos fundos e foi direto para seu quarto. No caminho encontrou Jos, que lhe informou, 
quase sussurrando:
- O padre est uma fera com voc! Muito bravo!
- Eu sei. Depois vou conversar com ele.
Dirigiu-se ao seu quarto pensando que precisava achar uma boa justificativa para dar ao clrigo. Mal o silncio se instalara no ptio da parquia, ouviu-o bater 
 porta.
- Entre, padre.
- Onde esteve, meu filho? Desertou de suas tarefas?
- No, de maneira alguma. Estava tentando conversar com meu tio, pedir-lhe ajuda para impedir o avano desse movimento que nos afronta.
Padre Enrico esboou leve contentamento e puxando uma cadeira, prxima  cama, perguntou interessado:
- E o que conversaram? Teve ele alguma idia?
- Conversamos longamente. Contei que pouco a pouco nossos fiis comeam a aderir  nova doutrina.
Nesse momento, Fernando recordou o caso que o padre lhe contara pela manh, e perguntou:
- E a famlia que foi visitar? Como ficaram as coisas?
- Todos excomungados.
- Todos? A famlia inteira?
-  a famlia de Ermnia, lembra-se dela? Ficou viva h dois anos.
- Como no?  uma mulher dedicada... Logo ela, padre?!
- V, meu filho, como o perigo est em toda parte? 
Fernando ficou pensativo, e ento arrematou:
- Enfim, que sejam mesmo excomungados, pois se abandonam a f o que se h de fazer?
- No se trata s de abandonar a f; esto tambm dando pssimo exemplo aos outros. Tenho de achar algum modo traz-los de volta. Precisa me ajudar, Fernando.
- Como?
- No sei, mas urge pensar em algo. Temos de forar Ermnia a retomar.  muito ruim para nossa reputao junto s autoridades eclesisticas que fiis sob nossa responsabilidade 
comecem a nos deixar, aderindo a esse movimento efmero. Durante a missa das seis notifiquei a comunidade de que toda a famlia foi anatematizada. 
- Espero que isso intimide os incautos e distrados.
- Por certo o fato causar muitas dificuldades  famlia perante a comunidade.
- Tambm penso assim; no entanto, precisamos intensificar essas dificuldades. Temos de estimular as pessoas a se posicionarem em relao a eles.
Fernando refletiu um pouco, porm estava sem nenhuma vontade de pensar naquele assunto. Sentia as costas doloridas e o corao entristecido dever o sofrimento de 
Cntia. Desejando descansar o corpo e a alma, calou-se. O padre, ante o seu silncio, levantou-se e quando na porta, j do lado de fora, disse:
- Pense em alguma coisa, Fernando. Sua mente  muito criativa, sobretudo quando se trata de proteger sua famlia. Use agora a mesma criatividade para proteger a 
Igreja...
Sem responder, Fernando fechou a porta e deitou-se de bruos. Sabia bem do que o padre falava. Tinha de pensar em algo... Na pequena casa  beira-mar, Emilie passava 
os dias em silncio, sentada na varanda, com os olhos lacrimosos e o corao amargurado. As noites continuavam agitadas. Ainda assim, gradativamente ela melhorava, 
sem perceber. No notava, mas a idia de buscar a prpria morte comeava a enfraquecer. Com a justificativa de que a jovem precisava se recuperar, Lucrcia a mantinha 
o mximo possvel escondida dentro de casa, evitando que caminhasse pelos arredores. Receava que algum a visse e os denunciasse. Naquela manh, Jairo chegou da 
provncia ofegante. Mostrava-se ainda mais preocupado:
- Veja Lucrcia, a situao se complica.
Emilie, sentada junto ao fogo, sequer levantou a cabea.
- O que foi, Jairo?
- Olhe voc mesma.
Jairo entregou  esposa um panfleto que recebera no emprio, onde o proprietrio comentara minuciosamente o assunto com ele. Lucrcia empalideceu ao ler. Olhando 
de relance para Emilie, perguntou: - O que vamos fazer?
Jairo olhou srio para a jovem, que permanecia alheia tudo, e disse:
- Venho alertando que a situao  grave, Lucrcia, e voc no me ouve!
Ela encarava o marido sem saber o que dizer. Fitou Emile que dessa vez, como se retomasse distrada de algum lugar distante, perguntou:
- O que se passa?
Jairo, em tom spero, comeou:
- O que se passa...
E antes que a mulher pudesse impedi-lo, entregou o panfleto a Emilie, que displicente se ps a ler.
- Calma, Jairo, vamos achar uma sada - ponderou Lucrcia, preocupada com a reao da jovem.
Emilie, ao terminar de ler, plida e quase sem voz, balbuciou:
- Esses... esses...
- Por favor, tenha calma - pediu Lucrcia, quase suplicante.
- Eles querem me destruir. No me deixam em paz! Olhe para isto! Vendendo-me como se fosse uma mercadoria! Eles querem acabar comigo! No poderei fugir para sempre. 
 melhor morrer do que voltar para aquele lugar, onde estava at esquecendo quem sou... Estava enlouquecendo de fato. No vou voltar para l! Prefiro morrer!
Levantou-se bruscamente, largou o papel e saiu correndo em direo  praia. Lucrcia foi atrs, mas Emilie andava to depressa que era difcil alcan-la. A mulher 
dobrou o esforo ao v-la entrar no mar, tentando ir para o fundo, cada vez mais para o fundo. Jairo vinha logo depois, preocupado com a esposa, que no sabia nadar. 
Parecendo ignorar esse fato, ela entrava cada vez mais, seguindo Emilie, que j tinha gua at a cintura. Uma onda mais forte a encobriu. Emilie perdeu o equilbrio 
e caiu sob o impacto da vaga. Lucrcia correu ainda mais quando viu a jovem desaparecer sob a onda e, sem pensar, mergulhou atrs dela. Jairo assistia a tudo estarrecido. 
Gritava desesperado que Lucrcia recuasse, voltasse, e em vo procurava alcan-la. Quase sem foras, ficou completamente surpreso ao avist-la nadando em sua direo 
e trazendo Emilie agarrada por um brao, desacordada. Lucrcia nadou at quase a praia. Jairo falava com ela, que no respondia, como se ignorasse sua presena. 
Colocou Emilie com gentileza sobre a areia e verificou-lhe a respirao. Vendo que no respirava, imediatamente virou-a de bruos e comeou a massagear a regio 
do pulmo, com tal vigor que assustou Jairo. Ele no conseguia fazer nada; estava paralisado diante da preciso com que a esposa agia, especialmente por saber que 
ela desconhecia qualquer princpio de salvamento. Aps alguns fortes apertes sobre o peito, Emilie comeou a tossir, expelindo a gua dos pulmes, e em seguida 
voltou a respirar normalmente. Lucrcia pegou-a no colo, como a uma criana, e ainda sem dizer nenhuma palavra reconduziu-a para a pequena casa. L, vestiu-lhe roupas 
secas e deitou-a na cama. Emilie, que tremia intensamente, foi aos poucos se acalmando at adormecer. Lucrcia permaneceu ao seu lado e quando a viu dormindo sentou-se 
perto do fogo para tambm aquecer. Abaixou a cabea e comeou a tremer. S a olhou surpresa para Jairo, que tudo acompanhava sem dizer nada.
- O que houve, Jairo? No estvamos atrs de Emilie? - indagou, observando a jovem que dormia.
- Voc no se lembra?
- Do qu?
- De tudo o que se passou. 
- E o que se passou, afinal?
- Isso que acontece s vezes com voc  realmente incrvel!
- Aconteceu de novo?
- Voc correu atrs de Emilie, que entrou no mar e, perdendo o equilbrio, quase se afogou. Alis, j estava afogada. Voc mergulhou, nadou, tirou-a do mar, socorreu-a 
na praia com procedimentos que nem eu conhecia, e trouxe-a nos braos at aqui. No se recorda de nada?
- No.  como se tivesse desmaiado. Lembro-me apenas de ter sado atrs dela pela praia.
Emilie balbuciou algumas palavras e Lucrcia correu at a beira da cama para ouvi-la:
- Por que fez isso?
- No pode morrer, Emilie!
Lucrcia ps-se a acariciar os cabelos e o rosto da jovem. Lgrimas desciam pela sua face, incontrolveis, enquanto a outra procurava consol-la, dizendo:
- Emilie, querida, tenha f. Tudo h de se resolver. Deus no vai permitir que seu sofrimento dure para sempre. Tenha confiana. Seja l o que for que lhe aconteceu, 
tenho certeza de que h pessoas que se importam com voc, que a amam! Sua filha e outras pessoas! Elas amam voc! No pode desistir assim da vida, quando h tanto 
a ser realizado!
- Voc no entende... Eles querem me destruir - Emilie balbuciava.
- Quem, Emilie? Seus familiares?
- No! Eles... - e a jovem gesticulava, apontando para o ar. Lucrcia olhou em volta e imediatamente percebeu que Emilie via entidades espirituais que estavam ali.
- Ningum pode mais do que Deus, Emilie. Ele  soberano. Confie no Pai. Pea que a ajude!
- Ele no me ajudou quando eu mais precisei...
- Como no? Ele a est ajudando a todo momento, voc  que ainda no percebeu isso...
Os olhos de Emilie demonstravam o terror que lhe provocavam as imagens que via. Lucrcia baixou a cabea e comeou a orar, enquanto a moa apenas chorava, assustada:
- Mestre Jesus, que nos inspiras e nos ajudas. Irmo de todas as horas, de todas as lutas. Tu que sofreste mais do que todos ns, que conheces as dores do abandono 
e da ingratido, da rebeldia e do desprezo humanos, Tu que mantiveste Teus braos abertos e Teu amor distribudo para todos os que sofrem, para todos os que de Ti 
necessitam, d-nos a bno da Tua proteo nesta hora. Ampara esta irm que sofre angustiosa dor. Mostra a ela, Senhor, Teu amor infinito, e que ela possa, sob 
a Tua orientao, comear nova vida. Ajuda-nos, Senhor, para que possamos compreender Teus ensinamentos que so vida e luz para nossa
s almas. Jairo, comovido, acompanhava a sentida orao. Ao final, lgrimas desciam pela face da mulher. Quando ergueu a cabea, constatou que Emilie dormia sossegada. 
Suspirou aliviada e olhando para Jairo, que tambm tinha lgrimas nos olhos, estendeu as mos para o companheiro, que a abraou com ternura.  Emilie dormiu durante 
toda a tarde e a noite inteira, acompanhada constantemente pelo carinho desvelado de Lucrcia. Na manh seguinte, bem cedo, ao se levantar a dona da casa a encontrou 
sentada na cama. Assim que a viu, a jovem perguntou:
- Quem mais esteve aqui ontem  noite? Aquelas pessoas horrveis, quem eram e o que queriam comigo?
- Como se sente, Emilie?
- Pssima!
- Mas com a graa de Deus est viva!
- Graas a voc, mais uma vez!
- No, graas aos espritos superiores que nos amparam.
- Que espritos? Do que est falando?
- Dos emissrios de Jesus, que nos amam, nos assistem e nos protegem sempre.
Emilie continuou olhando para Lucrcia e ela prosseguiu:
- Eles querem o nosso bem, Emilie, somente o nosso bem.
- Quem so "eles"? Aquelas pessoas que vi aqui  noite? Vieram para me buscar, no ? Para onde foram?
- Alm de voc, Jairo e eu, no havia mais ningum aqui ontem, Emilie.
- Eu os vi! Eram quatro: dois homens e duas mulheres. Gritavam comigo dizendo que iam me levar embora, que iam me destruir.
- J disse que estvamos apenas ns trs aqui.
- E o que foi aquilo que vi? Estou ficando louca? Estava delirando?
- Provavelmente no.
- Ento quem eram?
- Alguns irmos que ainda no compreenderam o amor de Deus.
- O qu?
- Existem muitas coisas que nos acontecem para as quais no temos explicao. Como so coisas que vo alm do que conhecemos, precisamos buscar outros conhecimentos 
que nos esclaream esses fenmenos.
- Que fenmenos?
Jairo, que havia entrado na cozinha e acompanhava a conversa, respondeu:
- Voc estava se afogando, Emilie, e Lucrcia, que no sabe nadar, entrou no mar e a salvou.
- No foi ela quem a salvou. Algum se utilizou dela para dar socorro a voc.
- Como assim? Do que esto falando?
Lucrcia sentou-se ao lado de Emilie e disse:
- Voc acredita que existem pessoas boas querendo ajud-la?
- No, todos querem me destru... - Emilie interrompeu-se. 
Pela primeira vez percebeu o quanto aquele casal a estava ajudando. Eles queriam realmente v-la melhor. No pde terminar a frase. Caiu em pranto e soluava, sentida.
- Sei que est magoada e triste. Mas se tiver f e pacincia Deus vai mostrar a voc o que precisa saber e fazer para recomear sua vida.
- Deus no se importa comigo! - os soluos da jovem aumentavam com as palavras de Lucrcia.
- Claro que se importa! Ele sempre cuida de ns.
- Ento por que sofro tanto? Por que tanta injustia? Por que meu mundo desmoronou e todos que eu amava me abandonaram? Explique-me, por qu?
- No temos todas as respostas, mas Deus sempre sabe o que faz. Preste ateno e veja como ele cuida de voc! Se no fosse a interveno divina, j estaria morta 
e teria perdido a oportunidade.
- Que oportunidade? De continuar sofrendo?
- Da vida, Emilie, da vida! Voc est aqui por alguma razo! Tudo em nossa vida tem um significado. Tudo o que est acontecendo a voc tem um motivo que, com pacincia 
e f, um dia entenderemos. Deus est dando chances a voc, Emilie, aproveite!
Ela suspirou profundamente e disse:
- O que posso fazer? Ele nem sequer me deixa morrer!
Lucrcia percebeu o olhar de reprovao de Jairo, mas nada acrescentou. Entregou-se aos afazeres domsticos, deixando Emilie novamente prostrada na cama. Enquanto 
Lucrcia se movimentava para todo lado, cuidando da casa e ajudando o marido na limpeza do pescado, Emilie apenas observava, calada. No final da tarde ela se levantou 
da cama e caminhou at a porta. Lucrcia estava sozinha na pequena varanda; trabalhava cantarolando suave melodia. Emilie permaneceu encostada na porta. Sentiu o 
vento frio que vinha do mar e por um momento experimentou pequeno alvio, em meio s Angstias que trazia no corao. Contemplava a cena. Lucrcia, mulher simples 
e rude, trabalhando alegre e calma; o emudecer lindo e luminoso; as rvores que balanavam com suavidade  brisa do mar. Tudo aquilo fazia brotar em seu corao 
um sentimento de paz, de serenidade que h muito havia esquecido. Devagar, caminhou at Lucrcia, que ao v-la sorriu sinceramente feliz:
- Sente-se aqui venha. O entardecer  maravilhoso. Gosto de assistir ao pr-do-sol, aqui da minha mesa de trabalho.  de uma beleza to suave... Lembra minha terra...
Emilie sentou-se e perguntou:
- De onde voc ?
- Nasci em Marrocos, amo esta terra. S s vezes sinto saudade do cheiro do mar que l era diferente.
- Ento tambm  uma estrangeira, como eu?
- V? Quanta coincidncia, no, Emilie?
Lucrcia sorriu e continuou trabalhando. Emilie ficou a olhar em silncio o sol que se punha lentamente. Lucrcia, de quando em quando, levantava sorrateira os olhos 
do trabalho e notava satisfeita que a beleza da natureza fazia bem  jovem, alimentando-a de energia, ainda que ela no se desse conta disso. Finalmente o sol se 
escondia e Lucrcia comeou a limpar todos os apetrechos que usara, Arrumando-os para serem guardados. Emilie, que observava sua atividade, quase sem perceber ps-se 
a ajud-la a guardar facas e outros talheres, acompanhando-a depois, quando iniciou a preparao do jantar. Nos dias que se seguiram, Emilie passou a colaborar com 
Lucrcia em pequenas tarefas domsticas. Logo que acordava, via a dona da casa chegar da praia, carregando um livro. Diariamente, no mesmo horrio, ela entrava com 
o pequeno livro nas mos. Ento o colocava numa prateleira e comeava seus afazeres. Naquela manh, mais de um ms depois de ter sido encontrada no penhasco, Emilie 
estava visivelmente mais animada. Levantou-se e j arrumou a cama, do jeito que Lucrcia fazia. Preparava-se para ajud-la com o caf quando Jairo entrou, agitado 
e ofegante. Apavorado, dizia:
- Temos de esconder Emilie.
- Acalme-se, Jairo. O que est havendo?
- Temos de escond-la depressa.
- Por qu?
- Esto vindo a... A polcia, com aquele mdico! 
- O doutor Francisco?
- Ele mesmo. Est acompanhado de um homem todo elegante, vestindo terno, e de outro com um uniforme que parece da polcia. 
Lucrcia pensou por segundos e perguntou:
- A que distncia esto da casa?
- Ainda esto descendo a encosta, mas rapidamente nos alcanaro.
Emilie chorava angustiada e j tremia, quando Lucrcia segurou suas mos, olhou-a nos olhos e disse:
- Nada vai lhe acontecer.
- Eles vo me levar de volta para aquele lugar horrvel! Vo me levar...
- Ningum vai levar voc daqui. Confie em mim. Olhe em meus olhos. Vamos, olhe.
Emilie fitou os olhos negros e profundos de Lucrcia e sentiu nova fora a envolv-la. Sem dizer nada, secou as lgrimas e perguntou, hesitante:
- O que vamos fazer?
- Vou escond-la.
- Onde? No temos lugar algum...
- Temos, sim. Embora v ser muito desconfortvel para voc, Emilie,  um lugar em que no acredito que iro encontr-la.
- Onde?
- Lanamos os restos de peixes em um buraco mais ou menos fundo. Ficam ali para secar e servir, depois, de adubo. Sabe onde fica o buraco?
- Sim,  atrs da casa...
- Ento v para l imediatamente. O cheiro  forte, muito desagradvel, e o lugar  apertado. Esconda-se embaixo dos restos de peixe e no faa nenhum barulho, nem 
para respirar. Confie em mim. Eles no a acharo ali;  o nico lugar seguro.
Levando a jovem at o pequeno quarto do casal, Lucrcia abriu a janela escondida entre arbustos, e disse:
- Por aqui, rpido. Saia pela janela e esconda-se. A tbua que cobre o buraco  leve, voc consegue mov-la sozinha. E no saia de l enquanto no for busc-la. 
Est certo? Compreendeu? No chore, no tema, por favor. Tudo vai dar certo, Emilie, tenha f.
O tom de voz de Lucrcia era agora suplicante; porm seus olhos, brilhantes e firmes, transmitiam algo a Emilie que a fazia obedecer. Ela balanou a cabea e, sem 
dizer nada, saiu pela janela. Minutos depois, o mdico estava na porta da cozinha, junto com outros dois homens. Lucrcia e Jairo tomavam o caf da manh, aparentando 
absoluta tranqilidade. Ao v-los, Lucrcia se levantou e saudou, cordial:
- Doutor Francisco, como est? Entre, por favor.
- Vou direto ao assunto - disse o mdico olhando ansiosamente em tomo, como  procura de algum -, queremos saber o paradeiro de Emilie.
- So da famlia dela? - interrogou Lucrcia, encarando os outros dois, muito interessada.
- Onde ela est?  verdade que foi embora? - disse o mdico e fixou Lucrcia, desconfiado.
Esta, controlando o tom de voz, disse suavemente:
- De fato ela esteve aqui, mas j partiu. Encontrei a pobrezinha quase morta no alto do penhasco. Por certo ia atirar-se de l.
Enquanto detalhava como a havia encontrado, observava a ateno dos estranhos que acompanhavam Francisco. Contudo, o mdico interveio depressa:
- J sabemos de tudo isso, dona... No me recordo de seu nome...
- Lucrcia, ao seu dispor - e estendeu a mo a um dos cavalheiros, que correspondeu, apresentando-se:
- Sou Ricardo, marido de Emilie. Precisamos encontr-la, ela no est bem.
- Percebi logo que o senhor tinha alguma ligao com a jovem.
Ricardo perguntou, intrigado:
- Como assim?
- Apenas uma impresso, nada mais.
- E ento, onde ela est?
- No est mais aqui conosco.
Foi o outro homem quem falou dessa vez:
- Olhe, minha senhora, no temos tempo para conversas. A senhora vai responder pelo que fez. Recebeu em sua casa uma assassina perigosa.
- Perdoe-me, senhor: at onde sei ela no matou ningum; e mais ainda, eu a trouxe para c desacordada, quase morta. No a conhecia. Logo que chegou caiu doente, 
como o doutor Francisco sabe, e s descobrimos quem era quando ele nos contou. Ao melhorar um pouco, tencionvamos envi-la para um hospital; contudo, to logo foi 
capaz de se colocar de p a moa quis partir. No conseguimos segur-la nem convenc-la a procurar ajuda.
- E por que no avisaram a polcia, se j sabiam que era uma pessoa procurada pela justia?
- Ficamos penalizados com o estado dela; se fosse removida para um hospcio, naquelas condies, certamente morreria. No dia em que mandamos recado ao doutor informando 
que iria para um hospital, ela desapareceu. Naquela tarde, quando retomamos da vila, j no estava aqui. No sabemos para onde foi. Ainda estava muito doente e s 
falava da filha...
Dando essas explicaes, Lucrcia avaliava as mnimas reaes de Ricardo.
- Mesmo assim, vamos revistar tudo; no estou acreditando no que me dizem - exclamou o policial, com ar autoritrio.
- Fiquem  vontade. Podem procurar onde quiserem; alis a casa  pequena, vo verificar tudo rapidamente.
Sem responder, o policial foi at o quarto, abriu o nico armrio, espiou sob a cama; olhou para o teto,  procura de algum esconderijo, mas viam-se as telhas e 
as pequenas fendas no telhado. Era uma casa extremamente simples. Apesar de Ricardo guardar silncio, Lucrcia percebia em seus olhos que ele desejava perguntar-lhe 
mais sobre a esposa. Francisco permanecia sentado na cadeira que puxara, prxima ao fogo. Parecia inquieto. Logo o policial reapareceu.
- Aqui, nada. Vejamos do lado de fora. Pode haver um lugar onde ela esteja escondida.
Jairo, calado, s observava. De sbito o policial dirigiu-se a ele:
- Venha comigo. Mostre-me o que tem por a.
Sem olhar para a esposa, ele saiu em companhia do policial. Comeou mostrando o barco, que estava ancorado perto da praia.
-  seu?
- Sim. Vivo da pesca.
- E por que hoje no foi pescar?
- Porque amos  vila, eu e minha esposa.
- Vamos at o barco.
Jairo conduziu o policial em pequeno bote at o barco. Aps breve busca, retomaram. Francisco e Ricardo, agora do lado de fora da casa, esperavam pelos dois. Ao 
chegarem, Ricardo disse:
- Vamos, Pimentel. Ela no est mais aqui. No h como escond-la neste lugar.
- Calma, Ricardo, ainda quero examinar as imediaes. Pode haver algum pequeno esconderijo para a fugitiva...
Ricardo no respondeu e evitava olhar para Lucrcia, que mantinha silncio. Antes de prosseguir, o policial disse a ela:
- Devia estar mais preocupada. Est com problemas, minha senhora. Dar guarida a assassinos  crime. Vo ter de enfrentar as conseqncias.
- No fizemos nada de errado. Como j disse, nem sabamos quem era a jovem.
- E quando souberam, nada fizeram!
- No deu tempo. Ela fugiu muito mais rpido do que imaginvamos.
Nesse ponto Francisco interferiu, irritado:
- Chega de conversa, Pimentel, se quer ach-la precisa procurar! Tenho muito que fazer. Vamos logo com isso!
Ricardo olhou para o mdico e disse:
- Se a reconheceu quando a viu, por que levou tanto tempo para me avisar? Por que no o fez de imediato?
- Assim que soube me preparei para lhe escrever, Ricardo. No entanto, tive problemas srios na provncia, uma epidemia de gripe se alastrou. Houve vrios bitos, 
pergunte a Pimentel. Ficou difcil avis-lo. Mas logo que pude fui v-lo e informar onde ela estava. Tnhamos tambm de ser discretos, para que no fugisse.
Seguido de Jairo, o policial procurava em todo lugar. Caminharam para longe do casebre e depois regressaram vasculhando os cantos em que era possvel algum se esconder. 
Ao se aproximarem da casa, quando o oficial j se preparava para encerrar a busca, viu a tbua cobrindo o buraco e perguntou:
- O que  isso?
-  onde jogo os restos dos peixes que limpo. Minha esposa gosta de cultivar plantas e prepara estreo bem forte com as carcaas.
- Abra, quero ver.
Jairo se abaixou, fazendo muito barulho  medida que movia a tbua. O policial acercou-se do buraco, deu uma olhada rpida; como o cheiro era insuportvel, afastou-se 
e disse:
- Feche! No tem ningum a.
Jairo tampou o buraco e foi atrs do oficial, que ao se acercar dos outros admitiu:
- Parece que ela no est mesmo por aqui. 
Ricardo falou, quase sem perceber:
- No, no est. Se estivesse, sentiria seu cheiro...
- Ento vamos - afirmou Francisco, puxando Ricardo pelo brao.
- Calma, senhores, o que faremos com estes dois? Eles devem vir comigo!
Olhando ironicamente para Lucrcia, Francisco opinou:
- Tenho idia melhor: coloque um guarda por aqui, bem na porta do casal. Se ela resolver voltar, ns a pegamos.
- No posso deixar um de meus poucos homens aqui, dia e noite! Vou notificar as autoridades e venho busc-los para serem interrogados.
Dirigiu-se depois a Jairo e Lucrcia:
- Vocs tero de se entender com a justia.
Estavam de partida quando Ricardo virou-se para Lucrcia e perguntou:
- Ela disse alguma coisa a meu respeito?
Lucrcia segurou a mo do jovem e respondeu baixinho:
- Ela o ama, com certeza, e seria incapaz dos atos de que a acusam.
Ricardo puxou a mo e retrucou:
- Devia ter pensado nisso antes de fazer o que fez! 
E dessa vez, sem olhar para trs, subiu a encosta com os outros dois. Assim que desapareceram ao longe, Jairo seguiu-lhes o trajeto, certificando-se de que haviam 
partido. E foram imediatamente retirar Emilie do buraco de detritos. Puxaram a tampa e no a viram. Lucrcia chamou:
- Pode sair, Emilie, eles j foram.
Do meio de uma montanha de detritos, Emilie emergiu imunda. Puxada por Jairo e Lucrcia, conseguiu sair. Estava com odor repugnante e tossia muito. Lucrcia ia preparar 
gua para o banho, quando Jairo disse:
-  melhor que tome antes um banho de mar. 
Lucrcia conduziu a jovem at o mar e depois a amparou no banho quente e reconfortante. S ento ela teve condio de falar:
- Ricardo estava com eles, no estava? Ouvi sua voz.
- Estava.  um homem muito bonito.
- E igualmente cruel! Como pde acreditar que eu queria fazer algo contra ele? Como pde?
- Na maioria das vezes nos deixamos convencer pela aparncia das coisas.  por isso que inumerveis so nossos enganos. Se no procuramos a verdade, acima de tudo, 
podemos nos enganar com muita facilidade. Mas pelo pouco que pude notar, ele ainda a ama.
- O qu?
-  verdade, ele ama voc. Pude perceber nos seus olhos. 
Emilie, ao encarar Lucrcia, lembrou-se do olhar confiante que a fizera crer que poderia escapar mais uma vez, e perguntou:
- Como sabia que conseguiria escapar se me escondesse?
- Apenas sabia, sentia. Como se algum me dissesse ao ouvido. 
Emilie continuou olhando fixamente para Lucrcia e por fim disse:
- Voc  uma pessoa estranha, Lucrcia. Muito estranha... 
Enquanto repunha gua pela quinta vez para tentar amenizar o odor forte que se impregnara na pele de Emilie, ela respondeu:
- Acho que esse  o maior elogio que ouvi de voc desde que chegou aqui. Estamos progredindo! E esse cheiro que no passa...
Pela primeira vez em meses, Emilie abriu um largo sorriso e disse:
- Acho que esse cheiro no vai passar nunca mais!
A famlia Valena estava reunida para a primeira refeio do dia. A primavera chegara e da janela da sala Cntia observava com olhar melanclico as folhas verdes 
das rvores que balanavam ao sabor do vento. Sua mente infantil no encontrava explicao para o que ocorria com a me, com sua famlia. Ela percebia que o pai 
tambm no estava feliz. Sentia, sem compreender exatamente, que Emilie estava em perigo e precisava de ajuda. Isabel, que notara o abatimento do filho, no resistiu 
a comentar.
- Vejo que est acabrunhado desde ontem, Ricardo. O que aconteceu, afinal? Encontrou ou no E... 
Ele fez sinal para que a me se calasse. No queria que titia sofresse; por isso pedira  famlia que evitasse tocar no nome de Emilie na frente dela. Isabel se 
conteve, visivelmente contrariada. Seguiu-se curto silncio.
Ricardo fixou a filha, que remexia um pedao de po sem com-lo, e pediu:
- Por favor, Cntia, deve se alimentar. H dias no come direito. Sua tia tem me falado de sua indisciplina s refeies.
Cntia permanecia de cabea baixa. Ricardo, sentado ao seu lado, tocou gentilmente o queixo da menina e levantou seu rosto. Viu lgrimas em seus olhos e falou em 
tom suplicante:
- Minha filha, que fao com voc? Est chorosa h dias!
- Deixe-me ir com tio Fernando ao orfanato. Sei que ser bom para mim, pai, eu gostaria muito!
- J expliquei que no  coisa para voc, minha filha. O lugar  muito triste, cheio de crianas infelizes! No  lugar para a princesinha do papai! Uma mocinha 
como voc precisa conviver com crianas de sua condio social e no ficar enfiada num orfanato!
Nesse momento, Isabel, que ouvia calada, interveio:
- Ora, Ricardo, se a menina tem vontade, por que no a deixa ir? Que mal pode haver em conhecer o orfanato?
- Mas ela quer acompanhar Fernando todos os dias!
- No, pai, no todos os dias, somente uma vez por semana! 
- Ora, Ricardo, deixe-a ir ao menos uma vez. Quem sabe ela no tem mesmo vocao para servir...
- Isso nunca, me! Ela  uma menina muito inteligente e haveremos de prepar-la muito bem. Ter a educao mais primorosa que eu lhe puder proporcionar!
Isabel silenciou por um breve minuto, depois insistiu delicadamente:
- Ora, no vejo mal algum em conhecer o lugar. Ao menos visitar...
Cntia concordou, pedindo com voz suplicante:
- Por favor, pai, isso me deixar muito feliz!
Ricardo olhou para a me, tentando identificar-lhe as intenes ocultas, depois para a irm, que se mantinha cal Examinou o pai, que parecia distante, e por fim 
fixou bem rosto da filha, que continuava a suplicar com os olhos. Apesar de contrafeito, respondeu:
- Est bem, pode conhecer o lugar. Mas quando voc voltar vamos conversar sobre sua visita. E quero falar com Fernando tambm, conhecer melhor as intenes dele.
O assunto ainda era o mesmo quando Fernando apareceu, juntando-se aos primos e aos tios no desjejum. Assim que terminaram, Ricardo levou o primo at a biblioteca 
e ali o informou de que deixaria Cntia acompanh-lo naquele dia. Quis saber mais sobre o orfanato e sobre as atividades que desenvolvia; Fernando explicou tudo, 
solcito. Ao sarem, Ricardo disse  menina:
- Muito bem, v com Fernando, e lembre-se: logo que voltar, quero saber tudo com detalhes.
Cntia sorriu, concordando. Beijou o pai com carinho e saiu satisfeita em companhia de Fernando. Vendo-os afastar-se, Isabel perguntou a Ricardo:
- Agora que a sua princesinha saiu, pode me contar por que est to cabisbaixo? Teve notcias dela?
- Tive.
Filomena ergueu a cabea curiosa:
- E onde est, j sabe?
- Ela escapou novamente.
- Como, escapou? - indagou a irm, fitando-o. 
Ricardo suspirou angustiado e por fim falou:
- Esteve na casa de pescadores, porm foi embora. Parece que ficou gravemente doente e quase morreu.
Filomena olhou para a me, que tambm lhe endereou ar significativo, compreendendo ambas que ele ainda se importava muito com a esposa. Felipe se interessou:
- E esses tais que a acolheram no sabem para onde foi? 
- Disseram que ao melhorar um pouco desapareceu. 
- Quem so essas pessoas?
- Gente simples, pai, pescadores.
- Sabiam que ela  uma fugitiva?
- Souberam quando Francisco a visitou.
- Ento foi Francisco que a encontrou?
- Sim, foi ele quem cuidou dela e me trouxe notcias sobre seu paradeiro.
Felipe sorriu irnico e disse com desdm:
- Esse Francisco no perde uma chance sequer de levar alguma vantagem da situao...
Ricardo ficou pensativo, e ento o pai falou:
- Onde essa gente vive?
-  beira-mar, prximo a San Sebastian.
Filomena, que atentamente ouvia a conversa, perguntou:
- Quando fugiu do sanatrio no conseguiu ir muito longe, no ?
- Parece que no. Contudo, agora no sabemos onde est. 
Filomena insistiu:
- Ser que no sabem de nada mesmo? Ela deve ter dito alguma coisa sobre seus planos! Para onde poderia ter ido sem dinheiro, sem nada? Estaria tentando voltar  
Frana?
- Precisamos encontr-la - disse o pai. Nossa festa se aproxima, e sua me me chamou a ateno sobre a possibilidade de Emilie resolver vir at aqui e empanar o 
brilho da celebrao. Mais uma coisa, Ricardo: essa gente deve pagar por ter dado proteo a uma assassina.
- Disseram que logo que souberam quem era, ela desapareceu. No vejo necessidade de sofrerem represlias, pai; so pessoas simples, vamos deix-los em paz.
- De modo algum, Ricardo! Muito me surpreende voc, sabendo do perigo que correu ao lado dessa mulher desequilibrada, ser complacente com aqueles que a acobertaram.
- Eles no sabiam de nada.
- Quero que sejam investigados.
- O Delegado estar cumprindo com todos os procedimentos legais.
- Pois muito bem, quero que me mantenha informado sobre o andamento dessas investigaes. Quero ter certeza do que realmente aconteceu.
Ricardo acatou a ordem do pai e a conversa derivou para temas mais leves. Naquela noite, aps refazer-se do susto, Lucrcia conversava com Emilie:
- Penso que doravante precisaremos ser mais cautelosos. A jovem perguntou, irreverente:
- Est com medo, Lucrcia?
A amorosa mulher sorriu e disse com suavidade e ternura:
- No  medo, e sim precauo, inteligncia. Sabemos que daqui em diante estaro de olho em ns e, no mnimo, temos de redobrar os cuidados. E precisaremos achar 
a melhor maneira de esconder voc. Vamos ter de encontrar depressa na sada para proteg-la.
Emilie ficou quieta; Lucrcia virou-se do labor no fogo e perguntou:
- Embora ainda esteja triste e magoada, voc me parece ligeiramente mais disposta.
-  verdade, sinto-me um pouco mais calma, em especial depois do que voc me disse a respeito de Ricardo. Talvez ele tenha tanta culpa em tudo o que aconteceu.
- Gostaria que me contasse mais sobre o que houve, mas somente quando se sentir preparada.
Dessa vez Emilie apenas sorriu. Lucrcia terminou de fazer o jantar e quando Jairo chegou sentaram-se os trs  pequena mesa. Lucrcia, ento, informou Emilie de 
que sairia naquela noite:
- Desde que voc chegou, doente e fraca, estive afastada de algumas tarefas importantes para mim. Agora que est melhor, posso voltar s minhas responsabilidades.
- Que tipo de tarefas? - interessou-se Emilie.
- Tarefas espirituais.
Diante do espanto e do visvel desconforto da moa, Lucrcia imediatamente procurou esclarec-la:
- Jairo e eu fazemos parte de um grupo que estuda assuntos ligados  espiritualidade e no tem nada a ver com qualquer prtica estranha ou mstica.
- O que estudam?
- Estudamos muitas questes transcendentais e, mais especialmente, os ensinos de Jesus.
Como Emilie se mantivesse calada e de cabea baixa, concentrada em seu prato, Lucrcia, aps breve pausa, acresceu:
- Todas as semanas nos reunimos nesse pequeno grupo e temos aprendido muito.
Emilie continuou pensativa. Jairo ento mudou o tema da conversa, anunciando que precisava ir a Barcelona em breve:
- Meu plano seria ir amanh, Lucrcia. Entretanto, no me agrada em nada largar as duas sozinhas aqui; receio que apaream outra vez atrs de Emilie e as peguem 
desprevenidas.
- Estou matutando em algum modo de mant-la a salvo - disse a mulher.
- Pense tambm em algum modo de nos proteger. 
Lucrcia, meditativa, nada respondeu. Terminou de jantar e fazia meno de se levantar quando Emilie perguntou:
- O que exatamente estudam, Lucrcia?  algum tipo de sociedade cientfica? No compreendo. Estudam tambm os ensinos de Jesus? Com que inteno?
Lucrcia dirigiu significativo olhar para Jairo e ento esclareceu:
- Estudamos fenmenos espirituais, Emilie. Voc tem razo quanto a ser uma espcie de sociedade cientfica, porque de alguma forma tambm  isso, mas no s. Estudamos 
as relaes do mundo espiritual com o mundo material, entende?
- No, no entendo.
- Estudamos manifestaes espirituais, mas no apenas para satisfazer nossa curiosidade.
- O que so essas manifestaes?
- So espritos que conversam conosco. 
Fazendo o sinal da cruz, Emilie reagiu:
- Deus me livre de tais prticas! E voc vem dizer que no  magia?
- No h nada de sobrenatural ou de fantstico nisso; o que acontece  que questes ainda desconhecidas para ns agora esto sendo reveladas.
- Lucrcia, como pode afirmar que no h nada de sobrenatural, de mstico em se falar com os mortos? Alm de tudo  um sacrilgio!
- H algum de quem voc goste muito, a quem tenha sido muito ligada, e que tenha partido deste mundo para a Ptria espiritual?
- Como assim?
- Que tenha morrido?
Emilie tomou-se subitamente sria. De seus olhos brotaram lgrimas que se avolumaram e lhe desceram pela face, ela respondeu: Minha av, Heloise. Morreu quando eu 
era adolescente. Foi ao lado dela que passei os melhores momentos de minha vida. Era a pessoa mais doce e terna que j conheci. Um anjo. Sinto muita falta dela.
- E se eu lhe disser que talvez seja possvel entrar em contato com sua av?
- Isso  inadmissvel. Os mortos devem descansar em paz! No devemos, no podemos perturbar-lhes o descanso sagrado! No, jamais participaria desse tipo de prticas...
Emilie silenciou como a se lembrar de algo. Lucrcia e Jairo respeitaram-lhe o silncio e concluram seus afazeres. Lucrcia aprontou-se e saiu, no sem antes recomendar 
ao marido que mantivesse a porta trancada e tomasse conta de Emilie. Jairo acompanhou a esposa at certa distncia e Emilie ficou a contempl-los da janela, at 
a figura de Lucrcia se perder na praia. No obstante sentir repulsa por aquele tema, diversas perguntas assaltavam-lhe a mente: "E se, admitindo-se apenas como 
hiptese, fosse mesmo possvel falar com minha av? E se ela pudesse falar comigo?"... "O que ser que estudam nesse grupo? Como acontecem esses contatos?". Essas 
e outras indagaes a rondavam; entretanto, buscava com vigor afast-las e no se envolver naquele assunto. A jovem recordou o quanto lutara, toda a sua vida, para 
ser considerada normal aos olhos de todos. Apesar das estranhas experincias que tinha, e sem compreender o que se passava em muitas ocasies, tentava ignorar os 
fatos e agir como as pessoas normais. Guardava mgoa e ressentimento dos pais, que a recriminavam e se envergonhavam dela, procurando escond-la da famlia e dos 
amigos. Emilie se sentou perto do fogo, que ainda tinha brasas acesas, tentando se aquecer. Ajeitou-se na cadeira e continuou pensando: "Quanto j rezei? Quantas 
ave-marias, quantos padre-nossos? Quantas penitncias j me impus e a quantas me submeti, para tentar conter essas perturbaes inexplicveis que s vezes tenho, 
em que perco completamente o controle sobre mim mesma?". Suas reflexes duraram longo tempo, at que o frio se intensificou e as brasas por fim se apagaram. Jairo, 
ao voltar, recolhera-se. Ela se levantou lentamente e foi para o quarto, disposta a dormir. Antes, porm, assegurando-se de que Jairo estava mesmo deitado, procurou 
pelo pequeno livro que Lucrcia sem pre trazia consigo quando retomava da caminhada matinal. Era um exemplar do Novo Testamento. Abriu e folheou o volume, percebendo 
que havia trechos grifados. Enquanto virava as pginas, um papel dobrado caiu de dentro do livro. Emilie abriu com cuidado a folha, j amarelada, e viu que era uma 
carta endereada a Lucrcia. Num impulso leu o texto, que lhe agradecia pelos esforos em seguir os ensinamentos do Evangelho e mencionava uma importante misso 
que ela devia realizar; falava tambm que seus filhos estavam sendo bem cuidados, que no se preocupasse com eles. Percebeu que nessa altura o texto estava manchado 
e s com muito esforo conseguia ler, como se algum tivesse dissipado a tinta com gua. Emilie dobrou a mensagem e a recolocou no lugar. Pensou em Cntia, sentindo 
a saudade inundar-lhe o corao. Ela no tinha nenhuma certeza de que sua filha estava sendo bem cuidada. Foi devagar para o quarto e ajeitou-se sob as cobertas, 
procurando proteger-se do vento frio que entrava pelas frestas. Observava as diversas fendas no teto e na parede, lembrando-se de tudo o que j havia possudo. Recordou 
seu quarto luxuoso na manso em que vivera com Ricardo. Saudade, tristeza e mgoa misturavam-se em suas lembranas. Por mais que serenasse na cama, no conseguia 
dormir. Perguntava-se por que tinha sido vtima daquele compl para destru-la. Rememorou outra vez tudo por que havia passado, sentindo dor e ressentimento intraduzveis 
invadirem-lhe a alma. S depois que Lucrcia regressou, silenciosa, foi que ela pde finalmente adormecer. Na manh seguinte Emilie despertou aflita, angustiada. 
Assim que a viu, Lucrcia percebeu que no estava bem. Desde o caf permaneceu calada, at que, pelo meio do dia, Lucrcia lhe perguntou:
- O que a aflige tanto, Emilie? Ontem estava melhor, mas hoje vejo que pesadas energias a envolvem!
Embora notasse o carinho e a preocupao daquela mulher, Emilie falou asperamente, como que dominada por uma fora desconhecida:
- Ora, por que no se cala? Que pretende, afinal? Lucrcia percebeu o tom de voz alterado da jovem e cautelosamente questionou:
- E por que se irrita tanto com meu interesse?
Emilie comeou a sentir estranho sono se apossar dela e aos poucos tudo sumiu  sua volta. J passara por aquilo vrias vezes e lutava para manter o controle; todavia, 
no tinha poder Para impedir nada. Respondeu, ainda mais exasperada:
- Ora, velha, sabe muito bem do que estou falando. O que pretende, opondo-se a ns? J avisamos que no queremos intromisso, que ela tem de pagar pelo que fez. 
J avisamos para se afastar dela. S que voc insiste, no ? Continua teimando em ajud-la. Est atrapalhando nossos planos...
Lucrcia, compreendendo claramente a situao, olhou com maior ternura para Emilie, que se transfigurara: tinha os olhos arregalados e o rosto contorcido, rangendo 
os dentes com muita fora. Com suavidade na voz e profunda compaixo por aquelas entidades espirituais perturbadas, ela respondeu:
- No percebe que me preocupo no somente com ela mas igualmente com vocs? Sei que esto sofrendo e gostaria de poder auxili-los. Permitam que ela me acompanhe 
aos estudos, e venham conosco.
- Nem pense nisso! Essa mulher de aparncia delicada que est diante de seus olhos esconde um monstro de maldade sem limites... No pense ela que nos engana, pois 
sabemos muito bem quem realmente ...
- Meus amigos...
- No nos chame de amigos, porque no somos seus amigos...
- Meus irmos, todos ns somos doentes, necessitados de amor, compreenso e perdo. Cometemos erros, que muitas vezes no percebemos, iludidos que somos pelo orgulho 
e pela vaidade... Entretanto, todos temos a possibilidade de recomear, de reconstruir. Assim como o sol nasce a cada manh trazendo um novo dia, cheio de oportunidades, 
tambm a vida se renova trazendo outras chances para consertarmos nossos erros, repararmos nossas falhas...
- Chega! J basta! Nem ela nem voc se livraro de ns facilmente. Portanto, vamos dando o ltimo aviso: ou desiste e a manda embora, ou vamos transformar sua vida 
em um suplcio!
Em face das ameaas terrveis que recebia, Lucrcia baixou a cabea e se ps a orar, pedindo proteo a Deus, alm de ajuda para Emilie e para aqueles espritos 
que a perseguiam. Quando ergueu a cabea, depois da sentida prece, Emilie a olhava assustada; a cor lhe sumira do rosto. Balbuciou, ento:
- O que... o que aconteceu?
Lucrcia notou a mudana na expresso da jovem e soube que ela no tinha noo do que sucedera:
- Voc falou algumas coisas estranhas...
- O que foi que eu disse?
A bondosa Lucrcia, mesmo sob a emoo do ocorrido, procurava manter a calma e reiterou:
- Algumas coisas estranhas, s isso.
Contudo, vendo a expresso amedrontada que persistia na jovem, fitou-a e perguntou:
-  a primeira vez que sente isso? 
Emilie explodiu, entre lgrimas:
- No! Isso se repete comigo desde que me conheo por gente.  horrvel! Perco o controle do que est havendo,  como se de um lugar muito distante ouvisse o que 
se passa em volta de mim, e no consigo dizer nada, fico como que e m sonho. No sei o que , nem por que acontece, mas j atrapalhou muito minha vida! 
Lucrcia se levantou e aconchegou Emilie carinhosamente nos braos; a moa continuava em pranto angustiado:
- Meus pais me mandaram para um convento, to logo completei onze anos. No queriam conviver comigo, por vergonha de ter uma filha doente. Era como diziam que eu 
era doente. Foram anos de tormento. Minha me, a cada visita, quer ia me convencer a me tomar freira; a madre superiora um a chamou e disse que eu no poderia, que 
claramente no nenhuma vocao. Ao voltar para casa, o suplcio aumentou. Eu completara dezoito anos e meus pais me mantinham presa, sem poder sair nem me divertir, 
por recearem o que os outros diriam se eu tivesse outra crise.
Lucrcia permanecia abraada  jovem, que prosseguiu compulsivamente:
- Tento me livrar desse fardo que me pesa na existncia, mas nem sequer sei do que se trata. No me creio doente pois me sinto bem e normal; s quando essas coisas 
acontecem, quando perco totalmente o domnio sobre mim mesma,  que fico apavorada. Nessas ocasies fico fora de mim, e dizem que me tomo agressiva e perigosa. Meu 
Deus... O que se passa comigo, Lucrcia? Estou to cansada...
Sem responder, Lucrcia abraou-a mais fortemente e ela continuou:
- Quando encontrei Ricardo, achei que finalmente seria feliz! Foi uma paixo incontrolvel e recproca - pelo menos  o que acredito - e nos casamos seis meses depois 
de nos conhecermos. Meus pais ficaram aliviados; mal podiam crer que um homem de famlia to rica e poderosa se interessara por mim quele ponto. Dois meses depois 
do casamento, fiquei grvida e minha alegria parecia no ter fim. Tudo era maravilhoso. Todavia, quando Cntia tinha cinco anos o problema reapareceu. No incio, 
era espordico e quase sempre estvamos apenas eu e Ricardo. Apesar de ter ficado assustado, ele no contou nada a ningum.  medida que Cntia crescia, o problema 
ia se acentuando e se tomava mais freqente. At que um dia tive uma crise terrvel na frente de toda a famlia. Disseram que tentei agredir minha prpria filha, 
quela altura contava quase dez anos. Quando voltei a todos se mostravam apavorados e me tratavam como doente mental. Ricardo estava lvido e seu semblante era reprovado! 
Minha filha chorava, com medo. No gosto nem de lembrar. Daquele dia em diante, minha vida transformou-se novamente. A me de Ricardo, que me recebera bem, mas com 
reservas, tomou-se spera e indiferente. Ricardo exigiu que eu fizesse um tratamento com mdico amigo da famlia. Eu sentia que era minha nica alternativa, j que 
todos estavam se afastando de mim. Ricardo evitava sair comigo e passou a no me levar mais a festas e outras reunies em que estivessem pessoas conhecidas ou da 
famlia.
Lucrcia, em silncio, ouvia o desabafo que transbordava daquele corao desesperado. De quando em quando, Emilie enxugava as lgrimas que desciam e seguia quase 
indiferente, como se a outra nem estivesse ali:
- O pior ainda estava por acontecer. Todo ano eles fazem uma grande festa que rene muitas autoridades, inclusive eclesisticas.
Emilie fechou os olhos, como se procurasse focalizar na mente todos os pormenores daquele dia, e narrou:
- Eu despertei mais angustiada do que me era habitual. As consultas com o doutor Francisco no estavam ajudando, pois sentia desconforto junto dele. O mdico, por 
sua vez, garantia a Ricardo que eu precisava continuar com as sesses e tambm me receitara medicamentos. A princpio parecia interessado em meu problema e de fato 
desejoso de auxiliar. At aquele dia eu no sabia ao certo o que se passava. Ele chegou e foi conduzido a um quarto de hspedes. Meu marido percebeu que eu no estava 
bem e pediu que conversasse com Francisco ali mesmo, na casa. Eu relutava, porm Ricardo insistiu e acabei indo at o quarto onde o mdico se instalara. Ele me recebeu 
atencioso e pediu que contasse o que sentia. Enquanto ouvi a minha resposta, aproximou-se da poltrona em que me sentara, ajoelhou-se aos us ps e tomou-me as mos 
delicadamente entre as suas; em seguida disse que eu deveria deixar Ricardo, que era infeliz no casamento e que isso estava me tomando uma pessoa doente. Quando 
me levantei, assustada, segurou-me fortemente pelos ombros e afirmou que, apesar de no admitir, eu estava to atra da por ele como ele por mim; assegurou que se 
eu no assumisse meus sentimentos, entregando-me a ele, no poderia experimentar alvio para meu sofrimento. Nem sei como, desvencilhei-rne horrorizada, sa batendo 
a porta e corri para meu quarto, trancando-me l por algumas horas. Chorava ainda, sem saber o que fazer, quando meu marido bateu e me chamou. Disse que seu primo 
Fernando e dom Antnio queriam conversar comigo Eles entraram e puseram-se a rezar  minha volta. Depois o bispo sentou-se perto de mim e comeou a falar. Foi a 
que senti tudo sumir e novamente os ouvia a distncia. Lutei como nunca. Sabia que se aquilo se repetisse estaria perdida, seria meu fim! No entanto, no pude evitar. 
Quando retomei, estava deitada na cama e sozinha. A porta fora trancada e passei dois dias presa no quarto. Foi humilhante! 
Emilie se calou, mas continuou chorando sentida. Lucrcia a enlaava com carinho cada vez maior. A jovem ento ergueu os olhos e indagou:
- Voc no teme que eu seja violenta e tambm a ataque? No tem medo dessa doena, ou de sei l que coisa , que se apossa de mim e sobre a qual no tenho o menor 
controle?
Lucrcia, procurando encontrar as palavras certas para no assust-la mais, respondeu:
- No, Emilie, no tenho medo. Conheo outros casos como o seu; voc no  a nica a ter esse tipo de digamos, problema.
Emilie enxugou as lgrimas e perguntou:
- Quer dizer que sabe o que ocorre comigo?
- Conheo inmeros casos iguais ao seu.
- E o que  isso que me arrebata de repente e me tira o controle de meus atos? Por que ajo dessa forma? Responda-me! Ajude-me, por favor! Se souber o que , por 
favor, me ajude. A jovem ansiava por uma resposta, mas Lucrcia lhe disse:
- Emilie, querida, sabe que tenho por voc um carinho de Me no sabe? J percebeu o quanto tenho tentado ajudar.
Emilie moveu a cabea afirmativamente e ela prosseguiu:
- Ento, peo que confie em mim. Quero apenas e to somente o seu bem e disso j dei provas. Agora, precisa confiar em mim. Nem tudo  to simples de ser esclarecido. 
Portanto, no vou conseguir explicar exatamente o que se passa com voc de uma hora para outra; vai levar algum tempo.
- Pelo menos me diga, eu estou doente? Isso tudo que sinto  uma doena mental ou alguma coisa ruim toma conta de mim?
- Nem uma coisa nem outra. Voc no est doente... No da forma como todos dizem. O fato  que somos todos doentes da alma, Emilie, desesperadamente necessitados 
de Deus e do Seu amor, de Jesus e dos Seus ensinamentos, para curar-nos dessas chagas que esto dentro de ns.
Como Emilie a olhasse demonstrando no entender em absoluto do que ela falava e qual a relao de uma coisa com a outra, Lucrcia aduziu:
- Emilie, voc vai compreender tudo isso, tenha calma. Se Deus a encaminhou at ns, tenha pacincia e f que tudo se esclarecer.
Emilie segurou Lucrcia pelo brao e comeou a sacudi-la freneticamente, pedindo:
- Mas voc no me responde, precisa me responder! Se souber o que tenho, no me negue socorro! Prove que gosta de mim de verdade, diga o que  que acontece comigo! 
Lucrcia orava mentalmente buscando apoio, e ento disse:
- Voc tem problemas espirituais, Emilie, e pode resolv-los se realmente quiser.
Emilie soltou-a e perguntou:
- Como, problemas espirituais? Estou possuda por alguma coisa ruim,  isso?  o que os padres diziam,  o que as freiras diziam; e eu rezo, peo, sem nenhum resultado!
- Calma, Emilie. Existem conhecimentos novos que elucidam fatos como esses, que ocorrem com voc, e que at agora no tinham explicao. J presenciei a soluo 
de casos como o seu atravs de tratamento espiritual srio e bem conduzido.
- Do que est falando? Que conhecimentos so esses?  o tal grupo que fala com mortos? No quero saber dessas coisas!
- E se eu disser que pode melhorar se me acompanhar a essas reunies? Que vai encontrar ajuda?
Emilie gritou, indignada e rebelde:
- J disse que no vou me envolver com essas bruxarias! Prefiro morrer! Voc  uma bruxa, uma louca, que acha que fala com mortos!
E sem dar  outra tempo para responder, saiu correndo em direo  praia. Lucrcia ia atrs, mas de sbito pensou que talvez fosse melhor ela ficar um pouco sozinha; 
e permaneceu observando a jovem, pela pequena varanda da cozinha. Emilie correu pela praia at quase sumir da sua viso, e ento sentou-se na areia. Depois de longo 
tempo se levantou e veio voltando lentamente. Lucrcia subiu a encosta para ter certeza de que sua casa no estava sendo vigiada e retomou os afazeres domsticos, 
entretendo-se com eles at o sol se pr. J era noite quando Emilie chegou da praia, trazendo os olhos ainda vermelhos pelo choro demorado. Pouco falou durante o 
jantar e logo que terminou procurou o refgio da cama improvisada. Quando Lucrcia lhe desejou bom sono, preparando-se para dormir, Emilie perguntou, hesitante:
- Acredita mesmo que podem me ajudar nesse tal grupo de estudos?
- No tenho dvida.
- Vou considerar a possibilidade de acompanh-la para conhecer. Caso eu concorde em ir, se no conseguirem me ajudar e explicar claramente o que acontece comigo, 
nunca mais volto!
Lucrcia, que parecia cansada, sorriu e disse:
- Tenho certeza de que ser o primeiro passo de um novo caminho.
Alguns dias mais tarde, Jairo partiu para Barcelona, vrios metros distante da vila em que vivia e j quela poca importante centro comercial e intelectual. Sua 
proximidade fronteiras da Frana permitia a rpida expanso, por toda a Espanha, das novas correntes filosficas e cientficas que eclodiam incessantemente. Jairo 
chegou  agitada cidade e foi direto para a casa acolhedora de Miguel, levando consigo uma mensagem espiritual recebida por Lucrcia na noite anterior, com o intuito 
de que o amigo e orientador a analisasse. Era sempre uma alegria o reencontro de Jairo com aquele que era seu grande amigo e protetor. Abraou Miguel efusivamente:
- Que bom v-lo!
E o abrao foi retribudo com o mesmo entusiasmo:
- Eu  que fico feliz em v-lo! Como est nossa querida Lucrcia? E Emilie, como anda?
- Lucrcia est bem. Recebeu outra mensagem interessante que trouxe para sua avaliao; talvez seja uma daquelas que convenha enviar  Sociedade Esprita de Paris. 
Emilie ainda est conosco. Parece um pouco melhor, menos agressiva entretanto, os perigos esto aumentando; j foram procur-la em nossa casa.
Miguel guardou silncio por instantes, depois disse:
- Apesar das dificuldades, fico satisfeito em saber que o trabalho de vocs progride a olhos vistos.
Os dois se demoraram bastante em agradvel conversa Naquela noite, Jairo participou dos estudos que se realizavam semanalmente na casa de Miguel. A reunio se desenrolou 
trazendo harmonia e aprendizado para todos. Na manh seguinte, aps acompanhar Miguel na resoluo de questes que o haviam levado  cidade, Jairo confirmou ao amigo 
a inteno de regressar o mais cedo possvel, devido aos receios que tinha com a permanncia de Emilie e m sua casa. Miguel lamentou a partida breve do amigo:
- Voc sempre tem um motivo para voltar apressado. Mesmo sendo uma viagem longa e cansativa, vem e retoma rapidamente. Nunca temos tempo suficiente para conversar. 
Precisa vir com mais calma, trazer Lucrcia.
Jairo sorriu e disse:
- Sei que estamos devendo uma visita a voc e sua irm; assim que as coisas se acalmarem por l, trarei Lucrcia. Ser uma satisfao imensa para ns. 
- Vamos ficar na expectativa dessa visita. Agora, antes de partir, gostaria que fosse comigo  livraria. Eles sempre tm alguma novidade, seja a Revista Esprita, 
seja um livro novo. Gostaria de enviar alguma coisa para Lucrcia.
Sem hesitar, Jairo o seguiu at a loja. L, recebidos pelo proprietrio, amigo e simpatizante do movimento esprita, conversaram longamente sobre os ltimos acontecimentos 
na Frana. Miguel entregou ao livreiro uma carta endereada  Sociedade Esprita de Paris, junto da qual ia a mensagem que Lucrcia recebera. Sua prpria anlise 
havia sido favorvel ele ento a encaminhava para avaliao da conceituada Instituio. Por diversas vezes o livreiro se fizera mensageiro entre os dois pases. 
Ao solicitar novos livros para os participantes de seus estudos e tambm para presentear  amiga, Miguel foi informado pelo livreiro:
- Esto em falta, mas vai chegar uma grande remessa no ms que vem.  a maior que recebemos at agora, mais de trezentas publicaes!
- E vai conseguir entrar com tantos livros assim na Espanha, mesmo com a ferrenha oposio da Igreja?
- Est tudo acertado na alfndega, acho que no haver problema. As coisas precisam mudar, no , Miguel? Estamos em um novo tempo: o da liberdade de pensamento.
- Que assim seja! - completou Miguel, feliz. Ao se despedirem, ele pediu a Jairo:
- Diga a Lucrcia que em breve teremos mais livros! E cuide bem dela, Jairo. Que Deus os abenoe, meu irmo! Jairo quase no pde responder, emocionado por tanto 
carinho; s conseguiu balbuciar:
- Obrigado, Miguel; mais uma vez, obrigado.
Aps uma noite inteira de viagem, Jairo chegou  provncia. Caminhava por Bilbao distrado, preparando-se para seguir viagem at a vila; pensava na esposa e em Emilie, 
sozinha quando, ao se aproximar do local onde compraria o tquete e para o trecho final da jornada, deu de cara com uma fisionomia conhecida. Era Pimentel, que sentado 
em um banco observava os transeuntes. Ao reconhecer Jairo, levantou-se e cumprimentou-o, seco:
-  o dono daquela cabana da praia, no ? O que anda fazendo por aqui? Pretendem viajar?
- No, em absoluto. Sou pescador, lembra-se? Tenho negcios aqui, e  comum vir a Bilbao para acertar detalhes.
- Interessante. E sua esposa, fica sozinha durante sua ausncia?
- Lucrcia est acostumada a minhas pequenas viagens que nunca duram mais do que poucos dias.
- Vocs tm filhos?
- No; quero dizer, no aqui conosco.
- Vocs no so da Espanha: de onde so?
- De Marrocos. Lucrcia tem filhos, que ficaram por l.
-  mesmo? E por qu?
Jairo, procurando encerrar logo a desagradvel conversa, cortou radicalmente o assunto:
- Preciso ir, estou com pressa.
Pimentel, porm, segurou-o firme pelo brao e disse em tom intimidador:
- No pense que escaparam, ouviu? Estou entrando com o pedido de abertura de inqurito contra vocs, por darem abrigo a uma assassina, e tenha certeza de que o processo 
est em curso. H grandes interessados nesse caso, pessoas muito influentes, gente muito rica. Eles querem que vocs sejam responsabilizados pelo segundo desaparecimento 
dela. Nem pensem em sair daqui, ou sero perseguidos onde estiverem. Ser que me entende, senhor... como  mesmo seu nome?
Jairo respondeu, enquanto puxava o brao com fora:
- Meu nome  Jairo e no se preocupe, no pretendemos ir a lugar algum. No temos culpa nenhuma, j disse. No sabamos quem era a jovem e quando descobrimos ela 
partiu, sem nos dar tempo para mais nada. Ser que no entendem?
- Meu senhor, o fato  que deram guarida a ela, e contra isso no h argumentos, no ? Bem, preciso continuai meu trabalho. Repito: no se ausentem, pois logo sero 
convidados a vir at a delegacia prestar maiores esclarecimentos; isso se...
- Se...? Depender das presses que vierem. Tenho orientao para dar andamento rigoroso ao caso, conforme a lei determina em todas as suas sutilezas...
- E o que isso significa?
- Tero surpresas em breve.
Dizendo isso, retomou ao banco e  leitura do jornal, que havia deixado minutos antes. Jairo, aturdido, comprou o bilhete de regresso, com o corao agora tomado 
pela angstia. O que tanto temera estava acontecendo. Sentiu o medo crescer dentro dele e ao ter em mo o bilhete foi direto  sada das carruagens. Queria desaparecer 
o mais rpido possvel da vista daquele homem. Entrou no carro e se acomodou, deixando-se dominar mais e mais pela angstia e pelo medo. Refletia: "O que faremos 
agora? Como escapar daquela gente rica e poderosa, querendo nos prejudicar? Vo descobrir que somos adeptos da Doutrina Esprita e isso complicar ainda mais nossa 
situao!". A carruagem comeou a andar e Jairo viu, pela janela, Pimentel na plataforma a observ-lo. Suspirou fundo e pediu mentalmente: "Deus, por favor, nos 
ajude!". J era noite quando chegou  vila. Ao se aproximar da pequena cabana, junto ao mar, encontrou Lucrcia em animada conversa com Emilie. Pela primeira vez 
a via sorrir e notou, ao entrar, os traos belos e delicados que emergiam daquele rosto marcado pela dor e pelo sofrimento. Percebeu que aos poucos o semblante de
Emilie se transformava. Parecia estar mais suave, e ela, mais serena. Achou melhor conversar com Lucrcia em particular, pois a permanncia da jovem o preocupava 
cada vez mais. Entrou, cumprimentou Emilie e beijou a esposa, que o recebeu alegre:
- Como foi tudo por l, Jairo?
- Tudo certo - respondeu, saindo do quarto, onde colocara o casaco.
Sentou-se  mesa, juntamente com Emilie, que acabava de auxiliar Lucrcia no preparo do jantar.
- E com relao  mensagem, Miguel a leu?
Jairo se lembrou da alegre companhia de Miguel e suspirou fundo, antes de responder:
- Ele gostou muito da mensagem e a enviou para Paris. Emilie ouvia a conversa com curiosidade, conservando silncio. Lucrcia olhou para o marido e disse:
- O que h, Jairo? Algum problema srio que me esconde? Percebo que no est bem!
- Est tudo certo, Lucrcia, sinto-me apenas cansado da viagem. Afinal, ir num dia e voltar no outro  bem cansativo; mas no podia deix-las aqui sozinhas por mais 
tempo.
Tentando dissimular a profunda aflio em que se encontrava, perguntou:
- E por aqui, como foram esses dois dias?
- Tranqilos, como havia pressentido. Nada aconteceu, Jairo, ningum a nos vigiar.
- E... por enquanto. De qualquer modo,  melhor que Emilie no coloque os ps fora da casa em hiptese alguma.
- Por que diz isso? Alguma novidade da provncia?
- Lembra-se da ameaa que nos fez aquele policial, no e. Ento! Precisamos tomar cuidado.
- Tem toda a razo. Emilie continuar aqui dentro durante o dia, at as coisas se acalmarem. No entanto, ter de sair  noite, ao menos na prxima sexta-feira.
- Por qu? - perguntou Jairo, interessado.
- Ela ir conosco ao grupo de estudos.
Jairo no acreditou no que ouvia. A situao iria se agravar mais! Lucrcia jamais deixaria a jovem partir. No agora!
-  mesmo? E por qu? - ao falar ele fitava Emilie.
A jovem se esquivou, mais do que depressa:
- Lucrcia quer que eu v. Estou pensando; quer dizer, estou com a inteno, ainda no sei ao certo...
Lucrcia interrompeu Emilie, afirmando ao colocar o jantar sobre a mesa:
- Voc vai, sim, e no se arrepender. Tenho certeza de que se sentir  muito melhor e haver de encontrar respostas para suas dvidas.
- No se empolgue tanto, Lucrcia; estou pensando, e no me pressione.
Emilie, voluntariosa, fez meno de se levantar; Lucrcia suavemente tocou-lhe o brao, dizendo:
- Tudo bem, vai se quiser, se sentir vontade. Agora coma, que o jantar esfria em segundos nesse tempo frio.
Durante o jantar, Jairo esteve calado e pensativo. Lucrcia lhe fez algumas poucas perguntas sobre Miguel e a famlia, ao que ele respondeu quase com monosslabos. 
Emilie tambm permaneceu distrada. Sentia-se aflita pelo problema que a torturava desde a adolescncia, porm era intensa a sua repulsa  simples ideia de ir a 
um lugar onde as pessoas acreditavam falar com os mortos. Que tipo de coisas tenebrosas poderiam suceder? A que sortilgios se entregariam aquelas pessoas? S de 
pensar nisso, Emilie sentia um calafrio descer-lhe pelas costas. Quando se preparavam para dormir, Jairo disse  esposa:
- Precisamos conversar.
- O que h com voc, Jairo? Est tenso e preocupado!
- Olhe, Lucrcia, sei que est animada com as melhoras mas no seria melhor ela partir, j que melhorou?
- No momento em que ela est dando o primeiro passo para compreender o que de fato acontece em sua vida?
- Do que est falando?
- Emilie tem algo a realizar e creio que ser dentro desse movimento novo, que se espalha em toda parte. Ela tem dons especiais que ir utilizar para contribuir 
na expanso e na confirmao dos conhecimentos sobre as relaes do mundo material com o mundo invisvel.
- Acha mesmo?
- No tenho mais dvida. J desconfiava e tive a prova hoje. Ela vem sendo dominada por irmos menos felizes, que se manifestaram atravs dela.
Jairo mostrou grande espanto, e perguntou:
- E o que disseram?
- O que sempre dizem nessas condies. Fizeram ameaas, gritaram que querem destru-la. Coisas desse tipo, que no convm repetirmos.
Jairo se calou, ainda mais aturdido. Como deveria agir? Lucrcia achegou-se a ele e, enlaando-o com carinho, pediu:
- Agora me conte, o que o est afligindo?
- Estou muito angustiado. Encontrei aquele policial que esteve aqui, junto com o mdico e o marido de Emilie. Ele fez novas ameaas, Lucrcia. Disse que iremos responder 
pelo que fizemos, que seremos chamados  provncia, que h gente muito poderosa envolvida no caso e...
- Calma, Jairo, assim voc vai ficar doente! Acalme-se. Lembre-se de que nada acontece em nossa vida se Deus no permitir. Por mais que nos ameacem, por mais que 
nos queiram assustar, Deus  quem comanda todas as situaes. Voc j provou disso, no foi?
- Sim, mas precisamos ser cautelosos. No podemos deixar de fazer a nossa parte. - Eu sei, voc tem toda a razo. Devemos tomar uma atitude mais firme, e acho que 
tive uma idia que vai ajudar. Temo pela segurana de Emilie, caso permanea conosco.
- E o que pensou?
- Ela vai na prxima sexta-feira ao grupo de estudos. Pretendo, ento, deix-la aos cuidados de Sara, que j sabe o que aconteceu e se colocou  disposio se precisarmos 
de ajuda. Penso que  melhor Emilie ficar l por uns tempos, at decidirmos o que deve ser feito. Sara  uma amiga de total confiana e extremamente bem intuda 
nas questes espirituais. Estar com ela far bem a Emilie.
- E quanto a ns? E se realmente tentarem nos prejudicar pelo que fizemos?
- E o que fizemos, Jairo?
Lucrcia fitava o marido com ternura. Jairo no soube o que responder. Via que Emilie melhorava e que Lucrcia estava cada vez mais confiante quanto ao futuro da 
jovem. E se a esposa tivesse razo? Foi ela quem respondeu:
- No fizemos nada errado, Jairo, e voc sabe disso.
- Eu sei;  essa gente que no entende!
- Ns apenas cuidamos de algum que estava desistindo da vida. Foi s isso o que fizemos. Estamos tentando obedecer a lei eterna do Criador que nos diz para amarmos 
ao nosso prximo como a ns mesmos.
A justia dos homens  falha, Lucrcia, e voc, mais do que ningum, conhece sua fria.
Lucrcia encarou-o com seriedade e disse:
- Todavia, precisamos aprender a nos preocupar mais com a justia de Deus do que com a dos homens. Por alguma razo sei que era meu dever cuidar de Emilie. Senti 
isso desde primeiro momento em que a vi, e mesmo antes, quando tive o mpeto de subir naquela manh at o penhasco, lugar a que quase nunca vou. Sei que devemos 
cuidar dela e dar-lhe chance, e  o que estou tentando fazer. Se por isso tiver de pagar, que seja. No posso desistir. 
Jairo olhou a mulher, com profunda admirao pela fora de carter e pela confiana que via nela. Ainda assim, disse:
- No sei, Lucrcia, fico muito preocupado.
- Tomaremos todas as precaues. Agora vamos descansar, porque, acima das preocupaes, voc deve estar muito cansado da viagem.
- No foi a viagem que me cansou, foi aquele policial que me infernizou!
- E  precisamente o que ele quer. Agora, vamos orar juntos. Tenho certeza de que a prece nos aliviar. Venha, sente-se aqui, vamos orar.
Jairo se aproximou da esposa, que sentada na beira da cama segurou sua mo e elevou comovida prece a Deus, pedindo proteo e foras. Ao final da orao, Jairo se 
sentia mais confiante. Na luxuosa manso em Barcelona, Ricardo almoava com a filha e a irm. Apesar de ver Cntia mais contente, aps a visita ao orfanato, ele 
ainda estava contrariado. A menina terminou de almoar e levantou-se, dizendo educadamente:
- Tenho aula de francs agora, com licena.
- V, minha filha, e esforce-se para aprender! 
Logo que ela se afastou, Filomena comentou:
- Parece que a visita ao orfanato lhe fez bem.
- No sei. Parece mais animada,  verdade, mas no creio que voltar com freqncia ao orfanato lhe far bem. O lugar dela  aqui, junto de ns.
-  evidente, Ricardo; s que no me parece prejudicial para ela, uma vez por semana, acompanhar Fernando. Se ela gosta...
Ricardo fixou na irm um olhar interrogativo, e disse:
- Por que acha que far bem a ela?
- Ora, essa menina precisa se ocupar, para ver se esquece a me. Sofreu um trauma muito grande. E alm do mais ela me parece to sozinha, sem irmos ou amigos com 
quem brincar... Estar em companhia de outras crianas lhe far bem, mesmo que sejam crianas carentes.
- Ainda no estou convencido a deix-la retomar ao orfanato.
- Ela me disse que voc praticamente j autorizou.
- No foi bem assim, ela  que se empolgou demais com o que eu disse. Falei que ia pensar, s isso.
- Ela j est dando a permisso como certa. Ricardo ficou calado. Filomena se levantou e insistiu:
- Bem, de qualquer maneira, acredito que far bem a ela. Vou at a cidade e passarei na parquia para conversar com Fernando. Quer que pergunte algo mais sobre o 
orfanato?
- No  necessrio. Eu mesmo falarei com ele.
- Alguma notcia de...
- No, nenhuma.
- Diga-me uma coisa, Ricardo: voc est chateado porque no consegue localiz-la ou porque gostaria de v-la?
- Ora, Filomena, no seja romntica! Quero apenas que ela volte para a clnica, evitando maiores dissabores.
- , principalmente para nossa festa.
- O que teme?
- E se resolver vir aqui, Ricardo? J pensou nisso? E se vier at aqui, obcecada que  por voc e por Cntia?
- At o dia da festa j a teremos encontrado; e mesmo que isso no acontea, teremos seguranas por toda parte. No chegar perto da filha, de forma alguma. Isso 
nunca mais! Ela ps a menina em perigo e jamais admitirei que volte a v-la.
Suspirou fundo, pensando em Cntia, que amava a me to profundamente, e finalizou:
- Um dia Cntia compreender; ela vai aceitar que a me  doente e no uma pessoa normal.
- Espero que consiga mant-las afastadas; de fato melhor para Cntia.
Acabou o almoo e tambm se retirou. Filomena foi direto  igreja. Ali, percebeu de imediato uma movimentao diferente para aquele horrio do dia. Procurou o primo, 
que ao saud-la convidou:
- Ol, Filomena, vamos at o ptio interno; aqui est muito agitado hoje.
- E por qu? O que se passa?
- Padre Enrico est conversando com negociantes da cidade, pedindo colaborao para o caso de uma de suas ovelhas que se desgarrou do rebanho.
Sentaram-se em pequeno banco,  sombra de majestosa rvore. Filomena demonstrou espanto e curiosidade:
- Como, o que houve?
- Ela aderiu quele movimento que se espalha como uma praga.
-  mesmo? Aqui, debaixo dos nossos olhos? No acredito!
- Parece impossvel conter a expanso dessas novas idias!
- E o que o padre pensa fazer com essa mulher? J foi excomungada, creio eu!
- Sim, ela e toda a famlia.
- Mas  claro! Isso precisa servir de lio para todos... E que outras providncias sero tomadas, com relao ao caso?
- Padre Enrico quer que ela volte, pedindo perdo  igreja.
- E como planeja faz-lo?
- No sei bem qual o seu intento, porm o tenho visto conversando com os donos de restaurantes, cafs e pequenas Pousadas da regio.
Filomena refletiu por poucos instantes e inquiriu: 
- Do que vive essa famlia?
- A mulher  viva e trabalha em casa para sustentar os filhos; no sei ao certo o que faz.
Foi como se Filomena falasse consigo mesma:
- Interessante, muito interessante... O que ser que padre Enrico pretende?... Bem, Fernando, vamos ao assunto que me trouxe aqui. Preciso saber de uma coisa como 
foi a visita de Cntia ao orfanato?
Fernando abriu um sorriso sincero e disse:
- Ela foi admirvel; tem um jeito todo especial para lidar com as crianas. Sua habilidade me impressionou: assim que chegou comeou a conversar, a brincar com elas, 
e se entenderam rapidamente.
- Que timo! Pensa, ento, que ela poder auxili-lo?
- Sem dvida. Espero que Ricardo concorde, pois acho que seria muito bom para ela tambm. Percebi que o tempo em que esteve l a fez esquecer os prprios problemas. 
Ficou alegre, parecia at feliz.
-  mesmo muito interessante, no acha, Fernando? Notando o tom irnico na voz da prima, ele questionou:
- Interessante como? No que est pensando, Filomena? 
A prima sorriu e explicou:
- Ora, acho que ela ser a prxima escolhida para servir  Igreja. Mame j ponderou essa possibilidade e parece que a menina tem jeito. - Espere a, uma coisa  
ela ter jeito com crianas, gostar de colaborar; outra, muito diferente,  ter vocao para servir ao Senhor. No esto pensando que ela possa ser...
- Admita que ela est dando todos os indcios. Se quer ajudar, se gosta de se enfiar em um orfanato com uma poro de crianas estranhas,  por que tem vocao para 
ser freira. No sei por que no aprecia e apoia a idia; afinal, ser sua ajudante, priminho.
Fernando se levantou irritado:
- Vocs no tm conserto, no , Filomena? Sempre querendo interferir na vida dos outros! E se ela no tiver. No podem for-la!
- Por que no? Ela vai apreciar a recluso, tenho certeza. E vai adorar passar a vida a servio dos pobres.
- No acredito que Ricardo concorde com isso. Ele nem queria que a menina visitasse o orfanato!
- Voc sabe que temos nossos mtodos de convencimento no , Fernando? A comear pelo papai.
- Ele j deu alguma opinio nesse sentido, ou a idia  sua?
- A idia foi de dona Isabel... Mas tambm considero que ser bom para a menina, j que ela no pode conviver com a me vive chorosa pelos cantos e voc me diz que 
ficou feliz junto s criancinhas do orfanato. Ento penso que  l mesmo o lugar dela! Sem dvida mame est com a razo. Se j achava a idia boa, agora acho excelente!
Afastando-se da prima, de volta  parquia, Fernando disse rapidamente:
- Pois no conte comigo para ajud-la. E se for consultado, darei meu parecer.
Filomena segurou-o pelo brao e insistiu:
- E por que no? Ora essa, por que quer atrapalhar, se voc  padre?
- Porque essas coisas precisam ser espontneas, jamais impostas - respondeu ele, fixando-a. 
Enlaando os braos nos do primo, ela perguntou: 
- Voc est infeliz, Fernando? Est arrependido? 
O rapaz soltou-se da prima e disse:
- No, o que defendo  que a vocao tem de ser verdadeira s assim a entrega  total. Precisamos de gente comprometida com a Igreja, no percebe? Estamos enfrentando 
ameaas a nossa f e, se no tivermos pessoas realmente devotadas, o que faremos?
- Ora, Fernando, no seja tolo! A Igreja  uma instituio firme como uma rocha! Nada poder abalar sua fora e sua tradio. Fique tranqilo! Voc se impressiona 
sem necessidade.
Fernando fitou a prima, pensando no que havia dito, e ela acrescentou:
- Reavalie sua posio com referncia a Cntia. Ser freira lhe far bem.
- Por que deseja tanto que ela se tome freira? - indagou ele, apertando o brao da jovem.
Filomena se soltou e, j de sada, justificou:
- Quero o melhor para ela.  filha de uma mulher totalmente doente, desequilibrada. E se tiver herdado o problema da me? Quer que o futuro dela seja igual ao de 
Emilie?
- Nem pense nisso, Filomena!
- Ento, no se oponha a essa idia que poder ser a salvao da menina!
Sem saber o que argumentar, ele se calou. Filomena despediu-se com um aceno e saiu em direo  cidade. Fernando ficou pensativo, repassando a conversa. Ele gostava 
muito de Cntia e queria acima de tudo que a menina fosse feliz. Ao entrar encontrou o padre Enrico, que agitado disse:
- Vou sair. Fui convocado a participar de uma reunio marcada s pressas. Quero que tome conta de tudo por aqui.
- O que aconteceu, padre?
- Recebi uma mensagem pedindo que fosse com urgncia  residncia de dom Antnio; parece que outros bispos tambm estaro presentes.  uma reunio de emergncia 
para deliberar o que fazer a respeito de notcias graves que acabam de chegar.
Depois de curto silncio, Fernando perguntou:
-  sobre a questo de Ermnia?
- No se preocupe, o caso est resolvido. J tomei todas as medidas pertinentes. Tranqilize-se.
- O senhor cr que ela voltar?
- Se tiver juzo...
- Como achou a soluo?
- Ele no ter mais nenhum comprador para seus produtos. O que acha, ento, que acontecer? No poder sobreviver, e ter de voltar atrs.
- E saber o motivo da recusa dos produtos?
- Ora, Fernando, que importa? Preciso ir agora; tome conta de tudo e ateno aos horrios das missas.
- Quando retoma?
- To logo as decises sejam tomadas.
- Pode ir sossegado; cuidarei de tudo.
Assim que o padre desapareceu na carruagem, Fernando entrou cabisbaixo. Sentia-se esgotado com toda aquela situao. Mal se refizera do problema enfrentado com Emilie 
e novas dificuldades com familiares pediam sua ateno. No sabia como agir em relao a Cntia. Suspirou fundo e dirigiu-se ao quarto, a fim de se preparar para 
a missa. Em breve os fiis estariam chegando. Cntia conversou com o pai, insistindo que a autorizasse a ir de novo ao orfanato. Ricardo continuava reticente. Todavia, 
quando Fernando chegou, no horrio combinado, ele no pde deixar de notar o brilho dos olhos da filha e sua expectativa, conseguir negar-lhe aquele momento de alegria, 
Ricardo acabou cedendo. Cntia ergueu-se exultante e, puxando o primo pelas mos, exclamou:
- Vamos, no podemos demorar!
- Calma, Cntia, temos tempo.
- Vamos logo, no quero que meu pai desista! 
Sentindo a sinceridade da menina e sua prontido em acompanh-lo, Fernando partiu com ela sem demora. Ao chegarem, notaram que algo incomum acontecia no orfanato. 
Uma auxiliar veio encontr-los na porta; estava angustiada e tinha a s mos manchadas de sangue:
- Padre, graas a Deus chegou! Venha depressa, duas crianas se pegaram e se machucaram. Temo que em uma delas seja grave.
Sem dizer nada, Fernando correu para dentro, assustado. Cntia seguiu logo atrs. Ele se aproximou da criana em pior estado, desacordada. O menino, mais velho, 
que a ferira mia na cama ao lado, acudido por outra ajudante. As demais crianas, em volta, olhavam preocupadas e uma delas perguntou, ao ver o rapaz:
- Ela vai morrer?
Fernando encarou o garoto que, aflito, queria saber sobre a amiga e no respondeu. Sentou-se ao lado da criana desacordada e viu que era Samira, abrigada no orfanato 
logo no comeo. Ficou paralisado, aturdido, sem saber que atitude tomar Tentava falar com a novia, mas sentia-se totalmente despreparado para lidar com a ocorrncia. 
Disse, por fim:
- Assim no  possvel! Vocs precisam ser mais cuidadosas; tm de prestar ateno nelas, durante minha ausncia...
No houve resposta. Cntia, que observava calada, aproximou-se de Fernando e, tocando seus ombros, falou de maneira estranha e pouco usual:
- Fernando, no  momento de reprimendas. Devemos agir com sensatez e, mais tarde, aprender com o erro.
E, dirigindo-se  novia:
- Por favor, tire as crianas daqui, leve-as para o ptio. A novia olhou para Fernando, que, surpreso, concordou com um sinal de cabea. Cntia ento pediu ao primo:
- V buscar o mdico que eu fico com ela. Fernando fitou-a, sem saber o que dizer. A menina explicou:
- Ela no morrer, mas precisamos de um mdico. 
Como Fernando continuasse hesitante, insistiu:
- No se preocupe com o julgamento dos outros a respeito do que houve; crianas so assim mesmo e essas coisas acontecem. O importante  cuidarmos dela. V buscar 
ajuda, Fernando.
Em seguida Cntia se sentou ao lado da criana, que respirava com dificuldade. Examinou seu rosto ensangentado tocando suavemente a testa da menina, disse:
- Acho que quebrou o nariz.
Fernando olhava perplexo para a menina. No entendia que estava acontecendo, nem de onde vinha aquela atitude firme e madura, que ele prprio no conseguia ter. 
Parecia Cntia de sbito se transformara em uma outra pessoa. Raciocinou por um instante e percebeu que ela estava certa. Sem falar, levantou-se e preparava-se para 
sair. Ao se aproximar da porta voltou-se e avaliou uma vez mais o comportamento de Cntia, que agora pedia  novia uma bacia com gua, para limpar o rosto da garota 
ferida. Logo depois, sentou-se ao lado do menino que gemia e, abraando-o fortemente, disse:
- Calma, ela ficar bem.
Sem poder entender o que se passava, porm vendo que a menina tinha pleno controle da situao, Fernando saiu em busca do mdico. Estava assombrado com o que presenciara, 
sobretudo pelas reaes da jovenzinha, que se transfigurara, parecendo uma mulher adulta e experiente em lidar com aquele tipo de problema. Quase uma hora depois, 
ele regressou com o mdico. Cntia estava sentada ao lado da menina, segurando sua mo. Fernando percebeu que agora parecia apenas a pequena Cntia de sempre. Ao 
ver o mdico e o primo, comentou:
- Ela vai ficar bem - e tranqila se afastou da cama.
Fernando dividia a ateno entre o mdico e Cntia, que a distncia e em silncio assistia ao rpido exame. Depois o mdico virou-se para Fernando e disse:
- Ela vai ficar bem. Quebrou o nariz, foi bom que tivesse estancado a hemorragia. Foi um procedimento adequado o tampo no nariz; devo ressaltar que  bastante delicado, 
as foi muito bem executado. Quem fez?
O mdico olhou em tomo, esperando pela resposta da outra auxiliar ou de Cntia, que permaneceu calada. Fernando perguntou  novia:
- Foi voc que fez o tampo?
- No, foi Cntia.
- Onde aprendeu isso, Cntia? - ele indagou.
- No sei. As idias foram surgindo, uma aps a outra, e apenas fui fazendo o que me vinha  mente.
Enquanto preparava os curativos adequados ao caso, o mdico ouvia a conversa, curioso. Vendo o que se passava, Fernando por precauo, retomou depressa para junto 
da paciente. Ao final de algumas horas, Samira estava devidamente medicada. Quando se retiraram do quarto, ela dormia. Fernando, exausto, acompanhou o mdico at 
a sada do orfanato e logo voltou. Sentou-se no escritrio e chamou as duas auxiliares. Sem jeito de deixar a prima do lado de fora, disse:
- Venha tambm, Cntia; afinal, voc ajudou muito hoje. Ela, entretanto, falou com ar meigo:
- J est na hora do jantar das crianas. Poderia servi-lo enquanto conversam.
Fernando concordou. As duas auxiliares entraram e ele, ento, quis saber o que havia causado a briga das crianas. A novia respondeu:
- Foi tudo muito rpido; nem deu tempo de ver direito. Quando me dei conta, eles j estavam brigando, com tamanho mpeto, com tamanha raiva... - a garota desatou 
em pranto. No tive culpa, no deu tempo de fazer nada. Quando cheguei para apartar os dois, ela j estava machucada e continuava a brigar, dando pontaps e tentando 
puxar o cabelo dele. No sei o que houve, qual o motivo de tanta raiva...
- So crianas carentes, principalmente de amor; qualquer coisa poderia ter provocado a raiva entre elas. No chore vamos. Como disse Cntia, essas coisas acontecem. 
Daqui por diante, fiquemos mais atentos para que isso nunca mais se repita dentro deste orfanato. Se alguma dessas crianas se machucar aqui, no duvido que fechem 
nossas portas.
A novia soluava, inconsolvel, e Fernando continuou orientando as duas. Quando estavam saindo a auxiliar disse, tmida:
- Precisaramos ter mais gente para colaborar. O numero de crianas esta crescendo e somos somente nos duas para cuidar delas. E pouco...
- No so tantas crianas...
- Eu sei; mesmo assim acho que precisaramos de mais ajudantes.
- Vamos torcer para que Cntia venha ao menos uma vez por semana.
- Como, padre, se ela prpria  uma criana? Fernando encarou a auxiliar e retrucou:
-  verdade, s que uma criana que hoje nos socorreu a todos. Tambm no entendo, mas agiu como se fizesse esse trabalho h anos...
Cntia esperava pelo primo contando estrias para as crianas, depois de ajudar com o jantar. Fernando observou a cena por alguns instantes, enternecido pelo carinho 
que ela dedicava s crianas. Aproximou-se e disse:
- Precisamos ir. J  tarde e seu pai vai ficar muito bravo por nos atrasarmos.
Fernando, segurando a mo da menina, que apertava a sua com fora, tentava compreender o que se passara ali naquele dia. Perguntou, ento:
- O que aconteceu com voc, Cntia? No tem medo de nada?
- Tenho, sim. Tenho horror a sangue, por exemplo.
- E como e que teve tanta coragem?
- No sei. Alguma coisa me fez sentir forte, determinada, e no tive medo. Depois os pensamentos me vinham a mente e eu falava, com aquele sentimento diferente, 
que nem parecia meu...
- Isso j lhe aconteceu antes?
- No me lembro, acho que no. Por qu?
- Por nada, Cntia. Voc ajudou muito e quero lhe agradecer.
- Gosto de estar com as crianas; isso me faz muito bem.
- Eu sei, e gostaria que viesse sempre que possvel, pois precisamos de ajuda. S vou pedir uma coisa, e quero que confie em mim e concorde.
- Pode pedir, Fernando.
- No conte a ningum o que houve hoje; no com detalhes, est bem? Nem sequer a seu pai. Passa a ser nosso segredo, certo? Se acontecer novamente, quero que me 
diga. Combinado?
- Est certo, ser nosso segredo.
Cntia sorriu e apertou com mais fora a mo do primo. Fernando, contudo, sentia o corao aflito. Sabia que no fora um evento normal. Algo de extraordinrio sucedera 
naquela tarde e ele no sabia explicar. Em seu corao, pressentia que Cntia era uma criana especial. Ao mesmo tempo, temia pela menina. Se suspeitassem que apresentava 
qualquer trao de semelhana com a me, iriam afast-la, encerrando-a em um convento, sem considerar a vontade dela e a do pai. Sabia o quanto a tia era persuasiva 
e, ainda que Ricardo se opusesse, no teria foras contra dom Felipe, dona Isabel e Filomena juntos. Ele no desejava ver a menina em clausura - no contra a vontade 
dela. Torturado pelos temores, decidiu que conversaria com Cntia sobre o assunto quando ficassem a ss outra vez. Ao chegarem  manso encontraram Ricardo, que 
ciente aguardava a filha no hall de entrada. Assim que correu e abraou-a.
- Cntia! Estava preocupado!
- Pois no devia, se sa com Fernando!
- Disse que ela no poderia chegar to tarde, Fernando, ns combinamos.
- Tem toda a razo, no acontecer de novo. Tivemos um problema srio no orfanato e Cntia nos ajudou muito.
- No quero, sob nenhuma circunstncia, que ela se atrase. Quero Cntia aqui at as cinco horas, conforme combinamos.
- Est certo, Ricardo.
- O que houve, afinal?
Abraada ao pai, Cntia endereou olhar de cumplicidade a Fernando e ento comeou a contar, sem dar detalhes: a briga das crianas, o mdico que as socorrera. Fernando 
complementou com outras informaes e se despediu, regressando logo  parquia. Nos dias que antecederam aquela sexta-feira, Emilie ficou pensativa. No podia ignorar 
sua curiosidade em tomo das reunies que Lucrcia freqentava. Imaginava se seria realmente possvel receber informaes sobre os que j haviam partido, pelos portais 
da morte, para a vida espiritual. Ao mesmo tempo, sentia medo de participar de algo que a Igreja condenava to veementemente. Analisava nos menores detalhes a conduta 
de Lucrcia e Jairo, buscando neles algo que justificasse seus temores e lhe desse motivo para no acompanh-los naquela sexta-feira. Procurava indcios de que se 
entregavam a prticas macabras ou malignas. Entretanto, quanto mais procurava, mais se surpreendia com o comportamento mpar daquele casal, que revelava em todos 
os atos do cotidiano, serenidade e carinho, respeito e uma viso diferente da vida. Ao examin-los atentamente, deu-se conta dos constantes gestos de ternura presentes 
no convvio dos dois. Emilie se surpreendia com a atmosfera de amor que envolvia o lar singelo. E cada vez mais se deixava conquistar por aquele ambiente consolador. 
Algumas vezes, quando Lucrcia no estava, ela pegava pequeno volume do Novo Testamento, guardado entre as louras e lia alguns trechos. Era s perceber sua aproximao 
que corria e o devolvia a seu lugar. Na quinta-feira Emilie estava decidida a ir com o casal quela reunio. Embora ainda abrigasse receios, refletia: "Como poderia 
ser algo maldito, se Lucrcia e Jairo demonstram tanto amor e tal lucidez no dia-a-dia?". Na hora do jantar, Lucrcia falou com extrema doura:
- Emilie, precisamos conversar.
- Algum problema? - disse a moa, mantendo os olhos fixos na dona da casa enquanto comia.
- Vai nos acompanhar  reunio? Aps curto silncio Emilie respondeu:
- Vou, sim. Quero conhecer isso de perto.
- timo! Fico muito feliz por sua deciso. Tenho certeza de que ser muito bom para voc.
- Como pode estar to convicta?
-  que eu j passei por isso, e sei quanto bem me fez. Emilie tomou alguns goles de gua, depois depositou o copo delicadamente sobre a mesa e disse:
- Vou apenas conhecer, Lucrcia, ver como ; se no gostar, no volto mais.
- Est certo. O importante  que d o primeiro passo. O restante  com eles...
- Com eles quem?
Lucrcia olhou para Jairo, sem saber o que dizer, e ele, que at ento se mantivera calado, respondeu:
- O pessoal que estuda conosco, ora! O resto  com eles!
Lucrcia sorriu discretamente, achando graa na resposta gil do esposo; meditou por instantes e acrescentou:
- H uma outra coisa que preciso lhe dizer. Estou apreensiva com o perigo que corre aqui. Pensei muito, Emilie. No gostaria de me afastar de voc, mas creio que 
ser melhor para todos ns.
Sem compreender, Emilie olhou assustada para Lucrcia, que prosseguiu:
- No se assuste. Temos amigos que tambm vo a essas reunies. So pessoas de nossa mais alta confiana e que nos ajudaram muito quando chegamos aqui, sem nenhum 
recurso. Esta casa lhes pertence e nos deixam morar nela, sem nada pedir em troca. Como v, so amigos de verdade. Amanh, depois da reunio, gostar ia que fosse 
com Sara, o esposo e a filha para a casa deles. Ali voc estar mais segura. Ningum saber do seu paradeiro e, como a casa fica bem retirada, ser muito difcil 
encontrarem voc. Estar protegida.
Emilie se sentiu subitamente desprotegida. Todavia, sem que ela dissesse uma s palavra, Lucrcia segurou-lhe a mo e disse:
- Irei v-la sempre que puder e voc ficar na companhia de pessoas amorosas, que podero ajud-la tanto como eu ou mais.
Sem responder, Emilie continuou comendo; Lucrcia percebeu as lgrimas brotarem nos olhos da jovem, que fazia fora para se controlar, e insistiu:
- O que foi, Emilie? Por que essa tristeza?
- No sei.
- Ser melhor para voc, para sua maior proteo. 
- Eu sei;  que... no sei explicar...
- Eu entendo. Quando temos de nos adaptar a mudanas, e novamente nos adaptar, sofremos. Mas ser muito bom para Voc, no tenha medo.
Sem dizer mais nada, Emilie acabou o jantar e depois de ajudar Lucrcia foi em silncio para a cama. Sentada, abraando os joelhos, meditou longamente sobre tudo 
o que estava acontecendo em sua vida: o desespero que quase a levara dar fim  prpria existncia; o encontro com Lucrcia e Jairo o cuidado que recebera deles; 
e agora aquela possibilidade de compreender o que era aquilo que a acometia desde criana
Percebeu que temia afastar-se de Lucrcia. A despeito de ser ainda uma desconhecida para ela, sentia-se ligada quela mulher de um modo diferente, nico, como jamais 
experimentara E sabia que Lucrcia sentia algo semelhante. Lembrou-se ento da filha, de quanto a amava e de quanta saudade tinha. De olhos fechados, imaginou o 
que estaria fazendo naquele momento; relembrou vivamente seus olhos meigos, sua face delicada e rosada, suas mozinhas carinhosas, que toda noite lhe afagavam os 
cabelos, quando a colocava na cama e se despedia com um beijo na testa. Ao pensar em Cntia, no pde conter as lgrimas nem a angstia e a aflio que a dominaram, 
enchendo-a de dor e de saudade; era insuportvel a ausncia da menina. Recordou-se depois de Ricardo, e a dor se transformou em mgoa e ressentimento. Presa s lembranas, 
Emilie demorou muito a adormecer. Quando afinal caiu no sono, teve pesadelo aterrador: via-se novamente junto do precipcio, e Cntia a distncia, presa pelas mos 
de Ricardo, gritando e chamando por ela. S que no sonho ela lutava para no pular e era forada por seres que no conhecia. Quatro pessoas a seguravam pelos braos, 
empurrando-a. E ameaavam: se ela fosse quela reunio com Lucrcia, jogariam tambm a filha. Emilie se debatia, gritava desesperada, implorava que a soltassem. 
Freneticamente lutava para se desvencilhar das criaturas, sem conseguir; por fim, quando se viu  borda do penhasco, prestes a cair, gritou ainda mais desesperada. 
Foi a que viu Lucrcia aproximar-se; seu rosto resplandecia em suave luz rosada e ela sem esforo soltou das criaturas, que ficaram paralisadas  sua frente. Abriu 
os olhos e viu Lucrcia sentada ao seu lado, tentando despert-la. Ela se sentou na cama, quase incapaz de respirar. A amiga explicou:
- Estava tendo mais um pesadelo, Emilie. Beba um pouco de gua fresca para se acalmar.
Emilie tomou a gua e procurou ficar mais tranqila. Quando pde falar, disse:
- Estavam me ameaando.
- Eu sei.
- Disseram que mataro a mim e a Cntia, se eu for com vocs amanh.
- Tenha calma, Emilie; eles no faro nada contra voc ou sua filha, confie em mim.
- Quem so eles, afinal?
- Como j lhe disse, so irmos nossos, que ainda no aprenderam a perdoar...
- E o que tm eles a ver comigo? Por que me perseguem? No os conheo, nunca os vi antes.
- Certamente j os viu, s que no momento no se recorda disso.
- Ser que devo ir a essa reunio, Lucrcia? Estou com medo...
- E o que eles querem, Emilie: que tenha medo e desista. E por isso tenho mais certeza de que deve ir, de que algo l a ajudar muito!
- Por que acha que participar de uma simples reunio de estudos ir me ajudar tanto?
-  difcil explicar, mas sei por experincia. Precisa experimentar por voc mesma.
Com as mos ainda trmulas, Emilie segurou as de Lucrcia e pediu:
- Ento me esclarea um pouco mais; diga o que se passa comigo.
- No  a primeira vez que tem pesadelos, , Emilie?
- No. Os pesadelos me acompanham de longa data.
- E por certo tambm no  a primeira vez que sonha com esses irmos. Voc no se lembra?
- Sempre sonho com pessoas  minha volta, tentando me fazer mal. Desta vez, porm, vi o olhar de raiva que me dirigiram; percebi que so dois homens e duas mulheres. 
 a primeira vez que os vejo to claramente, e que consigo lembrar ao despertar. Foi terrvel!
- Tenha pacincia, tudo vai ficar claro, confie em mim.
- Quem so, Lucrcia, t o que querem de mim?
- Por enquanto, s posso dizer que so irmos nossos, precisando de ajuda. Mais tarde voc compreender. Agora procure dormir novamente.
- No quero, no consigo.
Aps pensar um pouco, Lucrcia se levantou, pegou o Novo Testamento e o entregou a Emilie:
- A companhia de Jesus sempre nos auxilia, e o seu Evangelho  a melhor forma de lhe conhecermos os ensinamentos. Leia. Tenho certeza de que se acalmar.
Emilie pegou o pequeno livro, segurou-o com firmeza e disse:
- Voc  muito boa comigo. Contudo, acho que no devo acompanh-los amanh. Algo me diz que no ser bom para mim.
- No percebe que  exatamente isso que eles querem?
- Eles quem? Por que no me explica de uma vez? Porque no esclarece o que se passa comigo? Acho que voc no sabe, que finge saber s para me levar a essa reunio.
- Emilie, se no quiser ir conosco, no precisa; levo voc diretamente para a casa de Sara. Mas  muito difcil esclarece tudo de uma s vez. Participar da reunio 
facilitar o seu entendimento. Explicar  mais complicado.
- Acho que no devo ir...
- Vamos ver como acorda amanh. Tente dormir.
Deixando a jovem com o Novo Testamento, Lucrcia voltou a seu quarto e, antes de se deitar, orou pedindo ajuda a Deus. Emilie acendeu a vela que ficava  sua cabeceira 
e depois de ler vrias pginas finalmente adormeceu. Na manh seguinte, mais aliviada, acordou com o pequeno livro entre as mos. Assim que apareceu na cozinha, 
Lucrcia, com o carinho habitual, perguntou:
- E ento, descansou? E o Evangelho, deu para ler um pouco?
- Li s alguns trechos, pois logo adormeci. Sabe Lucrcia, no consigo compreender direito o que poucas vezes li na Bblia; acho bonito, mas no fica claro para 
mim o que quer ensinar.
Lucrcia sorriu, sentando-se ao lado da jovem:
-  que voc se atm s palavras e no  essncia, ao que realmente significam. So o sentimento e o pensamento do Criador que elas querem traduzir. Veja o Evangelho: 
se ficarmos presos s palavras e mesmo s histrias e parbolas, sem buscar apreender o contedo mais profundo das lies de Jesus, se no meditarmos no que elas 
tm a ver conosco e, principalmente, se no procurarmos colocar em prtica o que Ele ensinou, dificilmente conseguiremos captar o pleno sentido da mensagem crist. 
Tudo nos soar como uma bela filosofia que nos disponhamos a assimilar as poderosas verdades e os valores que, quando aplicados, podem transformar nossas vidas.
- Emilie olhava para Lucrcia, bebendo suas palavras. Nunca ouvira ningum falar daquele modo sobre os textos sagrados, continuou atenta, absorvendo o que a dona 
da casa dizia. E Lucrcia prosseguiu:
- Os ensinos de Jesus so fonte de vida, de luz para nossas almas; eles nos capacitam a encontrar o caminho a seguir, a tomar as melhores e mais sbias decises, 
e podem ser aplicados a tudo em nossa existncia. Jesus foi quem nos revelou as leis imutveis do Pai e, mais do que com as palavras, o fez com Seus atos, Seu comportamento, 
Sua vida. Suas lies nos consolam, nos esclarecem e nos fazem caminhar com equilbrio, em todas as situaes. Mas  preciso que lhes penetremos o significado, no 
ficando apenas na superfcie da palavra em si ou dando voltas em interpretaes tericas. Suas revelaes so grandiosas demais para ns e por isso, se queremos 
compreend-las, precisamos tentar praticar o que Ele ensinou. S assim se tomaro vivas dentro de ns e nos ajudaro a entender a finalidade de nossa existncia 
e a encontrar esperana para o futuro, quando no mais estivermos neste planeta.
Emilie estava encantada com o que ouvia. Mesmo sem a compreenso ntida do que ela queria dizer, as palavras de Lucrcia lhe traziam intenso bem-estar. Que f sincera 
e maravilhosa demonstrava! Que lucidez naqueles breves comentrios! Emilie lembrou-se de que havia conhecido uma nica pessoa que falava daquela maneira: sua av 
Helose. Ento Lucrcia se calou. Depois de demorado silncio, Emilie perguntou:
- Onde foi que aprendeu tudo isso? Voc  catlica, ou tem outra religio?
Lucrcia sorriu e disse:
- Como sabe, nasci em Marrocos, onde a religio oficial e o islamismo. Recebi rgida formao religiosa; havia, entretanto, questes no respondidas que insistiam 
em assolar-me a mente e sobretudo o corao. Casei-me e tive trs filhos. Quando conheci melhor o Cristianismo, descobri nas lies do Evangelho de Jesus aquilo 
que estava procurando e abandonei a religio de meus pais. Foi difcil e muito doloroso, porm aquela luz que se acendera em meu corao no podia mais ser apagada.
Emilie estava atenta  narrativa das lembranas de Lucrcia:
- O sacrifcio foi grande: meu marido me abandonou e meus filhos me foram tirados. Fui parar na priso, ignorada pela famlia e pelos amigos. L conheci Jairo. Ele, 
ento, passou a representar tudo para mim e planejamos fugir. Conseguimos escapar e viemos para a Espanha, na esperana de encontrar apoio em um pas catlico. No 
entanto, duras lutas nos esperavam. Apesar de tudo, eu sentia Jesus perto de mim e sabia que Ele jamais me abandonaria.
Lgrimas desciam pela face de Lucrcia; igualmente emocionada, Emilie acompanhava o relato. Lucrcia enxugou as lgrimas e continuou:
- Mesmo sofrendo todo tipo de privao que voc possa imaginar, permanecemos confiantes em Deus e em Jesus. Foi a que conhecemos Miguel. Ele nos ajudou sem perguntar 
sobre nossa origem, religio, nada! Levou-nos para a prpria casa e nos deu tudo de que necessitvamos. Ajudou Jairo a se iniciar na pesca e logo que nos viu mais 
fortes nos apresentou  famlia de Sara, que ofereceu esta cabana para vivermos. Foi Miguel que nos fez conhecer esse movimento renovador que se alastra pela Europa, 
difundindo a chamada Doutrina dos espritos. A princpio ficamos receosos, como voc est; na verdade tnhamos muito medo, mas Miguel foi to bom para nos dois que 
acabamos tendo vontade de saber um pouco mais daquilo que ele tanto apreciava. Desde a primeira reunio de que participamos, na casa desse amigo, um espesso vu 
foi retirado de nossos olhos espirituais; passamos a compreender os ensinamentos de Jesus de forma diferente, viva e intensa, se atingissem intimamente nossas almas. 
Tudo adquiriu e uma nova alegria preencheu nossos coraes.  medida que falava, seu rosto se iluminava. Emilie quase podia ver a luz que ele irradiava. Continuava 
embevecida por aquelas palavras; uma nova emoo a envolvia por completo. Lucrcia ento olhou mais firme para Emilie, como se despertasse de suas lembranas, e 
disse:
- Ser que consegue me entender, Emilie?  por isso que insisto que nos acompanhe. Se achar por bem nunca mais retomar, isso ser com voc. Pelo menos ter conhecido 
um pouco dessa doutrina libertadora e esclarecedora que  o Espiritismo.
Emilie estava confusa. Sentia-se por demais encantada com o que escutava e, no obstante os receios que persistiam, comentou:
- O que j ouvi dessa doutrina  terrvel: que  do demnio, que so seres demonacos que se comunicam, que seus ensinamentos vm do mal; isso me assusta muito. 
J o que voc est me dizendo no combina em nada com tudo o que tenho ouvido. Voc me fala de amor, de compreenso e de Jesus, de maneira nova. Nunca pensei que 
essa religio tivesse algo a ver com Jesus. Quero conhec-la de perto. Ainda tenho muito receio, mas no  possvel que uma nica visita possa me prejudicar.
Lucrcia sorriu, aproximou-se dela e abraou-a com imensa ternura. Emilie, por sua vez, deixou-se envolver pelo gesto carinhoso. Depois, Lucrcia lhe disse:
- Estou certa de que comear a compreender muitas coisas... Estou feliz por nos acompanhar... 
Assim que anoiteceu, Jairo saiu na frente para verificar se no havia algum  espreita. Apesar de ningum ter sido visto, Lucrcia abraou-se a Emilie e saram 
as duas cobertas pelo mesmo casaco, parecendo uma s. Caminharam rapidamente por pequena trilha que contornava a costa. A princpio no usaram luz alguma; mais distantes 
da casa, Jairo acendeu uma lamparina e seguiram pela trilha. Chegaram  vila e a atravessaram em passos rpidos; do outro lado, entrara m por uma ruela. Andaram 
quase meia hora e finalmente cruzaram o porto de uma casa, protegida por muitas rvores. Bateram. Um rosto alegre surgiu  porta e foram convidados a entrar. Emilie 
examinava tudo com desconfiana e curiosidade. Aps ser apresentada, ela se ajeitou na cadeira e observou Lucrcia e Jairo, que tomavam lugar na pequena mesa colocada 
no centro da sala. O homem que ocupava a ponta da mesa pediu a Jairo que fizesse uma prece para o incio da reunio. Jairo se levantou e ficou longo tempo sem dizer 
nada. Um silncio profundo dominou a sala. Jairo comeou ento a orar:
- Senhor, Mestre de nossas almas, de nossas vidas, vem em nosso favor nesta hora, auxiliar-nos a entender Teus ensinamentos. Ajuda-nos a viver Tuas lies. Sabemos 
que tudo o que nos acontece tem a permisso do Pai, pois Seu objetivo  promover nossa evoluo. Guia-nos para a compreenso dos desgnios divinos. Abenoa nossa 
reunio desta noite, fazendo-a de grande proveito e crescimento para todos ns. Que assim seja.
Enquanto Jairo orava, Emilie experimentou forte calor tomar todo o seu corpo. Em seguida, teve a impresso de flutuar na cadeira, como se levitasse; sentiu-se subitamente 
crescer, e crescer, como se sua cabea tocasse o teto. Seu corao disparou em batimentos descompassados e suas mos, que estavam quentes, suavam muito. Eram sensaes 
absolutamente inusitadas. Pensava em se levantar e sair, quando percebeu que tais sensaes lhe traziam bem-estar, calma e serenidade. Depois que Jairo se sentou, 
Emilie continuou mergulhada nas mesmas sensaes. Observou o que se passava, agora com interesse redobrado. As luzes, que haviam ficado apagadas durante a orao, 
foram acesas e, feitos alguns comentrios, iniciou-se o estudo de O Livro dos Espritos, com a leitura de uma das questes. Emilie ouvia com ateno. De vez em quando 
Lucrcia a encarava e sorria, satisfeita, como se soubesse bem o que ocorria com a jovem. Emilie recebia seu olhar carinhoso, sem retribuir-lhe o sorriso. Aps o 
estudo e as reflexes feitas pelos scios da pequena agremiao, o homem sentado na ponta da mesa informou a todos que passariam  parte prtica da reunio. Em orao, 
pediu aos espritos benfeitores que ali se encontravam, com o objetivo de orientar e ajudar o grupo em seu desenvolvimento espiritual, que se manifestassem atravs 
dos mdiuns presentes. Antes de prosseguirem, Lucrcia cochichou algo no ouvido do esposo, que o transmitiu a Paulo, o dirigente. Este fitou Lucrcia interrogativamente 
e ela, com um expressivo olhar e um menear de cabea, pediu que a atendesse.
Paulo olhou para a audincia atenta e disse:
- Emilie, por favor, venha sentar-se conosco  mesa. Ela se surpreendeu com o convite. Ia recusar, mas uma fora desconhecida a fez ficar calada. Permaneceu sentada 
sem saber o que fazer.
Novamente soou a voz firme do dirigente:
- Venha juntar-se a ns, minha filha. No tenha medo. Apenas sente-se conosco e una-se a ns na concentrao.
Hesitante e temerosa, ela se levantou lentamente, relutando em atender aquele pedido. Devagar atravessou o corredor e foi se encaminhando para a mesa.  medida que 
se aproximava, a emoo a envolveu por completo. Seu corao se acelerou ainda mais e sentiu forte vertigem ao chegar  mesa. Sentou-se ao lado de Lucrcia. To 
logo se acomodou, sem controlar os prprios movimentos, pegou na mesa pena e papel. Ela prpria no entendia o que estava acontecendo. Seus atos eram quase involuntrios, 
fruto de um impulso incontrolvel. Paulo, ento, pediu de novo que se apagassem as luzes e orientou todo s a que se ligassem mentalmente a Deus, o Criador de todas 
as coisas, e a Jesus, seu mensageiro supremo. Que buscassem no Pensar em mais nada, e mantivessem a disposio de colaborar com os emissrios espirituais no que 
deveria ser transmitido naquela noite. O pequeno grupo era coeso, revelando desejo sincero de aprender e de praticar o bem. A sala estava lotada de espritos que 
ali compareciam ou para ajudar ou para igualmente aprender. Paulo terminou de falar e algo surpreendente aconteceu: Emilie segurou firme a pena, de um jeito que 
nunca fizera, como se segurasse um pedao de pau qualquer, e daquela forma totalmente desconfortvel comeou a escrever. Sentia a mo se mover alheia  sua vontade 
e ficou assustada Olhou para Lucrcia como a pedir socorro e ela disse baixinho:
- No tenha medo, relaxe e confie. 
Sem conseguir dizer mais nada, Emilie escreveu vrias pginas. Os pensamentos lhe vinham um aps outro; mal ela os percebia e j os havia colocado no papel. Sua 
mo acompanhava o fluxo das idias, registrando-as quase como se fosse comandada por outra pessoa. Absoluto silncio reinava no ambiente. Um sentimento suave e leve 
envolvia todos os presentes. Lucrcia estava emocionada, mas no permitia que sua emoo interferisse no que ali ocorria. Sempre soubera que Emilie era mdium, e 
o fato de ela estar recebendo sua primeira mensagem a deixava inebriada de alegria. Agradecia a Deus pela vida da jovem e por ter sido instrumento para socorr-la 
Ao final de quase trinta minutos, Emilie soltou a pena que rolou pela mesa e caiu no cho. Estava exausta. Recostou-se na cadeira e permaneceu quieta. Outra senhora 
sentada  mesa recebeu uma mensagem e Paulo finalizou grafando mais uma, ambas curtas. Era incomum, naquela pequena sociedade esprita, virem mensagens to extensas 
como a que Emilie acabara de receber. Quando as luzes se acenderam, Paulo pediu que as comunicaes fossem lidas. A senhora leu primeiro; depois de olhar para Emilie, 
que parecia hesitante, ele fez a sua leitura e, ao terminar, pediu que a jovem lesse. Ela o fixou:
- Eu recebi uma mensagem?
- Sim, voc recebeu uma mensagem do mundo espiritual.
- De um esprito?
- Sim, de um esprito.
- Meu Deus! O que vai ser de mim?
- Agradecida ao Pai pela oportunidade desta noite, que h tanto aguardava rogo que Ele me ajude a expressar-me conforme necessito peo a vocs que tenham boa vontade 
em ouvir-me; estendo meu pedido muito especialmente a esta irm, por intermdio de quem ps s expressar-me. Todos ns, que estamos aqui nesta noite, temos uma enorme 
responsabilidade para com a vida. A cada reencarnao, chegamos na terra com uma espcie de mapa da futura existncia gravado em nossa alma em nossa conscincia 
profunda. Temos um acordo com o Criador, pelo qual nos comprometemos a uma srie de deveres, especialmente o de nos melhorarmos e resgatarmos nossos dbitos, acertando 
as contas com aqueles que prejudicamos no passado. Esse mapa permanece dentro de ns e se manifesta nas circunstncias que nos vo assinalando a jornada, mesmo contra 
nossa vontade, j que muitas vezes foram colocadas em nosso caminho com nossa plena aquiescncia. Ento, frente a esses fatos por ns prprios desejados, podemos 
optar por crescer e aprender, como nos propusemos antes do reencarne, ou preferir nos rebelar e ignorar as lies verdadeiras que nos cabe aprender. O materialismo 
nos envolve de tal maneira que, no obstante conscientes de que todos deixam esta vida um dia, agimos como se aqui fssemos ficar eternamente. No refletimos que 
teremos de partir um dia. E quando isso acontecer, meus irmos, voltaremos com nosso mapa - que tinha como destino nosso aprimoramento interior e prestaremos contas 
 nossa conscincia, s leis que governam o Universo e a Deus, com quem, afinal, nos comprometemos. Nossa vida na terra  transitria e poderemos aproveit-la muito 
mais e melhor se compreendermos nosso mapa interior e, pelo bom uso da vontade, nos aproximarmos de Deus buscando fazer nossa parte. Pensem, meus irmos, o tempo 
de uma vida  curto. Breve muitos vocs estaro no mundo espiritual, conosco. Entretanto, a forma como chegaro depender de como viverem seus dias. Temos grandes 
deveres para com as leis divinas. Nossa vida  uma oportunidade sagrada de fazermos o que Deus espera de Seus filhos. Ele aguarda por nossa deciso. E quando estamos 
na rota certa, a paz e a alegria so nossas companheiras. Ouam-me, meus irmos, e aproveitem essa sagrada oportunidade. Que Deus os ampare e abenoe. Olhem para 
Jesus, que est sempre ao seu lado, e caminhem para a redeno de suas almas.

Heloise de Chemonis.

Ao ouvir o nome, Emilie no conseguiu controlar a emoo e se entregou a sentido pranto. Todos na sala faziam absoluto silncio, meditando na mensagem deixada pelo 
esprito Heloise. Ao terminar a leitura, Paulo devolveu os papis a Emilie, dizendo:
- A mensagem lhe pertence, peo apenas que prepare cpia para ns. Certamente todos aqui vo querer guard-la e l-la de quando em quando.  um esprito esclarecido 
e amoroso. Conhece Heloise de Chemonis?
Emilie balanou a cabea afirmativamente, enquanto enxugava as lgrimas.
- Conheo. Ela foi minha av, morreu h muito tempo...
- Morreu no, minha filha, voc viu que ela continua viva; s est em outro plano.
- ramos muito unidas... Ela faleceu quando eu era muito jovem.
- Ao que parece, continuam bem prximas.
Emilie no pde dizer mais nada. As lgrimas a dominaram e longo tempo transcorreu at que conseguisse se acalmar. Lucrcia permaneceu ao seu lado, acariciando-lhe 
os cabelos, quando viu que Emilie conseguira se refazer, exclamou:
- Que lindo presente voc recebeu hoje, Emilie! Que beno!
- No estou compreendendo nada. O que houve aqui? Como isso foi acontecer, justo comigo? Era mesmo minha av?
- Voc no sentiu? Pode negar a experincia que vivenciou?
Emilie olhou a amiga, intrigada, e perguntou:
- Como sabe o que senti? Como sabia que eu iria escrever?
- Heloise me disse.
- Falou com ela?
- Ela falou comigo.
- No entendo...
- Vamos, Emilie, precisam fechar a sala e Sara nos espera. Conversaremos no caminho. Teremos muito tempo para esclarecer suas dvidas. Por ora, conserve a sensao 
de paz e serenidade deste momento e aproveite o aprendizado.
Calada, Emilie se levantou e saiu amparada pela amiga. A mente de Emilie transbordava de perguntas; estava totalmente confusa quanto  experincia que acabara de 
ter. Pela primeira vez, porm, admitiu que algo poderoso tomava conta dela; conscientemente percebeu que era envolvida por uma fora maior, que a fazia agir. Ao 
se aproximarem de Sara, a moa fez meno de indagar algo a Lucrcia, que, parecendo adivinhar-lhe os pensamentos, antecipou-se:
- Sei como se sente, Emilie. Perguntas e dvidas inumerveis devem estar torturando sua mente; mas tenha calma.
- Estou com medo, Lucrcia. O que se passou comigo hoje?
- O que achou da nossa reunio?
- No sei, estou assustada, confusa e com medo; ao mesmo tempo sinto uma paz, um bem-estar que no sei explicar. Est muito confuso...
- Tenha pacincia e a seu tempo tudo se esclarecer.
Sara aguardava as duas, sorrindo carinhosa para a jovem que levaria consigo para casa. Lucrcia ento disse a Emilie:
- Sara poder esclarecer suas dvidas; conhece muito mais do que eu e tem mais experincia. Alm disso, com ela ficar segura, pois sua casa  afastada e ningum 
descobrir onde est.
Como Emilie a olhasse entre assustada e ansiosa, ela a acalmou:
- No se preocupe, Emilie, vou visit-la sempre que for possvel. E caso voc resolva participar de nossas reunies nos veremos todas as semanas. Todas as dvidas 
que tiver, transmita a Sara; ela poder ajudar e explicar melhor do que eu.
Pela primeira vez, Emilie abraou Lucrcia fortemente, sentindo tristeza em afastar-se dela, que por sua vez, ao se despedir da jovem, tinha os olhos rasos de gua. 
Afeioara-se profundamente a Emilie e era como se separar de uma filha. Sara assegurou, em tom maternal:
- Cuidarei bem dela, Lucrcia, pode ficar sossegada. E esta sua filha voc poder ver quando quiser...
- Obrigada por nos ajudar outra vez, Sara.
- Sabe que no precisa agradecer. Estamos aqui para nos auxiliar uns aos outros; se no praticarmos aquilo que aprendemos, nossos conhecimentos de nada valero. 
Fico feliz em poder contribuir.
Despediram-se e Emilie acompanhou, atordoada, os novos amigos que acabara de encontrar. Ia hesitante, olhando seguidamente para Lucrcia e Jairo, que haviam ficado 
para trs, ainda  porta da pequena casa que os acolhera. O corao da moa batia descompassado. Afastava-se de uma verdadeira amiga, e somente agora se dava conta 
do carinho que nutria por Lucrcia. Apertou ento a mensagem que trazia nas mos e seu corao se acelerou mais. Teria mesmo sua av Helose se comunicado com ela, 
escrevendo pela sua prpria mo? No seria aquilo uma obra maligna, como ouvira dizer tantas vezes, inclusive com referncia ao que ela experimentava? O padre a 
orientava para que rezasse mais, tivesse mais f em Deus e afastasse os maus pensamentos, pois o que lhe acontecia era coisa do demnio. O que acabara de ocorrer 
no seria tambm ao de enviados do mal? Emilie no sabia o que pensar. Sentiu vontade de sair correndo dali, deixando tudo aquilo para trs. Mas voltar para onde? 
Sem alternativa, acompanhou Sara e Josias at agradvel casinha  beira-mar, onde residia a famlia. Sara acomodou Emilie em um dos quartos, junto com a filha, Suzana, 
no sem antes se desculpar:
- Gostaramos de instal-la em um quarto s para voc, mas temos trs filhos e a casa no  grande; Suzana, por ser a nica mulher, tem o quarto mais amplo.  uma 
menina doce e meiga, creio que se daro bem. Desejo que tenha o maior conforto possvel enquanto estiver conosco. E saiba, desde j, que queremos que fique o tempo 
que for necessrio.
- Sinto-me muito constrangida por invadir assim a casa de pessoas que nada tm a ver com meus problemas.
- Somos todos irmos, filhos do mesmo Pai, que  Deus. Hoje  voc que precisa de ajuda, amanh poderei ser eu a necessitada, ou algum de minha famlia. Portanto, 
no estou dando a voc nada alm do que gostaria igualmente de receber. Fique  vontade, est em sua casa.
Emilie sentou-se na cama que Sara lhe oferecera. Depositou Papel dobrado que trouxera e, olhando detidamente para a mensagem, disse:
- Tenho tantas dvidas, tantas coisas a lhe perguntar... Amanh, Emilie. Agora descanse. Teremos muito tempo para conversar.
Emilie ainda tentou estender a conversa, mas Suzana entrou no quarto e foi logo dizendo:
- Que bom, terei companhia... Voc sabe contar estrias, Emilie?
- Emilie est cansada, filha. Deixe-a descansar, no a aborrea.
Emilie sorriu para a menina:
- No tem importncia, Sara. Voc gosta de ouvir estrias, Suzana?
- Adoro!
- Eu costumava contar muitas  minha filha.
- Com os olhos cheios de lgrimas ao recordar a filha, ela se esforou para continuar:
- Que estria gosta de ouvir?
- Qualquer uma.
Emilie sentou-se na cama de Suzana e comeou uma narrativa. Sara observou em silncio e por fim retirou-se, deixando as duas a ss. Na manh seguinte, Emilie despertou 
ainda mais apreensiva e melanclica. Sara notou seu estado de esprito e, logo que tomaram o caf da manh, perguntou:
- Voc aprecia o mar, Emilie?
- Muito.
- Gostaria de caminhar um pouco pela praia? Poderemos ter tranqilidade para conversar.
Emilie animou-se e acompanhou Sara.
- Penso que gostaria de falar sobre a reunio de ontem.
- Ontem me sentia melhor; hoje amanheci com medo, ansiosa e aflita.
- Foi a primeira vez que isso ocorreu com voc?
- Desse jeito, sim. Mas desde a adolescncia estive s voltas com situaes semelhantes;  como se tivesse dupla personalidade e a outra se apossasse de mim, dizendo 
e fazendo o que bem quer; quando recupero o controle, nunca sei o que houve. Tenho sofrido muito com isso. Mais recentemente, agredi minha filha e contam que tentei 
matar meu marido e ela. No me lembro de nada. Dizem que coloquei veneno na comida deles, mas no  verdade, eu no fiz isso. O que acontece comigo?
- Emilie, voc  sensitiva,  mdium.
- O qu?
- Tem uma aptido que lhe permite entrar em contato com os espritos, com o mundo invisvel.
- Isso  coisa do diabo!  um sacrilgio! No podemos incomodar os mortos!
 - Voc os chamou alguma vez? Pediu que viessem? Convidou-os a fazer essa confuso em sua vida?
Emilie pensou um pouco, procurando compreender o que Sara queria dizer. Depois respondeu:
- No, claro que no.
- E ontem, pediu  sua av que escrevesse por seu intermdio?
- Eu no tinha a menor idia do que se passava...
- Ento, pense: como pode haver sacrilgio? Como pode estar invocando os mortos, se so eles que esto provocando voc, ou se manifestando por seu intermdio?
Emilie fitou Sara e disse:
- E como pode ter tanta certeza de que so espritos?
- Ontem, quando sentiu vontade de escrever, notou algo de familiar? Alguma sensao agradvel ou coisa parecida?
Emilie procurou recordar, depois assentiu:
- Pensando bem, tive uma sensao doce e suave, como Sempre tinha na companhia dela...
- Percebe? Posso discorrer aqui sobre os conhecimentos que j adquiri, que para mim no deixam dvidas quanto  autenticidade das comunicaes que acontecem por 
toda parte entre os vivos da terra e os vivos do plano espiritual. Os espritos esto  nossa volta, e nos influenciam muito mais do que podemos supor. Voc pde 
sentir por si mesma, e isso  mais do que eu posso lhe explicar. 
Emilie ficou pensativa e caminharam por um bom tempo em silncio. Ela meditava no que Sara acabara de lhe dizer. Enfim, falou:
- Que conhecimentos so esses? A que comunicaes se referem?
- Est nascendo uma nova era para a Humanidade. Uma era em que os homens tero acesso, atravs dos conhecimentos espritas, a verdades cuja busca os aflige desde 
o incio dos tempos. Esses conhecimentos trazem respostas para as mais profundas questes da alma humana: quem somos, de onde viemos e para onde vamos.
- E no  isso que a Igreja se prope responder?
- S que at agora no conseguiu completamente, no  mesmo?
- Mas o Espiritismo  do demnio!  isso que todos dizem...
- O Espiritismo est calcado na moral crist, em sua mais pura essncia. E a Igreja assim o reconheceria, se estivesse atenta aos princpios ensinados por Jesus 
e deles no se tivesse desviado.
- Como assim?
- A Doutrina Esprita lana nova luz sobre os ensinos de Jesus, e  neles alicerada. Alguns aspectos das lies do Mestre no puderam ser inteiramente revelados 
por falta de maturidade dos homens de Seu tempo, e por isso foram ditos de forma velada. Tais aspectos so agora aclarados em sua totalidade por essa doutrina que, 
mais do que tudo, busca com seus Postulados a regenerao do homem e sua ligao mais estreita com o Criador - no pelo medo das ameaas de condenao a um inferno 
interminvel, e sim pela compreenso da sua essncia imortal, da sua responsabilidade na construo do prprio futuro e da presena constante do amor divino a ampar-lo 
em sua trajetria.
- Ento por que dizem tantas coisas terrveis sobre essas prticas?
- Porque os homens tm medo.
- Medo do qu?
- Medo de admitir que no sabem tudo, que precisam abrir a mente e o corao para buscar entender as questes espirituais em profundidade. Temem tambm o que  novo 
e desconhecido. A Igreja tem interesses a preservar, Emilie. Se os homens raciocinarem melhor sobre Deus e Sua criao, se discutirem e procurarem assimilar os ensinos 
de Jesus em sentido pleno e se, acima de tudo, procurarem viv-los, o poder e a autoridade da Igreja se enfraquecero. Ela tem muito a perder com a expanso da Doutrina 
dos Espritos, que, repito, nada mais  do que o resgate dos valores cristos primitivos de amor, caridade, fraternidade desinteressada e, por conseguinte, da verdadeira 
espiritualidade. Esses valores, no apenas ditos, mas vividos, so poderosas foras capazes de transformar a Humanidade. O perdo das ofensas, a caridade para com 
os inimigos, o amor e tudo o mais que Jesus nos ensinou so atitudes contrrias aos interesses do culto ao egosmo e ao orgulho que se desenvolveu na Terra, sob 
o olhar complacente das instituies humanas. Jesus morreu porque ameaou interesses arraigados nos homens daquela poca; a Doutrina Esprita, junto com seus seguidores, 
 perseguida e enxovalhada por razes semelhantes. Em relao a todos os assuntos, minha filha,  preciso conhecer para depois criticar.
Emilie ouvia atentamente as explicaes de Sara, que continuou:
- Voc no precisa acreditar no que estou dizendo. Verifique por si mesma. Estude, leia, abra sua mente e compreenda. Voc conta com o amparo de sua av, que est 
ao seu lado ajudando-a a enxergar com mais clareza.
- Como sabe disso?
-  que posso v-la, Emilie.
- O qu? Pode v-la? Como?
- Do mesmo jeito que vejo voc. Posso v-la, e igualmente a outros espritos.
-  mesmo? Que horror! Quando isso comeou?
- Desde pequena, eu tinha amigos invisveis para os outros que conversavam comigo. De incio meus pais no davam grande importncia a isso, pensando que era coisa 
de criana fantasiosa.  medida que crescia, continuava a ver esses amigos. Quando adolescente, costumava falar com eles, mas muitos me as sustavam, inclusive com 
ameaas. Meus pais ficaram preocupados e chamaram um sacerdote par a me orientar. Foram anos difceis: consideravam-me louca ou possuda pelo mal. Somente quando 
conheci a doutrina trazida pelos espritos pude entender o que se passava comigo; da comecei a usar essa minha capacidade especial para ajudar outras pessoas, quer 
de carne e osso, como eu e voc, quer do mundo espiritual. 
Emilie ouvia estarrecida a histria de Sara; era parecidssima com a sua! Embora com situaes peculiares a cada uma, suas experincias eram similares. Ento comentou:
- Lucrcia me disse que tambm enfrentou problema desse tipo. Na ocasio ela no quis dar detalhes.
- A histria de Lucrcia  muito mais triste do que a minha. Ela perdeu tudo o que possua, passou fome, esteve presa. Sofreu muito.
Emilie baixou a cabea, relembrando suas dificuldades, sua dor, sua solido, afastada de tudo e de todos; ia responder quando Sara falou:
- Sei que tambm sofreu muito, Lucrcia me contou. O caminho do desenvolvimento nem sempre  fcil. 
- Por que tanto sofrimento?
- A razo de nossas dores, de nossos sofrimentos, tambm encontra explicao lgica e racional na Doutrina Esprita.
Sara fez longo silncio, depois disse:
- Acho que voc j ouviu bastante, por enquanto. Agora precisamos voltar. O sol est a pino e meus afazeres me esperam. Creio que tem muito em que pensar. Se desejar, 
e somente se desejar, pode conhecer mais sobre essa doutrina.
- Como?
- De vrios modos: pode continuar participando de nossas reunies e pode ler um livro que tenho em casa; ele lhe dar muitas das respostas que est procurando.
Emilie retomou calada; quando chegaram, disse:
- Gostaria de ler o livro de que me falou.
Sara foi busc-lo e entregou-o a Emilie, que o pegou um tanto insegura. Espantou-se com o ttulo O Livro dos Espritos e quase o devolveu a Sara, que aconselhou:
- No se assuste com o nome. O Espiritismo  um movimento de l para c - ou seja, do invisvel para o visvel -, a mesma forma que a vinda de Jesus foi um movimento 
do infinito amor de Deus para o homem. O livro foi todo ditado pelos espritos e  fruto de anos de pesquisas e experincias por estudiosos, com metodologia cientfica. 
No se deixe intimidar por aparncias ou preconceitos; vena tudo isso e encontrar o que est procurando.
- Voc ainda no me explicou o que se passa comigo desde a adolescncia, nem o que houve ontem.
- Ao ler, voc compreender com relao  experincia de ontem, j disse que voc  mdium e tem possibilidade dei estar em contato com os dois planos da vida. Isso 
 uma aptido maravilhosa, Emilie.
- No compreendo.
-  um presente que vem acompanhado de responsabilidades.
Emilie apertou o livro nas mos frias, esforando-se para dissipar os receios que persistiam. Desejava descobrir a causa maior de seus sofrimentos. Ento disse:
- Vou tentar.
Sara sorriu, satisfeita, e logo se entregou aos trabalhos domsticos. Emilie, sentada  beira-mar, contemplava o horizonte, distrada com o livro entre as mos. 
Seus cabelos cor de mel esvoaavam ao vento. Ela estava lendo a obra que Sara lhe emprestara e percebia que seus princpios eram lgicos e consistentes. Apesar de 
no conseguir captar-lhes toda a amplitude, reconhecia que ali havia esclarecimentos capazes de responder s questes existenciais que a afligiam; traziam luz, notadamente 
sobre os ltimos meses de sua vida, descortinando para ela um universo novo de conhecimentos. E devorava O Livro dos Espritos, dedicando horas  leitura e suas 
pginas; s a interrompia para auxiliar Sara nas tarefas da casa. Esta, por sua vez, acompanhava satisfeita, porm discreta, o gradual envolvimento da hspede com 
o contedo da obra. Emilie estava entregue a um desses momentos de reflexo. Lia algumas pginas, depois fechava o livro e meditava longamente acerca do que acabara 
de ler. Naquele cenrio de singular beleza, com o sol se pondo no horizonte, a brisa do mar insistia em alvoroar suavemente seus cabelos e Emilie escutava o canto 
das gaivotas que voavam em bandos sobre a praia, quase hipnotizada pelo murmrio das ondas. No percebeu que algum se aproximava e ficou surpresa e feliz quando 
uma voz familiar a cumprimentou:
- Boa tarde, Emilie. Em que tanto pensa?
Ergueu-se, feliz:
- Como vai, Lucrcia? No percebi voc chegar, meu pensamento estava distante.
- Deu para notar! Por duas vezes a chamei, sem resposta. Como tem passado? Fiquei preocupada a semana toda e estou ansiosa por notcias.
- Veio sozinha?
- No, Jairo est l dentro. - Lucrcia apontou a casa de Sara, simptica e acolhedora, em meio  vegetao - E ento? Vai esta noite  reunio?
Emilie, sria, encarou a amiga e disse:
- Continuo com muitas dvidas. Estou lendo este livro que Sara me emprestou; no posso negar que ele est mexendo comigo e me fazendo avaliar mais detidamente tudo 
o que at hoje acreditei.
Lucrcia olhou o livro nas mos de Emilie e sorriu:
- ... Esse livro realmente nos instiga; revolve o mais profundo de nossa alma, tocando o que est enraizado em ns e que na verdade no serve para nada, embora 
insista em ocupar o espao do novo, daquilo que pode realmente nos ajudar.
-  estranho... Ao mesmo tempo em que me interesso e sinto que me beneficio com a leitura, ligeiro desconforto me acomete, fico agoniada, ansiosa. Nem por isso interrompo 
a leitura. S que ainda me sinto insegura em retomar  reunio. Temo a ocorrncia de situaes que fujam do meu controle.
- Como passou a semana, Emilie?
- A princpio, bem; mas h dois dias sofro intensa angstia, como se algo me sufocasse, e ao acordar esta manh me senti profundamente triste. Pensei muito em Cntia 
e uma vontade quase incontrolvel de v-la apossou-se de mim.
- Voc sabe que ainda no pode procur-la, no sabe? No a deixaro v-la, e certamente a enviaro de novo para o sanatrio. Precisa ser cautelosa, controlando seus 
impulsos; aos poucos ir compreend-los e quando os tiver sob controle estar mais preparada para ir ao encontro do seu destino.
Emilie fitava Lucrcia e intimamente acatava seus conselhos; no entanto, desabafou:
- Essa separao tem sido dolorosa demais; s vezes tenho medo de nunca mais tomar a v-la.
- Eu sei muito bem o que est sentindo. Mas pense bem: se for  procura dela sem antes esclarecer os fatos que envolveram sua recluso, e sem ter resolvido totalmente 
seus problemas com a justia, no permitiro que se vejam e ser ainda mais doloroso para ambas. Tenha pacincia e f, Emilie. Deus nunca nos desampara. Por mais 
difceis sejam nossas provas, nossos desafios, Ele est sempre conosco e h de gui-la pelo melhor caminho, se permitir que a conduza, se buscar sinceramente compreender 
Sua vontade. Deus no quer que soframos; quer que encontremos o nosso caminho e que realizemos aquilo que viemos fazer na terra.
- Voc diz isso com tanta convico... Como sabe todas essas coisas? Leu muito,  isso?
- De fato leio muito; aprendi o suficiente para poder ler as revistas e livros espritas que Miguel nos envia. Contudo, o que me traz maior convico  a vivncia, 
a prtica de todos esses Postulados. O que voc est lendo no  apenas teoria, Emilie, verdades a contidas tocaram minha alma, passei a compreender melhor minha 
existncia, tambm cheia de percalos e dificuldades, e hoje tenho muito claro para mim o sentido maior da compreenso me tem levado a aceitar os fatos e procurar 
descobrir o significado de tudo o que me acontece. Minha vida se enriqueceu de tal modo que nada mais  banal e semi importncia. Por exemplo: encontrar voc; sabia 
que nunca vou ao penhasco, Emilie?
- E por que foi, naquele dia?
- Estava em casa, preparando os peixes que Jairo trouxera logo pela manh, quando uma idia surgiu em minha mente, como uma ordem: "v at o penhasco". A princpio 
no dei ateno, pois me parecia completamente fora de propsito interromper o servio e subir ao penhasco; tinha muito o que fazer. Mas o pensamento, ao contrrio 
de me abandonar, tomou-se a tal ponto insistente que j no podia trabalhar. Finalmente compreendi que estava recebendo um pedido de algum, deixei tudo e subi. 
Assim que a avistei, corri com medo de que no pudesse resistir; estava abatida demais. O resto voc j sabe.
Emilie no dizia nada. E ela continuou:
- Percebe por que tenho tanta convico? No  imaginao, Emilie. Voc  prova disso.
- Poderia ser coincidncia...
- Acha mesmo? Provavelmente no estaria aqui agora, se eu no tivesse recebido orientao para subir a encosta e obedecido.  muito verdadeiro e srio para ser apenas 
coincidncia.
- E quem acha que pediu para me ajudar?
- No sei, so muitas as possibilidades; o que sei  que tinha de obedecer e ajudar. E foi o que fiz.
Lucrcia calou-se subitamente. Enquanto Emilie a observava, baixou a cabea como se dormisse. Segundos depois, tomou a ergu-la com expresso grave e formal, dizendo:
- No despreze a oportunidade, Emilie. Muitos esforos foram despendidos para que voc chegasse at aqui; muito amigos espirituais trabalham a seu favor, para ajud-la 
a cumprir aquilo que se props antes de voltar ao planeta. Muitos aguardam para unir-se a voc na tarefa que tm de realizar; eles dependem de voc. Deixe de lamentar 
o que passou. Olhe para frente e  sua volta: veja quanto bem e quanto amor a cercam e ponha-se em ao, minha filha. Procurar a felicidade longe de sua misso  
perder a sua vida em busca de iluso. As circunstncias se desdobram conforme planejado e tudo se esclarecer a seu tempo; agora, mos  obra que precisa ser iniciada.
Emilie ouvia atentamente, quase sem respirar, sentindo forte emoo. Lucrcia baixou a cabea de novo e quando a levantou disse:
- Tentei ajudar e achei voc...
Emilie olhava surpresa para a amiga. Percebia que ela no tinha noo do que acabara de acontecer e interrompeu-a:
- No se lembra das coisas que acabou de me dizer?
- Claro que me lembro. Estamos falando de como foi que encontrei voc.
- No, de repente voc comeou a falar sobre algo que tenho de fazer, que no captei direito.
Lucrcia sorriu e disse:
- Ento recebemos uma visita inesperada, foi isso.
- Como assim?
- Algum precisava transmitir-lhe alguma informao importante. Emilie, a vida  assim: h o mundo visvel e o invisvel, e ambos se entrelaam e caminham em conjunto. 
O que precisamos  abrir nossa mente e em especial nosso corao Para comear a compreender o invisvel, que muitas vezes s  percebido com o corao. Voc entende?
- Acho que sim; quer dizer, um pouco... No sei. 
Lucrcia fazia meno de acrescentar algo, quando Sara apareceu dizendo:
- Est na hora de irmos. Vem conosco, Emilie?
A jovem olhou para Lucrcia, hesitante; ento, recordando as palavras que h pouco escutara, disse:
- Vou.
- timo, convm nos apressarmos.
Mesmo com medo e desconfiana, Emilie acompanhou Lucrcia, Jairo e a famlia de Sara  reunio. Desconfortvel, prestou muita ateno a tudo o que diziam. No podia 
negar a beleza a pureza daquilo que estudavam. Ainda assim, ao se despedir de Lucrcia, disse:
- Tenho muitas dvidas. No sei se aqui encontrarei o que procuro ou de que necessito.
- Tenha pacincia, minha querida. Continue a ler o livro que comeou. No desanime agora, que est to perto.
- Perto de qu?
- De compreender. J caminhou at aqui; no desista!
- No sei do que est falando, Lucrcia. Alm do mais, tenho tantos problemas para resolver... Minha vida est destruda, nada me restou, sinto-me perdida e sem 
esperana... Nem sempre consigo me concentrar na leitura...
- Eu sei que o caminho no  fcil, mas o resultado vale as agruras e os sofrimentos do percurso. E acima de tudo, Emilie, que mais pode fazer neste momento? Muitos 
a procuram; recebemos ainda ontem outra visita do delegado Pimentel, que nos trouxe intimao para prestar esclarecimentos na delegacia. Estamos sendo acusados, 
acho que pelo seu marido, Ricardo.  esse o nome?
Emilie fitou-a, amedrontada:
- E o que vai acontecer?
- Por ora no sabemos. Iremos depor na prxima semana e no temos idia do que vir depois. Voc no precisa se preocupar, pois est segura com Sara. Dificilmente 
a encontraro e por nosso intermdio nada sabero. Portanto, aproveite o tempo e descubra a oportunidade que se esconde atrs de todos os problemas que est vivendo.
- Como, Lucrcia? Como posso achar alguma coisa boa em meio a tanta dor, tanto sofrimento injusto que apareceu em meu caminho?
Lucrcia acariciou a face da jovem, dizendo:
- H tanta beleza  nossa volta, dentro de ns e naqueles que nos circundam... Procure ouvir e ver com outros olhos, Emilie. Tente compreender, no com a mente, 
e sim com o corao.
Antes que Emilie pudesse responder, Jairo aproximou-se de ambas e pediu:
- Precisamos ir, Lucrcia, est muito tarde e no podemos demorar mais.
Ela se despediu de Emilie, beijando-a na face. Depois, abraando-se ao esposo, desapareceu na trilha que os levava de volta para casa. Emilie re tomou calada e pensativa. 
Nos dias que se seguiram Emilie esteve compenetrada, mais e mais envolvida com a leitura do livro que recebera de Sara. A cada pgina, novas informaes a encantavam; 
o raciocnio lmpido e claro, coerente e profundo, a fazia parar, fechar o livro e meditar no que lera. Por outro lado, ela se preocupava com Lucrcia, e pediu notcias 
a Sara:
- Sabe se j foram interrogados?
- No. Atendendo ao pedido de Lucrcia, temos nos mantido longe, para que no cheguem tambm at aqui.
- Por que ela est fazendo isso? Por que se coloca em perigo por minha causa? Ela nem sequer me conhece direito... 
Sara sorriu suavemente e ento disse:
- Lucrcia tem bom corao e gosta muito de voc, Emilie. Eu sinto o carinho dela e no compreendo...
- Jesus nos ensinou a estender nossos braos e nossas mos em socorro a todos aqueles que necessitam. A fraternidade e o amor ao prximo so a base de todos os ensinos 
que Ele nos trouxe.
- Seja como for, no consigo entender... Sei que ela quer me ajudar, mas est se arriscando, se expondo ao perigo por mim.
- Ela tambm est recebendo proteo e amparo, pode ter certeza.
- De quem? De Miguel, aquele amigo deles?
- No s dele. Assim como Lucrcia e Jairo, todos ns temos amigos espirituais que esto  nossa volta, sempre nos auxiliando, ainda que no possamos v-los. A f 
 a porta que abrimos em nossos coraes, que nos permite reconhecer sua presena e sua ao, quando no os enxergamos com os olhos do corpo. 
- Se  como voc diz, por que no impediram que o mundo desabasse sobre mim? Onde estavam eles? Onde estava Deus, que no impediu que tanta injustia fosse feita 
contra mim? Tem idia do que passei naquele lugar para onde me mandaram? Alm da dor de perder tudo, de ser afastada do que mais amo, de meu marido e minha filha, 
fui humilhada, chamada de assassina. E os maus tratos? Os tratamentos que recebi no passaram de humilhao e agresso! At fome eu passei... Onde eles estavam, 
Sara, que no me ajudaram?
Emilie, com a voz embargada e lgrimas a descerem pela face, no pde prosseguir. Sara segurou sua mo e, igualmente emocionada, disse:
- Sei que voc sofreu muito e que no entende o motivo. O sofrimento faz parte de nosso mundo e acontece por todo lado. Embora sua dor seja imensa, no esquea que 
h rfos, crianas abandonadas, doentes que sofrem em profunda solido; pessoas pobres, sem nenhum recurso, sem ter o que comer. A dor campeia em nosso planeta, 
em todos os lugares. E voc me pergunta onde est Deus? Ele est em toda parte, estendendo seu amor sobre todos ns, em todos os momentos. Mesmo na dor, no estamos 
ss; legies de espritos enviados por Ele nos protegem e ajudam.
- Continuo a no compreender por que tanta dor.
- Essa  uma das questes que os princpios espritas vm responder, Emilie. Esse livro que voc est lendo esclarece muitas dvidas, mostrando de maneira lgica 
a razo do sofrimento na Terra, o porqu de nossas mazelas e dores, alm de nos fazer entender outras tantas questes que trazem profunda angstia  alma humana 
- ao menos queles que sinceramente refletem sobre a realidade  sua volta.
- O que , afinal, essa doutrina de que voc e Lucrcia tanto falam? No  essa nova e perigosa religio, cheia de mistrios e prticas bizarras, que dizem ser artimanha 
do demnio para nos enganar?
- Dizem que  perigosa porque esclarece, porque ilumina a razo e nos estimula a pensar, a questionar, libertando-nos de crendices e mentiras que aprisionam.
- No entanto, dizem que  do mal...
- Como o mal pode vir e incentivar os homens a crer em Deus e a acatar a lio de Jesus, fazendo aos outros aquilo que desejam para si mesmos? Como pode estimular 
os homens a praticar os ensinos cristos em sua essncia, tomando-se melhores? Como uma doutrina perniciosa pode trazer conforto, esperana, e levar os homens a 
terem mais f em Deus?
Emilie no desgrudava os olhos de Sara, encantada pelo que dizia; ainda assim, insistiu:
- Ouvi que muitos esto ganhando dinheiro com esses conhecimentos, fazendo previses, adivinhaes, lendo a sorte e coisas desse tipo. So mentirosos? 
- Muitos so; outros, entretanto, so de fato mdiuns, tm contato com os espritos, sem compreender ainda a sublimidade da nova revelao. No perceberam a conseqncia 
moral desses conhecimentos para a alma humana e, ao invs de usarem o dom sagrado que receberam de Deus com o objetivo de ajudar ao prximo, usam-no para seu prprio 
proveito. Alguns at ajudam mas na maioria das vezes so comandados por espritos menos esclarecidos a quem servem, mesmo sem saber; iludidos, podem inclusive pensar 
que esto fazendo o bem.
- Ento  possvel, realmente, o contato com espritos?
- E voc ainda tem dvida? No recebeu a mensagem de sua av?
- Mas no entendo direito... E como posso confiar totalmente?
- Voc precisa estudar, Emilie. Est no rumo certo: continue lendo e abra seu corao. Busque a verdade sem outro propsito que no o de iluminar sua alma. Muitos 
s se deixam levar pelos prprios interesses, e esse tem sido o maior obstculo  evoluo da Humanidade.
- Como assim?
- Enquanto os homens buscarem apenas e to-somente interesses particulares e no o bem geral, haver dor, sofrimento e escurido para a maioria deles. Jesus nos 
ensinou a colaborar sempre para o bem de todos, porm o sentido de Sua mensagem se perdeu ao longo dos sculos, sufocado por interpretaes religiosas que se voltaram 
para a defesa dos nobres e poderosos, que impuseram seus interesses pessoais sobre a Terra. Todavia,  chegado o momento de o homem se libertar,  hora de os ensinos 
do Mestre retomarem a pureza com que foram transmitidos, sem outro interesse que no seja o de levar os homens at Deus, uni-los ao Criador.
Emilie notou que Sara se modificara. Seus olhos brilhavam e seu jeito de falar era quase luminoso. A jovem tinha perguntas que desejava fazer, mas no queria que 
aquele momento to suave acabasse e no ousou dizer nada; apenas seguiu atenta as palavras de Sara. Quando ela se calou, Emilie permaneceu algum tempo em silncio, 
e enfim disse:
- Vou continuar lendo. Poderei encontrar naquele livro tudo isso de que voc falou?
- Tenho outros livros e tambm revistas em francs; creio que isso no ser problema para voc, no  mesmo?
- Revistas?
- Recebemos todos os meses, de Paris, publicaes que nos trazem informaes sobre o que acontece com a pesquisa e o desenvolvimento dos postulados espritas por 
todo o mundo. So experincias, mensagens, e tudo o que vem sendo descoberto pelos pesquisadores.
- Pesquisadores?
- Exatamente. So muitos os que se dedicam, h anos,  pesquisa metdica dos fatos que deram incio a todos os conhecimentos que chegam agora at ns.
- E como tudo comeou?
Sara se levantou, foi at o quarto e retomou com uma pilha de revistas. Entregou-as a Emilie e disse:
- Est quase tudo aqui: como e por que comearam as manifestaes, estudos, reflexes, pesquisas...  melhor que conhea da fonte de onde jorra o conhecimento.
- Da fonte?
- Sim, do homem que vem trabalhando arduamente para que esses conhecimentos iluminados cheguem at ns. Ele e outros que o apoiam.
Emilie folheou as revistas e depois disse: 
- Vou ler, Sara, obrigada. 
Com as revistas nas mos, Emilie foi at o quarto em que dormia. Colocou-as na cabeceira da cama, pegou O Livro dos Espritos e foi para a praia, seu lugar preferido. 
Protegida do vento frio por algumas rvores e envolvida em um grosso cobertor, Emilie abriu o livro. Queria encontrar naquelas pginas o que Sara lhe dissera h 
pouco, e em que no podia parar de pensar. Fustigada pela curiosidade, entregou-se por completo  leitura, sem temer que aqueles conhecimentos pudessem causar-lhe 
novas dificuldades. Ela queria descobrir, e no parou mais de ler. Os dias corriam e Emilie passava longas horas mergulhada no livro. Sempre que tinha alguma dvida, 
procurava em Sara os esclarecimentos. Ao reencontrar a jovem para a prxima reunio, Lucrcia percebeu que alguma coisa se modificara nela. Observou-a por toda a 
noite e ao terminarem os estudos se sentiu satisfeita, pois compreendeu que Emilie, finalmente, estava no caminho que tanto necessitava trilhar. Como no houvera 
tempo para conversarem antes, Emilie disse  amiga:
- Estava aflita por notcias. Como foi?
- No foi.
- Vocs no compareceram?
- Comparecemos, como no?  que havia um tumulto na delegacia e adiaram por uma semana.
Emilie suspirou:
- Ento, continuamos na expectativa.
- Continuamos? Quer dizer que est preocupada?
-  claro! Preocupo-me com voc e Jairo.
Jairo, que sara junto, olhou-a surpreso. Lucrcia ento falou:
- E voc? Como vai? Percebo que est diferente.
- Tenho conversado muito com Sara e tenho lido tambm.
- Continua lendo o livro que ela lhe emprestou?
- Sim, alm de umas revistas muito interessantes. Acho que so de Allan Kardec... Nome estranho, no?
- Esse no  o nome verdadeiro dele.  um pseudnimo que utiliza para esse trabalho magnfico que aceitou realizar.
- Tenho descoberto muitas coisas, Lucrcia. Pena que no temos tido oportunidade de conversar.
- Tambm gostaria de estar participando das suas descobertas.  maravilhoso quando identificamos aquilo que j estava dentro de ns, sem que o notssemos.
- Mas persistem muitas dvidas quanto ao porqu de tudo o que me aconteceu. Pelo menos j posso desconfiar de qual tenha sido a causa dos problemas que me atormentaram 
por toda a vida; comeo a entender, devagar, pouco a pouco. Por outro lado,  medida que algumas coisas se desvendam, novas questes aparecem.
Lucrcia sorriu, satisfeita com o que ouvia, e abraando-a ternamente disse:
- Tudo a seu tempo, querida. A verdade pode ofuscar. Por isso, deixe que sua mente e seu corao se preparem para aprender cada vez mais. Dia vir, acredite-me, 
em que no restaro dvidas, apenas vontade de saber mais.
Emilie retribuiu o abrao carinhoso da amiga e se despediram. Na volta para casa, Jairo comentou:
- Estou perplexo com a transformao de Emilie. Devo confessar que no acreditava que isso fosse possvel, mas tenho de admitir que ela est mudando. Est visivelmente 
mais animada, mais disposta. E seu repentino entusiasmo pelo movimento esprita  espantoso!
- No para mim, Jairo. Eu sabia que esse era o caminho dela, e por isso a colocaram no nosso. Estou muito feliz, pois sei que cumprimos nossa parte, fazendo aquilo 
que deveramos fazer. O casal prosseguiu trocando impresses sobre a maneira como o destino os unira quela jovem desconhecida. 
Na manso, Isabel descia as escadas. Da sala de jantar, onde Filomena, Ricardo, Cntia e Felipe tomavam o caf da manh, podia-se ouvir o farfalhar ruidoso do vestido 
que ela usava. Dom Felipe apenas esperou a esposa ocupar seu lugar  mesa e perguntou: 
- Aonde vai to cedo, Isabel?
Quero falar com dom Antnio. Ouvi rumores de que ele pensa em viaja r para Madri bem no dia de nossa festa.  inaceitvel! Vou at a cidade tentar convenc-lo. No 
pode haver algo to importante que o afaste de nossa tradicional festa! Tenho de conversar com ele, quem sabe precisa de ajuda? Voc deveria vir tambm! Talvez esteja 
necessitando de sua cooperao, Felipe.                                             
- Hoje no posso, tenho outros assuntos a tratar. V e me traga notcias. Diga ao bispo que se precisar de mim, seja por que motivo for, estarei totalmente disponvel 
e pronto para atend-lo.
Isabel sorriu, satisfeita. Apressou-se a saborear o desjejum, ansiosa por resolver a questo que a preocupava. Quando se levantava para sair, Filomena avisou:
- Vou com voc, me.
- timo.
Isabel despediu-se dos outros e logo saiu com a filha. A movimentao na cidade era frentica. Viandantes cruzavam apressados de um lado ao outro, vidos por novidades 
e diverses. Barcelona abrigava inmeros ncleos filosficos que despontavam, assim como sociedades cientficas que se dedicavam a pesquisar questes variadas. Disputas 
intelectuais entretinham personalidades eminentes da sociedade espanhola que procuravam atualizar-se frente  onda de conhecimentos e descobertas que se agigantava 
por todos os cantos. Filomena acelerava o passo junto da me, que cumprimentava uns e se desviava de outros. Finalmente se aproximaram da igreja, onde teriam importante 
encontro. Filomena perguntou:
- Tem certeza de que ele ainda est aqui, me?
- Claro que tenho; a reunio em sua casa terminou e ele veio para a igreja. Informei-o de nossa visita e sei que nos aguarda.
- Ele, sempre to ocupado, s voltas com tantos problemas, ter tempo para ns?
- Estou aqui a pedido de seu pai, e sei que dom Antnio nos receber.
Ao chegarem, viram que a porta estava entreaberta. Entraram devagar e imediatamente avistaram o bispo, conversando com dois sacerdotes sob a cpula iluminada pelos 
raios do sol, enriquecida por lindos afrescos que contavam a histria de Cristo a caminho do monte da crucificao e de sua ressurreio gloriosa. Assim que viu 
as senhoras, dom Antnio buscou terminar a conversa que entretinha e as saudou. Isabel, curvando-se, beijou-lhe a mo com reverncia. 
- Sua bno, dom Antnio.
- Deus a abenoe.
Filomena igualmente pediu a bno do eclesistico. Aps os cumprimentos e rpidas informaes, dom Antnio perguntou:
- O que as traz aqui? O que tem tanta urgncia?
- No se trata de algo muito urgente, mas como Vossa Eminncia se ausenta com freqncia e dever estar viajando breve, Felipe acreditou ser imprescindvel conversarmos.
Como o bispo avistasse algumas pessoas que acabavam de entrar na igreja, levantou-se e convidou:
- Acompanhem-me, senhoras. Vamos at l dentro, onde certamente teremos maior privacidade.
Logo estavam instalados em sala ampla e agradvel, com imensa biblioteca que ocupava uma parede inteira, do cho at o teto.
- Pronto, podemos prosseguir.
- Eminncia estamos bastante apreensivos com a festa deste ano.
- Por qu? Algum problema?
- Tememos que vrias autoridades da Igreja no compaream e isso seria muito ruim. Sabemos que esse novo movimento que se alastra nos inquieta a todos;  inadmissvel 
que pessoas inteligentes e sensatas adiram a ele, porm  o que temos verificado e muito nos vem preocupando. Sei que h pouco tiveram importante reunio para discutir 
esse tema.
- Sim, foi uma reunio extensa e cansativa; felizmente chegamos a bom termo. Quanto s pessoas que acaba de citar, s pode haver uma explicao: suas mentes ficam 
dominadas pelas foras do mal.
Filomena, at ento calada, no se conteve e concordou:
-  exatamente isso, Eminncia.  exatamente isso! Isabel retomou a palavra:
- Sabemos que, em particular neste ano, a Igreja est por demais preocupada com essa situao e muitos de seus membros ainda no confirmaram presena em nossa festa. 
Felipe acredita que devemos estar estreitamente unidos contra esse mal que nos ronda. Todos devem perceber que a Igreja est mais forte do que nunca e que a elite 
da sociedade espanhola apoia, sem restries. Cremos que  fundamental a presena d todos, dom Antnio.
O bispo meditou por segundos, depois assegurou:
- Fique tranqila. Estamos tomando as providncias cabveis e pode ter certeza de que a festa comear com grande celebrao  nossa f! Concordo com dom Felipe: 
quanto mais prestigiada ela for, mais manteremos nossa coeso e nossos adversrios havero de temer essa fora intacta. Conte com o apoio da Igreja, senhora. Diga 
a dom Felipe que conserve a calma. No obstante as diversas aes que muitos padres tm promovido, tentando estancar em suas parquias os focos de interesse por 
esses postulados, medidas mais severas sero adotadas. Isabel ouvia o bispo ansiosa e perguntou:
- O que pretendem fazer?
-  bom que dom Felipe saiba, para que se prepare, pois precisaremos muito da interveno dele. Diga-lhe que teremos de conversar antes de minha viagem. Esto vindo 
de Paris livros que pregam esse movimento.  grande o nmero de exemplares, e no podemos admitir que cheguem s mos dos leitores.
Isabel e Filomena continuavam atentas, e a primeira garantiu:
- Faremos tudo o que for necessrio para ajudar a Igreja a conter tal heresia!
- Sei que posso contar com o apoio de uma famlia to respeitvel! Felipe precisa intervir junto  alfndega para que esses livros sejam imediatamente encaminhados 
a ns, muito embora o governo j tenha oficialmente aprovado sua liberao - essas leis modernas e progressistas esto atrapalhando a Igreja! O bispo se levantou, 
andando de um lado para outro na sala visivelmente contrariado, e continuou com irritao:
- Bons tempos aqueles em que tnhamos mais autoridade! Por isso valorizo tanto o apoio que recebemos de sua famlia!
- E sempre poder contar conosco, Eminncia!
- Estou certo disso. A alfndega autorizou a entrada dos livros mas queremos que dom Felipe interfira para que to logo eles cheguem os tenham os aqui, conosco.
- E o que faro ento?
- Na manh do dia da festa os queimaremos, todos de uma s vez, no local onde so executados os piores criminosos de Barcelona. Ser uma fogueira para os hereges! 
O povo compreender de imediato! Todos sabem muito bem o significado de um auto-de-f! Ficaro convencidos de uma vez por todas de que essa doutrina  veementemente 
condenada pela Santa Igreja! Com essa ao, resolvemos vrios problemas: destrumos o principal veculo de divulgao desse movimento e fazemos nossos fiis compreenderem 
com clareza o que a Igreja pensa dele, alm de mostrar-lhes o que espera aqueles que a ele se associarem. Estou certo de que, ao menos na Espanha, conseguiremos 
estancar a expanso desses postulados perniciosos!
- Que idia excelente! Isabel sorriu, satisfeita. J se levantava quando, dando a impresso de lembrar algo de repente, sentou-se outra vez e disse:
- S mais um assunto, Eminncia.
O bispo, que comeara a erguer-se, voltou a se acomodar na cadeira e aguardou.
- Estou interessada em enviar um membro de minha famlia para servir  Igreja.
- bispo sorriu, satisfeito:
- Ser bem-vindo. Alis, o ltimo foi Fernando, no?
Quem ser desta vez? - e olhou para Filomena, que sem jeito disse:
- Mame, no acha melhor conversarmos com...
- Minha neta precisa muito da Igreja, Vossa Eminncia sabe. A me enlouqueceu e ainda est foragida, Deus sabe se ainda est viva... A pobrezinha tem auxiliado Fernando 
no orfanato e acho que j demonstra vocao. S preciso conversar com Ricardo; visto que ele no quis dedicar-se  Igreja, como era nosso desejo, talvez resista 
um pouco. Mas gostaria de contar desde j com o seu apoio no sentido de convencer Felipe. Se ele concordar, tudo ficar mais fcil.
Apesar de continuar a sorrir, o bispo mostrou-se um pouco entediado e disse:
- Como sempre, senhora Isabel, novos e abnegados servidores so bem-vindos; entretanto, temos de assegurar-nos de que essa jovem no haver de representar problemas. 
Lembro-me bem da festa do ano passado e do transtorno que a me nos causou. Certifique-se de que a menina quer mesmo seguir esse caminho, e ter meu apoio.
Isabel ia argumentar, porm refletiu rapidamente e disse:
- Claro, tem toda a razo; no queremos problemas e sim solues. Creia que me empenharei para que tudo se resolva.
- Diga a dom Felipe que necessito v-lo o mais breve possvel!
- Informarei nossa conversa assim que retomar.
Encerrando o encontro, o bispo se ps em p e se despediu das duas. Ao alcanarem a rua, Filomena, que se mantivera em silncio, reclamou:
- Me, como pde levar algo to srio direto ao bispo?  se papai no aceitar? E no esquea que Ricardo  totalmente contra...
- Ora, Filomena, quanto mais ele for contra, mais terei de me esmerar nas providncias a tomar. No podemos deixar Cntia aos cuidados exclusivos de Ricardo e muito 
menos solta, fazendo o que quiser. Precisamos conduzir-lhe os passos, o destino, para que ela fique bem, assim como todos ns. Ricardo se casar novamente, sem dvida, 
e  meu dever assegurar que desta vez tudo d certo.
- Ele est envolvido com algum? No estou sabendo de nada!
- Ainda no, mas  s questo de tempo. E eu tenho algumas estratgias para que esse tempo seja o menor possvel.
-  verdade... Alm do mais, ela  to parecida com a me...
Isabel parou perto da carruagem que as esperava e, olhando firme para a filha, disse:
- Entende por que temos de tomar providncias? Aquela mulher nunca mais por os ps em nossa casa, e, no entanto deixou a filha, que em tudo a lembra. Precisamos 
agir depressa, para garantir que no haver mais problemas...
Entraram ambas no carro e seguiram para a manso, nas cercanias de Barcelona. Ao subirem a escadaria da entrada encontraram Fernando, que acabara de deixar
Cntia em casa. Vendo-o apressado, Filomena segurou-o pelo brao:
- Calma, Fernando, aonde vai com tanta pressa?
- Tenho muito trabalho, e tambm preciso escrever algumas cartas para reforar o convite da festa.
- No se preocupe mais com a festa. Acabamos de falar com dom Antnio e a Igreja vai tomar medidas definitivas que nos tranqilizaro a todos. Quanto  presena 
macia do clero acho que tudo est equacionado; com relao aos demais, Papai j se encarregou pessoalmente. Portanto, priminho, tudo caminha bem, Isabel, ento, 
perguntou:
- E nossa jovem aprendiz, como se tem sado?
- Tem muito jeito com crianas; surpreendo-me a cada dia. Ela  um doce e sabe fazer a coisa certa.  muito atenciosa e as crianas no s a adoram, como a obedecem...
- Fico muito satisfeita que o esteja ajudando.
- Est mesmo. Nunca pensei que ela fosse contribuir tanto. A princpio queria apenas distra-la, porque sempre a via triste pelos cantos. No imaginava que pudesse 
me auxiliar como est fazendo.
- E pena que Ricardo continue resistindo a essas visitas da menina...
Fernando sorriu e disse, entusiasmado:
- Felizmente acabei de resolver isso com ele.
-  mesmo? E como? - perguntou a prima, interessada, depois de trocar olhares com a me, que deixava transparecer sua satisfao.
- Tivemos uma longa conversa e convenci-o de que essas visitas semanais de Cntia s lhe fazem bem. No acha, tia Isabel? No tem notado?
- Como no? Venho repetindo isso a Ricardo. Ela j acorda mais animada, mais feliz.
-  isso! Percebi que est mais entusiasmada. Conversamos muito e ele acabou por ceder. E mais: consegui que ela me acompanhe toda quarta-feira. E a cada quinzena, 
tambm na sexta. No  timo?
- Estou surpresa com seu poder de persuaso, Fernando. Quando quer, de verdade, consegue tudo o que pretende - comentou Filomena.
Fernando, em tom de secreta cumplicidade, disse:
- Acredito que  mal de famlia; no , tia Isabel? 
Antes que ela pudesse responder, o rapaz beijou-a, despediu-se igualmente de Filomena e desceu as escadas, sumindo no caminho que ligava a casa  parquia em que 
servia. Fernando seguiu pensativo. Meditava nas ltimas palavras que dissera  tia. Por que aquilo o incomodava? Sabia que ela estava certa, que Emilie representava 
ameaa para aquela comunidade e poderia ter colocado em risco a credibilidade da famlia. De qualquer modo, sentia-se incomodado. Se assim no fosse, por que de 
quando em quando aquele desconforto aparecia e o enchia de pesar? Procurou dissipar tais pensamentos e focar a ateno nas atividades que devia realizar ainda naquela 
noite. Assim que terminou o jantar, Ricardo refugiou-se em seu quarto. Havia acabado de vender a propriedade da qual fizera seu lar, junto com Emilie e Cntia, localizada 
perto da manso dos pais. Embora a princpio resistisse  idia, Ricardo fora convencido pela me de que a casa trazia recordaes inteis e dolorosas; sem saber 
ao certo o que pensar, ele afinal cedera. Quando abria a porta do quarto, deteve-se e olhou para o aposento de hspedes, onde estavam as caixas com o que haviam 
trazido da casa vendida. Ricardo, sem conseguir desfazer-se de tudo, pedira que embalassem o que restara, para selecionar com calma e avaliar o que desejaria conservar. 
Foi at l, fechou a porta e devagar, quase receoso, abriu a primeira caixa. Retirou algumas roupas de Emilie, que ainda tinham seu perfume, e levou-as at o rosto, 
tocando-as com suavidade. Lgrimas brotaram de seus olhos. Ele respirou fundo, procurando controlar-se, mas no pde impedir que as lembranas se precipitassem uma 
aps outra em sua mente. Recordou o primeiro encontro, em Paris. Emilie possua uma energia e uma espontaneidade que o tinham envolvido de imediato. Alm do mais, 
era muito bela. Lembrou-se de como ficara inebriado pelo perfume que usava, o mesmo que sentia agora em suas roupas. Aquele primeiro contato fora inesquecvel para 
ele e, embora voltasse logo depois para a Espanha, no pudera mais tir-la da cabea. Seus olhos cor de mel o haviam acompanhado e ele tivera de retomar para v-la. 
Agora, pesadas lgrimas lhe desciam pela face. Recolocou as roupas na caixa e ento abriu outra. Tirou de dentro uma fotografia do casamento deles. Emilie estava 
linda e radiante, como se aquele fosse o dia mais feliz de sua vida. Olhou o prprio rosto na fotografia e relembrou a imensa felicidade que igualmente sentia. Tal 
contentamento somente se repetira ao nascer Cntia, alguns anos mais tarde. Deixou a fotografia de lado e abriu outra caixa. Eram cartas dele para Emilie, do perodo 
de namoro. Ps-se a l-las e a rememorar a desmedida paixo que os unira. Em uma delas, contava  namorada que estava enfrentando algumas dificuldades para convencer 
a famlia a aceitar o casamento, assegurando que iria solucionar os problemas. Aps ler vrias pginas, j envelhecidas pelo tempo, Ricardo ergueu os olhos e suspirou 
fundo: como havia sido feliz! Vieram-lhe  mente os primeiros anos do casamento, as viagens, o entusiasmo de Emilie ao conhecer os Estados Unidos; depois, o instante 
em que ela lhe contara que estava grvida, quando a erguera no ar, girando-a com alegria esfuziante! A gravidez, conquanto agitada, fora para os dois uma fase de 
aventura e sonhos. No dia do nascimento de Cntia, ele sentira como se tivesse conquistado tudo aquilo que queria ou de que precisava na vida. A recordao dos bons 
momentos o fazia voltar ao passado, como se os vivesse outra vez. Envolvido pela emoo, abriu todas as caixas, uma aps outra, e em cada uma encontrava pedaos 
de sua histria, de sua vida, de sua felicidade e de seus projetos, que agora estavam perdidos por completo. Por fim, olhou aquelas caixas abertas e remexidas como 
seus sonhos e planos, e chorou amargurado pela perda de tudo em que depositara suas esperanas. Lembrava-se de Emilie, feliz ao seu lado, mas tambm das crises que 
se tomavam cada vez mais freqentes, depois do nascimento da filha. No comeo ele escondera da famlia, porm as crises se repetiam tanto que no pudera mais ocultar 
o que se passava. Veio-lhe  memria a reao da me quando pela primeira vez vira Emilie com aquele comportamento estranho, gargalhando pelos corredores da manso 
e depois desfalecendo entregue a torpor e sonolncia incontrolveis. Ricardo fechou os olhos e pde sentir novamente o cho sumir-lhe dos ps, como em seguida quela 
crise. As lembranas estavam to vivas que era como se ainda ouvisse a voz da me:
- H quanto tempo isso acontece, Ricardo?
- No sei...
- Vamos, conte-nos! H quanto tempo?
- Desde que Cntia nasceu, s umas poucas vezes, agora  que est ocorrendo com maior freqncia...
- Temos de fazer alguma coisa! No podemos deixar que isso continue!
- Me, Emilie  minha esposa e eu a amo! Tenhamos pacincia, por favor! Vou encontrar uma forma de ajud-la; deve haver um meio de ela melhorar!
- Sua esposa  doente, Ricardo! Deveria intern-la j em um hospcio e...
- Nem pense nisso, me! Nunca mais repita isso, entendeu bem? Amo minha esposa e vou auxili-la! Custe o que custar!
- Voc envergonha nossa famlia, Ricardo! Sabe que nenhum de ns jamais teve qualquer problema mental ou desse tipo; contamos com toda a considerao e o respeito 
da Igreja e temos sido ao longo das geraes exemplo para toda a comunidade! E agora vem voc e coloca no seio de nossa famlia uma mulher mentalmente desequilibrada!
- Emilie no  doente! Ela est cansada, s isso. Talvez tenha sido a maternidade...  uma situao nova e pode ter influenciado, no sei. O que sei  que ela  
esposa amorosa e me dedicada...
Depois dessa conversa, Ricardo contratara doutor Francisco, convencendo Emilie a tratar-se com um mdico de confiana da famlia, que tinha experincia com pessoas 
que apresentavam desequilbrios mentais. Francisco era adepto das correntes cientficas que vicejavam na Europa inteira e traziam nova luz sobre esse gnero de doenas. 
Embora dona Isabel insistisse para que ela fosse imediatamente recolhida a um convento, Ricardo relutava; queria que antes a esposa recebesse cuidados mdicos. Apesar 
do tratamento, os problemas haviam persistido. Na festa anual, Emilie tivera uma crise grave e mais demorada, agredindo Cntia diante de convidados ilustres, como 
alguns membros do clero. Assustara a todos, inclusive a ele prprio. Parecia-lhe estar diante de outra pessoa, e ficara apavorado. Abalado e receoso, e admitindo 
que mesmo assistida ela no melhorava, Ricardo comeara a considerar a hiptese de envi-la a um mosteiro, para tratamento em recluso. Pouco tempo depois sobreviera 
a tragdia: ela tentara envenen-lo e tambm  filha, em sua prpria casa. Fora insuportvel! A evidncia do perigo que a esposa representava o impedira de fazer 
qualquer coisa. Na manh seguinte, aps intern-la, Isabel a acusara legalmente por tentativa de homicdio. Ricardo resistira, mas fortemente influenciado pela me 
acabara cedendo mais uma vez. Logo a notcia se espalhara e no dia seguinte  internao os principais jornais da Espanha divulgavam o fato. Abalado pelas recordaes, 
Ricardo recolocou tudo no lugar fechou as caixas e saiu do quarto, trancando a porta atrs de si. Foi at o quarto da filha e entrou, aproximando-se da cama em silncio; 
observou-a a dormir com serenidade, ajeitou as cobertas e beijou-a na testa. Cntia era o nico consolo que lhe restara. Ele estava confuso com o que acontecera, 
sem saber que rumo dar  prpria vida. S Cntia lhe trazia alegria e esperana. Voltou para seu quarto sentindo-se amargurado e trado pela vida; por que se apaixonara 
por uma mulher que lhe trouxera tantos problemas? A me o acusava de envolver a famlia em escndalo e j no admitia que se pronunciasse o nome de Emilie naquela 
casa. Por vezes ele admitia o ultraje a que expusera a famlia e se arrependia de a ter desprezado. Muito tarde, e ainda invadido pela emoo causada por aquelas 
lembranas, Ricardo adormeceu. Dias se sucediam. Emilie continuava estudando e gradualmente assimilava as lies da nova doutrina; comparecia s reunies do grupo 
esprita e, ao participar delas, presenciava fenmenos que aos poucos lhe esclareciam na prtica aquilo que estudava.  medida que se aprofundava nos conhecimentos, 
achava conforto, fora e esperana para ir ao encontro do futuro; sentia energias antes desconhecidas lhe inundarem a alma. Novo alento crescia em seu corao e 
suplantava seus medos e inseguranas. Era a f que se desenvolvia pouco a pouco. A averso que aquela doutrina lhe causava foi substituda pelo interesse em conhec-la, 
e em algumas semanas Emilie tinha completado a leitura do livro que Sara lhe emprestara. Naquela tarde, conversavam animadamente quando um amigo chegou, ofegante. 
Sara, solcita, convidou-o a entrar e lhe deu gua. Mais calmo, o rapaz comeou a falar:
- Eles foram presos, esto l na provncia e no vo sair at, at... Sabe-se l quando!
Emilie empalideceu, adivinhando que se tratava de Lucrcia e Jairo. Sara pediu:
- Calma, fale devagar, explique melhor.
- Jairo e Lucrcia esto na priso. Foram depor e no sei ao certo o que houve. Recebi um recado de Jairo pedindo que orssemos por eles e informando que vo ficar 
presos. O que vamos fazer?
Emilie olhou para Sara, aflita; depois se levantou e resoluta disse:
- Vou at l! Tenho de me apresentar, tenho de fazer alguma coisa para que eles sejam soltos!
Sara segurou-a pelo brao e ponderou:
- Calma, Emilie. Sei que deseja ajudar e ns tambm, mas temos de ser inteligentes: precisamos primeiro compreender melhor a situao, saber do que esto sendo acusados. 
Do contrrio, de que adiantar voc se expor? Vamos investigar melhor antes de tomarmos qualquer deciso.
- E como conseguiremos mais informaes?
- Temos alguns amigos em Bilbao; vamos buscar ajuda. Alm do mais, temos Miguel. Apelaremos para ele.
- Miguel  aquele amigo de Jairo e Lucrcia que vive em Barcelona?
- Ele mesmo.
- J que vive em Barcelona, no  mais difcil?
- Ele vive em Barcelona, mas tem tambm negcios em Bilbao, e periodicamente passa algum tempo na provncia; tem uma casa l. Vamos procur-lo.
Emilie permaneceu pensativa algum tempo; depois se desesperou por no saber o que fazer, e em prantos dizia:
- Est vendo? Est tudo desabando outra vez! Bastou que eles tivessem contato comigo para ficarem em perigo! No deviam ter me acolhido, agora esto sofrendo por 
minha causa!
Sara segurou as mos de Emilie e disse, com firmeza:
- Emilie, seu pranto, conquanto denote carinho e cuidado para com eles, no vai ajud-los. Precisamos pedir proteo a Deus e aos nossos orientadores espirituais. 
 natural que nossas almas sofram pelos amigos a quem tanto queremos bem; contudo, se desejamos auxili-los, precisamos ser fortes e agir com inteligncia, coragem 
e bom senso. E o primeiro passo  voc no se acusar; isso ser intil. 
- Talvez devesse me entregar logo, Sara. Quem sabe isso resolveria?
- Lucrcia fez tudo para voc se fortalecer e encontrar o caminho adequado para sua vida; ela se arriscou para que voc pudesse ser livre outra vez. Como pode pensar 
em se entregar? Se fizer isso agora, tudo que ela enfrentou ter sido em vo. Iro prend-la novamente, e tudo voltar a ser como antes. As suas crises, que tm 
diminudo, podero retomar e voc, ainda dando os primeiros passos nesse novo entendimento, no ter foras para lutar... No, no acredito que seja a soluo. Temos 
de ajud-los, mas no por esse meio. E depois, mesmo que voc se entregue, quem garante que isso far com que os libertem? Vamos primeiro descobrir o que se passa, 
entrar em contato com Miguel. E assim, com maior segurana em nossas atitudes, tenho certeza de que encontraremos a melhor sada.
- Por que isso foi acontecer? Eles nunca fazem mal a ningum, esto sempre ajudando. Por que Deus permite que isso acontea a pessoas to boas?
Sara limpou dos olhos as lgrimas que se formavam, dizendo:
- Por ora, no sabemos; sem dvida existe uma razo, pois nada acontece sem um objetivo til, Emilie. Por isso precisamos confiar na Providncia divina, que sempre 
est por trs de todas as situaes.
- No compreendo, Sara, no consigo aceitar!
Emilie levantou-se, soltando bruscamente suas mos das de Sara, e correu para a praia, como se l pudesse encontrar conforto. Na corrida desenfreada, tentava acalmar 
sua alma, aplacar sua angstia. As lembranas de Lucrcia lhe vinham  mente: seu sorriso, suas palavras de auxlio, suas mos a cuidar dela, aliment-la e acariciar 
seu rosto; aquelas recordaes torturavam seu corao. Depois de correr por mais de vinte minutos, sentou-se exausta na areia e, abraando os joelhos, chorou ouvindo 
murmrio do mar. Chorava baixinho quando experimentou de sbito, uma sensao suave a envolv-la e sentiu que algum a observava. Ergueu o rosto devagar e ento 
viu a figura familiar e querida que se aproximava, banhada em luz. Emilie se assustou, mas antes que se levantasse, como era sua inteno, a doce senhora lhe disse 
com brandura:
- No tenha medo, querida. Estou aqui apenas para ajudar.
- Vov Helose,  voc mesma? Ser que no ...
- O demnio?
- Sim... 
- Como pode desconfiar tanto de seus prprios sentimentos? No me reconhece?
-  que ainda no me convenci completamente de que isso  possvel...
- Emilie, h dentro de voc um grande presente de Deus, que  sua sensibilidade, esse dom capaz de coloc-la em contato com os seres invisveis.
- Mas por que, vov? No quero isso que voc chama de dom. S me trouxe dor e sofrimento at hoje: meus pais sempre me acharam estranha e nunca me aceitaram; meus 
amigos se afastaram de mim; perdi Ricardo e quase agredi minha filhinha... Isso que trago comigo no  bom, no me faz bem!
- Minha querida,  que a luz brilha ao lado das trevas que ainda esto tambm dentro de voc.
- Que trevas? Do que est falando?
- Emilie, os dois mundos, visvel e invisvel, material e espiritual, se entrelaam o tempo todo; tocam-se a todo momento. Os dois planos da existncia esto interligados, 
influenciando constantemente um ao outro. E tudo  parte do grande Universo criado e regido por Deus, nosso Pai. Chegou o momento de se desvendar aos olhos dos homens 
que vivem na terra esse mundo invisvel, com os seres que o povoam. Embora no enxerguem esse outro plano da vida, os homens lhe sentem os efeitos; e, por ignorarem 
o que os provoca, atribuem-lhes causas sobrenaturais e inexplicveis. Por isso muitas vezes se desesperam.  chegado o tempo da compreenso maior da vida;  hora 
de entender os sofrimentos e perceber que os homens podem venc-los, transformando seu futuro. Venha comigo, Emilie, d-me sua mo.
A jovem olhava para a entidade espiritual, que mantinha os braos estendidos, e hesitava em aceitar o convite. Bondosamente, ela insistiu:
- D-me sua mo, a hora da compreenso chegou tambm para voc. Venha comigo.
- Como assim, aonde vamos?
- Vamos empreender pequena viagem por seu passado, para que voc saiba a origem do que se passa em seu presente.  hora de trabalho e renovao;  hora de romper 
com as amarras do passado e voltar seus olhos para o futuro que a espera;  hora de assumir seu compromisso e seguir em frente. 
- Que compromisso? No entendo!
- Todos os que vivem neste planeta tm uma misso, um compromisso a cumprir; ningum vem para a terra sem um objetivo til e necessrio para si e para outros, que 
muitas vezes so muitos.
- No compreendo.
- Venha comigo, d-me sua mo.
Ainda vacilante, Emilie no tinha coragem de tocar aquela figura que estendia os braos em sua direo. Helose moveu-se ainda mais e disse:
- Estou aqui para ajud-la, como sempre estive ao seu lado. A deciso  sua: se no quiser me acompanhar, no vou obrigar. O momento chegou, voc est preparada, 
mas precisa decidir.
Emilie continuava olhando para Helose, sem saber se a atendia. Ela se calou e aguardou de olhos fechados, em silenciosa prece. Passados alguns minutos, disse:
- Pois bem, se no quer me acompanhar, nada mais posso fazer.
E aos poucos comeou a se afastar da neta, que ento gritou:
- No, por favor, no v embora! Estou cansada de sofrer. Minha vida est destruda e agora estou destruindo a de outras pessoas queridas que esto  minha volta; 
no agento mais... Ser que voc poder mesmo me ajudar?
- Voc pode se ajudar, Emilie, e eu estarei ao seu lado dando foras e a orientao de que necessita. Venha, d-me sua mo:
Dessa vez, ela estendeu a mo na direo daquela mo luminosa e, quando a tocou, sentiu enorme alegria inundar-lhe a alma. Auxiliado por Helose, o corpo espiritual 
de Emilie, j parcialmente desprendido, soltou-se por completo e ela pde ver seu corpo fsico deitado na areia, em sono profundo. Vendo-se assim, to nitidamente, 
assustou-se; a av a acalmou:
- Est tudo bem; seu corpo est dormindo, tranqilo e seguro, no se preocupe.
Emilie olhou com ateno e percebeu que um crculo de luz envolvia seu corpo.
- Como pode ser isso?
- Lembra-se do que tem estudado sobre o corpo material e o espiritual?
Emilie esforou-se um pouco e ento se lembrou do que havia lido acerca da natureza dos corpos material e espiritual, assim como sobre o desprendimento durante o 
sono. Tudo lhe veio  mente com clareza.
- Ento  verdade?  tudo verdade ou estou sonhando? No ser mais um de meus delrios?
- Voc no delira, Emilie, e sim entra em contato freqente com o mundo espiritual, do mesmo jeito que acontece agora.
- S que sempre fiz e disse coisas ruins, descontroladas ou sem sentido. Por que nunca tive antes esta sensao tranqila e serena?
-  que agora voc tem estado em contato com energias mais equilibradas, como as de Lucrcia e de Sara. Essa convivncia e os estudos que tem feito esto trazendo 
luz  sua mente, elevando seus pensamentos e sentimentos. Est em contato com mais amor, mais harmonia, e foi isso que nos possibilitou a aproximao, permitindo 
que eu me fizesse perceptvel a voc.
- Quer dizer que antes andava em ms companhias?
- Mais ou menos.
- E por qu? Sempre tentei agir corretamente, nunca prejudiquei ningum!
-  verdade que vem procurando ter uma vida reta. Ainda assim, conserva hbitos de pensar e sentir que a mantm ligada ao passado, Emilie, e a essas companhias.
- Que passado?
- Outras vidas, encarnaes em que sua conduta no foi muito equilibrada, em que inimizades foram geradas.
- Como no vejo essas pessoas?
- Ainda bem, querida! No entanto, sente sua presena, mesmo sem o saber. Idias e sentimentos de destruio, imagens menos felizes, no a assaltam muitas vezes em 
um nico dia? 
- Sim, inmeras vezes. Tento afastar os pensamentos ruins, que insistem em retomar.
- Foram eles que a levaram at o penhasco, na inteno de tirar-lhe a vida.
- Eles queriam que eu morresse?
- Queriam e quase conseguiram, Emilie.
- Ento somos marionetes, fantoches nas mos de criaturas que nem se quer vemos? Isso no  justo!
- No somos marionetes, de maneira alguma. Se estivermos ligados a essas companhias, alguma razo existir para essa ligao. No obstante, nossa vontade invariavelmente 
prevalece; ningum nos obriga a nada.
Diante da aflio nos olhos da jovem, Helose disse:
- No fique angustiada, tenha pacincia. A compreenso vem aos poucos, dia a dia. Pronto, aqui estamos.
Emilie constatou que estavam diante da manso em que vivia a famlia de Ricardo. Olhou em seguida para a av, atnita. Ela disse:
- Entremos. Muito do seu passado est dentro desta casa; venha comigo.
- No entendo...
- Venha comigo e compreender.
Sem dizer mais nada, Emilie acompanhou Helose portas adentro. Apreensiva, Emilie seguiu Heloise pelo interior da manso. Aos olhos da moa, a residncia parecia 
mais bonita, com cores muito vibrantes; entretanto, ela percebia certas deformaes nas paredes, como se fossem maleveis. Emocionou-se ao passar pelo hall de entrada 
e, principalmente, ao deparar com o cabideiro na parede e as peas de roupa do marido e da filha nele penduradas. A av advertiu:
- No se deixe envolver pela emoo, querida. Acalme seu corao. Venha, segure minha mo e confie em mim.
Emilie, sem compreender bem o aviso, respirou fundo, procurando dissipar o n que se formara em seu peito, e de mo dada a Heloise continuou a caminhar. Ainda olhava 
para o cabideiro quando percebeu que ele se transformava lentamente e o que via agora j era um outro, de onde pendiam diversos hbitos de freiras. A moa fixou 
o olhar, supondo estar confundida no que via, mas a av disse:
- O que vai ver aqui  seu passado, Emilie, apresentando-se aos seus olhos. O pretrito est escondido em nosso presente; todos trazemos dele a energia e as vibraes, 
que se ocultam sob nossa prpria indumentria carnal. No se assuste pois os moradores desta manso guardam, debaixo da aparncia atual, os traos e as energias 
de antigas experincias vividas.
Emilie e Heloise prosseguiram. Subiram a escada devagar e  medida que o faziam os degraus se tomavam outros, no mais de mrmore branco e sim de madeira. Ao final 
da escada entraram em um quarto e Emilie surpreendeu-se ao ver urna mulher ajoelhada em atitude de orao. Aproximou-se mais e percebeu que aquela mulher vestindo 
hbito religioso era ela mesma. Fitou Heloise e perguntou:
- Como... sou eu e no sou eu?!
- Sim,  voc. Observe.
A mulher de olhar determinado ergueu-se e em passos firmes dirigiu-se at ampla sala. Parecia preocupada com alguma coisa; Emilie acompanhava em silncio, tentando 
compreender. Ouviu quando a mulher disse:
- Faam entrar a acusada, quero falar-lhe antes que v a julgamento.
- Sim, senhora.
Em alguns segundos surgia na sala uma jovem senhora, assustada, abraada a trs crianas. Ao se ver diante da madre, pediu em prantos:
- Por favor, liberte meus filhos. Eles so crianas, apenas criancinhas; liberte-os, por misericrdia!
- Cala-te! Sabes que toda heresia deve ser punida, no sabes?
- Mas o que tm eles com isso?
- So teus filhos, teus herdeiros. Se te preocupas tanto com eles, deverias ter pensado melhor antes de entregar-te a prticas demonacas.
- Madre, nada fiz. No cometi crime algum!
- Como no? Fui informada de que foste vista falando com o vento e, quando interrogada, alegaste conversar com teu pai, morto h anos.
-  que... eu o via, senhora, era ele. Tem me ajudado nos momentos mais difceis. Acatando os conselhos que me d, tenho podido alimentar meus filhinhos... Que mal 
h nisso? Nada fiz... Nem sequer contei a quem quer que fosse... S meus filhos o sabem...
- Crianas so como a voz do vento, levam os rumores a todo lado. Com que ento insistes em dizer que tens conversado com teu pai?
A mulher hesitou, intimidada pela figura austera  sua frente; outras freiras, sentadas de ambos os lados, assistiam  inquirio que se desenrolava. Por fim, disse:
- Bem, achei que fosse ele...
- Sabes que no se pode falar com os mortos, no sabes? Eles no nos aparecem! Deus no o permite! Isso que viste  o demnio na forma de teu pai. Tens conscincia 
disso?
Com os olhos assustados, a mulher hesitava em concordar:
- Mas como pode ser? Como pode ter me ajudado tanto?
- s cortes?
- No, de modo algum. Meu marido  inconstante, vem e vai embora quando bem entende. S tenho a presena amorosa de meu pai a me orientar.
- Insistes, ento?
- No... Quer dizer, acho que posso ter me enganado, no? O que seria, madre? Por que tive essas vises? No sei, estou confusa. A mulher que comandava o interrogatrio 
virou-se para a imagem de Cristo crucificado, colocada no centro da sala, e permaneceu algum tempo a observ-la. Depois se virou e disse:
- s herege! Negas Cristo e te afinas com o diabo.
- No, madre, no  verdade! Jesus  minha luz! Amo-o Profundamente!
- Porm no titubeias em entregar-te a prticas mpias!
- Jamais me entreguei a tais prticas; apenas vi... No! Confundi-me, por certo, madre. Tenho estado exausta. A luta tem sido rdua demais! Meus filhos precisam 
de mim; e ainda cuido de minha me, que est enferma. Cansada demais, certa mente, devo estar tendo alucinaes.
A madre sorriu, dizendo:
- Conheo esse olhar; j vi muitos que vm at aqui exatamente como tu, e alegam inocncia por medo das conseqncias; depois que esto libertos, retomam s antigas 
prticas.
Sentou-se  mesa e, pegando a pena, escreveu sua recomendao. Ao terminar, comunicou em voz alta:
- Responders ao Santo Ofcio.
- No, por misericrdia, no! Nada fiz, pelo amor de Deus, no!
- Enquanto aguardas, ficars na masmorra; minha recomendao ser que l permaneas junto de teus filhos, todos eles, at que revejas verdadeiramente tuas crenas.
A mulher ajoelhou-se em prantos, diante da madre, suplicando por misericrdia:
- No, por favor, no, eu nada fiz! No me entregue ao Santo Ofcio, no me mande para a masmorra, no, por favor! Tenha piedade de mim e de meus filhinhos! Eles 
no fizeram nada. De mais a mais - disse, de cabea baixa, olhos na terra -, trago um beb em meu ventre. Por misericrdia, tenha piedade de ns!
A madre, de olhar altivo, comentou:
-  pena que estejas a trazer mais um herdeiro no ventre, porque este tambm dever seguir o destino dos outros. No entanto, acredito que o bispo atender minhas 
recomendaes e tua vida ser poupada. 
A mulher continuava chorando, desesperada. A madre se sentou novamente, rasgou a carta que havia preparado e a reescreveu; ao encerrar, levantou-se e afirmou:
- Pois bem, tens minha misericrdia; vais ao Santo Oficio e  masmorra, para que sirvas de exemplo a tantos quantos se entregam a tais crenas. Contudo, peo ao 
bispo que te liberte em poucos meses. Assim, poders servir  causa do Cristo como exemplo e em breve sers libertada com teus filhos.
- Por misericrdia, meus filhos no precisam ir comigo. Por piedade, no faa isso!
A madre, ignorando-a, retirou-se e entregou a carta a um guarda que, do lado de fora da sala, esperava orientao. Enquanto caminhava pelo corredor, de volta a seu 
quarto, ouvia os gritos da mulher, carregada pelos guardas, e o choro das crianas agarradas  me. Emilie assistia  cena em profunda angstia; de quando em quando 
lanava  av o olhar suplicante, desesperado; no queria presenciar aquilo. Heloise pedia que se acalmasse. Quando a madre se afastou, as duas a seguiram. A jovem 
ento perguntou, com os olhos molhados de lgrimas:
- Sou eu mesma, vov? Que crueldade! Que intolerncia! Como fui capaz de fazer uma coisa dessas, meu Deus?
- Acreditava estar fazendo o melhor, defendendo a Igreja. Vem, ela agora ora, pedindo a Deus que a ajude. Tem receios na alma, embora acredite fazer a coisa certa.
Emilie acompanhou a av at o quarto da madre, que de joelhos, aos ps da imagem do Cristo crucificado, rezava insistente. 
- Ela tenta calar a conscincia sob muitas palavras, quase como se hipnotizasse a si prpria.
Emilie observou a mulher ajoelhada diante dela, que por fim se levantou e saiu do quarto. Fez meno de segui-la e Heloise segurou-a pelo brao, dizendo:
- J chega, viu o suficiente; prolongar a experincia ser prejudicial a voc.
- E o que vai acontecer  famlia que acabou de sair daqui?
- A mulher por ela acusada foi ao Santo Ofcio e depois  masmorra. Deveria, conforme orientao da madre, sair em trs meses, mas a recomendao foi esquecida.
A Inquisio ganhava cada vez mais fora e se alastrava pela Espanha. A madre dava tantas recomendaes ao Santo Ofcio que sequer se lembrava de todas elas. A famlia 
permaneceu na priso. Ao dar  luz, a mulher desencarnou em condies lastimveis. Alguns dias depois o beb tambm morreu. Os outros trs pequenos ficaram na priso 
at quase adultos. A revolta lhes tomou o corao e acabaram condenados  morte pelo Santo Ofcio.
- Chega, vov, por favor, di demais!
- Quando despertar no se lembrar dos detalhes; s o forte sentimento do dever ir prevalecer. Os membros dessa famlia, depois de despojados do corpo fsico, uniram-se 
a voc como ferozes inimigos. Voc, como madre, morreu pelas mos da prpria Inquisio, acusada por intrigas de opositores gratuitos, instigados por essas criaturas 
desencarnadas.
Emilie sentou-se e, com as mos cobrindo o rosto, chorava cheia de amargura. Disse ento:
- Como no me lembro de nada? Mesmo agora, apenas me reconheci aquela mulher; senti que era eu, conquanto em nada ela se parea comigo.
- Percebeu pela energia dela, Emilie, que permanece registrada em sua mais profunda conscincia.
- De nada mais me recordo.
- Nem pode, Emilie. O esquecimento  sua beno, e a possibilidade do recomeo. Voc vagou por muito tempo, mantida prisioneira das entidades que destruiu, at que 
o arrependimento verdadeiro encontrou lugar em seu corao. Voc havia reencarnado como freira para ajudar, Emilie, para socorrer seus irmos em sofrimento; tinha 
conhecimento e preparo para isso. No foi forte o suficiente e deixou-se envolver, cedendo  presso da religio de seu tempo, sem questionar o fundo dos preceitos 
que eram totalmente contrrios aos deixados por Jesus. Depois que caiu em si e compreendeu sua real situao, foi resgatada e sofreu amargamente o fracasso de sua 
encarnao. E mais: as vozes daqueles a quem deveria auxiliar, e prejudicou, ecoavam em sua alma. Ento, decidida a ressarcir aqueles a quem muito devia, preparou-se. 
Estudou, progrediu e desejou reencarnar para reparar seus erros, desta vez, no s amparando os necessitados, como tambm propagando a verdade libertadora. Para 
tanto, foi abenoada com o dom de diversas mediunidades, a fim de poder colaborar em tudo com o movimento esprita que ora nasce, revelao que inunda a Terra levando 
aos coraes, de maneira esclarecida, os ensinamentos de Jesus.  a revivescncia do Evangelho em sua pureza original. Comprometeu-se com sua divulgao, Emilie. 
Depois de breve pausa, Heloise prosseguiu:
- A mediunidade que traz consigo abriu possibilidade para que essa famlia que voc tanto machucou a reencontrasse e continuasse a persegui-la. Compreende a razo 
de seus sofrimentos, Emilie? Compreende que eles foram muito feridos por voc, e por isso desejam revidar?
- Meu Deus! Tudo faz sentido. Tudo se encaixa com tanta clareza que no sei nem o que dizer. Claro que compreendo: eles foram destrudos por minha causa; eu faria 
exatamente o que agora fazem.
Heloise aproximou-se da neta e lhe afagou com carinho os cabelos cor de mel. Emilie entregou-se ao abrao, buscando consolao e conforto; depois perguntou:
- E eu vivia aqui mesmo, na Espanha?
- Sim, viveu aqui.
- Por que viemos ao casaro, por que teve de me traz aqui, Heloise?
- Quase todos viveram com voc em sua ltima encarnao; de uma ou de outra maneira esto ligados e seus destinos se entrelaam.
- Quase todos?
- Sim, quase todos.
Emilie ia perguntar mais, quando Heloise a enlaou ternamente e disse:
- Agora vamos voltar. Voc tem uma misso maravilhosa a cumprir e a oportunidade de resgatar os dbitos srios que contraiu. No a desperdice, Emilie. O momento 
chegou e deve abraar sua tarefa com resignao e determinao. A paz do dever cumprido e do resgate dos dbitos a auxiliar a alar vo para o crescimento espiritual. 
Deus  infinitamente bom e misericordioso. Embora desrespeitemos constantemente sua Lei de Amor, Ele permite a cada um reconstruir aquilo que destruiu. Aproveite 
a chance e siga adiante com firmeza, sem titubear! No olhe para trs nem um s momento.
Emilie, que permanecia abraada  av, balanou a cabea afirmativamente e depois, olhando nos olhos de Heloise, disse:
- Voc vai me ajudar?
- Estarei sempre ao seu lado.
De braos dados, uma junto da outra, desceram as escadas e saram da manso. Emilie fez meno de se virar, pensando em Cntia, mas Heloise disse:
- Vocs se encontraro outra vez, no se preocupe. Agora no olhe mais para trs, Emilie, apenas para frente.
Dessa vez, sentindo-se mais forte, Emilie acompanhou a av no rpido regresso  praia, onde seu corpo descansava em segurana. Heloise a auxiliou a acomodar-se com 
suavidade ao corpo fsico, que devagar despertou. Ainda sonolenta, Emilie divisou a figura terna da av e, mesmo sem entender bem o que se passava, sorriu para a 
imagem que sumia lentamente. Enquanto a av desaparecia, Emilie pde perceber outras entidades, em condies deplorveis, que  meia distncia lhe dirigiam improprios 
e ameaas. Pela primeira vez, em plena conscincia, via aquelas tristes figuras. Entretanto, tomada de um novo sentimento, ela pediu a Deus que a amparasse e tambm 
quelas criaturas. Sentada, fitava longamente o mar e o entardecer, que se fazia majestoso e belo. Elevou o pensamento a Deus, sentindo uma leveza interior antes 
desconhecida, e agradeceu ao Criador pela vida. Deleitava-se com a beleza do mar, quando de sbito se lembrou de Lucrcia. Levantou-se ento, decidida, com foras 
renovadas e intensa vontade de prosseguir, de lutar, de viver. Voltou para a casa dos amigos que a abrigavam e os encontrou reunidos na sala. Sara abraou-a, carinhosa:
- Estava preocupada com voc, Emilie. Onde esteve?
- Algo aconteceu comigo, esta tarde: depois de caminhar at esgotar minhas energias, adormeci. Acho que sonhei com minha av, Heloise; ela me levou a algum lugar 
de que no me recordo, tenho apenas fragmentos de imagens em minha mente. Sinto que depois desse inexplicvel encontro novas emoes me envolvem, como se emergissem 
de algum lugar dentro de mim mesma. Sei agora que estou onde deveria estar e tenho de prosseguir neste caminho em que a vida me colocou. Ser que consegue me compreender, 
Sara?
- Posso compreend-la, muito mais do que imagina. Agora sente-se aqui ao meu lado. Precisamos dizer-lhe algo.
Emilie percebeu que toda a famlia de Sara a olhava de forma diferente  seu esposo, sua filha Suzana e seus filhos Henrique e Andr. Acatou o pedido da amiga e 
sentou-se no sof. Notou, ento, que Sara tinha os olhos vermelhos, da mesma forma que o esposo.
- O que aconteceu? Algum problema? 
Sara segurou as mos de Emilie e lhe disse:
- H algo que precisa saber.
- O que foi? Por que esto assim tristes?
O silncio se instalou na sala, e Sara hesitava ante a revelao que devia fazer. Foi Emilie que, ansiosa, insistiu:
- Por favor, esto me deixando angustiada. O que houve?  possvel me contarem logo? Algum problema com Lucrcia?
Sara, olhando-a firme nos olhos, apertou mais suas mos e disse:
- Emilie, voc precisa ser forte mais uma vez. Precisa sustentar-se nessa experincia maravilhosa que teve hoje e seguir seu caminho, haja o que houver.
Emilie no desviava de Sara os olhos imediatamente cheios de grossas lgrimas, que se precipitavam pela face e pingavam nas mos unidas das duas.
- O que houve com Lucrcia? - perguntou Emilie, pressentindo a resposta. - Est doente?
- Lucrcia passou muito mal na priso; ningum pode explicar o que houve. Mas ns sabemos que nada acontece sem que a Providncia Divina permita.
- E o que houve? Onde ela est? Onde est Jairo?
- Diante do mal-estar de Lucrcia e sem saber o que fazer eles soltaram temporariamente a ambos.
- E esto no hospital?
- No, Lucrcia est em casa.
Soltando-se das mos carinhosas da amiga, Emilie se levantou dizendo:
- Pois ento vamos imediatamente v-los! Precisamos ajud-los!
- Emilie, sente-se, por favor.
- No! Precisamos ir j!
- H amigos nossos l agora, e logo nos juntaremos a eles. Mas antes precisa saber que Lucrcia est realmente muito mal.
- E por que no est no hospital?
- Emilie, no h esperanas de recuperao; o mdico aconselhou Jairo a deix-la em casa.
- Meu Deus! No  possvel! Na ltima vez em que a vi estava to bem!
As lgrimas no cessavam de descer pela face de Emilie, que comeava a revoltar-se pela situao daquela que tanto a ajudara. De repente viu a figura doce de Lucrcia, 
envolvida por suave luz, entrar pela sala. Espantada, observou os outros  sua volta, buscando verificar se tambm a viam. Sara correspondeu com a cabea e disse:
- Ela veio ver-nos, em esprito.
Lucrcia, olhando melancolicamente para Emilie, falou:
- No se atemorize nem desanime. Nunca se esquea de que est na terra por uma razo; portanto, prossiga realizando e construindo, confiando em Deus e apoiando aqueles 
que de voc necessitarem. Ainda que lminas afiadas da maldade e da incompreenso a firam, lembre-se de que somos sempre testados em que j erramos. Portanto, haja 
o que houver, no desista. Deus a estar amparando atravs de muitos mensageiros. Aproveite oportunidade que Ele lhe concedeu e prossiga confiante!
Emilie chorava, profundamente comovida. Lucrcia aconselhou:
- No chore, sinto intensa paz em meu corao. Deixo a terra consciente de que cumpri meus deveres para com o Criador. Embora a dor me visitasse muitas vezes, Deus, 
bom e misericordioso, abriu portas e mais portas de consolo e amparo, ajudando-me a cruzar a jornada com xito. Desejo agora que Ele a proteja e fortalea.
Lucrcia se dirigiu a Sara:
- Obrigada, querida amiga, por ter sido as mos de Deus sobre a terra a me socorrer. Deus a abenoe.
Emilie tentou dizer alguma coisa, porm a imagem desapareceu em meio ao grupo. Ela olhou desesperada para Sara, em busca de uma explicao diferente da que j sabia. 
A amiga a abraou apertado e disse:
- Lucrcia se foi, Emilie. Agora, Jairo precisa de ns, mais do que nunca; vamos nos juntar a ele depressa.
Sem dizer nada, Emilie sentou-se e aguardou os preparativos da famlia. Depois saiu com eles em direo  pequena casa de Jairo. Caminharam em silncio pela trilha 
escura que os levava da vila at a casinha  beira-mar. Ao se aproximarem, perceberam intensa movimentao: alguns amigos chegavam e outros saam. Quanto mais perto, 
mais descompassado batia o corao de Emilie. Os pensamentos se atropelavam e a emoo parecia querer engoli-la. Contudo, as palavras de Lucrcia ainda ressoavam 
em seus ouvidos e lhe davam foras. Quando entraram, um amigo confirmou o que j sabiam: Lucrcia no resistira; o corao, aparentemente fraco, no mais funcionava 
normalmente, e h cerca de duas horas havia parado por completo. Ela se fora. Emile caminhou devagar pela sala e entrou no pequeno quarto. Jairo acariciava o rosto 
inerte da esposa, sem chorar. Em suas mos, o exemplar do Novo Testamento que tantas vezes vira Lucrcia lendo. A jovem parou  porta do quarto, sem poder mover-se 
ou falar. Jairo, ao v-la, caminhou em sua direo, abraando-a em lgrimas comovidas. Ela permaneceu parada, sem saber o que fazer, dominada pela dor e pela emoo. 
Jairo ento estendeu-lhe o livro: 
- Ela pediu que lhe entregasse o Novo Testamento; queria que ficasse com voc.
Pegando o pequeno livro, Emilie sentiu-se tomada pelo desespero. Jairo disse:
- Ela a amou muito, Emilie, e desejou ardentemente que voc encontrasse o caminho do bem e do amor.
Abraada a ele, Emilie chorou sentida e longamente. A noite arrastou-se lenta; a manh trouxe os primeiros raios do sol. Ao final da tarde, depois de realizado o 
funeral, Jairo se despedia de Sara e do marido, que lhe pedia:
- Venha conosco, Jairo, s por alguns dias.
- No quero me afastar daqui. Vou ficar. Este  meu lugar.
- Apenas por alguns dias, at que se recupere do choque deste momento doloroso.
Jairo resistia. Ento Emilie, pegando-o pelo brao, disse:
- No se preocupem, vou tomar conta dele.
- Voc tem de voltar com Sara, precisa continuar escondida.
- No, Jairo. Vou ficar aqui e cuidar de voc; no posso deix-lo sozinho.  o mnimo que posso fazer por Lucrcia. No importa o que disserem, vou ficar. 
- Mas esto  sua procura,  perigoso...
- Vamos enfrentar com coragem o que nos est destinado, no  mesmo? No foi isso que Lucrcia nos ensinou? Deus haver de nos amparar. Vou ficar.
Diante da firmeza com que Emilie se disps a ficar, os amigos sentiram que no havia nada a fazer ou falar; conformada, Sara despediu-se dela com um longo abrao. 
De brao dado a Jairo, Emilie retomou silenciosa. Gostaria de dizer tantas coisas... As palavras lhe morriam na garganta e se manteve calada at regressarem  casinha. 
Quando entraram, Jairo disse:
- Agradeo sua ateno, mas voc no tem de ficar comigo; no tem nenhuma obrigao, Emilie.
- E quem disse que  por obrigao que desejo ficar? Sinto vontade de estar aqui, com voc, perto de tudo que me trouxe de volta a esperana de viver, Jairo. Deixe-me 
ficar, por favor. Sei que tinha muitas resistncias  minha presena aqui...
- Apenas receava por nossa segurana...
- Com toda a razo. Veja o que foi acontecer por minha causa, por minha culpa! Se no tivesse aparecido, no teria trazido meus problemas para vocs, no teriam 
sido presos e quem sabe Lucrcia ainda estaria aqui...
- Lucrcia tinha o corao enfraquecido. No foi a primeira vez que se sentiu mal por causa disso; as dificuldades e experincias pelas quais passou a oprimiram 
muitas vezes. Ultimamente ela estava feliz como h muito no a via. No, Emilie, no creio que tenha sido a priso o problema; alm do mais, ficamos l pouco tempo 
e logo ela comeou a se sentir mal.
- Talvez estivesse preocupada, com medo, e por isso teve a crise.
- No sei, talvez no.
- Eles a maltrataram?
- No desta vez; em Marrocos, sim, ela havia sofrido muito, enquanto esteve presa.
Em silncio, Emilie ps-se a organizar a casa, recolocando utenslios em ordem, exatamente como vira Lucrcia fazer. Jairo permaneceu longo tempo observando a jovem 
mover-se suavemente pela cozinha e pensou em como ela se modificara. Muito pouco sobrara da jovem arredia e rebelde que Lucrcia recolhera  beira do penhasco; Emilie 
havia se transformado. Na manh seguinte, Jairo encontrou o caf pronto e Emilie sentada perto da janela lendo o pequeno volume do Novo Testamento que ganhara. Depois 
de dar-lhe bom dia, ela disse, sentando-se ao seu lado na mesa:
- Jairo, no gostaria de aprender a ler? Eu poderia ensin-lo!
Jairo a olhou surpreso, mas sem nimo respondeu:
- Acha que depois de velho poderia aprender? No creio.
- E por que no? Gosta dos livros espritas, no gosta? Eles lhe sero excelente companhia, Jairo.
Sem responder, Jairo esforou-se por se alimentar. Apesar da dor intensa que sentia pela separao da esposa, a presena de Emilie lhe trazia conforto ao corao. 
Passados alguns dias, Emilie, temendo que pudessem descobri-la, foi  casa de Sara e pediu:
- Preciso de sua ajuda: quero mudar completamente minha aparncia, para que possa permanecer em companhia de Jairo, sem despertar suspeitas. O que poderia fazer? 
Pensei em cortar os cabelos, mas creio que s isso no ser suficiente.
Sara tocou nos cabelos de Emilie e pensou demoradamente. Depois disse:
- Acredito que, se quer esconder-se de fato, precisa de uma mudana radical. Est mesmo disposta a passar por isso?
- Sim, o que tem em mente?
Um tanto hesitante, Sara prosseguiu:
- Podemos cortar seu cabelo e pint-lo de preto. Depois, podemos comprar roupas e calados masculinos, para que se vista como homem. Acha muito complicado?
- No, acho uma tima idia! Embora saiba que isso no vai impedir que me encontrem, certamente vai dificultar, para todos posso fazer-me passar por um parente que 
veio fazer companhia a Jairo aps a morte da esposa. Acho que pode funcionar.
- Ento vamos imediatamente  ao! Venha. Sente-se aqui. Vou cortar seu cabelo exatamente como corto o de meu filho!
Emilie, sem vacilar, sentou-se e se entregou s mos habilidosas da amiga. Sara modelou-lhe os cabelos num corte masculino. Rapidamente estava pronto. Emilie observava 
as mechas de cabelos que caam e sentia subir-lhe um n  garganta; porm resoluta, respirou fundo e manteve-se calma. Finalmente Sara disse:
- Pronto. Acho que ficou bom.
Foi at o quarto e retomou com um espelho redondo nas mos; depois, colocando-o diante do rosto de Emilie, perguntou:
- O que acha?
Emilie mirou-se no espelho e surpreendeu-se:
- Ficou timo! Estou mesmo diferente. 
Depois de se observar durante algum tempo, disse:
- Bem, vamos prosseguir. Tem a tinta para mudarmos a cabelo?
- No, isso ter de esperar. Andr ir  provncia amanh pela manh; pedirei a ele que traga a tinta e tambm algumas roupas para voc. Se quiser vir amanh  tarde, 
concluiremos o que comeamos hoje.
Na tarde seguinte, no horrio combinado, Emilie estava novamente sentada, entregue s mos de Sara, que lhe tingiu os cabelos de negro. Ao final, o ritual do dia 
anterior se repetiu: Sara, com o espelho nas mos, mostrava  jovem sua nova aparncia. Ao fitar-se, Emilie surpreendeu-se ainda mais: estava realmente mudada, com 
uma nova aparncia, e disse:
- Acho que gosto desta cor, Sara. Pareo mais forte.
Sara sorriu, dizendo:
- No  o cabelo que a faz mais forte. Voc est crescendo, Emilie, e reencontrando toda a fora que j estava dentro de voc. 
- Assim espero, Sara, pois sei que vou precisar muito disso. Quero minha filha de volta e vou lutar por ela. No vou mais desistir. Os conhecimentos que venho adquirindo 
esto me esclarecendo muito e o Evangelho vem me dando fora interior para acreditar e perseverar. No sei ainda por onde devo comear, e por ora aguardarei a orientao 
que, sei, chegar no momento oportuno.
- Precisa se manter firme, aberta s orientaes e com o corao cheio de esperana.  isso mesmo! Viu como voc est mais forte? Nada  sua volta mudou; ou melhor, 
ocorreram mais problemas e dificuldades, s que agora voc est diferente. Com certeza ir encontrar o que procura, e com a beno de Deus alcanar seus objetivos.
Emilie concordou sorrindo e disse:
- E as roupas, conseguiram?
- Aqui esto: duas calas e duas camisas; foi o que pudemos trazer. Assim que for possvel...
- No  necessrio mais do que isso. J posso me virar bem, o importante  que continue oculta aos olhos daqueles que me procuram. Se me encontrarem agora, no sei 
o que poderei fazer... No tenho um plano claro e ficaria tudo mais difcil. 
-  bom estar preparada, inclusive com mais informaes sobre o que de fato aconteceu naquela noite.
Emilie refletiu e ficou longo tempo em silncio. Seu entristeceu-se, mas ela lutou intensamente para no desanimar e, levantando-se de um salto, disse:
- Voc tem razo, h muito a ser feito. Obrigada mais uma vez, Sara, cada vez mais compreendo o grande carinho e a confiana que Lucrcia nutria por voc! Agora, 
tenho de ir.
- Pensei que fosse jantar conosco!
- No posso, Jairo est sozinho e fiquei de preparar-lhe o jantar.
Sara, percebendo o carinho que Emilie manifestava pelo amigo, no insistiu mais. Emilie se despediu e, vestida com roupas masculinas, dirigiu-se  pequena casa de
Jairo,  beira do mar. Quando ele a viu entrar, espantou-se, sem reconhec-la:
- Posso ajud-lo em alguma coisa, rapaz?
- No est me reconhecendo, Jairo?
- Emilie? No reconheci voc, mas a sua voz  inconfundvel! O que voc fez, minha filha, o que fez com seu cabelo? E que roupas so essas?
- Ora, Jairo, preciso continuar aqui sem ser reconhecida. Achei melhor tomar algumas providncias que contribuam, e me parece que funcionou. No estou mesmo irreconhecvel?
- Olhando com ateno, e sobretudo depois de ouvir sua voz, fica mais fcil reconhec-la.
- Mas a princpio no reconheceu.
- No, a princpio no.
- timo. J  alguma coisa. Bem, vamos ao jantar. 
Jairo permaneceu longo tempo observando Emilie, que se movimentava pela cozinha, preparando o jantar. Lembrava-se dela, nos primeiros dias em sua casa, sem esperanas 
e totalmente abatida. No era nem a sombra da jovem que tinha diante de si. Que mudana em to pouco tempo! Fazia mais de cinco meses que chegara e as mudanas eram 
notrias! Acompanhada de Jairo, ela continuou participando do pequeno grupo de estudos. Ao terminar O Livro dos Espritos, leu outro, assim como devorava as revistas 
espritas que Sara lhe emprestar. Deixava-se envolver pela luz que os estudos lhe traziam, compreendendo cada vez melhor o que se passara em sua vida, at aquele 
momento. Freqentando as reunies com sincero interesse em aprender, sentia-se mais e mais equilibrada;  medida que se deu conta de que suas crises eram influncias 
espirituais de inimigos do pretrito, foi capaz de assimilar o fato com rapidez e, estudando mais intensamente, buscava na orao o perdo daqueles que a perseguiam; 
lia diariamente com especial carinho o Novo Testamento que a amiga lhe deixara. No se separava dele nunca e, a exemplo dela, o lia todas as manhs. Emilie sentia 
que os ensinamentos de Jesus nunca haviam sido to claros para ela. Nunca as lies haviam penetrado em sua alma com tal profundidade e nunca antes tivera tanta 
necessidade de coloc-las em prtica; o Espiritismo lhe descortinava respostas para as questes que a haviam torturado por muitos anos. Isso lhe trazia paz e serenidade, 
e a ajudava tambm a compreender a doutrina de Jesus. E agora ela enxergava que, sem pratic-la, pouco ou quase nada adiantaria to-somente conhec-la. Alm disso, 
sentia lentamente brotar dentro dela novas energias que lhe traziam esperana para continuar procurando reconstruir sua vida. Em muitas ocasies sentia a presena 
ameaadora dos antigos adversrios espirituais, mas aprendeu a lev-los em orao at Deus e passou a ter maior controle sobre si mesma. As crises que a dominavam 
passaram a acontecer somente nas reunies, quando ento ela servia de intermediria aos espritos esclarecidos que traziam importantes conhecimentos ao grupo, contribuindo 
para o crescimento de todos. Desse modo se dava utilidade quilo que ela tanto temera e de que fugira anos seguidos. Enquanto aprendia, ensinava Jairo a ler. Ele 
se desenvolvia rapidamente e em pouco tempo j estava lendo sozinho as primeiras pginas de O Livro dos Espritos. Emilie ficava satisfeita quando, caminhando pela 
cozinha no preparo de alguma refeio, ouvia Jairo a ler na varanda, ainda que com dificuldades, as primeiras palavras. Sabia quanto isso era importante para o amigo 
e se sentia feliz em ajudar. Sem dificuldade, Emilie incorporou o personagem que criara, fazendo-se passar por um sobrinho de Jairo, e assim o auxiliava quanto podia. 
Naquele dia, logo aps o almoo, Jairo iria at a provncia negociar com compradores as condies do pescado para a temporada. Quando se sentava para almoar, ela 
disse:
- Jairo, gostaria de acompanh-lo  cidade.
- Acho muito perigoso, Emilie. Ainda h cartazes estampando seu rosto por toda parte.
- Olhe bem para mim, Jairo. Observe.
- Estou olhando.
- E no v?
- O qu?
- Jairo, at nossos amigos demoraram a me reconhecer quando cheguei assim, de cara nova, pela primeira vez em nosso grupo de estudos. Se para eles, que convivem 
comigo, no foi muito simples, imagine para aqueles que no me conhecem! Acho que eu e Sara fizemos um timo trabalho! No iro me reconhecer.
- Emilie, realmente voc est bastante diferente, mas acreditar que est irreconhecvel  um exagero.
- Voc pensa assim porque est todo o tempo comigo e me conhece bem; j aqueles que no sabem quem sou no tero facilidade em me identificar. Alm do mais, imagine 
se vo pensar que uma mulher fugitiva aparea andando pela cidade? Acho que a imaginao das pessoas no vai to longe.
- No sei, no. Creio que Lucrcia no aprovaria, e ela sabia das coisas.
Ao ouvir o nome da amiga, Emilie calou-se, pensativa. Depois disse:
- Sinto saudade. Gostaria de poder fazer mais por ela, retribuir de alguma forma tanto bem que ela me fez!
Jairo permaneceu em silncio, olhos rasos d'gua, lembrando-se da esposa com extremo carinho. Emilie insistiu:
- Vou com voc!
- Por que se arriscar tanto, Emilie? J no h risco suficiente em voc ficar aqui, onde j foi procurada? O que deseja fazer na cidade?  perigoso. Deixe que o 
tempo passe e que a lembrana esmaea. Espere ao menos que no haja anncios com sua foto pela provncia.
- No creio que cessaro.
- Por qu?
- Voc no conhece aquela famlia, Jairo. Eles nunca desistem. So tenazes em suas decises.
Os dois terminaram o almoo calados e, no final, Jairo disse:
- Se nunca desistem  mais um motivo para que voc no se arrisque. Por que querem tanto voc de volta?
E depois de prolongado silncio de Emilie, ele perguntou diretamente:
- Afinal, o que aconteceu naquela noite, Emilie?
- No sei ao certo, Jairo. Ainda tenho dvidas sobre meus atos. Sei que conscientemente jamais fiz qualquer mal a Ricardo ou Cntia, a quem amo profundamente. Mas 
quando ficava sob influncia espiritual daqueles que me perseguem, perdia o controle sobre mim mesma e no sabia o que fazia. Em geral, eram palavras agressivas, 
muitas vezes acompanhadas de gestos sensuais e lascivos. Obviamente isso assustava muito meu marido. Apesar de me conhecer bem, no sabia qual seria minha atitude 
nessas circunstncias. Uma vez, uma nica vez e sem dvida a pior delas, Ricardo me disse que tentei agredir nossa filha. Foi quando fiquei realmente assustada e 
por isso penso, Jairo, que eu at possa ter feito aquilo de que me acusam. Todavia, o que me deixa mais confusa  que naquele dia eu no tive crise alguma. Havia 
passado a tarde toda com Cntia e estvamos particularmente tranqilas. Ricardo chegou  noite e eu supervisionei a preparao do jantar, como costumava fazer. Estvamos 
sentados  mesa, e ngela, nossa principal servial, se preparava para nos servir o jantar. Tudo transcorrera normalmente naquele dia. Nada de estranho ou incomum. 
Foi quando eles chegaram.
Emilie se calou, visivelmente perturbada com as lembranas que lhe vinham  mente. Era a primeira vez, desde que tudo acontecera, que falava do assunto em detalhes. 
Jairo arriscou perguntar:
- Quem?
- Isabel, Fernando e o doutor Francisco.
- Aquele que esteve aqui cuidando de voc?
- Ele mesmo, Jairo.
- Mas que coincidncia absurda!
Jairo ficou intrigado e atento, ouvindo Emilie, que continuou:
- Invadiram minha casa e me acusaram de estar tentando matar os dois. Seguiu-se tremendo mal-estar: pediram para analisar a comida e ningum entendia nada. Cntia, 
assustada, Permaneceu muda. Ricardo levantou-se, indignado com a invaso em nossa casa e querendo proteger-me, enquanto Isabel me acusava agressivamente; dizia que 
sempre soubera que eu era uma pessoa desequilibrada, doente, e que havia chegado ao extremo de tentar matar a prpria famlia. Foi tudo muito rpido e confuso. Eu 
no conseguia falar; procurava me defender, aturdida, sem saber o que dizer, quando Isabel entrou na cozinha e voltou com um prato nas mos; nele, uma pequena poro 
do assado que seria servido. Colocou-o na mesa e pediu que doutor Francisco verificasse. Ele cheirou e remexeu a comida, depois tirou do bolso um pequeno saco e 
dele jogou um p sobre a carne. A cor ento se alterou e ele disse que esse p identificava determinado tipo de veneno, e portanto tinha certeza de que a comida 
estava envenenada. Todos me acusaram e eu no sabia o que fazer. Comecei a chorar, descontrolada, e depois me tomei agressiva, na busca desesperada de defesa. A 
no tiveram complacncia: imediatamente me prenderam. Ricardo ficou paralisado olhando do prato (com a cor do alimento alterada pelo tal p) para mim, totalmente 
alucinada. Levaram-me  fora. Acho que me doparam, porque de sbito perdi a conscincia e quando dei por mim estava presa em um quarto com grade na janela e na 
porta. Logo descobri que estava em um hospcio. Davam-me pouca comida e os maus-tratos eram constantes. s vezes no me deixavam dormir, torturando-me com perguntas 
a noite toda. Eu ficava cada vez mais fraca e confusa; esforava-me para lembrar detalhes do ocorrido, torturando-me com a idia de que talvez, sob os efeitos de 
uma crise, tivesse atentado contra a vida dos que mais amo. S que no havia tido nenhuma crise e ficava cada vez mais confusa. Pouco depois, doutor Francisco veio 
me v e disse que eu estava muito doente, que precisava de tratamento e que me tomara uma pessoa perigosa. Aquele mdico me causava nuseas, eu o achava desprezvel; 
mesmo assim, pedi que me ajudasse, implorei, supliquei de todas as maneiras que voc possa imaginar - at o ponto de concordar em ceder naquilo que por tanto tempo 
ele tentara, buscando me seduzir. Mas ele estava frio e insensvel e me abandonou naquele lugar repugnante. Desesperada, concentrei as foras na idia de fuga. Na 
primeira chance, fugi direto para o penhasco. Tencionava acabar com minha vida, dando fim ao sofrimento.
Emilie calou-se, emocionada pelas lembranas vivas de to grande pesadelo. Jairo acariciou seus cabelos com carinho. Ela sorriu, retribuindo a compreenso do amigo, 
e depois disse:
- Como estava enganada, Jairo... Hoje, conhecendo atravs desta nova revelao o que acontece aps a morte, compreendo que se tivesse posto fim  minha vida muito 
maior seria meu sofrimento. Graas a Deus, e somente a Ele, Lucrcia me encontrou a tempo. Se no fosse por ela, e pela voz de minha filha que ouvi nitidamente naquele 
dia, teria terminado com tudo.
- Que bom que essa desgraa no aconteceu! Voc est aqui, viva, e com certeza ir superar todas as dificuldades.
- Sim, hoje sei que existe esperana e que tudo tem um sentido, uma explicao.
Destemida levantou-se, dizendo:
- E chega de lembranas tristes. Quero olhar para frente, para o futuro. Encontrei alento nesses novos conhecimentos; quero aprender mais e compartilhar com outros 
essas boas novas.
Jairo, satisfeito, arrematou:
- E vai conseguir, minha filha, vai conseguir. Lucrcia sabia que devia ajud-la, o que custei a compreender. Agora, constatando as transformaes em sua vida, comeo 
a enxergar o que ela j vira. 
- Agradeo a Deus todos os dias por vocs terem me acolhido, Jairo. 
Sem responder, ele tocou suavemente as mos de Emilie, depois se levantou e comeou a se preparar para partir e estar na cidade pelo meio da tarde. Era noite alta 
quando retomou. Emilie, que tentava ler para se distrair da preocupao, ps-se de p assim que o viu entrar.
- Jairo, voc no costuma demorar tanto!
- No pretendia me atrasar, mas as negociaes entravaram e no conseguimos chegar a bom termo, tanto em preo como em conservao do transporte. Eles querem que 
eu passe a me responsabilizar pelo transporte daqui at Bilbao, o que ser muito difcil.
Jairo se sentou mostrando profundo cansao. Emilie o observava atentamente, ao lhe servir o jantar.
- No sei o que fazer. Acabei deixando os compradores sem definio, pois no posso aceitar o que esto querendo e no consigo pensar em nada para propor-lhes. Enquanto 
no resolvermos o impasse, ficarei sem vender, a no ser o pouco que se consome aqui mesmo, na vila. S que  to insignificante que no poderem os comprar nem mesmo 
o bsico; no sei o que fazer.
Ele permanecia cabisbaixo. Emilie ficou calada vendo-o comer, depois disse:
- Jairo, voc no tem um amigo influente em Barcelona, que muitas vezes o ajudou?
- Sim, Miguel.
- Ento, vamos at Barcelona!
- Procurar Miguel  uma boa idia; ele  experiente e sempre consegue as melhores negociaes. Parece-me a nica alternativa neste momento.
- Pois est decidido: amanh mesmo, partimos para Barcelona!
- Mas voc no pode vir comigo, Emilie, j conversamos isso hoje.  muito perigoso!
Ela se sentou mais perto do amigo e, tocando-lhe as suaves mos, disse:
- Aprecio seu cuidado, porm, no posso ficar aqui para resto da vida, Jairo. H muita coisa que preciso fazer; tenho recebido muitas orientaes, voc bem sabe, 
e alm do mais sinto dentro de mim que h muito a ser feito. Devo aceitar o compromisso que me foi revelado pelos conhecimentos espritas e colocar-me  disposio 
para fazer o que for necessrio, o que estiver ao meu alcance, enfim.
Jairo acompanhava o raciocnio da jovem com extrema ateno.
- Entretanto, para que possa contribuir de alguma forma, preciso parar de me esconder, resolver minha vida, reconquistar minha liberdade, esclarecer tudo o que aconteceu, 
mesmo que para isso tenha de voltar  priso e responder  justia. Se realmente causei ou tentei causar algum mal, preciso esclarecer tudo e a ento recomear 
minha vida, assumindo minhas responsabilidades.
- Tem certeza, Emilie?
- Absoluta. Quero acompanh-lo a Barcelona e retomar a minha histria. Sei que s enfrentando meu destino poderei superar o passado. Confio que terei toda a ajuda 
de que necessito, no tenho mais dvida quanto a isso.
- E pretende procurar seu marido?
- Ainda no. Quero voltar  cidade, ver como me sinto e retomar aos poucos. Apesar de decidida, sei que ainda tenho muitas fragilidades, muitas recordaes, algumas 
mgoas; tudo isso ainda est dentro de mim.
- Se estiver certa de que quer correr todos os riscos concordo que venha comigo. Partiremos bem cedo.
Imediatamente aps terminar a organizao da casa, se recolheu. Estava ansiosa e custou a adormecer. Embora desejasse rever a cidade onde vivera por anos e quem 
sabe at reencontrar a filha, um temor indefinido rondava-lhe a mente e ela chegou a pensar se no devia aguardar mais algum tempo. Mesmo assim, ignorou seus receios 
e persistiu na deciso. Algo lhe dizia que deveria acompanhar Jairo e ela estava aprendendo a ouvir e respeitar seu corao, sua intuio. Finalmente adormeceu. 
Antes do nascer do sol, Emilie e Jairo estavam a caminho. Ao chegarem a Bilbao, Jairo providenciou os bilhetes para a viagem at Barcelona. Emilie, vestida com roupas 
masculinas acabara de subir na carruagem e mal se acomodara quando ouviu uma voz conhecida:
- Pretende viajar, Jairo?
Jairo se virou e deparou com Pimentel; a figura do homem lhe causava desconforto. Refletiu por alguns instantes, depois disse:
- Vou a Barcelona, para resolver problemas de negcios, mas retorno brevemente.
- Sei... Entretanto, sabe que no pode se ausentar da cidade.
- No pretendo me ausentar. Estive aqui disponvel o tempo todo; nunca me neguei a comparecer quando solicitado. Estou  inteira disposio da justia, delegado. 
A propsito, a jovem ainda est desaparecida?
- Infelizmente. A famlia aumentou a recompensa por informaes que levem ao seu paradeiro, e at agora nenhum fato novo nos ajudou. Por acaso ela no esteve em 
sua casa, ao saber da morte de sua esposa?
- Como haveria de saber da morte de minha esposa. Ela foi embora logo que melhorou um pouco e nunca mais...
Sem esperar que Jairo terminasse, Pimentel se dirigiu  porta da carruagem e olhou para dentro. Havia duas senhoras sentadas de um lado e um jovem sozinho do outro. 
Pimentel cumprimentou as duas senhoras, que conhecia, e percebendo que no vira o rapaz antes lhe perguntou: Quem  voc, rapaz? Nunca o vi por aqui. Emile com o 
corao descompassado, permaneceu calada. No imaginara o que fazer naquela situao. Num impulso, fez sinal negativo com a cabea, mostrando a boca, como a indicador 
que no podia falar.
Jairo apressou-se em responder:
- Esse  Mrio, um sobrinho que veio me fazer companhia assim que Lucrcia... o senhor sabe.
- Acho que ouvi algum comentrio a respeito. E ele no fala?
- No.  mudo de nascena; ouve, mas no pode falar. Veio ajudar-me com a pesca. O senhor no ignora que minha esposa, alm de ser dona de casa, ajudava-me muito 
com o meu trabalho.
Pimentel, desconfiado, observava Emilie. Ia fazer mais perguntas, quando seu auxiliar chegou ofegante:
- Delegado, precisa me acompanhar. Uma briga de bar... Depressa!
Contrafeito, Pimentel argumentou com o auxiliar:
- V  frente, depois eu vou.
-  gente importante, senhor,  melhor vir logo. 
Ainda contrariado, Pimentel cedeu  presso, no sem antes perguntar a Jairo:
- Quando voltam?
- Em alguns dias.
- Assim que retomar, quero falar com voc. Daremos prosseguimento s investigaes! Precisamos de alguma pista, algo que nos leve at a maluca! E depressa!
- Estou  disposio!
- Veremos. Aguardo seu regresso. Se demorar, vou em seu encalo.
Sem dizer mais nada, Pimentel seguiu o auxiliar e desapareceu. Jairo acomodou a mala e tambm subiu. A carruagem partiu para a longa viagem. Depois de se ajeitar, 
Jairo olhou para Emilie, que, plida, conservava a cabea baixa. Sabia que no poderia proferir uma s palavra ao longo de toda a viagem e espiava de canto de olho 
as duas senhoras, que tambm os examinavam. Em uma das pausas da viagem, longe delas, Jairo disse a Emilie:
- No imaginava que ele estivesse por ali to cedo! Que homem! Dir-se-ia que est em toda parte! Parece at que adivinha!
- Adivinha ou  sugestionado, Jairo.
-  verdade! Nunca podemos nos esquecer...
- Nunca!
A viagem prosseguiu tranqila e, com exceo do desconforto causado pelo silncio, foi uma agradvel jornada. A paisagem era exuberante. Emilie contemplava os penhascos 
que se estendiam de Bilbao at San Sebastian. Em seguida, tomaram outra estrada que os conduziria a Barcelona. A emoo envolvia Emilie e lhe apertava o peito. Desejava 
muito ver a filha e pensava no que poderia fazer para ter essa oportunidade. Ansiosa, lembrava-se de Lucrcia e procurava serenar os pensamentos, buscando foras 
para continuar. Horas mais tarde, quando a carruagem se aproximava de Barcelona, Emilie quase no conseguia se conter. Sentia vontade de chorar, angstia, medo... 
Todas as emoes se misturavam e ela at desejou no ter acompanhado Jairo, que igualmente a observava, imaginando o que poderia estar sentindo. Sutilmente Jairo 
segurou sua mo, na inteno de lhe transmitir foras. Quando a carruagem encostou, Jairo desceu primeiro e ajudou as duas senhoras. Uma delas, antes de se despedir, 
disse:
- Curioso, voc e seu sobrinho vieram a viagem toda - e olhe que  uma longa viagem - sem se comunicar. Estranho...
- Ele  muito quieto e eu tambm. Estamos acostumados ao silncio, senhora, s isso. No h nada estranho. Boa estada em Barcelona.
To logo as duas senhoras se afastaram o suficiente, Emilie explodiu:
- Nossa! Que coisa horrvel ficar tantas horas sem falar! Meu Deus, pensei que fosse enlouquecer!
Jairo sorriu. Foram para a casa de Miguel, passando no caminho pela livraria que Jairo conhecera. Assim que entraram, Jairo reconheceu o dono; Emilie viu que havia 
poucos livros espritas nas prateleiras. Jairo lembrou-se da grande remessa que j deveria estar l e ento perguntou, aps cumprimentar o proprietrio:
- Os livros que estavam aguardando ainda no chegaram?
- Chegaram, mas foram confiscados.
- Confiscados? Por qu?
- Se souber por quem, logo imaginar por qu. Foi uma ordem do bispo dom Antnio.
- Como? As autoridades j no haviam liberado a entrada dos livros?
- Estavam liberados, porm a Igreja tem fora junto a muitas pessoas influentes. Parece que dom Felipe interferiu, atendendo ao pedido de dom Antnio.
Emilie estremeceu ao ouvir o nome do sogro; procurou controlar-se e perguntou:
- E o que vo fazer com os livros? Tranc-los a sete chaves em algum convento?
- Muito pior, vo queim-los onde executam os condenados.
- No  possvel! A Inquisio j acabou! Ser que pretendem ressuscit-la?
- Tem razo,  preocupante. Toda vez que a intolerncia ofusca a verdade,  perigoso para a sociedade. Os livros espritas vm trazendo novo conhecimento e iluminando 
conscincia tm despertado as pessoas para a realidade espiritual e para possibilidade de melhor conduzirem suas vidas. Mas muitos esto interessados em calar a 
voz da verdade e fazer que todos permaneam em sonolncia e profundo torpor - assim o domnio  mais fcil. Os que apoiam a nova revelao esto temerosos de que 
uma atitude como essa fortalea a perseguio queles que se interessam pelo Espiritismo.
- Perseguio? 
- Sim, existe uma perseguio velada empreendida pela Igreja contra aqueles que demonstram qualquer interesse pela nova doutrina.
- O senhor conhece pessoas que tenham sido perseguidas aqui em Barcelona?
- Sei de inmeras intrigas que j foram tramadas contra aqueles que ousaram despertar. Na maioria das vezes os adversrios agem de forma sutil, para no serem acusados 
diretamente. Sei de pessoas que quase passam fome, desprovidas que ficam de trabalho, por interferncia direta da Igreja. Outras so realmente calunia das em sua 
conduta e at acusadas de atos que no praticaram.
Emilie olhou significativamente para Jairo, que de imediato adivinhou-lhe os pensamentos. Continuaram por mais algum tempo conversando sobre o perigo que rondava 
aqueles que se interessavam pelas descobertas espritas. Ao se despedirem, Emilie perguntou:
- No h nada que se possa fazer para impedir que os livros sejam destrudos?
- H orientao vinda da Espiritualidade superior para nada fazer, apenas orar e aguardar os acontecimentos. O prprio Allan Kardec se props a algo fazer, interferindo 
junto a justia francesa, mas foi orientado a calar-se e esperar.
- E quando pretendem cometer esse ato brbaro?
- Amanh pela manh.
Ao despedir-se finalmente do livreiro, Emilie disse:
- Amanh estaremos l!
- Muitos espritas e simpatizantes comparecero, num ato de resistncia e protesto, assim como intelectuais e artistas que no aceitam o que a Igreja est fazendo.
Ao sair da livraria, Jairo e Emilie foram para a casa de Miguel. Depois da apresentao formal, falaram longamente sobre Lucrcia. Quando teve oportunidade, Emilie 
perguntou, referindo-se ao que estava para acontecer na manh seguinte:
- Por que tanta resistncia, Miguel? De que tm tanto medo?
- O Espiritismo incomoda porque leva as pessoas a tomarem posies, fazer em escolhas, e estas trazem conseqncias. As pessoas preferem no conhecer para no ter 
de decidir. A Igreja abandonou o verdadeiro sentido dos ensinos de Jesus to presentes nos primeiros sculos do Cristianismo. Os verdadeiros princpios do Mestre 
foram deturpados e a eles se sobrepuseram interesses de ordem material: poder e dinheiro.
Emilie respondeu, assustada:
- No  possvel! A Igreja sempre falou de Jesus!
- Falar  uma coisa, viver  outra bem diferente. Acho que  por isso que temem tanto o Espiritismo, que bem entendido e, sobretudo, vivenciado leva fatalmente  
mudana do homem e de toda a sociedade.  medida que a Doutrina Esprita nos esclarece a respeito da imortalidade da alma e da vida que continua sempre, leva-nos 
a olhar para o presente sob outro ngulo, buscando o sentido de tudo o que nos acontece. A noo da preexistncia da alma e dos efeitos do passado em nossa existncia 
atual nos faz reconhecer a necessidade de transformao de nosso esprito de modo a nos tomarmos verdadeiros cristos; leva-nos a amar a Deus e ao prximo traduzindo 
esse amor em auxlio a todos os que precisam, em perdo das ofensas, em compreenso para com as dificuldades alheias. So tantos os ensinamentos puros que Jesus 
nos deixou e dos quais nos afastamos... Agora o Espiritismo traz a luz capaz de promover nosso reencontro com a mensagem de Jesus e nos convida ao esforo para nos 
melhorarmos, para reformarmos nosso ntimo pela vivncia de Suas lies. Certamente h muitos na terra e no espao que desejam que os homens permaneam arraigados 
 ignorncia, presos aos preconceitos que os limitam, cpticos e materialistas, impedindo a evoluo e ascenso da Humanidade.
- Apesar de tudo, haver essa queima de livros. Isso ir atrapalhar a divulgao dos princpios espritas, no?
- Talvez sim, talvez no. Aguardemos. O Espiritismo nasce sob a orientao de Deus e o amparo de Jesus. Confiemos na Divina Providncia que tudo sabe. Vamos acompanhar 
o evento de perto, embora seja repugnante. Gostariam de ir conosco?
Emilie antecipou-se na resposta:
- Sem dvida.
Os trs seguiram conversando por longo tempo. Miguel mostrou a Emilie o trabalho de assistncia aos aflitos e necessitados que estava desenvolvendo, o que a tocou 
profundamente. O dia amanheceu frio e nublado, como a prenunciar o ato infeliz que se haveria de testemunhar. Eram nove horas da manh e o local j estava lotado. 
Havia os que ali se encontravam para apoiar a Igreja; entretanto, tambm acorriam em grande nmero curiosos e defensores da doutrina anatematizada. Aos adeptos e 
simpatizantes somavam-se os homens que, compreendendo o valor da liberdade de pensamento que se alastrava por toda a Europa, no aceitavam o retrocesso que aquela 
agresso representava. Jornalistas, escritores, filsofos, cientistas e outros intelectuais se uniam, revoltados por presenciar o fato ignbil, contrrio a todos 
os modernos movimentos de independncia e progresso humanos. Em meio ao povo que se aglomerava estavam tambm Emilie, Jairo e Miguel junto com outros amigos. Embora 
Jairo a tivesse alertado para o perigo de ser reconhecida, Emilie se sentia indignada demais com o que estava para acontecer e desejava aliar-se queles que tinham 
a coragem de manifestar sua repulsa pelo gesto arbitrrio e de profunda intolerncia. Os livros foram atirados no centro da praa: dezenas de exemplares de O Livro 
dos Espritos, vrios de O Livro dos Mdiuns, alm de inmeras brochuras contendo mensagens e textos de diversos mdiuns. Em minutos uma pequena montanha de livros, 
cerca de trezentos volumes, se formou e foi contornada pela multido, que era contida por representantes da lei. Enquanto os livros eram jogados, diferentes manifestaes 
se faziam ouvir: alguns gritavam, apoiando o clero, outros externavam seu repdio quele ato. Miguel observava tudo, circunspeto. Em pensamento orava a Deus, pedindo 
proteo para a doutrina que nascia. No permitia que nenhum sentimento de rancor ou mgoa se instalasse em seu corao e procurava lembrar-se de quantos, entre 
os primeiros cristos, tinham sido queimados em luta herica pela disseminao da Boa Nova de Jesus. Pensava que mais recentemente outros crentes sinceros se haviam 
imolado durante os obscuros tempos da Inquisio, lutando pelos princpios do Cristianismo, sem se intimidar diante daqueles que lhe violavam a pureza. Assim refletindo, 
redobrava a confiana em Deus, consciente de que o Esprito de Verdade, que presidia a chegada dos conhecimentos espritas  Terra, haveria de cuidar para que sua 
difuso fosse amparada e preservada. De sbito, abriu-se um corredor em meio ao povo e dom Antnio aproximou-se do monte de livros. Em frente a eles proferiu breve 
discurso, expondo a razo daquele auto-de-f e ressaltando o perigo que tais publicaes representavam. Inflamou-se em seu discurso, mas antes mesmo de termin-lo 
uma vaia tmida se fez ouvir. Sem titubear, o bispo recebeu de um dos seus auxiliares a grande tocha acesa e colocou-a em cima dos livros, que imediatamente se incendiaram. 
 proporo que as chamas se intensificavam, igualmente crescia a vaia, e tanto ela como as labaredas se espalhavam por todos os lados. Os mais acanhados encheram-se 
de coragem e, quando o fogo era mais intenso, ruidosa vaia ecoava na praa, abafando por completo os aplausos. Surpreso e receoso frente ao protesto da multido, 
o bispo de Barcelona partiu em retirada. Emilie, embora comovida, buscava conter as lgrimas e refletia sobre os efeitos da intolerncia. De sbito, espantou-se 
ao reconhecer um rosto na multido: era Fernando, que estava entre os acompanhantes do bispo. Emilie, ento, focalizou nele sua ateno e percebeu que parecia atordoado, 
o olhar vagando entre a fogueira, a reao do povo e a atitude do bispo. Mesmo depois que este desapareceu, o jovem se manteve diante dos livros em chamas, como 
que hipnotizado. De quando em quando olhava as pessoas  sua volta, e novamente se fixava na fogueira ardente. Despertou daquele torpor no instante em que um dos 
auxiliares da parquia, temeroso da reao popular, puxou-o pela batina insistindo para que sasse dali. Ele finalmente aquiesceu, afastando-se da praa sob a vaia 
geral. Emilie no pde deixar de acompanhar cada movimento de Fernando. Logo que a maior parte das autoridades desapareceu, verificaram-se tentativa s de apagar 
o fogo, o que foi impedido pelos policiais presentes. S ao v-lo quase extinto, e praticamente todos os livros queimados,  que eles deixaram a praa. A multido, 
ainda tomada por forte comoo, pde enfim se aproximar, quando nada mais havia a ser feito. Os livros estavam destrudos, e apenas algumas pginas eram identificadas. 
As cinzas voavam ao sabor do vento, levando para toda parte os sinais daquele auto-de-f.
Aps o fogo ter cessado por completo, a praa permanecia lotada e muitos ali ficaram sem saber o que fazer, inconformados com o que ocorrera. Aos poucos, porm, 
o local foi e esvaziando. Emilie, Miguel, Jairo e os outros amigos foram dos ltimos a abandon-lo. Emilie estava entristecida chegou  casa de Miguel.
- No fique triste, Emilie.
-  revoltante!
- Nada poder impedir o avano da verdade. Deus na permitiria.
- Mas queimar os livros, ameaando aqueles que se interessam pelos princpios espritas, j  demais!
- Isso no  nada comparado ao que se sofreu para disseminar o Cristianismo. Tenho certeza de que no impedir o Espiritismo de crescer na Espanha.
Emilie meditou por algum tempo, depois disse:
- Gostaria de algo fazer para ajudar...
Miguel observou-a e no respondeu; ela, por sua vez, insistiu:
- Acha que eu poderia colaborar de alguma forma, Miguel? 
Miguel olhou-a com amabilidade e disse:
- Voc certamente pode contribuir com o Espiritismo, acima de tudo porque tem na divulgao de seus princpios um grande compromisso. Todavia, desde j lhe advirto: 
no espere que seja fcil. O que presenciamos hoje foi somente uma amostra do que muitos gostariam de fazer com aqueles que buscam a renovao em suas atitudes; 
ainda que os frutos do trabalho sejam compensadores, a semeadura  rdua.
Emilie, em tom grave e muito sria, afirmou:
- Estou convencida de que tenho compromissos assumidos antes de reencarnar. A vida se encarregou no s de mostrar-me um novo caminho, como de reacender a esperana 
dentro de mim; no posso ignorar que minha existncia se renova graas ao que venho aprendendo. Se no pudesse entender a razo dos meus sofrimentos, jamais me deixaria 
influenciar pelos ensinos amorosos de Jesus, revoltada como estava contra tudo e mesmo contra Deus.
- E at com certa razo. Como aceitar o que no se compreende?
- E agora que compreendo estou disposta a levar a outras pessoas em sofrimento a ajuda para tambm compreenderem, para poderem estender as mos e pela f raciocinada 
sentir as bnos do Criador.
- Fique tranqila, a ocasio chegar.
- Acha que o que aconteceu hoje no ir intimidar as pessoas, Miguel?
- Talvez um pouco, no incio, mas sei que o sofrimento continuar a mov-la s na direo do verdadeiro auxlio.
Permaneceram por longo tempo conversando sobre as possveis conseqncias do auto-de-f. Ao entardecer, Emilie acompanhou os amigos nas atividades assistenciais 
que Miguel desenvolvia junto  populao carente da cidade, levando alimento e remdio aos necessitados. Ela caminhou por bairros em que jamais estivera, nos mais 
de quinze anos que vivera em Barcelona; sorriu e chorou com as pessoas que visitou, impressionada com tanto sofrimento e tantas privaes. Viu crianas fracas e 
doentes. No entanto, quem mais a comoveu dentre todos foi uma das senhoras visitadas, que em meio aos inmeros problemas que enfrentava comentou:
- Est tudo certo, Miguel. Deus o abenoe por tanta ajuda que nos tem dado. Sei que no devo reclamar de nada, diante de quanto o Pai me tem concedido Baixando a 
cabea, a mulher enxugou as lgrimas que desciam e acrescentou:
- S lamento uma coisa: gostaria de poder ler para aprender mais com os livros. Fiquei sabendo do que aconteceu hoje e achei uma estupidez. Tanto conforto desperdiado! 
Tantos querendo ler, e os que podem queimam os livros...
- Tenhamos f na Providncia que tudo transforma para nosso bem.
- Tenho presenciado isso a cada dia; apesar de toda a intolerncia e da perseguio que venho sofrendo, Deus no me desampara...
Miguel, que notou a curiosidade de Emilie, disse:
- Nossa irm Ermnia foi vtima da intolerncia e vem lutando bravamente para manter-se fiel aos princpios que abraou.
Emilie externou sua curiosidade:
- O que aconteceu?
- Mais tarde lhe conto o ocorrido - finalizou Miguel. 
Assim que se despediram de Ermnia e seus filhos, Emilie indagou:
- Como s vezes pessoas mais simples conseguem enxergar com tamanha lucidez, Miguel?
- O sentimento verdadeiro quase sempre supera as limitaes intelectuais.
Emilie retomava compenetrada e envolvida na conversa que entretinha com Miguel, Jairo e os amigos que com ele seguiam todas as noites a levar alimento, medicamentos 
e conforto queles que necessitavam. A tarefa era difcil. Era preciso espalhar o benefcio sem ferir as pessoas; embora a dor e a tristeza os visitassem, muitos 
eram orgulhosos e resistiam a receber ajuda. Normalmente eram os estrangeiros ou expatriados - como Jairo e Lucrcia - aqueles que primeiro aceitavam apoio; os demais, 
desconfiados e altivos, sempre suspeitavam que houvesse outros interesses por trs da doao e muitos rejeitavam o socorro. Miguel, que compreendia e amava o seu 
povo, era paciente e tolerante, aguardando o momento certo para estender o auxlio. Emilie, surpresa com essa determinao no servio ao prximo, ainda no conseguia 
compreender os extremos cuidados Miguel. Enquanto caminhavam, ele procurava explicar-lhe o Imperativo do amor para se poder auxiliar com eficcia. Iam entretidos 
na conversa quando intensa movimentao chamou a ateno de todos. Estavam diante de largos portes abertos por onde entrava grande nmero de pessoas. Jairo perguntou 
a Miguel:
- O que acontece aqui? Por que tanta gente?
-  a festa que os Bourbon e Valena realizam todos os anos juntamente com a Igreja. J  uma tradio... 
Emilie estacou em frente aos portes, sendo quase arrastada pelos que entravam. Havia muitos guardas  entrada da manso. Ela comeou a caminhar para a casa, como 
se estivesse em transe. Quando Miguel percebeu o que acontecia, correu at a jovem, agarrou-lhe o brao e puxou-a para fora, vencendo sua resistncia. Assim que 
Miguel conseguiu tir-la do meio da multido, o grupo se apressou em afastar-se da casa, ao passo que Emilie dizia, quase descontrolada:
- Minha filha, quero ver minha filha! Ela est to perto! Quero v-la, preciso v-la, no entendem?
- Acalme-se, Emilie, tente controlar suas emoes para que elas no controlem voc! Vamos, acalme-se.
Emilie parecia no escutar e insistia:
- Eu quero v-la! H quanto tempo, meu Deus, tenho tanta saudade!
Miguel segurou-a pelos ombros e, olhando-a com firmeza, disse:
- Pois bem, e o que vai fazer? Enfrentar seu marido, a famlia, os guardas? Voc viu os guardas! E ento? O que ir obter? Certamente no ser sua filha! Eles a 
colocaro de volta no hospcio, Emilie. Voc precisa resolver sua situao, antes que possa reencontrar sua filha.
Por fim, como se despertasse, Emilie admitiu:
- Tem razo, sei que tem razo, Miguel;  que senti urna fora quase incontrolvel me puxando para dentro.
-  claro, Emilie, muitos desejam que voc fracasse!
A jovem olhou novamente para os portes abertos e viu ao longe as luzes da casa, que em dias de festa eram todas acesas. Ento, voltando-se para Miguel, disse:
- Tem razo, no h nada que possa ser feito por agora. Vamos depressa, preciso sair daqui ou no poderei me conter.
Em passos rpidos e firmes, o grupo se afastou e desapareceu rumo ao centro da cidade. Emilie, com o corao descompassado, no mais ousou olhar para trs, temendo 
no poder controlar-se. Ela sentia como se sua mente estivesse presa quela casa. Na manso, a festa seguia com relativa tranqilidade. Alguns comentavam a reao 
inesperada do povo, a vaiar o bispo, que estava indignado com aquela manifestao. No mais, a comemorao transcorria como desejado. No topo da escada, Isabel observava 
a todos. Dom Felipe conversava com o bispo e outras autoridades vindas de Roma. A dona da casa sorria, satisfeita. Tinha tudo sob controle, e pensava: "Que diferena 
do ano passado! Graas a Deus minha famlia est protegida outra vez! Ainda bem que consegui tirar do caminho o que poderia ameaar-nos. Agora s falta Cntia, mas 
com ela ser muito mais fcil!"
Filomena, que animada recebia os convidados, viu a me e subiu ao seu encontro:
- Tudo a contento, mame?
- Sim, Filomena, tudo perfeito. Todos esto aqui, e a organizao da festa foi excelente. Meus parabns! Ainda bem que tudo se encaminhou como devia e todos puderam 
comparecer com o que houve hoje, espero que esse mal seja estancado!
Sim, acho que todos entenderam a mensagem. O que me surpreendeu foram a s vaias. O que significam, me?
- Uns poucos simpatizantes, minha filha; nada com que devamos nos preocupar. Afinal, todos tm o direito de se expressar, no  mesmo? Estamos em tempos de liberdade.
Isabel sorriu cinicamente para a filha que, captando o que a me desejava dizer, respondeu:
- Sim, tempos de liberdade... Bem, vou descendo que esto chegando convidados.
Isabel apreciava a festa, quando viu Fernando se afastar de um grupo em conversa animada e subir as escadas. Ao passar por ela, perguntou:
- O que tem voc, Fernando? Est calado o dia todo, nem parece contente com o resultado de tudo o que foi planejado. Hoje  um dia memorvel! Deveria estar feliz! 
Tudo caminha bem, temos tudo novamente sob o nosso controle. O que o preocupa?
- No sei, tia; no me sinto muito bem, acho que estou at com febre. Talvez seja uma gripe.
Isabel ajeitou o cabelo do sobrinho e disse:
- Acho que tem trabalhado muito, Fernando, deve ser isso. Quando parte para as Amricas?
- Breve.
- Quando? Tem alguma previso?
- No, ainda no.
- No deveria apressar as coisas, j que esse  seu objetivo?
- Sim, mas acho que por ora sou mais til no orfanato: muitas crianas chegando e poucos para ajudar.
- No se atormente tanto. Por que as crianas precisam de muita gente para cuidar delas? Imponha rigorosa disciplina e faa com que os mais velhos ajudem os mais 
novos.
Fernando pensou por instantes e disse:
- Parece boa idia. Todavia, alm disso precisamos de pessoas que dem a elas ateno e carinho, como faz Cntia. Ela tem ajudado muito.
-  pena, Fernando, que no v poder ajud-lo por muito tempo.
- E por que no? Ricardo autorizou e a menina gosta tanto!
- Tenho outros planos para ela.
- Outros planos?
- Sim, acho que Filomena lhe contou.
- No creio que ela tenha vocao. Apesar de nunca ter falado sobre isso, penso que no  o que quer. De mais a mais, Ricardo no concordaria.
- Ricardo far aquilo que lhe dissermos para fazer! No conhece seu primo?
- Tenho minhas formas de convenc-lo. Sei que ser difcil, mas tenho planos para conseguir que concorde.
- E se Cntia no quiser?
- E ela tem l querer, Fernando? Essa menina precisa ficar sob a orientao rigorosa da Igreja, pois pode ter tendncias ao desequilbrio, como a me!
Fernando calou-se. Isabel fitou-o e perguntou:
- Sabe de alguma coisa? Ela no demonstrou nada estranho, enquanto esteve trabalhando com voc no orfanato? Uma informao desse tipo me facilitar ia muito as coisas.
- Claro que no, tia!  uma garota adorvel, carinhosa e meiga. Todas as crianas a adoram. E  muito responsvel; tem colaborado mais do que muito adulto o faria.
- V? Voc acaba de me dar motivos para reforar minha inteno. Pelo que me diz ela ser uma tima religiosa, totalmente dedicada.
Fernando olhou-a, irritado, e disse:
- No concordo com isso,  um abuso! Vocs querem fazer o que bem entendem com as pessoas? E os sentimentos dela? S pensa em seus interesses? No pensa no que as 
pessoas querem, no que  melhor para elas, em nada!
- Olhe s quem fala! Quando os interesses so seus, voc no age de outro modo, no , Fernando?
- Era diferente, tia. Os interesses da famlia e da Igreja estavam em jogo.
- Os seus tambm, visto que  parte da famlia e da Igreja. No seja hipcrita! E no tente atrapalhar meus planos. Essa menina vai para o convento mais rgido que 
eu achar. E no se fala mais no assunto!
Fernando virou-se para sair quando notou que Cntia estava prxima a eles; pela expresso de espanto em seu rosto, percebeu que tinha ouvido a conversa. A menina 
no disse nada e correu para o seu quarto. Fernando encarou a tia, que comentou:
- Melhor assim. Vai fazer com que tudo acontea mais depressa.
Sem responder, Fernando correu atrs de Cntia, porm ao chegar ao quarto encontrou a porta trancada. Foi em vo que bateu e lhe pediu que abrisse; apenas escutou 
o seu choro abafado. Depois de insistir muito, sem saber o que fazer, saiu acabrunhado pelos fundos da manso e foi para a parquia, abandonando a festa. Abatido 
e desmotivado, dirigiu-se para seu quarto. Atordoado, sem saber com clareza o que sentia, acomodou-se na cama e tentou dormir. Lembrou-se em detalhes do comportamento 
de Cntia em sua primeira visita ao orfanato. Sem dvida tinha atitudes estranhas, como a me, que no entanto s o havia m auxiliado. Que fora seria aquela que 
a tomava e a fazia agir como se do minasse questes que para ela eram desconhecidas? Fernando meditava e meditava, sem poder identificar nada de errado no que Cntia 
havia feito. E se aquele fenmeno fosse algo bom, algo que viesse para ajudar? Alguns santos no tinham vises, no faziam coisas estranhas tambm? Sem poder dormir, 
levantou-se e andou pela parquia. Parou junto a uma das imagens de Jesus e perguntou a si mesmo: "E se esses fenmenos tiverem uma explicao razovel? E se no 
forem maus? Meu Deus! Quanta injustia j ter sido cometida!" Por fim ele se ajoelhou diante da imagem e pediu com sinceridade a proteo de Jesus. Estava amanhecendo 
e Fernando continuava de joelhos quando ouviu barulho. Era o proco que regressava da manso. Ergueu-se rpido, pois no queria que o vissem acordado nem que soubessem 
que deixara a festa to cedo. Trancou-se em seu quarto e de novo se ajeitou na cama. Ouviu quando o padre caminhou pelo corredor e por fim se fechou no quarto. O 
silncio voltou ao templo, porm o corao do jovem padre estava perturbado. Ele no conseguia deixar de pensar em Cntia, e agora lembranas de
Emilie lhe rondavam a mente. No retomo  casa de Miguel, Emilie quis saber sobre a perseguio que Ermnia sofrera, descrente de que fosse responsabilidade da Igreja 
seu atual estado de penria. Ele contou em pormenores tudo o que sabia sobre a dura vida da mulher: sua luta corajosa aps a morte do marido para suprir as necessidades 
materiais da famlia, depois a dor da excomunho e em seguida a perda dos clientes, no restando ningum mais que quisesse comprar-lhe os produtos. A filha mais 
velha, indignada deixara a famlia e desaparecera. Havia muito no dava notcias e Ermnia temia que estivesse comprometendo a prpria existncia pela revolta que 
trazia dentro de si. Apesar disso, mantinha-se fiel aos princpios espritas que abraara, consciente de que no poderia mais ignor-los. Miguel e outros companheiros 
a estavam socorrendo; na busca de alternativas para que ela pudesse continuar a viver com dignidade, tentavam enviar os doces que produzia - de excelente qualidade 
- para outros pases. Emilie ouviu o relato com ateno e depois disse:
-  impressionante o que fizeram a essa mulher! Nunca imaginei que as pessoas pudessem agir com tamanha crueldade.
- Aqueles que querem a qualquer preo impor sua vontade, que se deixam dominar pelo orgulho, acabam espalhando a dor e o sofrimento para quantos no se submetem 
aos seus propsitos. E contra essa conduta insana que lutamos, para que o amor triunfe sobre o egosmo e a humildade vena o orgulho. Somente assim seremos felizes.
Emilie continuou pensativa e enfim questionou:
- Ser que o que aconteceu comigo na noite em que fui presa poderia ser fruto de algo semelhante?
- No duvido de nada, Emilie. Voc presenciou o que foram capazes de fazer hoje. Sim, creio que tudo  possvel.
- E como vou descobrir, Miguel? Como poderei esclarecer toda essa histria e libertar-me de vez daquilo de que me acusam? Preciso fazer alguma coisa, no posso ficar 
apenas esperando.
Ento foi Miguel quem se calou e ficou pensativo. Depois, tocando suavemente o ombro dela, recomendou:
- Tenha f e pacincia, tudo tem seu tempo certo. No adianta forar as situaes; precisamos tentar compreender o movimento natural da vida. Muitas vezes, com atitudes 
ansiosas, atrapalhamos planos que esto sendo muito bem conduzidos pelos nossos orientadores espirituais, nossos protetores. Devemos confiar neles e prosseguir. 
Deus jamais nos desampara e, na hora certa, abre portas que pareciam definitivamente fechadas. Tenha f, tudo ser esclarecido no momento certo.
- Contudo, h certas coisas que por mais que me esforce no consigo compreender.
Miguel, sentado no sof ao lado de Emilie, disse:
- Muitas coisas esto alm da nossa capacidade atual de compreenso, por isso precisamos desenvolver a confiana. Veja: no conseguimos entender ainda o que houve 
hoje. Muitos se perguntam por que a Espiritualidade superior permitiu que algo assim acontecesse. Por que permitiu que a nossa doutrina de luz fosse vilipendiada 
dessa maneira, com seus principais instrumentos de divulgao destrudos em praa pblica, condenados diante de todos num auto-de-f? H alguns que crem que isso 
realmente enfraquecer o Espiritismo e intimidar os espritas. O que podemos responder?
Emilie e Jairo ouviam atentamente. Miguel continuou:
- Devemos esperar com f. Recebemos instrues para nada fazer no sentido de impedir o que a Igreja e as autoridades planejavam. Que confissemos na Providncia, 
pois tudo reverter no bem de todos. E por isso creio que a Espiritualidade encontrar alguma forma de beneficiar o Espiritismo, mesmo atravs desse acontecimento 
desagradvel e negativo. O apstolo Paulo j dizia: "Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus".
- Como, Miguel? No consigo enxergar.
- Ainda no sabemos, mas precisamos acreditar. Eles sabem melhor do que ns e enxergam mais longe. Se confiarmos e nos mantivermos firmes e fiis ao que nos orientam, 
e acima de tudo s Leis que Jesus nos revelou, as coisas sero encaminhadas para o bem de todos, inclusive o nosso.
Emilie, que estivera de corpo ereto, atenta ao que Miguel dizia, encostou-se inquieta no sof e suspirou, dizendo:
- Ah, Miguel, quanta pacincia  preciso ter!
- Sem dvida, pacincia ativa, inteligente,  fundamental. Passaram mais algum tempo a conversar at que todos se atiraram para o descanso necessrio.
Apesar de cansada, Emilie no podia conciliar o sono, ainda sob o forte impacto das emoes daquele dia. Pensava que devia contribuir de algum modo. Lembrou-se de 
Fernando e de sua reao diante da fogueira. Pensou na filha e sentiu o peito apertado de saudade. Recordou Ricardo tambm com o corao dodo. Desejava ardentemente 
esclarecer toda a situao e recuperar sua famlia. Se Ricardo fora enganado, com certeza quando conhecesse a verdade a receberia de volta. Conjeturando o que fazer 
para elucidar a cilada de que havia sido vtima, passou quase toda a noite acordada, s adormecendo quando j amanhecia. Ainda sonolenta, ouviu um burburinho que 
parecia espalhar-se pela casa toda. Levantou-se de pressa. Ao descer, encontrou Miguel com vrios amigos na sala de estar, em conversa animada. Sobre a mesa da sala 
repousavam diversos jornais, abertos nas manchetes relativas  ocorrncia do dia anterior. Emilie, que descera assustada, percebeu que estavam todos felizes:
- O que aconteceu? Pensei que houvesse algum problema e vejo que, ao contrrio, esto felizes!
- Leia isto.
Emilie sentou-se e Miguel lhe entregou um dos jornais, o mais importante da cidade; depois ela pegou outro; a seguir jornais alternativos, de sociedades cientficas 
e filosficas, que expunham em edio extra sua viso indignada dos fatos de 9 de outubro em Barcelona. Emilie mal podia crer no que lia. Alguns jornais traziam 
um histrico do movimento esprita e alertavam quanto ao perigo da intolerncia religiosa, lembrando recentes atos criminosos praticados pela Igreja. Outros apenas 
criticavam a atitude intolerante, a despeito do que o Espiritismo postulava, reiterando que a liberdade de pensamento fora uma conquista da Humanidade, que no podia 
agora correr riscos de retroceder.
- Miguel! Acho que no estou entendendo direito. Esto contra o que foi feito?  isso mesmo?
Aps terminar a leitura de todos os jornais, Miguel disse:
- Lembra-se do que conversamos ontem? Parece que os desdobramentos esto comeando. A julgar pelo sentimento de indignao que percebo nessas pginas, no iro silenciar 
to cedo. As barreiras havero de cair, uma a uma! A verdade haver de triunfar! No disse que precisamos aprender a confiar, Emilie? No estamos ss, essa  uma 
grande prova. Se o nmero de opositores aumenta, igualmente cresce o amparo que recebemos. Tudo o que vem pelas mos do Criador  vitorioso!
- Inacreditvel, Miguel, estou impressionada!
- Pelo que percebo, o que est acontecendo  o contrrio do que a Igreja pretendia.
- Como assim? - perguntou Jairo.
- Eles pretendiam intimidar e atrapalhar a expanso do Espiritismo, mas com toda essa publicidade o que fizeram foi dar-lhe maior divulgao! E que divulgao! No 
deve haver uma nica pessoa em toda a cidade que no esteja falando, discutindo e, mesmo que discorde, ouvindo falar dos novos postulados. E creio que no ser somente 
em Barcelona; a discusso dever propagar-se pelo pas. Bendita sabedoria de Kardec em obedecer aos espritos e seguir-lhes rigorosamente as orientaes!
Os amigos permaneceram por algum tempo conversando e celebrando as repercusses inesperadas que a queima dos livros espritas suscitara. Mais tarde, naquele mesmo 
dia, Emilie e Jairo iniciaram os preparativos para regressar. Ao v-los a organizar a partida, um dos colaboradores assduos de Miguel perguntou a Jairo:
- Precisam voltar to depressa?
- Consegui que Miguel me ajudasse a solucionar os problemas com o negcio do pescado. Ele preparou uma carta que levarei aos compradores e acredito que resolver 
o impasse. Temo ausentar-me por muitos dias, pois ainda respondo ao processo em Bilbao e no quero atrair-lhes mais a ateno.
- Ento continuam?
- Sim, so insistentes.
Emilie acompanhava a conversa em silncio. Pretendiam partir na manh seguinte.
Na manso, o dia tambm comeou turbulento. Felipe, a filha e Ricardo tomavam o caf da manh quando Isabel desceu furiosa, jogando o jornal sobre a mesa:
- J viu isso, Felipe? Quem esses jornalistas pensam que so? Ao invs de destacarem a festa, dedicam vrias pginas ao ocorrido ontem pela manh!  revoltante! 
Voc tem de fazer alguma coisa! Precisa demitir esses jornalistas!
- Isabel, acho que voc no est entendendo. Deixe-me explicar melhor: todos os jornais se manifestaram contrrios  queima dos livros espritas. No h um sequer 
que apoie, que traga qualquer comentrio favorvel! O que fazer? Demitir todos os jornalistas de Barcelona? Amanh saberemos o que acontece no restante do pas, 
o impacto em outras provncias. No podemos interferir no pas inteiro.
-  inaceitvel! Precisamos fazer alguma coisa! Eles tm de se calar!
-  verdade, pai, esses atrevidos precisam de uma lio! 
Felipe suspirou fundo e disse:
- Temo que seja tarde. Parece que cometemos um erro: ns e a Igreja.
- No  possvel, Felipe!
- Os fatos falam por si, Isabel. Veja, leia! Temos de admitir que cometemos um erro estratgico! Precisamos agir com mais cautela. Parece que atacar frontalmente 
no foi uma boa idia! Estou falando pelos resultados, unicamente.
Isabel tomou o caf calada. Ao terminar, perguntou ao marido:
- E vai ficar a, sem fazer nada? Aceitando o fracasso?
- J avisei que preparem a carruagem e mandei pedir audincia ao bispo. Certamente devemos conversar sobre o ocorrido, para que no traga maiores conseqncias.
- Est vendo no que deu no termos tomado medidas mais enrgicas antes? Perde-se o controle da situao, precisamos ser mais firmes, Felipe! Sinto que nossa famlia 
tem sido por demais condescendentes com determinadas situaes perigosas.
Ela falava olhando para Ricardo, que at aquele momento estivera calado. Frente  ausncia de resposta do filho, prosseguiu:
- Precisamos apoiar a Igreja de forma cada vez mais ostensiva. E fazer valer as tradies de nossa famlia, a fim de tom-la totalmente invulnervel a ameaas como 
essa.
- Do que est falando, Isabel?
- Ricardo trouxe uma mulher mentalmente perturbada para dentro de nossa famlia, pondo em risco nossos princpios, nossa imagem, nossa influncia!
- Pare, me! - explodiu Ricardo, pronto a se levantar. 
Isabel deteve-o, segurando-lhe fortemente o brao:
- Sente-se e me escute. Voc trouxe uma mulher desequilibrada e envolvida com o diabo para dentro desta casa!
- No  verdade!
- No? Onde est sua doce Emilie?
- Por favor, me!
- Ela  uma mulher atormentada, e voc sabe disso, pois quase morreu por suas mos. E isso tudo  castigo, Ricardo, castigo de Deus.
- Por que castigo? O que foi que fiz de to ruim, para merecer que Deus me castigue assim, tirando-me a mulher que...
- Diga, continue blasfemando!
- No  verdade, me!
- Deus est castigando voc por ter desistido de ser padre Ricardo. Essa era sua obrigao e voc desistiu; agora Deus o est punindo pela desobedincia.
- Isso  ridculo! Eu no tinha vocao alguma para servir  Igreja, e no concordar com esse absurdo foi a melhor coisa que fiz. No me sinto...
- Cale-se, Ricardo! Veja como est sua vida: um casamento fracassado, uma mulher assassina e desaparecida e uma filha...
- O que tem minha filha?
- Tambm est ficando mentalmente perturbada. Ela  igual  me.
- No  verdade, dona Isabel, no  verdade. Cntia  um doce de menina!
- Doura igual  que tinha Emilie? Muito doce, tentando envenenar voc e a prpria filha. Preste ateno, Ricardo. Cntia segue os passos da me. Est ficando cada 
vez mais esquisita e logo sua mente estar descontrolada, exatamente como a da me. E a responsabilidade ser sua, toda sua.
- Pelo amor de Deus, me, isso no  verdade!
- Claro que ! Filomena tem acompanhado a menina e sabe que digo a verdade. Cada vez mais quieta, mais estranha.
- Ela sente falta da me,  s isso.
-  muito mais do que isso, Ricardo. S vejo um jeito de proteger sua filha.
- Qual ?
- Entreg-la a Deus, coloc-la a servio da Igreja.
- No, jamais!
Ricardo levantou-se, agastado; entretanto, dessa vez foi dom Felipe quem o segurou, dizendo:
- Sente-se, Ricardo. Deixe sua me terminar. J chega de atos voluntariosos que s nos trazem problemas.
Ricardo, conquanto profundamente irritado, obedeceu. Isabel argumentou: 
- No vejo outra sada, Ricardo. Ela precisa de proteo.
- Eu a protegerei! Sempre!
- Voc no entende.  preciso proteg-la de si mesma. Ela ter uma vida de servios a Deus e  comunidade. No lhe falta vocao. Pergunte a ela. Gosta de ir ao 
orfanato, de ajudar as crianas, sente-se bem naquele ambiente. Se a desviar do caminho voc ser duplamente responsvel e culpado. Escolheu mal uma vez; agora faa 
a coisa certa. Deixe que a menina seja orientada e protegida.
- Entre as paredes de um convento? Longe da famlia, dos amigos, da vida?
- Perto de Deus!
- Prefiro-a perto de mim!
- No poder proteg-la, da mesma forma que no pode proteger Emilie. Elas so iguais, Ricardo. Sua esposa tem srio desequilbrio e a menina segue o mesmo caminho. 
No percebe? Voc estar contribuindo para que ela adoea. No quis ouvir no caso de Emilie e sabe o que aconteceu. Preste ateno ao que est fazendo com sua filha! 
Ou toma uma atitude ou perder o controle e ento, a exemplo do que houve com Emilie, ser muito pior!
Sem retrucar, Ricardo se levantou abruptamente e saiu da sala. Isabel dirigiu-se ao marido:
- Ricardo no quer escutar, no quer colaborar. Ser pior para ele e para ns. Quando as coisas fugirem ao controle, no poderemos reclamar. Fale com ele, Felipe. 
Voc tem toda a autoridade, tome uma atitude. Ele precisa obedecer-nos, fazer o que  melhor para todos!
- Voc me deixou muito preocupado. Se Cntia tem tendncias a se comportar como a me, teremos realmente de fazer algo. Vou pensar numa soluo. No quero que a 
se repita nesta casa.
- Nem eu. E precisamos agir rpido. A menina esta crescendo, este  o momento. Se a enviarmos imediatamente a aceitao ser mais fcil para todos, inclusive para 
ela. A sociedade passa por fortes presses. Precisamos preservar os nossos.
Levantando-se, dom Felipe disse em tom grave:
- No me esperem para o almoo, devo demorar.
Assim que o marido saiu, Isabel convidou a filha a acompanh-la at a biblioteca. Logo que entraram, pediu-lhe que fechasse a porta. Ao ver Filomena encostar a porta 
ela insistiu, exasperada:
- Tranque a porta, Filomena, precisamos conversar.
A jovem obedeceu, depois se sentou e concentrou a ateno na me. A lareira estava acesa e o silncio na casa era total. Filomena tomava os ltimos goles de ch 
quente, enquanto imaginava qual seria o motivo de tal discrio. Isabel puxou a cadeira para bem perto da filha e disse:
- Quero que essa menina seja enviada o mais rpido possvel a um convento, longe, bem longe daqui. E tenho idia de como faz-lo.
Filomena continuava atenta.
- Seu pai vai obrigar Ricardo a atend-lo, se pudermos comprovar que a menina  igual  me, que tambm  mentalmente perturbada.
- E como vamos provar isso? Nem sabemos se ela apresenta o mesmo tipo de comportamento...
- No precisamos, Filomena.  inquestionvel que convento far bem no s a ela, como  nossa posio junto a Igreja, pelo fato de colocarmos a seu servio mais 
um dos nossos. Cuidaremos para que Cntia ocupe posio de destaque na Igreja, e no futuro, adequadamente conduzida, ela igualmente ser til aos interesses da famlia; 
at entender nossa atitude nossa deciso. Se por alguma razo a me retomar, ela estar protegida e um dia haver de nos agradecer.
- E o que pretende fazer?
- Quero que converse com Fernando. Ele pode nos ajudar.
- No creio, me. J tentei convenc-lo a colaborar, mas ele no concorda.
- Disse isso?
- Praticamente. No quer forar a menina a nada. Acha que ela deve escolher o prprio destino. No creio que possamos contar com Fernando...
Isabel sorriu, enquanto acariciava os cabelos da filha. Depois dirigiu-se at a lareira e arrumou algumas brasas, juntando-as todas. A se virou para a filha e disse:
- Ele tambm no tem escolha, Filomena. Use seu poder de persuaso.
- Como assim, me?
- Diga-lhe que se no confirmar para Felipe que a menina tem problemas semelhantes aos da me, iremos tomar pblico o que houve entre vocs dois.
Filomena empalideceu e se levantou, indignada.
- Isso ir comprometer a mim tambm, me! Faz muito tempo! ramos jovens e no sabamos o que estvamos fazendo. Fernando apenas comeava o seminrio... E ele nem 
queria...
- Fui muito compreensiva com voc, no, filha?
- Sim, muito.
- Ento, o que est esperando? Use seu poder de persuaso. Diga a ele que estou disposta a tomar pblico o que houve entre vocs...
- Me, por favor, so lembranas dolorosas, no quero...
- Perdoe-me, Filomena, mas no temos escolha. S Fernando pode nos ajudar. Seu pai no sabe do que houve entre vocs e no precisa saber. Afinal, est tudo devidamente 
contornado. O orfanato esconde muitos atos ilcitos, e tenho certeza de que Fernando no h de querer ver o seu passado publicamente exposto, o orfanato fechado 
e as pobres crianas na rua. Ele ter de nos ajudar. Convena-o!
- Mas, me...
Sem deixar que a filha terminasse, Isabel andou at a porta da biblioteca e destrancou-a. Antes de abri-la, sentenciou:
- Voc consegue, minha filha. Empenhe-se. Ele no ter alternativa seno concordar; no h outra opo. Ou concorda ou ter sua vida exposta.
- E eu, a minha!
- No, querida, voc saber como impedir tamanho escndalo...
Isabel no esperou que a filha dissesse mais nada; saiu da biblioteca, fechando a porta. Filomena, sem saber o que fazer, murmurou com os dentes cerrados:
- Megera desalmada!
Ao sair, foi direto ao encontro do primo. Entretanto, chegando  parquia notou grande alvoroo. Foi informada de que o primo sara muito cedo, para o orfanato. 
No obstante a vontade que teve de segui-lo at l, Filomena no ousava colocar os ps novamente naquele lugar. No queria ver as crianas. Deixou recado pedindo 
ao primo que fosse procur-la o mais breve possvel e voltou para casa. No caminho, seu desejo era fugir, desaparecer. Naquele momento sentia dio da me, que mantinha 
absoluto domnio sobre ela. J a havia obrigado a tomar tantas atitudes contra sua vontade... No conseguia libertar-se dela, de seu poder. Ao mesmo tempo em que 
discordava de muitas de suas atitudes, sentia fascnio por Isabel. Dentro da carruagem que a reconduzia  manso, baixou a cabea e chorou amargurada, profundamente 
ressentida. Em tudo buscava agradar  me, at naquilo que reprovava, e ela nunca ficava satisfeita. Agora, tinha de remexer o doloroso passado. Quando chegou em 
casa, encontrou Cntia tomando caf. Olhou-a e nem sequer a cumprimentou; subiu correndo para seu quarto. Trancou a porta e deitou-se na cama, sem nimo para nada, 
ansiosa e angustiada por ter de falar com Fernando sobre algo que, sabia, lhe desagradaria muito. Filomena esperou o dia todo pelo primo, que no atendeu ao seu 
recado. No final da tarde, ela desceu as escadas preparada para ir de novo atrs dele. Ao passar pela me, sussurrou:
- Ele no estava. Vou l outra vez.
- Muito bem, aguardo boas notcias.
Dessa vez Filomena foi informada de que o primo estava em seu quarto. Bateu e virou a maaneta, tentando entrar, mas a porta fora trancada. Ela insistiu, batendo 
com mais fora:
- Fernando, sou eu.
- No quero falar com ningum, no me sinto bem.
- Por favor, preciso entrar.
- Hoje no. Vou  sua casa amanh.
-  urgente, precisamos falar j!
O rapaz exasperou-se do lado de dentro:
- No posso falar agora, Filomena, voc no entende?
-  problema srio, Fernando. Nosso futuro est em jogo, nosso passado...
Fernando destrancou a porta e Filomena entrou rapidamente, tomando a tranc-la.
- Est louca? Trancando a porta?
- Precisamos conversar...
Perguntou ao ver o abatimento do primo:
- O que voc tem, est doente?
- Estou doente da alma! Vamos sair daqui. No quero comentrios maldosos a nosso respeito.
Levando a prima para o ptio interno, sentou-se e disse:
- Fale, qual  o grande problema?
- Fernando, temos um grave assunto familiar a resolver.
- Outro, voc quer dizer? Parece que nossa famlia no anda muito bem, no ?
- Por que diz isso?
- Sinto que as coisas no vo to bem como antes... Algo est mudando.
- Voc est nervoso.
- Leu os jornais de hoje? Viu a tremenda repercusso que est tendo a queima de livros? Houve at alguns comentrios menos nobres sobre a festa, nossa tradicional 
festa!
Filomena baixou a cabea e disse:
- Acho que as pessoas esto enlouquecendo! Opor-se dessa forma  Igreja e s suas decises...
- As coisas esto mudando, Filomena, as pessoas esto mudando. Esto pensando, refletindo, raciocinando...
- E que tem isso? Estamos fazendo o que  certo!
- Ser?
- Fernando, o que h com voc?
- No sei. Acho que erramos, Filomena, acho que estamos cometendo erros sobre erros. Sinto-me perdido e confuso... J no tenho tanta certeza das decises que tomei 
nos ltimos anos. Tantas coisas me atormentam... Inclusive ns...
-  sobre isso que vim conversar.
- E o que h para conversar?
- Ns precisamos colaborar com minha me uma vez mais.
- E o que  que dona Isabel quer desta vez?
- Ela s deseja nosso bem, como sempre.
- Ser, Filomena? A me que induz a filha ao aborto quer mesmo o bem dela? Tenho refletido sobre isso s vezes. Voc poderia ter morrido, Filomena! Como pudemos 
nos submeter?
- Era para nosso bem, Fernando, somente para o nosso bem. E foi bom. Veja, voc tem sua vida, seguindo sua vocao. E eu tenho minha vida...
Filomena no pde continuar.
- V? Voc tambm no tem tanta convico de que fizemos o melhor.
- ramos muito jovens, Fernando, inexperientes. O que mais poderamos fazer? Criar um grande escndalo na famlia? E a Igreja, o que haveria de fazer? No, minha 
me estava certa, como est agora. Ela quer que Cntia v servir a Deus e  Igreja. E pede sua ajuda.
Fernando se levantou e, andando de um lado para outro, dizia:
- De jeito nenhum, desta vez no vou me envolver! Cntia  que deve escolher. No, de modo algum vou participar de mais uma mentira!
- Minha me quer seu auxlio para que meu pai possa convencer Ricardo a autorizar. Voc tem de cooperar, Fernando.
- No! Eu no vou colaborar com mais nenhum ato de autoritarismo de dona Isabel! No vou! J chega!
Sentando-se, tomou as mos de Filomena entre as suas e disse:
- No percebe, Filomena? Estamos nos tomando pessoas infelizes, tomando decises sem amor, sem respeito, que esto nos levando  infelicidade... No podemos continuar 
com isso, no podemos tomar outras pessoas infelizes tambm! J chega o que fizemos a Emilie... Temos de parar com isso!
- Voc pode at estar certo, mas no podemos fugir do nosso passado! E ele nos alcanou neste momento.
- O que quer dizer?
- Temos de ajudar minha me, Fernando, ou...
- Ou o qu?
- Ela vai tomar pblico nosso passado.
- Tia Isabel est blefando, Filomena, no percebe?
- Acho que no.
- Ento acha que ela vai manchar a prpria famlia?
- Embora seja minha me, ela  capaz de nos prejudicar, sim.  capaz de tudo para atingir seus objetivos. No quero nem pensar em me indispor com minha me, Fernando.
- E ficaremos refns dela pelo resto de nossas vidas?  isso que quer? Sempre que ela pretender algo, teremos de concordar ou ento nossa vida ser exposta? Qual 
 o tipo de vida que vamos ter, Filomena?
Fernando baixou a cabea, buscando esconder as lgrimas, enquanto Filomena tambm chorava. Ele tocou as mos da prima com ternura e disse:
- Filomena, que tipo de vida j temos? No somos felizes... Como poderemos ser, da maneira como estamos agindo?
- Por favor, Fernando, voc precisa colaborar... No  muito,  s dizer que de vez em quando a menina tem comportamentos estranhos, como a me.  s isso. O que 
custa?
- Filomena, pelo amor de Deus, voc no v? Pelo que h de mais sagrado neste mundo, pelo amor que sentimos um pelo outro, no podemos continuar a mentir, a enganar!
- No acha possvel que ela seja parecida com a me?
- E se for, Filomena, e da? Emilie no nos fez nada. 
Filomena se levantou, completamente atordoada, e disse:
- Chega! No quero ouvir mais nenhuma palavra! Emilie era uma ameaa, uma doente! Uma... uma... possuda! Fizemos o que devia ser feito, agimos corretamente. Minha 
me sempre quis preservar nossa famlia! Ela quer o melhor para todos ns. Se no quer ajudar, est bem! No poderei impedir a fria de minha me! Ela  poderosa 
demais, voc sabe! No sei o que ser de mim, e muito menos de voc! Ela  influente junto  Igreja, e nem ouso imaginar as conseqncias disso para voc...
- Estou confuso. Veja o que est ocorrendo agora, aps a queima daqueles livros! As pessoas esto revoltadas. Fala-se do Espiritismo em toda parte, em todos os lugares. 
 s disso que se fala, Filomena. Estou apreensivo. Acho que as coisas no saram como espervamos... Acho que nada est saindo como desejvamos. Precisamos repensar 
nossas atitudes...
Ela respirou fundo e considerou:
- Fernando, voc est se deixando abalar e no est raciocinando com clareza. Nossa famlia apoia e serve  Igreja h sculos e continuaremos a faz-lo, queira voc 
ou no.
- Ns servimos  Igreja ou nos servimos dela, Filomena?
- Como assim? O que est dizendo?
- Mas nos servimos dela para nossos prprios objetivos do que servimos a ela com sinceridade.
- No  verdade!
- Claro que . E  isso que est acontecendo outra vez. Tia Isabel quer livrar-se de Cntia para livrar-se de Emilie, porque no quer ningum ameaando seus planos, 
seu domnio, e usa a Igreja. Usa, voc entende?
Fernando, que segurava firmemente os ombros da prima, agora a sacudia como para faz-la despertar.
- No  verdade, no  verdade! - ela repetia.
- Voc sabe que , voc sabe!
Filomena soltou-se do primo e correu para a sada; por um instante se virou dizendo, enquanto enxugava as lgrimas:
- Voc vai se arrepender, Fernando!
Sem esperar resposta, subiu na carruagem, que imediatamente partiu e desapareceu na estrada escura. Fernando no teve tempo de det-la. Miguel acompanhou os amigos 
at a carruagem e ao se despedir disse a Emilie, com o carinho de um pai:
- Que Deus a abenoe, orientando suas decises. Ficaremos sempre felizes em receb-la. Envie-nos todas as mensagens que receber e as encaminharemos a Paris. Pelo 
teor das que j recebeu,  fcil constatar que um trabalho srio desponta de suas mos.
- Como estou aprendendo, Miguel, sou apenas instrumento.
- S que um instrumento precisa estar devidamente afinado e preparado. Pelo que percebo, as vicissitudes em sua vida foram parte dessa preparao.
- Sinto que o momento do trabalho se aproxima. Como disse antes, sei que alguma tarefa me espera.
E suspirando finalizou:
- No sei o que ser de minha vida daqui para frente. Tudo o que presenciei aqui, as convulses que se intensificam, transformando pensamentos e atitudes, me fazem 
perceber que o mundo est mudando. No  apenas minha vida que est de cabea para baixo; tudo  minha volta parece em mutao: verdades antes assumidas como absolutas 
so revistas; muitos passam a compreender melhor o que at ento era considerado diablico; so investigados fenmenos dos quais em perodo recente se acreditava 
que todos deveriam manter distncia. Indiscutivelmente, o mundo est mudando...
Miguel sorriu, apreciando o amadurecimento da jovem que comeava a entender com mais clareza as circunstncias que marcavam aquele momento. Depois de dar um abrao 
carinhoso em Jairo, Miguel tirou do bolso algumas folhas de papel dobradas e as entregou ao amigo, dizendo:
-  uma mensagem de Lucrcia que recebi ontem  noite. Tem alguns recadinhos tambm para Emilie. Ela est bem, Jairo, e espera que continue sendo forte.
Aps abra-lo outra vez, Jairo entrou na carruagem e Miguel disse, antes de se afastar:
- Caso precise de ajuda em relao s investigaes ou a qualquer outra questo, no hesite em nos avisar. Estaremos aqui para o que for necessrio.
Jairo sorriu, acenando para o amigo, que contemplava a carruagem a se distanciar. Quando no pde mais divis-lo, Jairo abriu os papis que recebera e ps-se a ler 
a singela carta que a esposa lhe enviara, rompendo, pelas mos de Miguel, o muro que separava as duas dimenses da vida. Conforto e alegria o envolveram e seguiu 
pela estrada sentindo na alma suave confiana. Emilie, entretanto, no se sentia to leve. Seus pensamentos se detinham nos ltimos meses de sua vida e no quanto 
ela havia mudado; pensava na filha, no marido, nos pais e irmos; lembrava-se de Lucrcia e se espantava com a fora daquela mulher. Depois pensava no futuro e em 
como deveria conduzir sua vida: o que fazer, como resolver seus problemas. E assim, mergulhada nas preocupaes sobre o que lhe reservava o futuro, esteve pensativa 
e silenciosa por toda a viagem, que durou mais de oito horas. J era noite quando desceram da carruagem em Bilbao. Jairo pediu a Emilie que o aguardasse enquanto 
comprava os tquetes para o ltimo trecho da viagem. Ela procurou ocultar-se dos transeuntes atrs da carruagem. Depois de algum tempo, comeou a ficar inquieta; 
Jairo estava demorando demais. Ela foi ficando impaciente, porm sabia que deveria esperar sem se expor. De onde estava podia ver fotos suas estampadas em cartazes 
colados na parede externa do prdio no qual Jairo entrara para comprar os tquetes. Finalmente, depois de longa espera, viu o amigo saindo em sua direo. Seu semblante 
era de apreenso e ansiedade. Antes que ela tivesse tempo de formular qualquer raciocnio, percebeu que logo atrs de Jairo vinha Pimentel, o de legado que investigava 
seu desaparecimento. Ela estremeceu e gelou, mas procurou manter a calma e o controle. Jairo aproximou-se devagar, tentando dar-lhe tempo para se preparar. Assim 
que chegou bem perto, Pimentel afirmou:
- Muito bem, moo, ter de prosseguir a viagem sozinho. Seu tio vai ficar de tido. Eu avisei que no se ausentasse da cidade. Tivemos solicitao para acelerar as 
investigaes e Jairo  nossa principal testemunha, desde que sua esposa morreu. Encarregaram-me de interrog-lo outra vez, surgiram novas questes, e ele no estava. 
Assim, tenho ordem de prend-lo; dever permanecer detido at a concluso das investigaes afinal, deu proteo a uma fugitiva assassina e desequilibrada. Ouvindo 
o delegado falar dela daquela maneira, Emilie ameaou responder, dando um passo  frente. Jairo, atento, impediu o que ela estava a ponto de fazer, segurando seu 
brao e dizendo:
- No se preocupe comigo, ficarei bem. Agora v, cuide dos meus negcios enquanto estiver por aqui, pois para isto voc veio: para ajudar-me com meu trabalho. Seu 
pai o enviou para me auxiliar, e o que preciso agora  que cuide dos negcios por mim.
Tirando do bolso a carta que Miguel lhe entregara, colocou-a nas mos de Emilie e acrescentou:
- Aqui est o que fomos buscar em Barcelona. Entregue ao Sandoval; ele est esperando para fecharmos os termos da negociao nos meses de alta produo.
Colocando a carta nas mos de Emilie, Jairo as apertou com muita fora, como a pedir calma e confiana, enquanto depositava nelas os tquetes que acabara de comprar. 
Emilie ficou paralisada vendo Pimentel e Jairo descerem a rua em direo  priso. Teve o impulso de correr at o delegado e se entregar, revelando toda a verdade; 
por outro lado, ainda sentia o aperto das mos de Jairo nas suas como a orient-la a nada fazer. Ela nem se deu conta do tempo que ficou ali parada, indecisa. Mesmo 
depois de Pimentel e Jairo desaparecerem, ela continuou parada, sem ao. S quando sentiu algum toc-la e falar com ela foi que despertou do entorpecimento. Era 
o cocheiro da carruagem que a sacudia pelo brao.
- Moo, moo, a carruagem vai partir, vamos! Moo! 
Emilie acompanhou o homem, que guardou a pequena mala de Jairo e, assim que todos se acomodaram, partiu rumo  vila. Durante a curta viagem, ia angustiada, sem saber 
como deveria agir. Ao descer da carruagem, prximo  encosta, Emilie ficou parada, observando o carro desaparecer. Virou-se ento para a pequena trilha que dava 
na praia, e na casinha de Lucrcia. Sem saber o que fazer, sentou-se sob o cu estrelado e chorou sentida. Depois de algum tempo, enxugou as lgrimas e foi para 
o penhasco, onde meses antes Lucrcia a encontrara. Aproximou-se da beira do penhasco, sentindo o vento gelado que vinha do oceano. Olhou o cu e o mar, bem como 
as fracas luzes ao longe, na pequena vila de pescadores. Sentou-se e ficou a contemplar a beleza do cenrio, oprimida pela situao, entristecida pela priso de 
Jairo e sem saber o que fazer de sua vida. Entretanto, ali, diante da amplido do cu e da beleza majestosa do mar, pensou na grandeza e na sabedoria infinitas de 
Deus. Mais uma vez, tudo o que tinha vivido passou pela sua mente e ela baixou a cabea; entre lgrimas, orou agradecendo ao Criador pela oportunidade da vida e 
pediu que a guiasse, como o fizera at aquele momento. Novas foras brotaram em seu corao e ela se deixou envolver por elas. Levantou-se resoluta e desceu a trilha 
que levava  praia. Ao chegar na cabana, Emilie sorriu, feliz em rever a casa de Lucrcia. Guardou as roupas que estavam na mala de Jairo e se deitou. Ao despertar 
pela manh, sabia exatamente o que deveria fazer. L pelo meio do dia foi para a casa de Sara. Apesar das circunstncias, reencontrar aqueles amigos foi uma grande 
alegria. Contou-lhes, em detalhes, tudo o que se passara em Barcelona, e como o que parecia um desastre se transformava em uma grande oportunidade para o avano 
do Espiritismo. A noite acompanhou a famlia  reunio de estudos, e ali narrou a todos o que presenciara em sua viagem, alm de inform-los sobre a priso de Jairo. 
Ao se despedir dos amigos, Emilie abraou-os com extremado carinho, especialmente Sara. Embora seu corao estivesse dolorido e seu nimo abatido, a sensao de 
cumprimento do dever a mantinha firme para o que pretendia fazer. Voltou para a pequena casa e adormeceu serenamente. Na manh seguinte, antes mesmo que o sol raiasse, 
ela se levantou e com o Novo Testamento nas mos, sentada diante da janela da cozinha, de onde podia ver o mar, leu, chorou e orou, pedindo a Deus proteo e alento 
para o que sabia que deveria fazer. J no tinha dvidas. Enquanto orava, imensa alegria invadiu seu corao deixando-a ainda mais determinada. Quando terminou, 
foi at o lugar onde guardava os livros e pegou O Livro dos Espritos depois foi ao quarto e trocou a cala e a camisa masculinas que usava por um vestido, que pertencera 
a
Lucrcia Ajustou-o ao corpo, pois as medidas eram bem maiores do que as suas. Colocou por fim um pesado casaco e com os dois livros nas mos saiu, trancando a porta. 
Apesar de agasalhada subiu a encosta com dificuldade, sentindo o forte vento a gelar-lhe os ps, as mos, o rosto, o corpo inteiro. Percebeu que o ar parecia mais 
pesado, como se oferecesse resistncia concreta  sua caminhada. O frio se intensificava cada vez mais no outono. E aquela manh estava particularmente glida. Sem 
olhar para trs, Emilie chegou ao topo da encosta e aguardou pela carruagem que por ali passava regularmente e a levaria  provncia; a conduo logo apareceu e 
a jovem partiu. Ao se aproximar da cidade, Emilie tinha o corao descompassado. Reconhecia que no estava procedendo de modo racional, mas era compelida a obedecer 
ao sentimento de dever para com Jairo e Lucrcia. Sabia que as conseqncias de sua deciso eram imprevisveis, e ao mesmo tempo pensava que nada mais a deteria. 
O carro parou e a moa desceu devagar. Caminhando pela rua, notava os olhares curiosos sobre ela; lembrou-se do dia em que fugira do sanatrio e fora alvo de igual 
curiosidade. S que desta vez ajeitou de leve os curtos cabelos e, levantando a cabea com determinao, mirou a rua que a levaria  cadeia e avanou com passos 
firmes.  medida que se acercava do antigo prdio que abrigava a delegacia e a cadeia, mais acelerado batia seu corao. Observava a construo e de alguma forma 
lhe parecia conhec-la, muito embora nunca tivesse posto os ps naquele prdio. Mas a impresso de que j estivera ali crescia; era como se algo em sua mente despertasse 
enquanto caminhava na direo do prdio. Diante da porta de entrada, parou. Sentia como se tivesse vivido tudo aquilo antes e soubesse exatamente o que aconteceria 
a seguir - inclusive quem seria a pessoa que a atenderia. Permanecia envolvida pelas emoes quando, subitamente, a porta se abriu. Pimentel assustou-se ao ver a 
jovem e indagou, reconhecendo-a como o sobrinho de Jairo:
- O que  isso? O que quer aqui? O que faz vestindo essas roupas?
Emilie, como se despertasse, entrou na delegacia dizendo:
- Preciso falar com o senhor, com licena.
Perplexo, Pimentel afastou-se para a jovem passar. Emilie entrou na sala e, olhando para o delegado, pediu:
- Se for possvel, gostaria de ver Jairo, por favor. 
Pimentel a acompanhou calado at a cela. Ao v-la, Jairo levantou-se e disse, em tom de reprovao:
- O que est fazendo aqui? Deveria estar cuidando do pescado!
Emilie sorriu, ignorando a reprimenda:
- Como est, Jairo? Eles esto cuidando bem de voc?
- Estou bem, no tem com que se preocupar; volte e cuide de tudo!
O tom de voz era quase suplicante, porm Emilie estava decidida. Voltando-se para Pimentel, que observava sem nada entender, disse:
- Muito bem, senhor Pimentel, pode soltar Jairo.
- O que est acontecendo aqui? Voc no era mudo? 
Alheia s perguntas de Pimentel, ela prosseguiu:
- Ele no precisa ficar na priso. No tem mais nada para responder, e o senhor nada mais tem a investigar. Aqui estou eu, Emilie de Bourbon e Valena,  sua disposio 
para ser inquirida, contanto que solte Jairo imediatamente.
Surpreso, Pimentel pegou o papel com a fotografia e olhando para a jovem  sua frente, disse:
- Emilie?
- Estou um pouco diferente,  verdade. Minha nova vida as novas responsabilidades e necessidades me obrigaram a mudar algumas coisas, mas sou eu mesma, pode ter 
certeza.
E permanecendo em p, diante de Pimentel, aduziu:
- Solte Jairo e responderei a todas as suas perguntas. E mais, farei tudo o que quiser para cooperar. Poder dizer que foi o senhor que me descobriu e me prendeu.
Pimentel, compreendendo bem que Emilie falava sobre o dinheiro oferecido pela sua captura ou por informaes que levassem at ela, disse, procurando controlar o 
espanto:
- Por que est fazendo isso?
- Lucrcia salvou minha vida. Assim que melhorei, parti. Quando soube de sua morte, retomei preocupada com Jairo e me ofereci para ajud-lo;  o mnimo que devo 
queles que se arriscaram tanto por minha causa e tanto me ensinaram.  meu dever e quero cumpri-lo.
E, estendendo os braos unidos na direo do delegado:
- Aqui estou. Quer algemar-me? Pareo perigosa, senhor?
- No creio ser necessrio algem-la. Quanto a soltar Jairo... Ele deve responder por dar proteo a uma...
- Ele e Lucrcia no sabiam quem eu era; souberam apenas quando o mdico me atendeu; logo em seguida parti sem lhes dar tempo de tomar qualquer atitude. So pessoas 
simples, estrangeiros... Se o soltar, delegado, vou cooperar em tudo. 
Pimentel olhou para a jovem por alguns instantes tentando perscrutar-lhe as intenes. Ela o incentivou:
- No acha que  uma boa troca?
Pimentel refletiu andando pela sala e ento, pegando na gaveta da mesa um molho de chaves, disse:
- Muito bem, vou solt-lo; se voc no cooperar, mando prend-lo novamente.
- Est combinado.
Jairo ouviu a conversa. Pimentel abriu a cela, dizendo:
- Pode ir, por ora est livre, mas insisto que no se ausente da cidade.
Emilie aproximou-se e disse:
- Poderei responder a todas as perguntas, delegado; deixe Jairo sossegado, por favor.
Jairo saiu da cela devagar e perguntou:
- Por que fez isso, Emilie?
Ela, abraando-o carinhosamente, explicou:
- Chegou a hora. No posso me ocultar para sempre e sinto que o momento da verdade  agora. Preciso esclarecer os fatos que me envolveram, para poder prosseguir. 
Enquanto estiver escondida, no saberei exatamente para onde dirigir meus esforos, ao passo que estando livre, com tudo claro, fico preparada para retomar o controle 
de meu prprio destino. Vocs me ajudaram muito, Jairo, e jamais poderei retribuir tanto carinho.
Jairo tinha os olhos marejados. Emilie pediu:
- No se preocupe, querido irmo. A verdade haver de triunfar! Hoje, mais do que nunca, acredito nisso! Deus estar me amparando. Estou pronta, acredite! Ajude-me 
orando por mim, mas no se entristea. D-me a fora de que eu necessito!
Sem poder discordar, Jairo apenas respondeu: 
- Que Deus a abenoe, Emilie!
Abraaram-se mais uma vez, em despedida. Pimentel devolveu a Jairo seus poucos pertences e o acompanhou at a porta. Assim que ele saiu, o delegado se virou para 
Emilie, que entrara na cela que o amigo acabara de desocupar e esperava sentada na cama, serenamente. Ele trancou a porta, dizendo:
- Vou informar a seus familiares que a encontrei. Quando voltar, quero que responda a algumas perguntas.
- Conforme disse, vou cooperar em tudo, delegado. Ainda mal podendo acreditar que tinha Emilie nas mos, Pimentel adentrou o casaro e retomou com um auxiliar, que 
foi at a cela observar a jovem recm-chegada. Depois de dar algumas orientaes, o delegado finalizou:
- No deixe ningum entrar aqui enquanto eu estiver fora, entendeu? Acho que todos ignoram sua presena aqui, e quero que permanea em sigilo at minha volta. S 
ento vamos decidir se aguardamos os familiares ou se tomamos o fato pblico imediatamente. Antes de qualquer coisa quero conversar com a moa, para verificar at 
onde poder me ajudar.
Pimentel saiu e o auxiliar se sentou na cadeira do delegado; em seguida andou de um lado a outro da sala. Sua curiosidade era enorme. Aps alguns momentos de indeciso, 
acercou-se da cela. Emilie lia o Novo Testamento. Quando o viu, levantou a cabea e o encarou. Ele chegou mais perto e por fim, vencido pela curiosidade, perguntou:
-  mesmo a tal Emilie de Bourbon e Valena? No se parece com a foto que est por a.
-  que cortei e tingi os cabelos; por isso estou mudada.
- No  s isso... Seus olhos parecem diferentes dos da foto.
- Pessoalmente tudo fica diferente. 
Ele pensou por instantes e disse:
- Acho que sim. Por que se entregou?
- Quero minha vida de volta e no vou conseguir se continuar fugindo.
- Bom, moa, suponho que saiba o que a espera. 
Emilie refletiu um pouco e sorriu, dizendo:
- Acho que ningum sabe claramente o que encontrar no futuro, por isso estou confiante. Podem aparecer surpresas boas no caminho.
- E ruins tambm! Tem gente importante procurando pela senhora. Esto furiosos!
- Talvez estejam, mas sabero que tudo foi um grande engano e que tive meus motivos ao fugir. Aquele lugar em que me colocaram  terrvel, sabe?
- Eu posso imaginar. Ningum por aqui gosta de passar nem perto. S que a sua fuga fez muita gente se prejudicar. No sei como foi que conseguiu escapar. Ningum 
consegue...
- Para o senhor ver como as coisas muitas vezes acontecem de maneira inesperada.
Balanando a cabea em sinal afirmativo, o jovem afastou-se dizendo:
- ... vamos esperar... vamos ver...
Cerca de uma hora mais tarde, Pimentel voltou satisfeito. Depois de pendurar o chapu e a capa, virou-se para o auxiliar:
- Pronto! Enviei um mensageiro a Barcelona. Creio que amanh, no mais tardar, algum da famlia estar aqui.
Enquanto o rapaz o observava em silncio, Pimentel se ajeitou confortavelmente na cadeira e, pegando papel e pena, escreveu longo texto contando, a seu modo, como 
chegara at a fugitiva. To logo terminou, foi at a cela. Emilie continuava lendo. Ele entregou-lhe o papel, dizendo:
-  dessa forma que quero comunicar sua captura. Emilie leu o texto, depois sorriu ligeiramente e assentiu:
- Por mim, tudo bem. No me importo com o que est afirmando, desde que no prejudique Jairo. Pelo que vejo o est isentando de qualquer responsabilidade. Por mim 
est timo. Sustento sua estria.
- Excelente. Assim, vamos nos dar muito bem. Depois passou a carta ao auxiliar e disse:
- Agora quero que v at o jornal e entregue essas informaes ao Lucas; ele est ansioso por uma grande matria. Amanh os principais jornais da regio j tero 
a notcia. V, depressa!
O assistente de Pimentel saiu e ele ento, abrindo a porta da cela, pediu a Emilie que o acompanhasse a outra sala:
- Venha, preciso muito conversar com voc.
Emilie seguia pouco adiante do delegado. Entraram por um longo corredor e a moa comeou a se sentir angustiada. Quando chegaram a imponente porta de madeira macia, 
escura e pesada, Pimentel disse:
-  aqui.
Emilie, ao invs de abrir a porta, tocou a madeira com uma das mos e falou:
- Que porta pesada! Parece-me to familiar... Meu Deus... que vertigem... acho que vou...
Pimentel segurou-a, batendo de leve em seu rosto, mas ela desmaiou. Ele a carregou para dentro e acomodou-a em uma das grandes cadeiras, igualmente de madeira macia, 
ao redor de uma mesa retangular. Pegou um jarro com gua que havia sobre a mesa e a despejou na cabea de Emilie, que despertou assustada:
- O que... o que houve?
- Parece que desmaiou... Ou foi algum truque? 
Buscando se reequilibrar, Emilie retrucou:
- No h truque algum, foi uma vertigem.
Seguiu-se prolongado silncio. Por fim, Pimentel sentou-se  cabeceira da mesa e disse:
- Muito bem, quero que me conte tudo; tudo o que aconteceu desde que fugiu do sanatrio, detalhe por detalhe.
Emilie ps-se a narrar: suas experincias no sanatrio; o jeito como fugira, andando a esmo pelas estreitas ruelas de Bilbao; depois a tentativa de suicdio... Emocionou-se 
muito ao contar como a voz da filha a salvara, sem se estender em pormenores, temerosa de que o delegado a julgasse insana. Queria estar no controle de si mesma, 
tanto quanto pudesse. Quando ela terminou, aps quase duas horas de relato, Pimentel levantou-se e caminhou de um lado a outro da sala; da retomou, sentou-se e 
ordenou:
- De novo, tudo outra vez, com todos os detalhes.
- Mas acabei de narrar tudo, estou cansada...
- Quero ouvir outra vez.
Emilie respirou profundamente, buscando concentrar-se, e reiniciou a narrativa. Quase ao final da tarde, extenuada, concluiu pela segunda vez sua histria. Pimentel 
pediu que servissem algo para comerem. Enquanto comiam, Emilie examinava atentamente a sala sem janelas, escura e sombria, com uma pequena porta lateral. Afirmou 
ento a Pimentel:
- Este lugar me parece familiar, apesar de nunca o ter visitado antes.
- Dizem que h fantasmas por aqui.
- Por qu? O que tem este lugar?
- No sabe?
- No.
- Era uma antiga priso utilizada pela Igreja durante a Inquisio, para interrogar os acusados. Atrs daquela porta ficava a sala para onde eram levados os mais 
relutantes...
Emilie estremeceu ao compreender que, de algum modo e por alguma razo, ela conhecia muito bem aquele prdio. Terminada a leve refeio, Pimentel disse, saindo da 
mesa:
- Por hoje chega. Creio que a senhora cooperou bastante e agora tenho todas as informaes de que necessito para finalizar meu relatrio e entregar o caso amanh.
Emilie olhou-o sem entender e ele acrescentou:
- O melhor a fazer  descansar. Amanh ser um dia agitado. Creio que seus parentes viro para lev-la. Certamente ser um dia estafante.
Buscando controlar-se, mas sentindo o corao acelerado, Emilie quis saber:
- O senhor me interrogou duas vezes; esteve comigo durante todo o dia. Qual sua concluso? Ainda acha que sou louca ou assassina?
Pimentel olhou-a e disse, srio:
- O que acho ou deixo de achar pouco importa. A famlia de seu marido  muito poderosa e conduz, junto ao poder pblico de Barcelona, extenso processo contra a senhora. 
Minha funo neste caso foi localiz-la, obedecendo a ordens de meus superiores hierrquicos. Sendo assim, minha opinio sequer ser ouvida. Cumpri as ordens e isso 
me ser benfico; infelizmente nada mais posso fazer, mesmo que o deseje.
- Seja como for, eu insisto, delegado. Qual  sua opinio pessoal? O que o senhor percebeu durante o tempo em que esteve comigo?
Sem responder, Pimentel puxou a cadeira de Emilie, ajudando-a a se levantar, acompanhou-a at a pesada porta e a seguiu rumo  cela. Emilie igualmente mantinha-se 
calada, sentindo o corao opresso e inquieto. Depois de fechar a cela quando j passava pela porta que separava a sua sala do corredor onde se alojavam os presos, 
disse:
- No notei na senhora nada que a pudesse desabonar. 
Antes que Emilie tivesse condio de falar qualquer coisa, ele fechou a porta atrs de si. Emilie sentiu-se envolvida por receios e dvidas. Ainda que ouvisse os 
transeuntes na rua,  medida que a noite ia chegando maior se fazia o silncio. Ela, ento, foi quase subjugada pelas pesadas sensaes de medo e angstia. Temia 
pelo dia seguinte, pois sabia que ningum a poderia amparar naquela hora. Seus amigos no teriam poder para livr-la. Estava s. Percebeu que os antigos receios, 
inseguranas e ressentimentos comeavam a querer domin-la. Olhou, ento, para o pequeno exemplar do Novo Testamento que repousava sobre a cama. Pegou-o e abriu-o 
ao acaso. Leu os trs ltimos captulos do Evangelho segundo Lucas, que contavam em pormenores o martrio de Jesus, nas mos de seu prprio povo e nas dos romanos. 
Comovida, leu trecho que relata o momento de Sua morte e a gloriosa ressurreio. Fechou o livro e apertou-o contra o peito, suspirando fundo. Sentiu-se fortalecida 
ao pensar que o Mestre por excelncia, o enviado de Deus, puro e pleno de amor, havia sofrido todo tipo de agresses e violncias. Ele havia sido realmente injustiado 
pela maldade humana. E a despeito de tudo tivera foras para se manter confiante no Pai, suportando o sofrimento at o final e nos legando a maior de todas as lies. 
Se houvesse hesitado, se tivesse permitido que o medo e a dificuldade o impedissem de cumprir a misso para a qual fora enviado, a histria humana seria outra. Pensando 
em Jesus, Emilie se esticou na cama dura e desconfortvel. Ajeitou-se o quanto pde e, recordando as palavras de Pimentel sobre como seria o dia seguinte, procurou 
serenar as emoes e dormir. Aos poucos sua mente se acalmou e ela sentiu pesada sonolncia. Estava quase adormecendo quando ouviu forte rumor de vozes que se aproximavam 
da cela. Eram gargalhadas estrondosas. Emilie sentou-se na cama, ainda meio atordoada. Viu ento figuras apavorantes junto  cela. Eram dois homens e duas mulheres, 
de aparncia aterradora, vestidos com farrapos que lembravam trajes antigos. Um deles balanou a porta, como se quisesse entrar. Emilie, assustada, disse:
- A porta est trancada. Quem so vocs? Exibindo largo e tenebroso sorriso, a criatura zombou:
- No seja idiota! Podemos entrar em quase todos os lugares. Se no conseguimos entrar em sua cela, no importa; continuaremos a nos divertir a meia distncia. J 
que voc, estupidamente, facilitou, concluiremos mais depressa aquilo que comeamos.
- Quem so vocs? O que querem comigo? Horrorizada, Emilie se perguntava como pessoas naquelas condies haviam podido entrar no prdio; contudo, estava incapaz 
de raciocinar com clareza. Uma das mulheres disse:
- Como se sente de novo neste lugar, s que desta vez ocupando o outro lado, o de vtima?  terrvel, no? Injustiada, acusada de algo que no cometeu! V como 
 desesperador? Espero que sofra muito, muito mesmo! Pensa que se tomou melhor por ter se associado a esses que dizem querer ajudar? Voc no  como eles, nem de 
longe. Seus amigos! E muitos deles se julgam melhores do que de fato so. De qualquer forma, no podero ajud-la! No agora! Voc est totalmente  nossa merc! 
Finalmente faremos justia!
Emilie, embora com os pensamentos vindo em avalanche e as emoes descontroladas, acabou por perceber o que acontecia e disse:
- Quem so vocs? Por que querem me destruir? So os espritos que vm me perseguindo h muito tempo, no?
Dessa vez foi a outra entidade feminina que respondeu:
- Ser que enfim nos reconhece? Pensou que se escondendo nessa nova vida, nesse corpo, com esse jeito de boazinha, poderia livrar-se de ns? Sabemos muito bem quem 
voc  e vai pagar pelos crimes que cometeu!
Emilie se calou e, num esforo imenso, pediu mentalmente a Deus que a ajudasse. Depois perguntou:
- O que querem de mim?
- Que pague pelo que fez: cada dor, cada sofrimento que causou, que pague em dobro!
Sem esperar que a mulher terminasse, um dos homens disse:
- Gosta de sua cela? Ela  bem melhor do que os lugares aos quais enviava suas vtimas.
Emilie, em orao, pedia socorro a Deus. As quatro entidades continuavam com provocaes e ameaas, dizendo como a fariam sofrer daquele momento em diante. Lanavam-lhe 
todo tipo de improprios e acusaes, porm ela se mantinha quieta, fitando-os e orando em pensamento. Incomodado com seu silncio, o mais agressivo disse:
- Pois bem, agora prefere calar? No vai implorar por piedade e misericrdia como fizemos?
- S posso dizer-lhe que a justia pertence a Deus. - respondeu Emilie, lembrando-se de algumas experincias que tivera, em seu ncleo de estudos, com espritos 
vingativos.
- Justia! No ouse pronunciar essa palavra. Que entende voc de justia? Pois vai pagar! Voc nunca se livrar de ns!
E virando-se para os outros, chamou:
- Vamos, temos de concluir nossos planos em relao a Cntia.
Ao ouvir o nome da filha Emilie estremeceu e, sem possibilidade de se controlar, disse:
- O que querem com ela?  s uma menina.  a mim que querem destruir, no ?
- Dupla satisfao! Destruindo as duas temos a vingana completa!
- No, por favor! No faam mal a minha filhinha, por favor! 
Vendo-a suplicar, uma das mulheres disse:
- At que enfim implora por piedade, nem que seja pela filha. 
Olhando para o que parecia liderar o grupo, aduziu:
- Acho que devemos incrementar nossos planos para com a menina. Isol-la num convento  pouco... Pensemos em algo mais interessante...
Emilie caiu em pranto, no conseguindo mais se conter. Percebia o olhar de dio e ressentimento naqueles espritos e temeu pela filha, de quem no poderia cuidar. 
Ao v-la em desespero, o lder disse:
- Vamos, temos inmeras providncias a tomar.
E suas imagens se desfizerem diante dos olhos de Emilie, que, sentada na cama, chorava aflita. O guarda que ficava na outra sala entrou espantado:
- O que foi? Sente-se mal?
Emilie se limitou a menear a cabea negativamente. Chorou oculto, na nsia de compreender o que aquelas entidades lhe haviam dito. Sem ter noo exata das razes 
de tal perseguio, sabia, pelos conhecimentos espritas adquiridos, que as tristes criaturas lhe cobravam algo referente ao pretrito. Estava consciente disso e 
sentia a culpa brotar em sua alma. Mal podia encar-los no s pelo estado em que se apresentavam, como por ter contribudo para que chegassem a ele. E apenas repetia 
baixinho:
- Meu Deus, me ajude e me perdoe! Ampare-me nesta hora em que devo passar por esta prova! Sei que no passado agi contra Suas leis perfeitas e por isso agora me encontro 
nesta situao. Proteja-me, eu peo, d-me foras...
Era quase dia quando por fim adormeceu. Mal amanhecera e Filomena j descia a escadaria de mrmore italiano. Andava ansiosa de um lado para outro, sabendo que tinha 
de falar com a me, dar-lhe uma resposta sobre o encontro com Fernando. Ela tentara evitar aquela conversa, mas a me insistia e cobrava uma definio, ameaando-a 
e tambm ao primo. Filomena foi at a cozinha, o que raramente fazia, e disse, spera:
- Sirvam-me j o caf!
Voltou  mesa e sentou-se. Estava exausta e odiava a sobrinha que a colocara naquela situao. Sentia-se igualmente indignada com Emilie por ter se intrometido naquela 
famlia, onde no era bem recebida! Distraiu-se com os prprios receios e nem notou a servial que, postada ao seu lado, dizia:
- Senhora Filomena, o mensageiro. Senhora Filomena... Foi tirada de seus pensamentos pela voz de Isabel, que descia as escadas:
- Pelo amor de Deus, Filomena, acorde! Se queria dormir deveria ter ficado na cama! Olhe o mensageiro!
Filomena se levantou e arrancou a carta das mos do rapaz. Ele disse:
- Vim de Bilbao. Cheguei ontem  noite, com orientao de trazer a carta hoje pela manh.  urgente. Diz respeito  mulher desaparecida.
Quando Filomena ia abrir a carta, a me tirou-a de suas mos e leu. Depois disse, sorrindo:
- Finalmente a acharam, esses incompetentes! Demoraram quase dez meses, e enfim a encontraram!
Olhando para o mensageiro, ordenou:
- Acompanhe-me. Vou escrever a resposta e voc a leva imediatamente. Quer o essa mulher na priso! Desta vez, uma priso de fato, e no um hospcio! 
Foi at a biblioteca e redigiu breve carta, que entregou ao mensageiro. Ao sair, toparam com Ricardo, que ofegante perguntou:
- Ela foi localizada? Isabel respondeu:
- Est na cadeia, em Bilbao. J escrevi uma carta ao delegado dando instrues. Creio que devemos ir com o delegado de Barcelona, responsvel pelo caso; assim evitaremos 
qualquer inconveniente.
E olhando para o mensageiro, disse:
- V depressa! Quero que chegue antes de ns para preparar o caminho. E reforce para esse tal Pimentel que no quero uma palavra na impressa. Se ele se antecipar, 
vai perder a recompensa - da qual, alis, faz tanta questo. Agora v!
O rapaz j ia sair quando Ricardo segurou-o pelo brao e perguntou:
- Como ela est? Est bem? Est doente?
- Eu no a vi, senhor, ningum a viu. O delegado trancou-a na cadeia, e por mais que pedssemos no deixou ningum se aproximar. Disse que a famlia no ia querer.
- Esperto esse Pimentel - disse Filomena.
- V depressa! - insistiu Isabel.
Ricardo, visivelmente alterado, soltou o brao do jovem que num instante se ps a caminho. Depois sentou-se  mesa, desolado. Sentia as foras desaparecerem. A me 
terminou rpido o caf e todos se dirigiram  biblioteca para definir o que fariam. Ricardo, sentado quieto, ouvia a opinio dos demais. Dom Felipe deu seu parecer 
e Isabel foi taxativa:
- Devemos mand-la para uma priso de alta segurana, assim ela no conseguir mais fugir.
Ao que Ricardo interveio:
- Me, ela no cometeu nenhum crime. Est doente! Como mand-la para uma priso comum?
- Ela no matou voc e Cntia por um triz. No vamos comear tudo isso outra vez.
- Aceitei envi-la para o sanatrio porque l poderia ter uma chance. Quanto a tranc-la numa priso comum, no concordo!
- E se ela fugir de novo, Ricardo? O que faremos? E se atacar algum no sanatrio? Poder piorar ainda mais a prpria situao!
- No importa, no concordarei! Ela no  criminosa,  somente uma pessoa desequilibrada!
- Ricardo, talvez sua me tenha razo - disse dom Felipe.
- No, pai, no vou admitir que a prendam como uma assassina qualquer!
- Mas  o que ela ! - interferiu Filomena.
- Fique quieta, Filomena, no se meta em minha vida!
- Voc pensa que  todo-poderoso, no , Ricardo? No sabe nem cuidar de sua vida, de sua famlia!
- Do que est falando?
- Escolheu uma mulher amaldioada para ser sua esposa; tem uma filha que tambm  mentalmente perturbada...
- O que foi que disse?
Filomena ergueu ainda mais o rosto e continuou:
- Isso mesmo que ouviu! Cntia  como a me, tem alucinaes e sofre crises de desequilbrio.  igualmente amaldioada!
- Cale-se, Filomena, voc no sabe o que est dizendo!
- No me calo coisa nenhuma! Voc acha que pode ter tudo o que quer, no ? No segue regras, no acata normas, e no pensa no bem desta famlia. Pois no vai mais 
ser assim! Vamos mand-la para o convento!
Filomena gritava, descontrolada. Ricardo estava a ponto de estape-la, quando Isabel interveio:
- Acalme-se, Filomena, e sente-se. Sei que voc sofre tentando proteger nossa famlia.
E olhando para dom Felipe, disse:
- Bem, senhor meu marido, creio que o seu poder de chefe desta casa est sendo contestado. Prevejo momentos difceis para nossa famlia, se sua autoridade no for 
respeitada.
Dom Felipe, vendo sua posio ameaada diante da esposa, que sabia autoritria e enrgica, disse:
- Eu quero ver quem haver de me desafiar! Sei o que  melhor para todos. Sou responsvel inclusive pelo que acontece ao povo desta cidade. Nossa famlia sempre 
ser referncia de honra e de tradio. Iremos a Bilbao e veremos em que condio se encontra Emilie; dependendo de como estiver, seguir direto para a priso ou 
a enviaremos de volta ao sanatrio, com reforo da segurana. Quanto  menina, quero saber qual a prova de que ela  como a me.
- Foi Fernando quem me disse, papai, que ela tem atitudes estranhas, como a me. Eu mesma presenciei vrios comportamentos esquisitos da menina. Acho que precisa 
de ajuda, e logo!
- Pois bem, ela ir para o convento.
- No, pai, por favor, no faa isso! - gritava Ricardo.
- Vai ser bom para ela, Ricardo. Ficar l por um tempo e avaliaremos sua conduta: se melhorar, poder sair; caso contrrio, servir  Igreja e estar protegida 
do mal que a ronda.
- No, pai, por favor, ela  tudo o que me resta, no faa isso!
Dom Felipe levantou-se e, abrindo a porta da biblioteca sentenciou:
- Isabel, providencie que a menina seja levada ao convento imediatamente.
- No, pai, por favor!
- Cale-se, Ricardo! Voc j nos envergonhou bastante, trazendo inmeros problemas para dentro desta casa! Agora tenha juzo e obedea!
Ricardo, aflito, seguiu a me, na esperana de que ela o ajudasse a demover o pai da idia. Filomena ficou na biblioteca e depois que todos saram foi at a grande 
janela que dava para o jardim e sorriu, satisfeita e aliviada. Para Emilie, extenuada pelas ltimas emoes e pela noite mal dormida, o dia se arrastava. Sentada 
na cama, aguardava ansiosa os fatos que seu retomo haveria de desencadear. Pouco falara com o delegado, que logo pela manh lhe trouxera o jornal, onde se estampava 
a fantstica atuao da polcia de Bilbao ao localiz-la. No final da tarde ele surgiu enfurecido, cela adentro:
- Seus familiares so gente realmente difcil!
- O que houve?
- Ameaam-me de no receber a recompensa.... Sua sogra, foi ela que mandou o mensageiro me avisar... Veja s que sovina. No quer nenhum noticirio! Quer tudo abafado... 
Por qu?
- Acho que desejam preservar o nome da famlia de escndalos...
- Ser? E por que permitiram que sua fotografia, seu nome e especialmente sua fuga tivessem ampla divulgao? Deve haver outra razo para que busquem ocultar seu 
regresso. Devem ter outros planos para voc, Emilie, e acredito que no sejam nada bons. Emilie suspirou:
- Deus  quem sabe, Pimentel! S peo a Ele que me ajude, me d foras para suportar.
Pimentel olhou-a intrigado:
- No est com medo?
- Claro que estou! No obstante, o que posso fazer? Reconheo que tudo que nos acontece  conseqncia de nossos atos. Assim, que Deus me ajude a ser forte e vencer 
as dificuldades que, provavelmente, eu mesma ocasionei.
- Como? O que voc fez?
- No sei ao certo. O que sei  que nossas atitudes mesquinhas, aparentemente sem conseqncias, vo somando ao nosso redor energias densas e atraem pessoas e situaes 
em consonncia com o que projetamos.
- Que teoria complicada  essa? Do que est falando? 
Emilie sustentou seu olhar por alguns instantes; depois, sem vacilar, continuou:
- So muito amplos os novos conhecimentos que esto ao nosso alcance. Isso que lhe disse  apenas um aspecto da viso que os conceitos, as pesquisas e as experincias 
espritas esto trazendo para ns.
Pimentel aproximou-se da cela e baixando o tom de voz, quase num sussurro, inquiriu: 
- Conhece o Espiritismo? J participou de alguma reunio das mesas girantes? J falou com os mortos?
Emilie esboou leve sorriso e disse:
- Essa  a impresso que todos tm: que ser esprita  falar com os mortos; que o Espiritismo  constitudo de sesses mrbidas e as pessoas que a ele se associam 
so supersticiosas e ignorantes. No  nada disso. Trata-se de conceitos baseados em fatos comprovados. A relao com o invisvel se d, sim, acontece o tempo todo; 
e todas as pessoas, acreditem ou no esto em contato com os mortos!
Fazendo o sinal da cruz, Pimentel disse:
- Deus nos livre!
-  verdade, delegado, esto sendo pesquisados e estudados centenas e centenas de casos, no mundo inteiro. Mdiuns que nunca se encontraram, que vivem em pases 
diferentes, recebem mensagens semelhantes tratando de temas complexos, sobre os quais eles mesmos no tm qualquer domnio ou sequer conhecimento.  impressionante! 
E muitos outros fatos esto sendo estudados por pessoas srias - social, intelectual e moralmente.
- No entanto, o que a Igreja pensa dessa religio  terrvel! Diz que  o demnio que se comunica atravs das pessoas.
- E acha que a Igreja poderia dizer outra coisa? Delegado, o Espiritismo busca, em essncia, resgatar os valores cristos, que a prpria Igreja desvirtuou ao longo 
dos sculos. Descortina uma enormidade de explicaes sobre as lutas, as dores e os sofrimentos que fazem parte da vida de todos ns. O maior valor desse novo conjunto 
de ensinamentos est em levar o homem de volta a Deus, de forma raciocinada: no mais pelo medo ou pela imposio, e sim pela vontade consciente.
Pimentel ia fazer outra pergunta, interessado que estava no desenrolar da conversa, mas o auxiliar entrou esbaforido e disse:
- Chegaram! Eles esto aqui, em sua sala.
- Os parentes de Emilie? - perguntou o delegado.
- Eles mesmos.
- Quantos so?
- Acho que cinco. E foi difcil impedir a entrada de curiosos.
- Pois reforce a vigilncia. Quero todos em segurana. 
Olhando para Emilie, perguntou:
- Est preparada?
Ela respirou fundo e inclinou a cabea afirmativamente. Sentia o corao muito acelerado dentro do peito, o ar lhe faltava e quase no conseguia respirar. Ento, 
lembrou-se de Lucrcia, com seu olhar meigo e terno, e sbita serenidade apossou-se dela. Quando o delegado saiu com o auxiliar, ela procurou compor-se o mais que 
pde. Penteou os cabelos curtos, arrumou o vestido e acomodou-se na cama, pedindo foras a Deus. Enquanto orava, divisou as entidades que a haviam abordado na noite 
anterior. Vinham vorazes ao seu encontro, porm algo as impediu de continuar e se conservaram a distncia. Emilie viu uma luz aproximar-se e dentro dela desenhar-se 
o rosto amigo da av, Heloise, que a tranqilizou:
- Tenha f, minha querida, confie. Voc no est nem estar s. As lutas sempre sero rduas.  seu destino. Mas a vitria est em suas mos.
Emilie, sentindo paz e confiana indescritveis, ia responder quando a imagem se desfez diante dela. Pimentel abriu a porta, seguido dos familiares da jovem. O rosto 
de Ricardo foi o primeiro que viu. Depois Isabel, chispando dio em sua direo. Em seguida o sogro e mais duas pessoas que ela no conhecia. Ao v-la, Isabel disse 
logo:
- No  -toa que demoraram a encontr-la. Agora entendo. Est ridiculamente irreconhecvel. Que humilhante!
Emilie permaneceu calada, de corpo ereto e rosto sereno. Ao v-la Ricardo sentiu o corao disparar. Achou-a ainda mais linda com os cabelos escuros e curtos. Conteve 
o mpeto de entrar na cela e abra-la, mantendo aparente frieza. Dom Felipe aproximou-se da grade que os separava, olhou a jovem e virou-se para o delegado, dizendo:
-  ela. Aqui est sua recompensa e uma carta autorizando o delegado de Barcelona, Endo Garcia, a transferi-la.
Sem pegar a recompensa das mos de dom Felipe, o delegado perguntou:
- Para onde ser transferida?
- Para onde acharmos mais adequado. Essa moa j nos deu bastante problema.
Ricardo adiantou-se e, fitando a esposa, disse:
- Vamos lev-la para outro sanatrio, mais perto de Barcelona.  mais seguro e ela ter melhor tratamento. H mdicos competentes que podero ajud-la.
- Compreendo - respondeu o delegado, agora se apossando da vultosa quantia que dom Felipe passava s suas mos.
Emilie continuava quieta, surpreendentemente calma. Ricardo a observava, esperando reao similar  que tivera quando fora levada  fora para o sanatrio. Contudo, 
ela nada dizia e aparentava tranqilidade. Ele estava intrigado. Quando dom Felipe se afastou um pouco, para cuidar dos detalhes burocrticos da transferncia, Ricardo 
achegou-se sutilmente  grade e disse baixinho:
- Voc est bem?
- Estou Ricardo, no se preocupe.
Emilie acompanhava tudo como se estivesse ausente do prprio corpo, como se assistisse a um episdio do qual no fosse a principal personagem. Dom Felipe encerrou 
seus acertos com Pimentel, que abriu a cela para Endo Garcia, delegado de Barcelona que viera com a famlia. Junto estava tambm um mdico, que pretendiam pudesse 
ajud-los, sedando Emilie em caso de necessidade. Endo entrou e algemou a moa, que estendera os braos calmamente. O mdico seguia tudo pelo lado de fora da cela. 
Ao notar a serenidade da nora, Isabel se enfureceu interiormente. Percebia que Emilie estava equilibrada e isso a incomodava ainda mais. Quando o policial a convidou 
a acompanh-lo, a jovem solicitou:
- Por favor, gostaria que o senhor levasse meus livros. Esto ali, na cama.
- Vamos.
Emilie respirou fundo, buscando conservar a serenidade, e os seguiu com passos firmes. Ao sarem do prdio, uma multido aguardava e dela vinham os brados:
- Herege!
- Assassina!
Endo gritou:
- Deixem-nos passar! Abram espao!
O tumulto era grande. Os guardas de Pimentel fizeram um cordo de isolamento, possibilitando a passagem pela multido. Ao se aproximar da carruagem blindada por 
grades de proteo, Emilie avistou rostos amigos: Jairo, Sara, seu marido e filhos, e todos os companheiros do ncleo esprita que freqentava, bem como Miguel, 
todos estavam ali. Vendo-os, emocionou-se profundamente e as lgrimas lhe desceram pela face. Chegou  carruagem e a colocaram para dentro. Rapidamente os cavalos 
foram postos em marcha. Ela ainda pde ver os amigos e reconheceu a voz de Miguel, gritando em meio  multido:
- Emilie, faremos tudo o que pudermos para ajud-la, voc no est sozinha!
Conseguiu sorrir para eles, agradecida pelo gesto de solidariedade e apoio. A carruagem partiu depressa e sumiu na estrada que a levaria de volta a Barcelona. Na 
manso era grande a movimentao dos serviais. O bispo de Barcelona viera pessoalmente informar Cntia de que naquele dia seria levada para o imponente convento 
que ficava alguns quilmetros da cidade. As freiras que a levariam chegaram logo em seguida, e esperavam na biblioteca quando o bispo desceu com a menina, que chorava 
angustiada. Ao ver Filomena ao p da escada, ela gritou:
- Tia Filomena, me ajude! Por favor, no quero ir a lugar nenhum!
- Calma,  para seu prprio bem. Dom Antnio no explicou tudo? Voc vai ficar l por uns tempos, para estudar, preparar-se e ver se tem o chamado de Deus para servir 
 Santa Madre Igreja.  um privilgio!
- Mas eu no quero ser freira, tia!
-  ainda muito jovem para saber o que  melhor para voc. No gosta de ajudar outras pessoas, como faz seu primo Fernando?
- Gosto - assentiu a garota, enxugando as lgrimas.
- Ento poder ajudar as freiras e um dia, quem sabe, at mesmo ter seu prprio orfanato.
Cntia calou-se. Puxada pelas mos do bispo, foi quase arrastada para a biblioteca. Alguns dos servidores mais antigos da casa, que nutriam simpatia por ela, observavam 
penalizados. Filomena foi tambm at a biblioteca e ao entrar fechou a porta. Dom Antnio apresentou Cntia  madre superiora:
- Aqui est a menina. Precisa ser educada com rigor, e cuidadosamente vigiada, para que no venha a ter problemas iguais aos da me.
Cntia ouvia com os olhos cheios de lgrimas e o corao apertado. Queria fugir, correr dali, mas estava presa. A madre superiora passou a mo pela sua cabea enquanto 
garantia:
- No se preocupe, Eminncia, faremos o melhor. Tm sido encaminhadas a ns nos ltimos anos, com problemas semelhantes. Sabemos como conduzir situaes como essa. 
Fique tranqilo. Alm do mais, a famlia merece toda a considerao. 
Pegou ento as mos da menina, que relutava, suplicante:
- No quero ir! No quero ir! Por favor, tia, me ajude!
- J disse que  para o seu bem, Cntia! Voc  impertinente! Todos aqui estamos tentando lhe dar ajuda, e parece que no quer receb-la!
A madre procurou explicar:
- Esses casos so assim mesmo. Quanto mais relutam, mais esto sob as foras malignas, precisando de cuidados! Vamos, irms. Quanto antes partirmos, mais depressa 
essa menina ser socorrida!
E agarrando as mos de Cntia comeou a pux-la em direo  porta da biblioteca. Ela relutava. Enrijeceu o corpo e a madre a levava com dificuldade. O bispo foi 
em seu auxlio e os dois, segurando um em cada mo, arrastaram a menina para fora. Ao sair, Cntia viu o primo, que plido e esttico assistia  cena, sem dizer 
nada. Ela gritou:
- Tio Fernando, me ajude! No quero ir, por favor! Eu no quero! Por favor, me ajude!
Fernando permanecia paralisado, e a menina continuava:
- Faa alguma coisa, tio Fernando, por favor! Eu no quero ir! Eu quero meu pai!
A madre superiora e o bispo, insensveis  resistncia e  aflio da menina, arrastaram-na at a carruagem e a puseram dentro dela, com trs freiras a segur-la. 
Com a situao sob controle, o bispo despediu-se das freiras e retomou  casa. Fernando, na porta, no sabia o que fazer. Dom Antnio dirigiu-se a Filomena:
- Est feito. Diga a dom Felipe e especialmente a dona Isabel que seu pedido foi atendido. A menina receber a proteo de que necessita. Embora esteja nervosa agora, 
haver de se adaptar  disciplina do convento.
Depois de se despedir de Filomena, virou-se para Fernando e disse, estendendo a mo:
- Venha ver-me assim que puder. O Novo Mundo precisa de missionrios!
Fernando beijou-lhe a mo e disse:
- Sim, Eminncia.
O jovem quedou-se mudo  entrada da manso at a carruagem do bispo desaparecer. Sentia-se fraco, desolado. Os gritos de Cntia ecoavam em sua mente e dilaceravam 
seu corao. Filomena estava ao seu lado. Ele, ento, virou-se para ela e perguntou:
- O que foi que aconteceu, Filomena? Como convenceram Ricardo a fazer uma barbaridade dessas?
- Ricardo pouco tem a ver com isso. Foi impotente em impedir minha me de fazer o que era necessrio.
E notando o olhar triste do primo, disse:
- Ela vai ficar bem, Fernando; est assustada, mas ficar bem.
- Voc no compreende, no ? Nada lhe importa alm de voc mesma. No enxerga nada, ningum!
- Ora, Fernando, no  verdade - ela tocava suavemente as mos do primo, que as puxou dizendo:
- Nem a mim voc respeita, no se importa com o que penso nem com o que sinto. Nunca se importou! Voc s pensa em satisfazer suas vontades, exatamente como sua 
me!
- Fernando, est me ofendendo!
- Por que fizeram isso com a menina? Diga!
- Voc sabe muito bem. Eu tinha de tomar alguma atitude, do contrrio ns dois iramos sofrer as conseqncias. E temos muito mais a perder do que ela, que  somente 
uma criana.
- Cntia  uma criana adorvel, sensvel e amorosa. Ela  a filha que eu gostaria de ter tido e no pude. V-la sofrer me entristece e atormenta. No vou admitir!
Filomena encarou o primo com desdm e rebateu:
- E o que acha que pode fazer? Agora que o bispo assumiu diretamente a conduo da questo, o caso fugiu da sua alada. Nada mais lhe resta, a no ser me agradecer 
por poder continuar tranqilo, tendo sua vida e seus planos preservados.
Fernando olhou demoradamente para a prima, depois disse, descendo as escadas:
- Vou pensar em algo. No suporto ver a menina sofrendo assim. No  justo!
- Afinal, o que veio fazer aqui? - perguntou Filomena, ao v-lo sair.
- Saber notcias sobre a me da Cntia, mas isso j no  importante.
- Ela foi encontrada e est a caminho da priso - gritou a prima dessa vez.
Fernando no lhe deu mais ateno. Desceu as escadas e em passos rpidos desapareceu na trilha que levava  parquia. Ao perceber que no respondeu, Filomena entrou 
resmungando:
- Tolo!
Aps a partida de Emilie, seus amigos se reuniram na casa de Sara, onde o ambiente era de preocupao; Jairo, em especial, mostrava-se triste e pensativo. Miguel 
procurou encoraj-lo:
- Vamos, Jairo, o que  isso? Anime-se!
- No compreendo... Essa moa apareceu do nada, pondo minha vida de cabea para baixo; ainda assim, aos poucos fui aceitando, sobretudo porque Lucrcia via algo 
de especial nela e at o ltimo momento de vida me fez prometer que a apoiaria. Eu mesmo comecei a notar a transformao que se operou nela. No h dvida de que 
os princpios espritas tiveram profundo impacto em suas atitudes, de tal maneira que ela se entregou  polcia por minha causa, depois de ter fugido em desespero. 
Contudo, no entendo o significado de tudo isso. Agora Emilie est de volta ao ponto de partida, ou seja, est presa outra vez. O que ser de sua vida daqui por 
diante, Miguel?
Colocando a mo no ombro do amigo, Miguel respondeu:
- Vamos nos empenhar em ajud-la. Contratei um advogado muito competente que a defender. J comeou a estudar o caso e creio que em breve me trar notcias sobre 
a situao no tocante aos aspectos legais. Acima de tudo, porm, precisamos continuar orando e confiando em Deus. E no concordo com voc, Jairo, quando diz que 
ela voltou ao ponto de partida. Ela mudou, est diferente! E isso, por si s, altera toda a situao.
- Ser que no errou ao se entregar? E se essa deciso tiver sido uma precipitao da parte dela?
- No se angustie assim, Jairo. Confiemos em Deus. Lembre-se de nossa mais recente experincia, com a queima de livros! Pensvamos que poderia impedir o crescimento 
do Espiritismo, e veja o que de fato est havendo!
Sara, ento, aproximou-se de Miguel e perguntou:
- O caso continua repercutindo a nosso favor?
- Cada vez mais. Os jornais ainda o noticiam; peridicos da Frana tambm mencionaram o ocorrido. A intolerncia vem sendo combatida e reprovada. Poucos dias depois 
do que aconteceu, em nosso grupo de estudos j dobrara o nmero de interessados em entender melhor do que trata o Espiritismo; tenho contato com outros grupos onde 
o mesmo efeito se verifica. As repercusses so sentidas at na Frana. Nosso amigo livreiro nos disse que recebeu informaes de que tambm l os grupos de estudos 
cresceram, e assegurou que nunca houve tantas encomendas de livros espritas. Parece que todos querem saber o que havia nas obras queimadas. Creio que aqueles que 
se deixaram dominar pela intolerncia no contaram com a curiosidade das pessoas, nem com a divulgao gratuita e em grande escala que teramos a partir do evento. 
Eles nos prestaram um grande servio. Por isso, Jairo, devemos orar por Emilie e esperar pelos acontecimentos. Os enviados de Deus, que nos orientam e auxiliam, 
usam em nosso favor at o mal que supostos inimigos nos desejem fazer. Portanto, aguardemos com confiana em nossos instrutores espirituais. E vamos agir com inteligncia, 
utilizando todos os recursos disponveis para dar conta da parte que nos cabe.
Enlaando o amigo em forte abrao, completou: 
- Anime-se, Jairo, e lembre-se de que ela no est sozinha! Mais aliviado, Jairo sorriu e deixou-se envolver pela ternura dos amigos. 
Miguel permaneceu com eles at o fim do dia, e participou do grupo de estudos naquela noite. Na manh seguinte, partiu para Barcelona com o firme propsito de ajudar 
Emilie. A jovem estava sentada  beira da alta janela, por onde entrava o pouco de claridade que iluminava parcamente o pequeno quarto. Ela se sentia asfixiada, 
oprimida naquele ambiente. A porta se abriu e o mdico que a trouxera entrou, junto com um enfermeiro, perguntando:
- Como passou de ontem?
- Dentro do possvel nestas circunstncias, passei bem - foi a resposta.
- Teve algum tipo de dificuldade para conciliar o sono?
- Muita dificuldade... Por fim, consegui cochilar e descansar um pouco.
- Sente-se fraca ou cansada agora?
- No se preocupe, doutor, estou perfeitamente bem; dentro do possvel, como j disse.  claro que me sinto triste e machucada com tudo o que est acontecendo, mas 
vou superar.
O mdico, com sorriso irnico, concordou:
- Certamente que vai.
Em seguida determinou ao enfermeiro que aplicasse na paciente uma injeo calmante. Ao sair do quarto, informou:
- Seu antigo mdico est aqui e quer v-la.
Emilie no respondeu. Depois que o enfermeiro deixou o quarto, levantou-se, tomou um pouco de gua e voltou a se sentar. No a alimentavam desde que chegara. Emilie 
fitou a marca deixada pela agulha em seu brao e lgrimas se formaram em seus olhos. Ela sabia que outra vez tentariam enfraquec-la, para acentuar seu desequilbrio. 
Sem comida e tomando calmantes, ela ficaria mais e mais amortecida. A porta se abriu novamente e Francisco entrou. Emilie no perdeu a serenidade; sentada  beira 
da janela, saudou:
- Como vai, doutor? No me surpreendo em v-lo. Na realidade j o esperava.
O mdico se colocou bem perto de Emilie, que o olhava com firmeza; acariciou-lhe os cabelos, o rosto, e depois disse, quase sussurrando:
- O que fez com seus lindos cabelos?
- No gosta deles escuros? Eu gostei, acho que me fazem parecer menos frgil.
Afastando-se ligeiramente, ele concordou:
- De fato, parece menos frgil. Vejo que sarou completamente da pneumonia. Voc quase morreu, sabia disso?
- Obrigada por ter cuidado de mim naquela ocasio. Francisco, ento, segurou suas mos e disse:
- Tive saudade, Emilie, muita saudade. Continuo interessado em ajud-la.
Levando as mos de Emilie aos lbios, beijou-as vrias vezes. Depois continuou:
- S insisto que voc precisa cooperar.
- Afinal, Francisco, o que voc quer?
- O mesmo de antes: quero voc.
Emilie se ergueu, caminhou at a mesa, tomou mais um pouco de gua e, voltando-se para o mdico, disse:
- Voc me auxiliou em um momento grave, e serei sempre agradecida, mas nada mudou em meus sentimentos, Francisco. Apesar de tudo, ainda amo meu marido.
O mdico se aproximou de novo, quase encostando seu rosto no dela, e provocou:
- Onde est seu marido agora? J a abandonou uma vez e est repetindo isso. De que adianta sua dedicao a ele? E intil! Ricardo no retribui seu amor...
- No importa, Francisco, meu corao ainda  dele. Embora me sinta realmente magoada com tudo o que houve, continuo tentando compreender as razes de meu marido, 
Emilie se afastou do mdico e voltou para junto da janela. Francisco se irritou, dizendo rispidamente:
- Persiste em relutar, no ? Poderamos desfrutar momentos inesquecveis. Eu a ajudaria nesta clnica, com os mdicos, atenuando as orientaes que eles tm da 
parte de sua famlia. Poderia for-los a aliment-la melhor, a lev-la para tomar sol. Voc vai definhar aqui dentro, Emilie, at morrer. No se iluda, sentindo-se 
forte. Sei que est diferente, contaram-me que est mais controlada e vejo que  verdade. Todavia, no se iluda: essa fora no vai resistir por muito tempo. Em 
breve, sem comida e com a medicao, ficar debilitada. E a, minha querida, no vai adiantar me pedir ajuda. Estou aqui me oferecendo para auxili-la. Se me recusar, 
ser a ltima vez, e no mais serei piedoso.
Emilie ergueu os olhos, fitando-o, e disse intrpida:
- Como j disse, Francisco, serei eternamente grata por ter me assistido. Sem voc talvez no estivesse aqui agora, mas nada tenho a lhe oferecer alm de amizade, 
justamente como antes. Sinto muito.
O mdico olhou para ela com desdm e disse:
- No tanto quanto sentir mais tarde.
Em seguida se levantou e saiu, sem olhar para trs. Emilie deitou-se na cama e, chorando, pediu a Deus que a amparasse, dando-lhe a fora necessria para que fosse 
capaz de suportar tudo o que ainda estava por vir. Na manso, Fernando subiu as escadas a passos rpidos, erguendo levemente a batina para no atrapalhar. Assim 
que entrou, cumprimentou lacnico a prima e a tia e indagou:
- Onde est Ricardo? Preciso falar com ele. 
Foi Filomena quem respondeu:
- Calma, sente-se conosco e tome o desjejum. Papai e Ricardo esto conversando na biblioteca e creio que vo demorar. 
- No, obrigado. Vou aguardar no jardim. 
Filomena segurou o primo, dizendo:
- Acalme-se, Fernando, o que voc tem? 
Isabel se levantou, olhou-o fixamente e disse:
- Sbia sua deciso de nos apoiar com o caso de Cntia; muito inteligente.
E afastou-se sem que o sobrinho pudesse fazer a pergunta que lhe vinha  mente. Ele ento a transferiu para Filomena:
- Do que ela est falando? Eu no apoiei coisa alguma! O que voc aprontou, desta vez?
- Absolutamente nada. Fiz apenas o que  certo. No precisamos prejudicar nossa vida por causa da menina. Ela  muito jovem e, de qualquer modo, acho que a situao 
 temporria. Ricardo no permitir que se tome freira.
Enquanto ela falava, indignado Fernando ouvia vagamente a discusso entre Ricardo e o pai, vinda da biblioteca. O jovem padre andava de um lado para outro, sem dar 
muita ateno  prima. Finalmente Ricardo saiu da biblioteca, abatido. Passou por Fernando e mal o cumprimentou; subiu depressa, sem olhar para os lados. Fernando 
se apressou em entrar na biblioteca para conversar com o tio. Antes que o fizesse, Filomena segurou-lhe o brao com fora e alertou:
- No me contradiga, ou mais tarde se arrepender muito. 
Aturdido pela ameaa, Fernando entrou. O tio estava de sada e, quando o viu, disse:
-  bom que tenha vindo, Fernando. Quero que entregue estes livros a dom Antnio, logo que o vir. Eles estavam com Emilie, na hora em que foi presa. Um deles  um 
Novo Testamento e parece inofensivo. Mas este - ergueu-o e mostrou a capa ao padre -  um dos que foram queimados. Quero que o entregue ao bispo; ele saber o que 
fazer. Alm do mais, parece que as nossas suspeitas sobre Emilie se confirmam. Est mesmo desequilibrada e envolvida com essa seita...
Fernando pegou os livros e ainda tentou deter o tio:
- Preciso falar com o senhor sobre Cntia...
Dom Felipe, entretanto, j passando pela porta da biblioteca, foi taxativo:
- Esse assunto est encerrado nesta casa. Acabei de ter a ltima discusso sobre ele com Ricardo, e no quero mais falar nisso. Agora preciso ir, importantes compromissos 
me aguardam.
Fernando, carregando os livros, saiu da casa aborrecido e voltou para a parquia. L chegando, foi direto para o quarto e se trancou. Sentou-se na cama com a cabea 
entre as mos, angustiado, quase desesperado, por no saber de que maneira defender Cntia. Aturdido, levantou-se e andou de um lado para outro. O Livro dos Espritos 
estava sobre a mesa e o atraa. Procurava afastar a ateno dele e se concentrar no problema que queria resolver. Depois de algum tempo, esgotado, sentou-se outra 
vez na cama, olhou demoradamente para o livro e no se conteve: folheou-o, entre temeroso e curioso. Acabou por abri-lo no incio e, cedendo ao impulso, ps-se a 
ler a introduo. A medida que avanava na leitura, impressionava-se com a lucidez dos pensamentos ali expressos. Passou o dia trancado no quarto. Ao final da tarde, 
o auxiliar dos servios da igreja bateu  porta:
- Padre Fernando, est quase na hora da missa. 
Sobressaltado, ele ergueu a cabea e custou um pouco a responder:
- Estou quase pronto.
Aps celebrar a missa e cumprimentar os fiis, o que fez com muita dificuldade naquele dia, Fernando se trancou novamente no quarto e mergulhou no livro at altas 
horas. Foi s quando percebeu o cantar dos primeiros pssaros que o fechou e se deitou. Sentia-se encantado com o que acabara de ler. Entregou-se  meditao e por 
fim adormeceu. Logo que amanheceu, ele j estava acordado e retomava a leitura. Assim continuou ao longo de quase duas semanas. Dividia se entre o livro, as preocupaes 
sobre o que fazer com a situao de Cntia e a celebrao das missas para as quais estava escalado. Naquele perodo, passou a fugir cada vez mais de suas obrigaes. 
Rezava to-somente as missas que no conseguia transferir para o encarregado da parquia e no aceitou entrar no confessionrio uma nica vez. Na verdade, fugia 
dos fiis. O proco, estranhando o comportamento do rapaz, questionou:
- Afinal, Fernando, o que acontece? Voc est distante meu filho; o que o inquieta?
- Estou preocupado com Cntia.
- Ela est sob o amparo da Igreja e no h melhor lugar para uma jovem com os problemas que ela tem.
- A que problemas se refere, padre?
- Ora, Fernando, a me foi enfim reconduzida ao sanatrio, e no parece estar melhorando. A menina no pode se aproximar dela. Acho que a famlia tomou uma sbia 
deciso.
Fernando suspirou, concluindo que no seria entendido pelo eminente representante da Igreja. Quando fez meno de se afastar, o padre o seguiu e disse:
- Por que fica tanto em seu quarto, meu filho? O que tem voc?
- Estou estudando, padre. Precisamos estudar para melhor servir a Deus, no ?
Desvencilhando-se do padre, Fernando voltou a se trancar no quarto. Estava terminando de ler O Livro dos Espritos e vinha absorvendo o contedo da Doutrina Esprita 
com clareza extraordinria. Tudo nela fazia sentido e lhe trazia a compreenso de muitas coisas que sempre questionara inutilmente em seus estudos teolgicos. Ali, 
naquele livro, as respostas s suas maiores e mais profundas dvidas existenciais pareciam saltar-lhe aos olhos e aliviar seu corao.
Apesar de sentir que novo horizonte se abria ao seu entendimento, Fernando estava ciente de que teria problemas srios a enfrentar. Como poderia aceitar aqueles 
princpios e continuar sendo padre? J no teria cabimento. Percebeu que na verdade jamais tivera: ele nunca desejara ser padre, apenas se sujeitara  presso da 
famlia. Essa e muitas outras reflexes o entretinham naquela manh, quando padre Enrico o chamou para uma conversa.
- Fernando, o bispo quer v-lo ainda hoje.
- Hoje? Mas o que  to urgente?
- Vou adiantar-lhe para que se prepare. Ele tem sua nomeao para a viagem s Amricas e quer v-lo sem demora.
Fernando sentiu o sangue sumir-lhe do rosto e o corao bater descompassado. O proco, percebendo a surpresa do rapaz, tocou em seu ombro de leve, dizendo:
-  melhor se distanciar um pouco daqui, para o seu prprio bem.
Fernando andava apressado pela rua, dirigindo-se  catedral. Trazia o corao pesado e a mente agitada,  procura do caminho certo a trilhar. Sentia-se confuso, 
indeciso: j no podia prosseguir na vida que antes escolhera, porm no sabia o que seria melhor. Diante da imensa catedral, Fernando deteve os passos. Contemplou 
demoradamente a construo majestosa, a cpula que apontava em direo aos cus. Elevou ento os olhos ao firmamento e pela primeira vez pensou em Deus como um ser 
verdadeiro, um pai generoso e bom. Baixou o olhar e observou a enorme cruz da fachada. Mentalizou a imagem de Jesus e seu corao se encheu de ternura; o Mestre 
nazareno nunca lhe parecera to real e to prximo. At pouco tempo atrs, Jesus era para ele algum distante, santo e inatingvel; agora o sentia muito perto e 
percebia que efetivamente o amava. Seus olhos encheram-se de lgrimas e ele considerou que, a despeito de estar ainda perdido e confuso, encontrara Jesus de uma 
nova maneira, e aquele Jesus enchia seu corao de esperana. "Ele  o caminho que devo seguir!" - pensou, afinal. De repente, foi como se tudo se encaixasse em 
sua vida. Ele no conseguia compreender os seus sentimentos, nem sabia ao certo o que faria, e no entanto se descobriu inexplicavelmente confiante. Ergueu os ombros 
e, determinado, entrou na catedral  procura do bispo. Dom Antnio recebeu-o em sua sala:
- Entre e feche a porta, Fernando.
O jovem se ajeitou na cadeira, sentindo desconforto diante da autoridade mxima da Igreja em Barcelona. Dom Antnio terminou o que escrevia, descansou a pena e olhou 
diretamente para Fernando, dizendo:
- Muito bem,  chegada a hora. Acho que no devemos adiar mais sua misso nas Amricas. O novo continente precisa ser evangelizado e temos de faz-lo com o mximo 
empenho.
Estendendo para ele um envelope fechado, continuou:
- Aqui tem as orientaes: a quem dever procurar to logo esteja no Rio de Janeiro e suas primeiras obrigaes e responsabilidades.
Fernando abriu o envelope devagar, leu todas as pginas da carta e, quando acabou, dobrou-as novamente e recolocou-as no envelope. Depois, encarando o bispo, que 
se mantivera calado a observ-lo, pousou o envelope sobre a mesa e disse:
- Dom Antnio, no creio que tenha realmente uma misso a ser desempenhada no Brasil. Sinto que devo continuar aqui e prosseguir com meu trabalho no orfanato.  
l o meu lugar.
- Padre Fernando, acho que no entendeu: a questo no est em discusso. No estou aqui perguntando sua opinio.  uma ordem, e sabe que deve obedec-la.
Fernando se levantou lentamente e respondeu:
- No, dom Antnio, no acho que deva obedec-la. No mais. At hoje fiz tudo aquilo que a Igreja me ordenou. Obedeci a todas as orientaes recebidas, mesmo quando 
delas discordava. Busquei respeitar e defender os interesses da Igreja, crendo que assim defendia os interesses de Deus na terra. Agora percebo que me enganei.
- Do que est falando?
- Vou prosseguir meu caminho, dom Antnio, s que o farei a meu modo.
E retirando a batina que lhe cobria todo o corpo, Fernando a deps na cadeira e declarou:
- A partir de hoje, dom Antnio, no estou mais a servio da Igreja.
- Voc no sabe o que est fazendo, rapaz! Vai negar seus votos?
- Aqueles que fiz  Igreja, sim; no aqueles que fiz a Deus. Vou continuar a servi-lo, encontrando uma outra forma de faz-lo.
- Est cometendo um grave erro. Seus familiares nunca aceitaro! Ningum em sua famlia jamais deixou o compromisso com a Igreja. Voc sofrer as conseqncias de 
seu ato.
-  possvel, dom Antnio.
- Vai arrepender-se. Pegue a carta, recoloque sua batina, e eu me esforarei para esquecer o que ouvi. Vamos, ningum mais escutou, esqueamos toda essa bobagem!
- No posso, dom Antnio, no vou continuar mentindo aos outros e a mim mesmo.
- Mentindo?
- Sim, tudo tem sido mentira: a conduta de minha famlia e minha vocao, que nunca existiu. Alm disso, h certos dogmas da Igreja com os quais no posso mais concordar...
O bispo ergueu-se enfurecido e gritou:
- Pois saia imediatamente! No quero ouvir mais nada! Heresia! Blasfmia! Vergonha! Voc  urna vergonha para sua famlia! Desaparea da minha frente ou no sei 
o que farei com voc! Antema!
Na parquia, padre Enrico esperava por Fernando. Assim que o viu entrar, indagou:
- E ento? Quando pretende partir?
- Hoje mesmo, padre.
- Hoje? Por que to depressa? - e notando que o jovem estava sem a batina... 
- O que aconteceu com sua batina?
Fernando, a caminho do quarto enquanto conversava, respondeu:
- No lugar para onde vou, padre, certamente no vou precisar dela.
- No compreendo. Sei que nas Amricas os sacerdotes tambm usam batina.
Fernando entrou no quarto, sempre seguido pelo proco. Abaixou-se, pegou a mala guardada debaixo da cama e, colocando-a sobre a mesa, comeou a arranjar seus pertences. 
O padre no entendeu, ao ver que Fernando no punha na mala suas batinas, que permaneciam penduradas no armrio.
- O que se passa, Fernando? Est contrariado por ter de partir,  isso?
Ele no levou mais do que vinte minutos para jogar dentro da mala tudo o que possua. Quando terminou, respondeu:
- No, padre, no estou contrariado. Um pouco assustado, mas feliz.
Fechou a mala e, olhando o quarto com carinho, disse:
- Estou pronto, padre. Adeus e obrigado por tudo.
O proco, andando ao lado do rapaz, percebia que algo estava errado, sem, no entanto, imaginar o que seria.
- Adeus? Fernando, por favor, diga-me o que est acontecendo. Voc me assusta!
Alcanaram a porta da parquia e Fernando, carregando a mala, disse:
- Acho que ainda no compreendeu, no  mesmo, padre?
- No.
- Estou deixando a Igreja.
- O qu? Est maluco? No pode fazer isso, voc j fez seus votos e... alm do mais...
- Ningum em minha famlia jamais fez isso antes... Eu sei, padre, eu sei, mas para tudo h uma primeira vez.
- No pode partir assim; venha, sente-se, vamos conversar com calma - e o segurava pelo brao.
- No h mais nada a ser dito. Que Deus o abenoe e ilumine, padre, que Deus ajude a Igreja!
Sem esperar pela resposta, Fernando saiu e desapareceu na trilha que levava ao orfanato. L, deixou a mala no quarto e logo trancou a porta, saindo de novo. Dessa 
vez, procurou uma carruagem que o conduzisse at o centro da cidade. Tinha pressa. Sentia-se quase compelido a agir daquele modo. Ele no compreendia, mas havia 
enorme convico em todos os seus atos. Enquanto a carruagem avanava, ganhando as ruas principais que desembocavam no centro, Fernando se preparava mentalmente 
para o que estava prestes a fazer. Quando a carruagem parou em frente  delegacia, ele saltou e entrou confiante. Aproximou-se do atendente e disse:
- Preciso falar com o responsvel pelo caso de Emilie de Bourbon e Valena. Tenho importantes revelaes a fazer.
- Quem  o senhor? - perguntou o atendente.
- Sou primo do marido de Emilie. Por favor,  urgente! O atendente saiu e em alguns instantes retomou com o delegado Endo Garcia, que o cumprimentou:
- Ol, Fernando, em que posso ajud-lo?
- Tenho algo relevante para contar sobre esse caso, delegado, que com certeza mudar o rumo de suas investigaes e tambm a vida de Emilie... talvez de toda a famlia...
- Pois ento me acompanhe.
- Emilie tem advogado de defesa?
- Sim, um renomado advogado de Tarragona esteve aqui assim que ela chegou e assumiu a defesa.
- Eu gostaria que ele participasse de nossa conversa.
- No vejo necessidade alguma.
- O senhor conhece bem dom Felipe, no conhece? E tambm dona Isabel.
- Sem dvida.
- Ento entender, quando souber de tudo, que  indispensvel a presena de um advogado.
Endo se levantou e caminhou pela sala, em silncio; depois olhou para Fernando, intrigado:
- Mas voc no tem um advogado de sua confiana?
- Prefiro que seja o mesmo que cuida do processo de Emilie.
- Est certo. Vou tentar localiz-lo.
- Temos de agir depressa, delegado, muito depressa, ou no poderei contar o que sei.
As inesperadas afirmaes de Fernando atiavam a curiosidade do delegado:
- E por qu?
- Em breve a notcia se espalhar e estaro atrs de mim.
- Quem vir atrs de voc? Do que est falando?
- Acabei de abandonar os votos religiosos, delegado, e uma das razes est indiretamente ligada ao que tenho para revelar. Percebe a gravidade do que vou dizer?
Encarando Fernando com seriedade, Endo respondeu:
- Sim, e vou mandar buscar o advogado imediatamente. Sei que est hospedado na casa de um tal Miguel.
O delegado saiu e logo retomou.
- Mandei busc-lo. Deve chegar logo.
- Espero que venha depressa.
No demorou muito para que um policial entrasse em companhia de um homem simptico. Feitas as apresentaes, o delegado, Fernando e Vicente, o advogado, se fecharam 
em uma sala. Antes, Endo disse ao policial:
- No quero ser interrompido!
O policial acatou prontamente a determinao. To logo se acomodaram os trs na sala, a portas trancadas, Endo disse:
- Pois bem, pode comear. O que h de to grave a ser revelado sobre esse caso?
- O que tenho a dizer, doutor - disse Fernando, olhando para o advogado -, no poder ser provado facilmente. Mesmo assim, como estou diretamente envolvido, creio 
que meu depoimento tem fora, tem peso. Participei do compl que foi armado para internar Emilie. Foi tudo forjado: ela nunca tentou matar ningum; nunca colocou 
veneno na comida do marido, nem na da filha. Foi tudo uma armao.
Os outros ouviam atentamente, e ento o advogado perguntou:
- O fato  que foi encontrado veneno no prato que seria servido naquela noite.  a prova principal que a acusao tem contra ela.
- No foi ela quem colocou o veneno.
- No?! Ento quem foi?
- Fui eu que coloquei o veneno.
- Voc? Mas...
- Foi tudo minuciosa e longamente arquitetado.
- E por qu? Qual o motivo?
- Emilie nunca foi realmente aceita pela famlia. Apesar disso, no incio a toleravam. S que ela comeou a ter as tais crises, ficando descontrolada e como que 
tomada por uma fora estranha, agindo como se fosse outra pessoa. A a presena dela na famlia tomou-se uma ameaa. Imediatamente foi considerada dominada pelo 
demnio e desequilibrada mental. Tia Isabel estava cansada da nora, queria livrar-se dela de uma vez por todas. Contudo, afora as crises Emilie era uma mulher correta, 
de atitudes impecveis. Quando o problema se agravou, minha tia pediu a Ricardo que a internasse. Ele relutou muito, pois amava a esposa. Porm as alteraes de 
comportamento se repetiam. Minha tia temia que se espalhassem rumores a respeito e que a reputao da famlia fosse maculada. Na verdade tia Isabel no podia tolerar, 
em sua prpria famlia, algum com manifestaes espirituais to duramente condenadas  poca da Inquisio. Alm do mais, por alguma razo que no consigo entender, 
penso que minha tia a temia. Ela continuou insistindo, e Ricardo resistia. Para atender a me e tentar demov-la da idia da internao, Ricardo contratou doutor 
Francisco para cuidar de Emilie; achava que se fosse algum tipo de perturbao nervosa o mdico poderia resolver. A princpio, parecia que ela melhorava, mas depois 
Francisco disse a Ricardo que o problema era muito srio e que ela realmente era uma ameaa para a famlia, em especial para a filha. Emilie comeou a piorar. As 
crises se tomaram mais freqentes, e as atitudes agressivas se intensificaram. Ricardo receava por ela prpria e pela filha; mesmo assim, relutava em afast-la do 
convvio familiar. Percebendo que dificilmente Ricardo cederia, tia Isabel preparou o plano, envolvendo Filomena e doutor Francisco, alm de mim. 
Atento  narrao, o advogado Vicente indagou:
- Por que aceitou participar desse plano srdido, Fernando?
- Na ocasio tambm via em Emilie uma ameaa. O que acontecia com ela me cutucava por dentro. Instintivamente, suspeitava que aquilo poderia ser o indcio de muitas 
coisas que ignorvamos, e queria que desaparecesse da minha frente. Tia Isabel e Filomena me convenceram, sem muito esforo, de que ela significava um perigo para 
a famlia e para a Igreja. Asseguraram que tinha manifestaes semelhantes s das mal afamadas reunies das mesas girantes. Para mim foi o suficiente. Sabia que 
devia proteger a Igreja e esse tal Espiritismo me assustava.
- Foi s por isso que colaborou? 
Fernando pensou um pouco e respondeu:
- Tive motivos pessoais tambm, mas de menor relevncia em minha deciso.
Como Endo Garcia indagasse com o olhar quais eram aqueles motivos, Fernando disse:
- Poderia exp-los, delegado, pois j no tenho nada a esconder; entretanto, em nada iro contribuir para a resoluo do caso. Se houver necessidade eu contarei 
sem problema algum. Agora, acreditem em mim, precisamos agir depressa. 
O delegado ento perguntou:
- Dom Felipe participou igualmente dessa armao?
- No, tio Felipe foi enganado. Estou certo de que ele no sabe de nada. Apesar de severo e apegado s tradies e ao poder, meu tio no  um homem mau. Acredita 
que Emilie seja mentalmente perturbada e que tenha atentado contra a vida do filho e da neta, o que por si s j a transforma em inimiga da famlia.
O delegado caminhou pela sala, pensativo, depois voltou se para Fernando:
- Ento voc no tem como provar o que acaba de relatar...
- No.
- Pense, tente lembrar o que fez naquele dia. O advogado insistiu, por sua vez:
- Se deseja ajudar Emilie precisa recordar alguma coisa concreta que nos ajude a indiciar os verdadeiros responsveis, e da poderemos libert-la.
Fernando baixou a cabea tentando se concentrar, e enfim disse:
- H um detalhe que talvez possa ajudar. Comprei o veneno naquele mesmo dia, pela manh. Pode ser que o dono da mercearia confirme o que estou dizendo. Comprei grande 
quantidade de veneno de rato e ele estranhou, perguntando-me por que precisava de tudo aquilo. Eu disse que a parquia estava infestada dos detestveis roedores, 
mas mesmo assim a quantidade era exagerada. E...
Fernando teve breve hesitao antes de continuar:
- Tenho tambm uma carta em que Filomena me lembra por que no deveria deixar de fazer o que havia combinado com minha tia. Embora seja uma carta muito pessoal, 
creio que eventualmente poder ser til. Gostaria de pedir que seu contedo fosse preservado da imprensa e das demais pessoas que no tenham ligao com o caso.
- timo! - disse o delegado - Acho que j temos algo em que trabalhar.
- Podero soltar Emilie? - perguntou Fernando.
- No  to simples, temos de obter alguma prova. 
E olhando para Fernando com firmeza, perguntou:
- Tem conscincia do que acaba de fazer, Fernando? Sabe que ficar detido a partir de agora e poder ser preso? Por que decidiu se entregar?
- Minhas crenas, meus valores esto diferentes. No posso mais mentir, esconder a verdade ou manipul-la para servir aos meus interesses. Estou consciente de que 
sofrerei as conseqncias; contudo, tenho a atenuante de estar confessando. No , doutor? - perguntou ao advogado.
- Temos um longo caminho a percorrer. Vamos ver o que conseguiremos fazer em seu favor.
- Vou atrs das evidncias o mais rpido possvel.
Sem demora, o delegado saiu para tomar as providncias necessrias. Quando o delegado saiu da sala, Vicente disse:
- Voc foi corajoso, Fernando. Tem certeza do que est fazendo?
- Certeza absoluta. No h mais nada que possa fazer com minha vida antes de resolver os problemas que ajudei a criar.
- Pois bem - prosseguiu o advogado -, ento preciso tomar as minhas providncias tambm. H algum muitssimo preocupado com este caso, que foi quem me contratou.
Fernando ergueu a cabea e perguntou:
- Quem est pagando para defender Emile? Estou curioso.
- Chama-se Miguel, conheo-o desde a infncia. 
Fernando pensou se o nome lhe recordava algum, depois disse:
- No sei de quem se trata. Mas por que ele ajuda Emilie? Que ligao tem com ela?
- Miguel  um bom homem; estende seu auxlio a todos quantos dele necessitam. Sua generosidade tem contribudo para resgatar muitas vidas quase sem esperana.
Despertou em Fernando o desejo de conhecer aquele homem. O advogado continuou:
- Alm do mais, Miguel e Emilie so amigos. Ambos esto ligados ao Espiritismo. Miguel  defensor e militante da nova doutrina e Emilie, mais recentemente, demonstrou 
grande interesse por seus postulados.
Fernando repetiu baixinho, como se falasse consigo mesmo:
- Ento Emilie realmente se interessa pelo assunto. Depois levantou um pouco a voz e perguntou:
- E voc, doutor, o que pensa dessa novidade? 
Fixando os olhos nos de Fernando, o advogado sorriu, enquanto dobrava o casaco no brao, preparando-se para sair: 
- O mesmo que voc, meu jovem.
- Como sabe o que penso?
- Por que abandonou a Igreja, Fernando? Tenho certeza de que no foi somente para aliviar a conscincia. H algo muito mais forte que o moveu, e que voc talvez 
ainda no tenha percebido.
Fernando retribuiu o sorriso e disse:
- Ou talvez eu tenha percebido e ainda no saiba bem o que fazer...
J na porta, Vicente respondeu:
- Pode ser, mas indiscutivelmente deu o primeiro passo na direo certa.
O advogado deixou Fernando s, meditando no que haviam conversado sobre Emilie. "com que ento - pensava ele - tia Isabel no se enganou. Emilie est ligada de alguma 
forma ao Espiritismo...". Ao receber as informaes do advogado, Miguel se entusiasmou. Queria ir imediatamente ver Emilie. O advogado o conteve:
- Acho melhor aguardar um pouco mais. Precisamos comprovar as evidncias que Fernando nos forneceu, para que o delegado tome junto  justia as medidas cabveis.
- Entendo, Vicente, acredito que esse jovem no se colocaria em tal situao se tudo no fosse verdade. Alm disso, sei que Emilie precisa de ajuda. Imagino quanto 
est sofrendo e, sensvel como , quanto deve ter de lutar contra as sugestes negativas com que querem abat-la e desanim-la.
Vicente olhava para ele, sem saber o que responder. Apesar de ser grande admirador dos princpios espritas, no conseguia entender plenamente o que Miguel lhe dizia. 
Por fim, questionou:
- E se voc levar a ela esperana que no se concretizem ou que tardem a se efetivar?
- Sei que se realizaro; de qualquer modo, levarei as informaes como possibilidade e no como fato. A esperana  uma luz que deve sempre brilhar dentro de ns. 
Alm do mais, a Providncia Divina  incansvel, e nunca faltar queles que a Ela se confiarem sinceramente e com humildade. Vicente no disse mais nada. Miguel 
agradeceu ao especialista, pedindo-lhe que o mantivesse a par de todos os acontecimentos e que pleiteasse junto  justia autorizao para visitar a jovem. O advogado 
se despediu e seguiu para o frum da cidade, disposto a resolver a questo da visita. Antes que sasse, Miguel reforara mais uma vez:
- Estarei pronto, aguardando apenas a permisso chegar s minhas mos.
Miguel esperou ansioso. Ao entardecer, da janela da sala contemplava o belo quadro: com o sol se pondo no horizonte, o tom dourado impregnava toda a cidade. Ele 
mal conseguia ficar sentado; andava de um lado para outro, impaciente, at que viu Vicente subindo rpido as escadas. Antecipou-se abrindo a porta:
- Finalmente! Conseguiu?
- Consegui a autorizao e tenho mais notcias boas. Vicente entregou o documento a Miguel:
- Aqui est a autorizao para a visita. O delegado j tem as evidncias que o jovem mencionou. O dono da mercearia onde Fernando comprou o veneno no s confirmou 
a venda, como tem o dia, o horrio, a quantidade adquirida e o nome do comprador, em anotaes minuciosas que controlam o movimento do pequeno negcio. O livro est 
com o delegado e eu tive oportunidade de ver as informaes; so exatamente as que o rapaz forneceu. A carta que ele declarou ter j est igualmente nas mos do 
delegado; tomei cincia de seu contedo.
- No h perigo de o delegado agir em benefcio da famlia, protegendo-a em detrimento de Emilie?
- Desde que voc me contratou, tomei minhas precaues e investiguei antecedentes do delegado. Ele faz parte de uma famlia simples e humilde. Lutou muito para vencer 
em seu trabalho; teve de se defrontar inclusive com figuras eminentes da cidade, que tentaram impedir seu crescimento. Conhece bem seus mtodos e no os aprova, 
apesar de respeitar as autoridades e ser por elas respeitado. No creio que ir  distorcer os fatos para prejudicar Emilie.
- Fico mais tranqilo ao saber disso. 
Levantando-se, Vicente o apressou:
- Agora vamos. A famlia tambm j est ciente do ocorrido e no sabemos o que pode tentar.
A viagem at a clnica durava cerca de uma hora. Assim que a carruagem encostou, os dois saltaram. J na porta, notaram que havia tumulto e muitas pessoas se aglomeravam. 
A custo abriram caminho e ao atingir o porto de entrada ouviram de um dos policiais que cuidavam da segurana do local:
- Ningum pode entrar. As visitas esto suspensas por hoje.
- Temos autorizao judicial para entrar - Vicente tirou do bolso do palet a autorizao e a mostrou.
O policial olhou detidamente o papel, levou-o para dentro e depois retomou, dizendo:
- Somente o advogado.
- Temos permisso para duas pessoas e precisamos v-la!
- Vicente objetou.
Nova verificao e veio a resposta:
- Um de cada vez. Acompanhe-me o primeiro.
Sem titubear, Miguel adiantou-se e o seguiu. Foi levado at o quarto onde a jovem fora colocada. Na porta, dois policiais faziam a vigilncia. Miguel indagou ao 
guarda:
- Por que tantos policiais?
- O delegado pediu que se reforasse a segurana do quarto e da clnica, para impedir qualquer pessoa de v-la, incluindo os familiares. Somente ele prprio, o advogado 
dela e pessoas autorizadas judicialmente podem entrar.
Miguel entrou satisfeito. Encontrou Emilie em estado deplorvel: cabelos em desalinho, o mesmo vestido que usava ao ser presa, roupas sujas e malcheirosas. Deitada 
no canto da cama chorava baixinho, repetindo:
- No vou desistir. No sou criminosa. No sou... 
Miguel se aproximou devagar, chamando-a:
- Emilie! Sou eu, Miguel.
Ao ouvir seu nome Emilie levantou a cabea e, quando o viu, ergueu a voz, chorando:
- Miguel! Que graa dos cus  v-lo, meu amigo!
Ele a aconchegou ao peito com o carinho de um pai, afagou-lhe os cabelos e disse:
- Se Deus permitir, Emilie, seu martrio em breve terminar.
- Como assim? - perguntou ela, afastando-se do ombro amigo.
- Acalme-se, temos muito que conversar. Percebeu o tumulto na clnica hoje?
- Notei que aps o almoo todos se alvoroaram, porm no consigo concentrar-me em nada por mais do que alguns instantes. Logo me sinto confusa. Acorrem-me pensamentos 
destrutivos e acusatrios. Quando me detenho a lhes dar ateno, percebo entidades assustadoras me dizendo que sou assassina e que vou morrer aqui. A orao tem 
sido meu refgio, mas de uns dias para c as foras esto acabando. Sinto-me sem energia para continuar. No sei o que ser de minha vida, Miguel. Tento manter vivo 
dentro de mim tudo o que aprendi nos ltimos meses e, acima de tudo, a f em Deus. Penso sempre em Lucrcia e no muito que ela fez por mim. Quando cheguei aqui me 
sentia mais forte... Agora, tudo est ficando nebuloso. Mal consigo pensar...
- No se aflija, Emilie. Deus est sempre conosco. 
Quase envergonhada por sentir-se to frgil, Emilie disse:
- Eu sei. Deus est sempre conosco, e no entanto somos to fracos que no conseguimos deixar que Ele fale ao nosso corao.
Com os olhos rasos de gua, Emilie ia baixando a cabea, quando Miguel lhe tocou gentilmente o queixo e a consolou:
- No se angustie mais. Deus nunca nos abandona; porm Ele sempre age visando o bem de todos e  por isso que muitas vezes as situaes se resolvem de maneira mais 
lenta, para que as solues tenham maior abrangncia. Precisamos compreender isso, para tomar mais intensa a chama de nossa confiana no Pai.
Vendo que Emilie se acalmara e estava atenta, ele anunciou:
- Se tudo correr bem,  provvel que voc deixe a clnica em breve, livre de todas as acusaes.
- O que me diz, Miguel? Como?
- Fernando, o primo de seu marido, entregou-se hoje  polcia, confessando ter colocado o veneno na comida naquela noite.
- Fernando? Mas... por qu? Ele sempre me pareceu uma pessoa boa...
- No tive a oportunidade de encontr-lo pessoalmente, mas Vicente esteve com ele. Confessou que tudo foi um plano articulado por sua sogra. Isabel contou com a 
ajuda da filha, de Fernando e de um mdico chamado Francisco. 
- Eu pressentia... Miguel, que alvio voc me traz.
- Estar livre deste lugar em breve.
- No, no  s isso. Eu tinha dvidas de que pudesse ter feito aquilo... Ento, sou inocente! Graas a Deus!
Mais uma vez, Emilie abraou Miguel, sem conseguir controlar as lgrimas de alvio que rolavam pela sua face. O amigo esperou que ela se acalmasse e continuou:
- Que Deus a fortalea, Emilie. Siga firme em seus propsitos. Lembre-se sempre de que nada  fruto do acaso. Todas as ocorrncias de nossas vidas, sejam positivas 
ou negativas, so efeitos de nossos atos, presentes ou pretritos, de nossas escolhas - o que significa que para ter boa colheita precisamos cuidar do que semeamos. 
De fato, creio que tudo o que lhe aconteceu proporcionou a voc a oportunidade de se encontrar consigo mesma e com o sentido maior de sua vida. Ser mdium, com o 
seu grau de sensibilidade,  uma ddiva, que tambm implica srio compromisso e responsabilidade de servir a Humanidade. Os mdiuns devem ser mensageiros entre os 
cus e a terra e Deus concede a eles a possibilidade de servir, resgatando pesados dbitos atravs do trabalho incessante pelo bem do prximo.
Mantendo os olhos fixos em Miguel, a jovem perguntou:
- Pelo que est dizendo, tambm acredita que eu tenha um trabalho a ser feito.
- O que voc sente?
- No sei. O que mais quero neste momento  resolver minha situao, sair deste lugar e voltar a ser livre.
- Muito justo seu desejo, Emilie. Entretanto, nunca se esquea de que muitos esto cativos de suas iluses, embora paream livres para a maioria das pessoas, igualmente 
iludidas. S a verdade nos liberta.
E levantando-se, disse:
- Tenho de ir. Vicente precisa orient-la quanto ao seu procedimento de agora em diante. Continuaremos ao seu lado, Emilie.
Ela se esforou por sorrir, ao agradecer:
- Que Deus o abenoe, Miguel. Nunca poderei retribuir todo o bem que me fez. Obrigada, meu amigo.
- Somos apenas mensageiros a servio do Bem. Miguel se despediu e saiu.
Alguns minutos depois, Vicente entrou e demorou-se longo tempo orientando-a e informando-a quanto s prximas aes a serem adotadas. Assim que o advogado saiu e 
Emilie se viu de novo sozinha, ps-se a refletir sobre a imensa misericrdia de Deus e a forma surpreendente como o Pai age muitas vezes. Ela jamais poderia imaginar 
que justamente Fernando seria o instrumento da Espiritualidade para libert-la. Naquela noite no conseguiu conciliar o sono, relembrando cada experincia que vivera, 
desde que a fatalidade se abatera sobre sua vida. Recordou-se de Ricardo e, com muito carinho, de Cntia. Sobretudo, as palavras de Miguel no lhe saam da mente. 
"Afinal - pensava - de que adiantaria enfrentar tanto sofrimento, tantas dificuldades, se no houvesse um objetivo?" O que deveria fazer quando tudo estivesse esclarecido? 
Como, ento, conduziria a prpria vida? No curso da fria madrugada, em diversos momentos a mgoa e o ressentimento por Isabel e Filomena tentaram domin-la; todavia, 
inspirada no exemplo altrusta de Lucrcia, afastava-os conscientemente e buscava emitir apenas amor, evitando pensar naqueles que lhe haviam causado tantas dores. 
A partir daquela noite, Emilie concentrou-se ainda mais em si mesma. Meditava seriamente sobre a continuidade de seu aprendizado e as decises que deveria assumir 
quando deixasse a clnica. A cada dia sua ansiedade aumentava. Vicente deixara claro que sua sada dependeria do andamento das investigaes. A lembrana de Cntia 
a enchia de ternura e mais do que nunca desejava v-la; a saudade da filha a torturava. Seu consolo era a ideia de que muito em breve estaria livre. Trs dias haviam 
se passado desde a visita de Vicente. Naquela madrugada, enquanto seu corpo dormia, Emilie recebeu a visita inesperada da filha, trazida pelas mos de Heloise. Acariciando 
o rosto da me, ela dizia:
- S mais um pouco de pacincia, mame, e tudo se esclarecer. Seja forte e confie em Deus. Lembre-se de que Ele nunca nos abandonou, nem por um s instante.
Banhada em lgrimas, Emilie tentava conversar com a filha, sem conseguir. Sua emoo era enorme. Percebia que a menina, apesar de to jovem, compreendia os acontecimentos 
at melhor do que ela prpria. Sentindo o carinho da filha e o amparo de Heloise, deixou-se envolver pelas suaves e renovadoras energias que de ambas emanavam. Antes 
de se despedirem, quando j amanhecia, Heloise, com ar de extrema seriedade, olhou Emilie nos olhos e disse:
-  hora de irmos. Hoje voc deixar a clnica e estar finalmente livre dessa provao. Agora, Emilie, mais do que nunca, precisa estar atenta para no perder o 
ensejo que recebeu. A Providncia permitiu a dor como instrumento para que voc pudesse chegar  sua verdadeira misso na terra, ao motivo pelo qual aqui est. Sabe 
que tem dbitos a reparar e que tem trabalho assumido perante a Espiritual idade superior, que, sob o comando do Esprito de Verdade, deflagrou as luzes abenoadas 
da Doutrina Esprita por toda parte. No consinta que o sofrimento tenha si do em vo, descuidando-se de cumprir aquilo que veio realizar. Devo alert-la de que, 
se falhar, dever repetir a lio, seja nesta ou em outra encarnao. No deixe que isso acontea, querida. Aproveite e oportunidade, ainda que ela traga muitos 
espinhos aparentes. Lembre-se de que na vida colhemos aquilo que semeamos; portanto, Emilie, semeie sem cessar o bem, o amor, a luz, mesmo que em alguns momentos 
sinta as mos feridas pelos espinhos. No desista jamais; persevere e bem depressa colher a paz do dever cumprido. E por certo novas alegrias a esperam no futuro. 
Cntia estar a seu lado; este consolo voc ter. Tenha f e prossiga confiante.
Mais uma vez Heloise a abraou com ternura. Emilie, fortemente envolvida pela emoo e banhada pelas lgrimas, no tinha condio de dizer nada. Depois foi Cntia 
quem a abraou, assegurando:
- Em breve estaremos juntas novamente.
Logo, ambas desapareceram em meio a luzes suaves, enquanto os primeiros raios do sol entravam pela pequena janela. Emilie despertou com o corao acelerado, tentando 
rememorar o que se passara. Ainda tinha o rosto molhado de lgrimas, e compreendeu que de fato recebera a visita da av e da filha. Embora estivesse cansada e quase 
sem se alimentar por vrios dias, sentiu que novas foras a invadiam. Levantou-se e caminhou lentamente pelo pequeno aposento, procurando reter as palavras da av. 
Desejou ter papel e pena para poder registrar aquele importante recado; como no dispunha desses instrumentos, repetia baixinho o que podia lembrar, para fixar a 
lio na memria. Estava compenetrada no exerccio quando a porta do quarto se abriu e Miguel entrou sorridente.
- Miguel! Que faz aqui to cedo, meu amigo?
- Vim busc-la.
- Buscar-me?
- Sim, Emilie. Voc est livre.
Emilie agarrou-se ao pescoo do amigo:
- No sei o que dizer! Esperei tanto por este momento, Miguel!
De repente, o semblante de Emilie se fez srio. Miguel, estranhando, perguntou:
- Que foi? No est feliz?
- Claro que estou, como poderia no estar? Tenho desejado tanto e por tanto tempo a chegada deste momento!...  que...
Emilie calou-se. Miguel insistiu:
- O que a preocupa? Se estiver com medo de retomar  manso, tranqilize seu corao. Por ora vamos para minha casa, onde poder ficar pelo tempo que quiser. Diante 
dos fatos, e tendo em vista que seu marido vive na casa dos que so acusados pelo que lhe aconteceu, as autoridades entendem que seria inconveniente seu retomo ao 
convvio da famlia, ao menos por enquanto.
- Realmente no gostaria de voltar quela casa to cedo. No  isso que me preocupa.
Emilie sentou-se na cama, respirou fundo, procurando organizar as idias, e depois, erguendo os olhos cor de mel que brilhavam intensamente, disse:
- Alguns meses atrs eu sabia exatamente o que me faltava e o que desejava fazer. Ansiava por recuperar o que me fora tirado. E queria, sobretudo, que aqueles que 
me haviam prejudicado sofressem a dor do cime e da inveja, vendo-me triunfante e feliz. Porm...
Miguel continuava de p, atento.
- Agora tudo o que me parecia essencial no tem mais sentido. Chego a ter medo do que vai ser minha vida de hoje em diante...
Miguel aproximou-se dela, com carinho paternal:
- Emilie, no tema nada. Ao longo de minha vida venho presenciando muitas transformaes e testemunhando a experincia de inmeros amigos que passaram por isso. 
Tenho acompanhado tambm aqueles que jamais se perguntam o que esto fazendo da existncia, se tm ou no uma tarefa a cumprir (certamente com receio da resposta). 
E creia-me, embora os primeiros paream muitas vezes perdidos, sofrendo a angstia da dvida, o temor do desconhecido, percebo que crescem dia a dia. E  medida 
que se desenvolvem ficam mais felizes, mais teis e mais firmes; diria que as ventanias naturais da vida de todos ns os fortalecem cada vez mais. Portanto, tranqilize 
sua alma. Este  um grande momento em sua vida. Aproveite-o!
- Parece que participou da pequena reunio com Heloise e Cntia, esta noite.
- Como?
Emilie sorriu e tocou suavemente as mos do amigo:
- Deixe para l, Miguel.
Compreendendo imediatamente, ele disse a sorrir:
- Muito bem, j que todos estamos em sintonia, melhor mesmo  no duvidar e seguir confiante. Pronta?
Emilie se levantou decidida:
- Vamos, estou pronta.
Miguel abriu a porta gentilmente para a moa, que sem vacilar percorreu o corredor da clnica, diante dos olhares curiosos de funcionrios e de outros internos. 
Quando se aproximavam da porta principal, Emilie notou grande tumulto do lado de fora, que j se iniciava  porta da clnica, com a presena de muitos guardas. Instintivamente 
ela olhou para Miguel, que esclareceu:
- Os policiais so necessrios, pois h imprensa, amigos seus e curiosos sem conta. Tomando a frente, ele segurou com fora sua mo.
- Vamos.
Emilie deixou que Miguel a conduzisse e passou pelos guardas, atingindo a porta principal. Assustou-se ao ver a multido que ocupava a frente do prdio, mas sentiu 
novamente a mo firme de Miguel na sua e prosseguiu, com o corpo ereto e a cabea erguida. Emilie ouvia gritos no meio do povo:
- Voc  que  a assassina! Ns sabemos!
- No faa essa pose de santa, no! Voc mereceu! Sem ligar s ofensas, e sem se deter, caminhou em meio ao cordo formado pelos policiais, procurando focar a ateno 
em Vicente, que os esperava com a porta da carruagem aberta.
Quando Emilie conseguiu alcanar o advogado, sorriu e, auxiliada por ele, subiu na carruagem. Ao entrar, a surpresa: Jairo a aguardava. Sentando-se a seu lado, abraou-o 
como a um pai.
- Jairo, que faz aqui? Nem posso acreditar...
- Que mais poderia fazer? Acompanho de perto o caso, pois meu maior desejo era v-la finalmente livre.
Emilie segurou suas mos, enrugadas e desgastadas pelo tempo e pelas lutas da vida, e beijou-as carinhosamente, dizendo:
- Obrigada por tudo, meu querido amigo, meu irmo. 
Vicente e Miguel juntaram-se a eles e a carruagem seguiu depressa para a casa do ltimo, onde eram esperados. Emilie foi recebida por Sara e sua famlia, bem como 
por outros amigos que fizera na vila. A casa estava cheia e deram a ela uma grande festa de boas-vindas. Emilie viveu com entusiasmo cada minuto daquele dia, ao 
lado das pessoas que aprendera a amar. De quando em quando pensava na filha, mas logo se distraa com algum que requeria sua ateno. Entretanto, mesmo em meio 
 enorme alegria daquela hora, as palavras de Heloise no se afastavam de sua mente. Ela no precisava mais de papel: trazia-as impressas no corao. Na manso o 
tumulto era absoluto. To logo soube que Fernando abandonara a Igreja, Isabel deduziu o que estava por vir. Preocupada em atenuar a tempestade que inevitavelmente 
se abateria sobre eles, tentou envenenar o marido contra o sobrinho, afirmando que por certo perdera o juzo. Na mesma tarde, receberam o comunicado das denncias 
em que ele comprometera a famlia. Filomena, chocada e apavorada com o que lhe poderia acontecer, imaginando seu segredo descoberto, trancou-se no quarto e l ficou 
isolada e deprimida. Foi em vo que a me instou para que abrisse a porta. Profundamente abala da, ora chorava sem controle, ora permanecia fitando o nada. Ouvir 
a voz da me a fazia cair em pranto desesperado; quando Isabel se afastava ela soluava baixinho, o corpo inteiro tremendo. No queria comer nem falar com ningum. 
Isabel, tomada pela raiva, tomou-se ainda mais agressiva. No podia suportar o fato de o sobrinho a ter desafiado daquela maneira. Sem se conformar, pediu ao marido 
providncias para evitar que Emilie fosse libertada. Gritava:
- Precisa fazer alguma coisa, Felipe. Vo soltar aquela desvairada, aquela mulher  perigosa!
- Acalme-se, Isabel. No h muito a fazer diante do que Fernando apresentou  justia.
- Ele est mentindo!
- S que existem provas do que ele diz. Apresentou provas, entende?
- Que provas, Felipe, que provas?
- No sei, no tive acesso a elas.
- Mas precisa ter. Voc deve ter acesso a tudo! Afinal,  uma autoridade nesta cidade ou no ?
Dom Felipe, com severidade, respondeu:
- Isabel, voc est sendo acusada de tentativa de assassinato, alm de muitas outras coisas. Os fatos so bastante graves. Fui orientado pelos nossos advogados a 
ter muita cautela ao conduzir o processo, para no piorar ainda mais a situao.
- No acredito que ir se dobrar a esses impertinentes! Na sua posio, Felipe! Somos donos de metade desta cidade, inclusive das pessoas. A maioria deve algum favor 
 nossa famlia e chegou a hora de cobrar. Faa valer a sua posio! No admita que nos acusem. Faa algo! Seu sobrinho est doente, no v? Qualquer pessoa que 
tem esse procedimento no passa de um doente. No pode lev-lo a srio. Faa o que tem de ser feito!
- Estou fazendo o que  possvel.
- No quero ver aquela mulher solta! No vou admitir isso, Felipe!
- Isabel, a polcia  quem controla o caso. No tenho como dar ordens nesse nvel!
- Ora, Felipe, no seja tolo. Quem est conduzindo o caso?
- O delegado Endo Garcia.
- E qual  o interesse desse homem? Aja rapidamente para que o caso seja abafado.
- No  to simples, Isabel. Garcia  um homem muito srio e competente. Os advogados j conversaram com ele, e est firme no propsito de esclarecer os fatos e 
descobrir toda a verdade.
Os gritos de Isabel se faziam ouvir por toda a manso:
- Ele no  ningum, Felipe! Ningum! Voc sabe quem est acima dele; portanto, faa o que tem de ser feito! Livre-se dele! No interessa como! O que no podemos 
 deixar que essa mulherzinha dementada desmoralize nossa famlia.  isso que est tentando, no percebe?
- Quem est tentando? 
Isabel, enfurecida, continuou:
- Essa moa.  evidente que assim que estiver livre vai querer nos prejudicar, dar o troco, se vingar. Vir retomar o que pensa que  seu de direito. No vou admitir, 
Felipe, em hiptese alguma.
Dom Felipe se levantou, perturbado, e andou at a janela, observando a luz do entardecer que se espalhava pelos jardins da manso. Depois de fundo suspiro, virou-se 
para a mulher e disse:
- Sei muito bem o que voc fez, Isabel, mas no se preocupe, nada lhe acontecer. Sei que odeia a moa e quis fazer tudo o que podia para proteger nossa famlia.
Isabel ergueu ainda mais a cabea e respondeu, altiva:
-  bom que entenda meus motivos. Fao tudo para preservar e defender nossa famlia.
-  claro, Isabel, fique tranqila. Entretanto, no poderemos impedir que a moa seja libertada.
- E por qu?
- No h mais nada contra ela. Alm das provas que incriminam Fernando, eles tm a sua confisso espontnea. Agora v ver sua filha, e procure descansar um pouco.
- Filomena est trancada no quarto. No adianta bater e tentar falar com ela.
- Eu no estou cansada, Felipe. Quero solucionar o problema.
Dom Felipe segurou com toda a fora o brao da esposa, e apertando-o disse:
- Desta vez, s desta vez, dona Isabel, deixe tudo comigo. E v ver sua filha, estou ordenando! Ela no comeu nada o dia todo.
Isabel soltou-se das mos do marido e reclamou:
- Est me machucando, meu marido! Sabe que fao tudo para o bem de nossa famlia.
- Estou falando srio, Isabel: no interfira mais. Seu excesso de zelo est destruindo nossa famlia, no compreende? Garanto que me empenharei ao mximo para que 
o caso seja abafado e resolvido. Mas por ora nada posso fazer para impedir o retomo de Emilie ao convvio da famlia. Ricardo est totalmente incontrolvel e quer 
que a esposa volte.
- Ricardo  um imbecil. Fez uma pssima escolha e pretende persistir no erro. Se ele teimar em receber aquela mulher, que saia desta casa e viva com os prprios 
recursos. No admitirei que a louca ponha os ps aqui novamente. Se ele continuar nos desafiando com esse casamento, quero que voc o deserde, Felipe. J que acha 
que sabe o que faz, que viva s prprias custas. No lhe d mais nada. Nem dinheiro, nem trabalho. E no o ajude com sua influncia. Ele que tente obter as coisas 
com seu esforo, para ver como tudo  mais difcil. Pensa que pode fazer o que quer, mas no  assim.
Exausto pela infrutfera discusso, dom Felipe comentou, em tom irnico:
- Como sempre, querida, voc est sendo muito radical. Se Ricardo quiser viver outra vez com Emilie, darei o suporte de que necessitar. Ele  meu filho e, apesar 
de no concordar em absoluto com sua escolha, no posso admitir que perambule por a como um qualquer. Vou ocup-lo em trabalho que o afaste da cidade e de ns, 
porm me recuso a prejudic-lo. O rapaz tambm j sofreu bastante.
Isabel, subindo as escadas, dizia em tom agressivo:
- Voc me desaponta muito, Felipe! Meu pai jamais concordaria com suas atitudes! Ainda bem que ele no est aqui para testemunhar suas fraquezas.
Dom Felipe no respondeu. Virou-se para a imensa janela, que tinha as cortinas abertas. Isabel subiu as escadas pisando duro. Quando chegou ao topo encontrou Ricardo, 
que descia apressado. Ao cruzar com ela, gritou inconformado:
- Como pde fazer aquilo? Como foi capaz de tal armao?
-  tudo mentira, Ricardo, seu primo est louco.
- No acredito mais em voc!
Isabel deu de ombros e saiu andando, a mostrar seu azedume:
- No me importo mais. Acredite no que quiser. Afinal, seus julgamentos no so mesmo confiveis.
Sem dar resposta, Ricardo desceu as escadas rapidamente. Isabel ainda perguntou:
- Aonde vai com tanta pressa?
- Buscar Cntia. No quero que Emilie encontre a filha num convento.
- No ouse fazer isso, Ricardo. A menina precisa...
- A menina precisa da me, de mais ningum.
- No vo deix-lo entrar no convento.
- Tenho a autorizao de quem realmente manda nesta casa. 
Sem dizer mais nada, Ricardo partiu rpido em direo  pequena vila onde ficava o convento. A noite caa gelada sobre a cidade. Isabel tomou a postar-se  porta 
do quarto de Filomena, insistindo para que a abrisse. A filha se recusava a conversar; estava apavorada. Isabel acabou por desistir. No dia seguinte, tentaram novamente. 
Como a moa no respondia, Isabel deu ordem para arrombarem a porta. Encontraram Filomena sentada com os olhos arregalados, vermelhos de tanto chorar. A me a sacudiu 
com fora, para obrig-la a reagir. No obteve resposta. Agitou-a mais rudemente, sem resultado; ela no dizia nada, em estado de choque. Isabel a sacudia mais e 
mais, sem dar ateno  situao lastimvel da filha:
- Vamos, reaja! Filomena, reaja!
A moa continuava imvel. Dom Felipe acorreu, atrado pela gritaria no quarto, e indignou-se com a cena chocante:
- Pare com isso, Isabel! Pare! Est machucando a menina!
- Ela tem de reagir, Felipe!
- Ela precisa de um mdico, pelo amor de Deus, Isabel! Olhe o seu estado!
Enfurecida, Isabel no parava de gritar com a filha. Com a ajuda dos serviais, dom Felipe finalmente conseguiu afastar a esposa e, aps atendimento mdico, enviou 
a filha para uma clnica de repouso, onde pudesse ser tratada. Na verdade, Filomena nunca mais se recuperaria do desequilbrio que a acometera, permanecendo internada 
na clnica por muitos anos. Embora dom Felipe tivesse relativo controle da situao, proibindo jornais e outros peridicos que estavam sob sua influncia de publicarem 
sequer uma linha relativa ao desfecho do caso de Emilie, foi impotente para conter a lamentvel repercusso e o desgosto que causara. A notcia se espalhara pela 
cidade e todos comentavam o episdio. No obstante Isabel negasse sistematicamente, sustentando que o sobrinho era vtima de alucinaes e mantendo-se intocvel 
em sua posio, o prestgio que usufrua em Barcelona foi a balado e muitos se afastaram dela. A situao comeara a fugir-lhe do controle e aos poucos desmoronava 
o domnio que a famlia exercera por dcadas. Fernando, sentado na beira da cama, via o luar pelas grades da pequena janela. Pensava em Emilie, que bem pouco tempo 
atrs estivera em condio parecida com aquela. Contudo, o momento complicado que vivia no lhe tirava a tranqilidade. Sabia que havia feito o que era correto e 
estava em paz consigo mesmo. Sua nica preocupao era o orfanato, praticamente abandonado. Pensava nas crianas e temia que a parquia no assumisse o controle, 
como deveria; afinal, aquele havia sido um profundo desejo seu, mas pouco apoiado pelo padre. Orava pelas crianas, pedindo que Deus as amparasse. Algumas vezes 
pensava em Filomena e imaginava como ela o estaria odiando, quela altura, por hav-los exposto tanto. Apesar do carinho que ainda nutria por ela, sabia que seria 
muito difcil se aproximarem outra vez. Ele aguardava pacientemente o desenrolar dos fatos, e foi com extrema alegria que recebeu a informao de que Emilie fora 
finalmente libertada. A justia prevalecera. Depois que todos se recolheram, Emilie permaneceu sentada no sof da sala, quase sem acreditar que estava livre. Seu 
corao transbordava de contentamento. No se cansava de relembrar o rosto alegre de Cntia e sentia-se feliz por saber que se avizinhava o momento de rev-la. Aquilo 
que tanto desejara nos ltimos meses estava enfim acontecendo. Pensava em Lucrcia, em quanto ela a havia ajudado, e sentia o corao apertado de saudade da amiga 
e protetora. S aps muito tempo sozinha na sala foi que subiu para o quarto. Enquanto atravessava o longo e escuro corredor, sentiu um medo estranho apoderar-se 
dela. Parecia que um grande perigo a esperava mais adiante. Parou, atenta, tentando capta r qualquer rudo que houvesse na casa. Nada. O silncio era absoluto. Ainda 
assim, seu corao batia descompassado, como a querer sair-lhe pela boca. Pensou e m chamar algum, mas como explicar o medo que sentia? Caminhou devagar, e  medida 
que avanava mais medo sentia, at o pnico se apossar dela. Ao entrar no quarto verificou tudo: abriu armrios e portas, agachou-se e olhou debaixo da cama, pensando 
que pudesse haver algum ali. Depois, foi at a janela e devagar abriu a cortina. No havia ningum. Quando se virou ouviu uma gargalhada ecoar em sua mente. Assustada, 
perguntou:
- Quem est a?
Ela viu, ento, as quatro entidades espirituais que a perseguiam. Um dos homens falou:
- Acha que se livrou de ns? Pensa que agora que se tomou boazinha vamos perdoar tudo o que nos fez? Nunca, est entendendo? O que voc fez no tem perdo!
Emilie, apavorada, porm consciente de tudo o que ocorria, tentou conversar com eles:
- Sou inocente, por isso me libertaram.
- Voc  uma assassina! E ter de pagar pelo que nos fez!
- Mas eu no...
De sbito imagens lhe vinham  mente, cenas se sucediam, e aqueles espritos transfigurados apareciam vestindo outras roupas, em situao completamente diversa. 
Emilie se esforava por entender o sentido daquilo quando uma das mulheres, a que parecia mais jovem, lanou sobre ela toda a sua energia transforma da em dio e 
a empurrou at que casse. Vendo-a no cho, aproximou-se com uma faca na mo e sentenciou:
- Voc tem de pagar, vamos persegui-la onde quer que se encontre e acabaremos com sua alegria. No importa quantas vezes se levante, ns a faremos cair outra vez.
Emilie, sem saber o que fazer, acuada no canto do cho do quarto, gritou em desespero. Em alguns segundos, surgiram Miguel e os que estavam mais perto daquele quarto. 
Quando Miguel entrou, ela gemia de dor no antebrao direito.
- O que houve, Emilie?
- Graas a Deus vocs apareceram. Eles se foram, mas meu brao est machucado.
- Emilie, o que aconteceu? - perguntou Sara, ajudando a amiga a se sentar na cama.
- Entidades que h muito me perseguem se mostraram outra vez. Querem me destruir e fizeram ameaas terrveis. Machucaram-me com uma faca. Isso pode acontecer, Miguel, 
ou estou enlouquecendo?
- Creio que seja possvel. Quando o sentimento (seja de dio ou de amor)  muito intenso, atravessa a barreira vibratria e afeta o campo material.  raro, mas no 
impossvel.
- Acho que nunca senti tanto medo em minha vida... Emilie chorava baixinho, ainda assustada. Miguel, Sara e outros amigos a envolveram em prolongada prece, buscando 
acalmar suas emoes e fortalecer sua f. Sara se ofereceu para dormir com a amiga, que agradeceu:
- Vou aceitar de bom grado, Sara. Gostaria muito que ficasse comigo esta noite.
Passado algum tempo o silncio voltou  casa. Emilie, entretanto, no conseguia conciliar o sono; repetidamente revia as figuras aterradoras das entidades e remexia 
na memria buscando descobrir de onde conhecia aqueles rostos. Na manh seguinte, bem cedo, Emilie estava na sala quando Miguel desceu para o desjejum.
- Acordada to cedo? Conseguiu descansar?
- No muito, Miguel. Gostaria de conversar com voc.
- Claro! J tomou seu caf? 
- J, obrigada. Espero na sala.
No demorou muito e Miguel retomou, atencioso.
- Como se sente, Emilie?
- Assustada. Feliz por estar finalmente livre, mas com medo do futuro; e depois do que houve ontem  noite, muitas dvidas acorrem  minha mente. Estou confusa e 
angustiada.  como se tivesse a conscincia de que sempre haver alguma coisa a me infelicitar!
Miguel se levantou silencioso, foi at a sala de jantar, onde Sara terminar a o desjejum, e pediu que ela os acompanhasse para uma conversa no jardim de inverno. 
Acomodaram-se entre as folhagens fartas e, assumindo tom grave, Miguel comeou:
- Emilie, precisa ter noo de algumas questes delicadas para tomar sua deciso.
- Continue, por favor.
- Voc foi agraciada pela misericrdia divina com uma mediunidade muito ampla: clarividncia, psicografia, clariaudincia... Analisando as dificuldades que enfrentou 
at agora, conclumos que provavelmente elas so provas pelas quais voc precisava passar.
- Concordo com voc, Miguel. J pensei muito sobre isso.
- Pois bem. O que pretende fazer daqui para frente? Perdoe-me por perguntar, mas  fundamental para que possamos conversar.
- Quero trabalhar por essa doutrina que tanto me beneficiou, Miguel. Somente pelo estudo dos princpios espritas pude comear a compreender minha situao e o real 
motivo das perturbaes que sofria. Sei que sou mdium e que devo utilizar minha sensibilidade em favor dos necessitados de ajuda. Quero continuar a aprender e prosseguir 
no caminho que encontrei.
- Fico feliz por ouvir isso e desejo que persevere em sua deciso. No entanto,  preciso que saiba tambm que os mdiuns, em sua grande maioria, so espritos comprometidos 
com as leis divinas, que reencarnam com a responsabilidade de usar os dons que receberam como contribuio para o progresso da Humanidade. E quando conseguem faz-lo 
com xito, encontram o prprio progresso, resgatando dvidas e dando um passo adiante na jornada evolutiva. 
Emilie ouvia com ateno. Sara permanecia calada. Miguel prosseguiu:
- O que aconteceu ontem, Emilie, e aquilo que atravs de nossa sensibilidade j havamos percebido indicam que existem pesadas dvidas a serem resgatadas.
- Tentei recordar quem so aquelas entidades, de onde as conheo. Enquanto estavam diante de mim, muitas imagens me vieram  mente e sei que faziam parte delas. 
Todavia, nada ficou suficientemente claro.
- No faa esforo para se lembrar do passado, Emilie. Muitas vezes ele  doloroso demais para ns. Aproveitemos a bno do esquecimento, conscientes de que somos 
imperfeitos, com pesados fardos sobre nossos ombros. No gaste sua energia tentando recordar, use-a em servio ao prximo.
Emilie balanou a cabea, em sinal de que estava assimilando as ponderaes do amigo. Ele continuou:
- H muito trabalho a ser feito. Embora a consoladora Doutrina Esprita comece a se propagar pelo mundo, h muito a ser feito para que seus princpios se tomem efetivamente 
conhecidos. A oposio  ferrenha e as mentiras espalhadas tambm se avolumam. A divulgao dos verdadeiros preceitos espritas carece ser intensificada em toda 
parte.
- Gostaria muito de contribuir, Miguel.
- E ter oportunidade de faz-lo. Repito: h muito trabalho. Por exemplo, precisamos de algum que colabore na traduo das revistas espritas, bem como de outras 
obras, do francs para o espanhol. E isso tem de ser feito por algum que conhea a lngua e tambm os princpios doutrinrios, de modo a se preservar a fidelidade 
do contedo. Alm disso, os ncleos espritas esto sendo procurados por nmero crescente de pessoas, o que implica a necessidade de mais trabalhadores conscientes 
e preparados, inclusive mdiuns.
- Sinto-me preparada. Quero trabalhar, Miguel.
- Emilie, no creia que ser fcil. Temos em nossa prpria experincia e na de muitos amigos a demonstrao de que a dor  companheira daqueles que se propem atuar 
nas fileiras espritas.
- A dor?
- No falo somente da dor fsica - alis, a mais fcil de ser cuidada. Refiro-me sobretudo  dor moral, s difceis escolhas que tm de fazer os que querem servir 
a Deus com sinceridade e dedicao. Vivemos tempos em que se d primazia ao prazer fsico e ao bem-estar material. O homem busca a satisfao dos seus desejos e 
a dor no faz parte de seu repertrio. Entretanto,  ela que nos faz crescer, sair da acomodao, galgar degraus na caminhada evolutiva. Infelizmente, a grande maioria 
de ns ainda precisa da dor para crescer - em particular os mdiuns, que enfrentam inimigos do passado, alm das resistncias do presente, oriundas de suas prprias 
imperfeies.
Miguel fez uma pausa, dando tempo para que Emilie absorvesse as explicaes. Ela se levantou e caminhou em silncio at um dos vasos com farta folhagem. Tirou duas 
ou trs folhas secas e depois se virou para Miguel, perguntando:
- Ento  muito difcil ser mdium?
- Realmente , Emilie. Neste momento muitos esto encantados com a possibilidade de intermediar a comunicao entre os dois planos da vida. Acham estimulante possuir 
essa capacidade, antes considerada sobrenatural. Contudo, boa parte deles rapidamente se perde e confunde em seu papel, agindo segundo velhos hbitos e buscando 
nas atividades medinicas a satisfao dos prprios interesses, ainda que camuflados por intenes aparentemente nobres. Ser mdium com Jesus  estar a servio da 
Espiritualidade superior, sem vaidade, compreendendo que a submisso  vontade de Deus  que deve prevalecer sempre.
Emilie voltou para junto dos amigos e indagou:
- Acha que no vou conseguir, Miguel? No terei fora suficiente?
- Voc pode triunfar em suas responsabilidades, Emilie. Deus no lhe confiaria os compromissos desta encarnao se no fosse capaz de dar conta deles.
- Ento, o que devo fazer?
- No existe uma frmula. Todavia, se colocar os preceitos da Doutrina Esprita acima de seus interesses pessoais, se nunca a desvirtuar e, sobretudo, se tentar 
sinceramente aplicar na prtica de sua vida diria os ensinos de Jesus, especialmente a humildade e o amor, com certeza estar no caminho. 
Emilie se calou. Contemplando o cu azul atravs das amplas vidraas do jardim de inverno, deixou que as lgrimas rolassem pelo seu rosto. Sara segurou-lhe as mos 
e disse:
- Voc no estar sozinha. Muitos so os que nos apoiam, tanto aqui como no plano espiritual.
- Eu sei, Sara. As ltimas circunstncias da minha vida so uma prova do auxlio constante que recebemos. Sei que temos proteo, no  isso que temo.
- Ento o que ?
Emilie ergueu os olhos midos para Miguel e Sara e confessou:
- Temo a mim mesma.
Miguel tocou de leve suas mos e disse:
- Esse  o desafio de todos ns, Emilie.
Durante todo o dia Emilie esteve amorosamente envolvida em carinho e ateno dos amigos. No final da tarde, recebeu o aviso de que Ricardo aguardava na entrada, 
pedindo para v-la. Ao ouvir o nome do marido, Emilie ficou aturdida. Sentiu uma angstia antiga, sua velha conhecida. O medo apoderou-se dela.
- O que vou fazer? No sei o que dizer. Esperei por este momento e agora no sei como agir. Antes queria que Ricardo sofresse dor igual  que amarguei, quando acreditou 
em mentiras a meu respeito. Estava magoada e ofendida por no me haver compreendido. Mas, diante de tudo o que aprendi, como continuar desejando a mesma coisa?
Miguel se levantou e estendeu-lhe o brao:
- Confie na Providncia que tem guiado os seus passos at aqui e ponha em prtica o que tem aprendido, Emilie. Voc precisa enfrentar seu destino.
Emilie esboou ligeiro sorriso, e ainda com passos inseguros acompanhou Miguel at o hall, onde Ricardo se encontrava a esper-la. Assim que o viu ficou com as pernas 
bambas, e quase no continha a emoo. Queria abraar o marido, beij-lo, refugiar-se confortavelmente em seus braos, como costumava fazer no passado, mas sentia 
que algo indefinido os distanciava. Ao v-la, profundamente comovido, Ricardo antecipou-se e, abraando-a com carinho, balbuciou:
- Emilie, Emilie...
No pde prosseguir. A emoo era tanta que embargava sua voz. Fazia o possvel para conter as lgrimas. Emilie deixou-se envolver pelo terno abrao enquanto Miguel 
se afastou, deixando-os a ss. Sem pensar, Emilie deixou o corao falar mais alto:
- Senti saudade.
- Eu nem posso contar o quanto sofria sua falta, Emilie. Contudo, sinto-me tambm envergonhado pelo que permiti que lhe fizessem, querida. Perdoe-me, por favor; 
fui injusto, confiando mais nos outros do que em voc.
- No vamos falar disso agora, Ricardo.
- Como posso calar sobre o que aconteceu? Desde que soube da verdade, tenho me torturado a cada segundo. Admiti que voc fosse acusada, envolvida em uma trama srdida. 
No percebi, querida, no percebi.
- Como poderia, Ricardo? Todas as evidncias estavam contra mim...
- Mas eu deveria ter imaginado...
- Como? Minhas crises estavam cada vez mais freqentes. Voc sabe que at eu tive dvidas?
- Dvidas?
- Sim, antes de ter compreenso total do que se passava comigo, do que significavam aquelas atitudes anormais, julgava estar perdendo o juzo e sem controle sobre 
mim mesma. Como saber o que poderia ter feito em tais circunstncias?
- Vamos esquecer, querida, por favor. Vamos recomear nossa vida. Cntia a espera ansiosa.
Ao ouvir o nome da filha, o rosto de Emilie iluminou-se.
- Como ela est, Ricardo?
- Agora est bem. Depois que soube que em breve se encontraria com voc, a alegria voltou ao seu coraozinho. Ela sofreu demais, Emilie, nem pode imaginar quanto. 
Falava em voc todos os dias e sei que o maior desejo dela era v-la outra vez.
- Imagino como deve ter sido difcil para nossa pequenina ter de enfrentar uma situao to amarga.
- Foi difcil e sei que ela amadureceu bastante nesse perodo; tanto que s vezes me surpreende com uma viso da vida muito alm de sua idade.
- Ela sempre foi muito inteligente e sensvel.
-  verdade, sempre nos surpreendeu com suas observaes aguadas da realidade.
- Quando poderei v-la, Ricardo?
- Imediatamente. Ela nos aguarda no hotel.
- No hotel?
Segurando as mos da esposa com firmeza, Ricardo pediu:
- Emilie, gostaria que viesse comigo j. Vamos nos instalar em um hotel, apenas por uns dias.
- Por que um hotel?
- Tenho vivido na casa de meus pais, desde que voc foi levada. Nossa casa ficou fechada por alguns meses, depois decidi vend-la. Ela me trazia muitas recordaes 
e no pude continuar vivendo l. Agora que tudo est esclarecido, quero comprar uma casa nova, para comearmos tudo outra vez.
Apertando as mos da esposa entre as suas e levando-as aos lbios, ele acrescentou:
- Vamos esquecer todo o mal que nos aconteceu e partir para uma nova vida. Tnhamos tantos planos, tantos sonhos... Vamos recomear, s que longe da minha famlia. 
Voc estava com a razo ao ter reservas em relao a eles. Devia t-la escutado e ficado em Paris. Teramos evitado todo esse sofrimento...
Emilie fitou o marido com olhar melanclico:
- Ricardo, Ricardo...
- O que foi? No pode me perdoar? Por favor, perdoe-me e esqueamos tudo. Quero voc de volta, Emilie.
- No  isso, Ricardo. No incio fiquei muito triste com voc, devo confessar. Mas depois de tudo o que vivi e aprendi, no posso guardar mgoa ou ressentimento, 
nem mesmo de sua me.
- Minha me agiu de maneira inaceitvel. Ela no podia, no tinha o direito de manipular as pessoas para obter seus desejos. Isso  detestvel.  inadmissvel. Eu 
no posso perdo-la!
- Concordo que a conduta de dona Isabel  absolutamente reprovvel. E talvez tenha dificuldade em ficar frente a frente com ela; porm no devo e no vou odi-la. 
A bem da verdade, no fundo, sua me me fez um grande favor.
- Agora voc me assusta. Est estranha...
Ricardo se afastou um pouco e olhou-a detidamente. Emilie sorriu e disse:
- Mudei os cabelos, no percebeu?
- Percebi que estava muito diferente. Ficou bem com essa cor, e o corte tambm me agradou. - Ricardo sorriu, acariciando os cabelos de Emilie - No entanto, h algo 
mais em voc que est diferente.
Emilie se levantou e caminhou em silncio at a porta que dava para o jardim de inverno. Depois voltou-se para o marido:
- Muita coisa mudou desde que nos vimos pela ltima vez, Ricardo. Passei por experincias marcantes desde ento.
- Eu sei, querida, foi tudo muito intenso.
- Intenso demais, Ricardo, muito alm do que qualquer um pudesse supor. Na verdade, os acontecimentos dos ltimos meses transformaram minha vida e a maneira como 
a enxergava. Eu mudei, Ricardo. Passei a entender melhor o que se passava comigo. Aprendi a perceber melhor as pessoas que esto minha volta e reconhecer-lhes as 
necessidades e os sentimentos. No  mais possvel, para mim, ignorar certas realidades.
- Que est falando, Emilie?
Ela olhava o marido com ternura. Estava indecisa: continuava ou aguardava outro momento? Disse apenas:
- Acho que devemos conversar um pouco mais antes de eu ir com voc para o hotel. Precisa saber tudo o que se passou comigo...
Ricardo colocou o dedo em seus lbios, impedindo-a de prosseguir.
- No importa o que tenha ocorrido com voc, o quanto tenha mudado, suas experincias, nada me importa. Cntia precisa de voc, e quero que venha comigo agora mesmo. 
Mais tarde conversaremos sobre o que quiser...  Depois, Emilie. Se voc me perdoa, como disse, e se no guarda ressentimento de minha me - o que me surpreende, 
pois eu prprio sinto muita raiva pelo que ela nos fez sofrer -, tanto melhor. Vamos passar uma borracha no que aconteceu e recuperar o tempo perdido.
Emile sorriu e tocou com suavidade o rosto de Ricardo:
- Tambm quero seguir com minha vida, mas no posso apagar o passado como voc sugere. Na verdade, o passado me ensinou multo e terei de record-lo por muito tempo.
- Ento relembre o aprendizado, no os fatos dolorosos. Agora, Emilie, pegue suas coisas e vamos. Cntia nos espera.
Sobrepondo-se  indeciso, a expectativa de rever a filha a fazia esquecer de tudo o mais. Por fim, disse:
- Ainda acho que deveramos conversar uma pouco mais antes...
- No quero ficar longe de voc nem mais um minuto. Emilie, por favor, pegue as suas coisas e vamos embora.
- Calma, Ricardo, preciso falar com Miguel e com outros amigos que vieram de longe para celebrar comigo a reconquista da liberdade. No posso simplesmente deix-los 
assim.
Ricardo calou-se, contrariado. Depois, esforou-se para dizer, com meio sorriso nos lbios:
- De quanto tempo precisa? Dez minutos, trinta minutos? Estarei no carro.
Diante da insistncia dele, Emilie aquiesceu, puxando-o pela mo:
- No precisa esperar no carro. Quero que conhea Miguel, Sara e todos os meus amigos.
Um tanto constrangido, Ricardo deixou-se conduzir por Emilie, que o apresentou a Miguel e aos outros. Depois de curta conversa ele se despediu, dizendo  esposa 
que a aguardaria na carruagem. Emilie despediu-se dos amigos com melancolia. Sentia-se dividida entre a famlia e os companheiros de ideal. Por fim, j  porta, 
confidenciou a Miguel:
- Vou com o corao apertado. Estou confusa, no sei como explicar... O fato  que sinto uma grande distncia entre mim e Ricardo. Tenho medo, Miguel.
- No tema, Emilie. No pode se esconder da vida. Precisa desatar cada um dos ns que a amarram ao passado e seguir com intrepidez pelo caminho que a conduz ao futuro 
luminoso. Desate os ns, um a um, com pacincia e perseverana. Estarei sempre aqui, para o que for necessrio. Voc  querida por todos ns. V com Deus, minha 
filha, e confie Nele.
Emilie sorriu, um pouco mais encorajada, beijou-o suavemente na face e disse:
- Obrigada por tudo, Miguel. Deus o abenoe pelo que tem feito por todos os que sofrem. No sei o que seria de mim sem sua ajuda. No sei o que teria sido de Lucrcia 
e Jairo sem seu amparo. Obrigada, Miguel, obrigada...
Ela no pde continuar. Miguel enxugou-lhe as lgrimas e afirmou:
- No tem de me agradecer, Emilie. Estamos todos a servio de nosso Mestre Jesus. E  a Ele que temos tudo a agradecer.
Emilie sorriu. Sabia que seria intil insistir no agradecimento ao amigo e apenas disse:
- Que nosso Mestre, a quem voc tanto ama, o abenoe. 
Desceu as escadas procurando conter o pranto e entrou na carruagem ao lado do marido. O carro partiu e ela ficou a observar a figura de Miguel, que aos poucos sumiu 
de sua viso. Ricardo a abraou e beijou apaixonadamente. Entretanto, apesar da saudade e do carinho que nutria por ele, no conseguia retribuir-lhe na mesma intensidade. 
Sentindo a esposa estranha, afastou-se e fitou-a, dizendo:
- Deve estar muito cansada, no, Emilie? Pobrezinha... tanto sofrimento... tanta luta... - e aconchegou-a ao peito - Venha, querida, descanse. Vou cuidar de voc 
e encontrar um modo de compens-la pelo que sofreu.
Emilie abrigou-se nos braos fortes de Ricardo. Entretanto, estava longe de sentir-se feliz como imaginara. Enquanto a carruagem seguia, Emilie escutava o relato 
do marido acerca dos acontecimentos. Ento pediu-lhe que falasse mais sobre a filha. Ricardo se empolgou falando de Cntia e se emocionou ao mencionar os planos 
que tinha para o futuro da famlia. Omitiu o fato de a menina ter sido enviada ao convento, ressaltando apenas o quanto ela se sentira infeliz com a ausncia da 
me. Emilie procurava acalmar a angstia que lhe tinha na alma dedicando toda a ateno s informaes sobre a filha. Quando a carruagem parou em frente ao hotel, 
ela quase no podia respirar, tal sua ansiedade. Com o corao acelerado e sem poder disfarar a emoo, tinha as mos geladas e trmulas. Ricardo a ajudou a descer 
e foi com esforo que conseguiram atravessar a multido e chegar  porta de entrada. Muitos curiosos, reprteres e populares se aglomeravam diante do prdio. Entre 
a gritaria e o assdio do povo, Emilie e Ricardo alcanaram o saguo. Emilie, com o nmero do quarto onde Cntia a aguardava, no quinto andar, no se deteve um s 
minuto: entregou ao marido a valise que trazia e subiu as escadas correndo. Assim que chegou no corredor do quinto andar, apertou ainda mais o passo. Uma porta se 
abriu e Cntia correu ao encontro da me. As duas se abraaram e no controlaram as lgrimas:
- Eu sabia, me, eu sabia que voc no tinha feito nada...
Emilie no tinha condio de responder. As lgrimas desciam-lhe pela face e, embora tentasse conter-se, a emoo a impedia de dizer  filha tudo o que pensara durante 
aqueles meses de exlio. Cntia continuava:
- Senti tanto sua falta, me...
- Eu sei... Eu tambm senti - por fim Emilie balbuciou. Cntia colocou as mozinhas no rosto da me e, limpando as lgrimas que caam, disse:
- Voc est diferente, me, est mais bonita do que antes... Seu cabelo ficou lindo, escuro e mais curto.
Apertando ainda mais o abrao, Emilie respondeu:
- Voc gostou mesmo, filha?
- Muito!
- Ento vou deix-lo assim para sempre...
- Gosto de voc de qualquer jeito, me - afirmou a menina, sorrindo.
Emilie e Cntia permaneceram sentadas no cho do corredor, sob os olhares pasmados de outros hspedes, at que Ricardo subiu e as levou para o quarto. Os trs passaram 
longo tempo em alegre e descontrada conversao. Cntia queria saber tudo o que acontecera com a me e, a despeito de sentir desconforto com as mincias das experincias 
vividas pela esposa, Ricardo sorria, esforando-se por encarar tudo com naturalidade. Cntia, por sua vez, tambm contou  me o que fizera em sua ausncia, demonstrando 
carinho especial pelas tardes em que visitara o orfanato com Fernando. Emilie se interessou muito pelas atividades da filha no orfanato e lhe garantiu que iriam 
juntas ver as crianas, logo que tudo estivesse mais organizado em suas vidas. J era tarde da noite quando finalmente Cntia adormeceu vencida pelo cansao. Emilie 
colocou-a na cama e a observava com ternura, quando Ricardo, puxando-a pelas mos, pediu:
- Precisamos conversar Emilie.
- No podemos falar amanh, Ricardo? Estou cansada...
- Acho melhor conversarmos enquanto Cintia dorme. 
Emilie se sentou na poltrona e, sorrindo, deixou que ele comeasse:
- Querida, compreendo que passou por experincias estranhas e muito impressionantes. Da mesma forma, entendo que queira dedicar tempo a Cntia e fazer tudo por ela. 
Sei quanto a ama. Porm h coisas que no so adequadas para nossa filha.
- Por exemplo...
- Por exemplo, falar desses fenmenos sobrenaturais que voc viveu.  evidente que estava sob forte presso emocional e tudo pode ter sido fruto desse estado.
Ele fez uma pausa e Emilie permaneceu calada, olhando sria para o marido, que prosseguiu:
- Outra coisa: no gostaria de ver as duas enfiadas no orfanato. Fernando est preso, e  uma fraude. No as quero envolvidas em nada que se relacione com ele. Esse 
homem prejudicou sua vida! Acho at que deveriam fechar esse orfanato e acabar de vez com essa iniciativa ridcula de um padre de mentira!
Emilie fitou o marido, profundamente entristecida. Ouvindo-o, percebia com nitidez o abismo que havia entre eles. Refletiu que Ricardo no poderia compreend-la 
nem aceit-la. Agora pertenciam a mundos diferentes. Quando ele silenciou, ela perguntou:
- E o que  que as crianas rfs tm a ver com os desencontros de Fernando, ou com os problemas que porventura ele tenha criado? Que culpa tem elas? Deveriam ser 
abandonadas por causa do erro de outrem?
Ligeiramente desconcertado, ele disse:
- No, claro que no, acho que devem ser transferidas para outro orfanato, mais estruturado.
- Entendo.
Ele se ajoelhou aos ps da esposa e, segurando suas mos, disse:
- Emilie, minha doce e querida Emilie, vamos apagar tudo o que vivemos nesses ltimos e terrveis meses, vamos esquecer tudo. Comecemos de onde paramos, antes de...
- Antes do que, Ricardo? A que ponto de nossa vida voc gostaria de retroceder?
Ele se levantou, caminhou at a janela e, virando-se, falou:
- Quero ser feliz com voc, Emilie. Fizemos tantos planos... Tivemos tantos sonhos juntos... Quero que eles se realizem, s isso.
Emilie insistiu:
- Diga-me, Ricardo, a que ponto gostaria de retomar?
- Quando nos conhecemos tudo prometia ser maravilhoso.
- E foi, Ricardo. Mas no podemos interromper a vida. Ela  dinmica e se renova todos os dias. Hoje j no somos o que fomos ontem e amanh seremos diferentes. 
Tudo se transforma, muda  enfim, progride. No podemos impedir o progresso.  a lei da vida.
Ricardo estava srio e atento. Emilie continuou:
- As experincias que eu vivi transformaram minha vida, e no posso fingir que no aconteceram.
- No peo isso. Sei que voc amadureceu atravs delas.
-  muito mais do que isso, Ricardo, no percebe?
- Percebo que a amo, Emilie, que quero construir tudo aquilo que sonhamos e desejamos. Quero ter outros filhos com voc, fortalecer nossa famlia...
- E a sua famlia?
O semblante de Ricardo se fechou, deixando transparecer a irritao que o rumo da conversa lhe causava.
- Esqueamos minha famlia. Vou comprar uma casa para ns em outro lugar qualquer que voc prefira. Diga-me, onde quer morar? Qual casa deseja ter? Desta vez, vamos 
fazer tudo como voc desejar. Admito que errei ao insistir que vivssemos perto de meus familiares. Sei que eles no a aceitaram e isso a magoou muito, reconheo. 
Emilie, sei que errei, por isso peo que recomecemos. Sei que no vai mais querer ver minha famlia...
- No  propriamente isso que me preocupa.
- Ento o que ?
Ela o fitou longamente, buscando as palavras para prosseguir:
- No sei se voc vai me querer como sou, ou melhor, como me reconheci depois de tudo o que houve. Eu mudei, Ricardo, descobri muitas coisas e fatos a meu respeito 
que do novo significado e outra direo  minha vida. E no sei se voc vai me aceitar como sou agora.
- Daremos um jeito, vamos encontrar a maneira...
- E concordar que eu v com Cntia ao orfanato?
- O que tem uma coisa a ver com a outra?
Dessa vez foi Emilie que se ergueu e suspirou fundo enquanto caminhava, dizendo:
- V como  difcil nos compreendermos? O que  importante para mim pode no ter interesse algum para voc. Como vamos conviver assim?
- Encontraremos um modo; mas voc no precisa ir ao orfanato...
- No  s o orfanato,  tudo. Meus hbitos agora so diferentes, minhas aspiraes tambm.
- No quer mais ser minha esposa? Encontrou outra pessoa, apaixonou-se e no quer me contar,  isso?  esse tal Miguel? Vocs se envolveram?
- No  nada disso, Ricardo. Claro que quero continuar a ser sua esposa, amo voc. Quero minha famlia, com certeza, porm... Hoje existem outras coisas importantes 
para mim. To importantes quanto voc e Cntia.
Ricardo ameaou responder, quando a menina apareceu na sala, pedindo:
- Vem dormir comigo, me? Faz tanto tempo que no dormimos juntas...
Abraando-a com ternura, Emilie olhou para Ricardo e disse:
- Claro, querida. Seu pai e eu temos muito que conversar, mas faremos isso mais tarde; no , Ricardo?
- Sem dvida. Vo descansar. As duas merecem. Emilie sorriu agradecida e acompanhou a filha at a cama.
Aconchegando Cntia em seu abrao, tentou conciliar o sono; no entanto, no conseguia. De quando em quando olhava o rosto tranqilo da filha, dormindo ao seu lado, 
e ento repetia baixinho:
- Obrigada, meu Deus, obrigada por ter outra vez minha filha ao meu lado...
Os dias que se seguiram foram de alegria e prazer. Emilie desfrutava a companhia doce e amorosa de Cntia, pela qual tanto ansiara. De Ricardo recebia cuidados constantes 
e mimos dirios. Ele, que se sentia culpado e indiretamente responsvel pelas dolorosas experincias vividas pela esposa, desdobrava-se em gentilezas. Nunca antes 
fora to preocupado e dedicado para com a esposa. Encheu-a de presentes caros: roupas, jias, livros, quadros e outros objetos de arte; embora Emilie insistisse 
que ele no lhe desse nada, intimamente apreciava o bem-estar e o estilo devida que voltava a ter. Alm do mais, ser o centro das atenes despertava nela profunda 
satisfao, da qual nem se dava conta. De tudo, o que mais apreciava eram as tardes frias, sentada defronte  lareira, em longas conversas com Cntia. Vez por outra, 
Emilie tentava falar com Ricardo sobre as questes que havia descoberto; entretanto, ao perceber que a conversa ia enveredar por temas espirituais, o marido logo 
suscitava algum assunto interessante e agradvel, atraindo a ateno da esposa para a casa que estavam prestes a comprar, os detalhes da decorao que em breve comeariam 
a escolher e outras amenidades. Duas semanas j se haviam escoado desde que Emilie deixara a casa de Miguel. Este, sempre corts, enviou pequena carta pedindo notcias 
da amiga, e junto a nova edio da Revista Esprita, que acabara de chegar. Quando recebeu o bilhete, com cuidado o dobrou e colocou dentro da revista. Ricardo, 
ao ver a esposa lendo o bilhete e depois folheando a revista, perguntou:
- Algum admirador?
- Claro que no.  de Miguel, que sempre se preocupa comigo.
Ricardo se aproximou e, tomando a revista das mos da esposa, folheou-a indiferente. Ao devolv-la, disse:
- No passam de bobagens, tolices! Ningum pode falar com os mortos. Os que se foram jamais podero comunicar-se. Isso tudo  mentira...
Emilie fechou a revista e, apertando-a entre as mos, interrompeu o marido:
- Ricardo, voc realmente no me escuta! J disse que nada disso  tolice. Eu sou a prova, pois senti na pele tudo o que ensina o Espiritismo. Alis, graas aos 
ensinamentos espritas  que hoje estou aqui. E foi unicamente pela ajuda que recebi atravs de adeptos do Espiritismo que pude permanecer viva...
Foi a vez de Ricardo a interromper:
- Est bem, no vamos discutir. No quero mais brigar com voc. Se quiser continuar a ler essas coisas, no sou eu quem vai impedir. Com o tempo voc vai perceber 
que tudo isso foi apenas fruto das experincias dolorosas que passou. Tudo psicolgico, Emilie, tudo de sua cabea. Mas vou deixar que faa o que for melhor para 
voc.
Emilie olhava firme para o esposo, buscando identificar suas reais intenes. Aproximou-se, beijou-lhe suavemente a face e indagou:
- Ento no se incomoda que eu v at a casa de Miguel, de vez em quando?
- Com que finalidade?
- Ele tem um centro de estudos do Espiritismo e sei que posso ser til durante essas reunies.
- Emilie, veja bem o que est pedindo. Estamos iniciando vida nova. Voc j sofreu tanto... Teve de se envolver nisso para poder sair de uma situao difcil em 
que foi colocada. Agora est livre, pronta para recomear. Temos tudo a nosso favor. Convenci meu pai a deixar sob minha exclusiva responsabilidade uma das empresas 
e, assim, no mais precisaremos nos preocupar com o futuro; mesmo o contato com minha famlia ficar restrito a reunies de negcios, at que todas as chagas cicatrizem. 
Agora precisa me ajudar. Se voltar a se envolver com essa... essa... essa heresia, vai ser mais complicado! Considere que minha famlia  influente e, embora meu 
pai concorde em nos deixar seguir nosso rumo, no posso afront-lo a toda hora. Temos de serem discretos, sbrios e conscienciosos, at que toda a situao caia 
no esquecimento; e da poderemos, afinal, ocupar de novo o lugar que nos cabe na sociedade.
- Voc realmente no compreende.
Ricardo pegou a mo esquerda da esposa e beijou o dedo onde estava a aliana, dizendo:
- No est feliz? Vejo nos seus olhos a alegria que sente por estar em paz com nossa filha, com nossos planos para o futuro. Pode negar?
- No, Ricardo, no vou mentir para voc. Estou imensamente feliz por tudo o que vem acontecendo. Ter minha vida de volta era meu maior desejo, mas... no  suficiente.
Abraando-a apertado, Ricardo encerrou o assunto:
-  claro que no  suficiente! Precisamos trazer alguns irmos para Cntia!  disso que voc sente falta; mais crianas nos traro maior alegria e enchero nossa 
casa; e sua vida tambm!
Quando Emilie tentou esclarecer ao marido o que lhe ia na alma, Ricardo puxou-a para a ante-sala e depositou um molho de chaves em suas mos:
- Aqui esto, querida: as chaves de nossa casa. 
Surpresa, Emilie abriu largo sorriso e perguntou:
- Voc conseguiu mesmo aquela casa linda e agradvel, fora da cidade?
Ajoelhando-se diante da esposa, ele gracejou:
- Claro! Seu desejo, por menor que seja,  uma ordem, senhora!
Sem coragem de retomar ao assunto que a incomodava, Emilie deixou-se invadir pela satisfao do momento. Nas semanas que se seguiram, Ricardo manteve a esposa inteiramente 
ocupada com os preparativos para a mudana, e finalmente entraram os trs na casa nova e confortvel, decorada ao gosto de Emilie. Contudo, na primeira noite que 
passariam na casa, ao se deitar Emilie sentiu um medo inesperado que tirou a alegria de seu corao. Ricardo notou que a esposa se revirava na cama, sem poder dormir, 
e perguntou:
- No est feliz, querida?
- Claro que estou, Ricardo.
- E qual  o problema? Por que no consegue dormir? A casa no ficou como voc queria?
- Tudo est perfeito. Voc sabe que sempre desejei uma casa assim, num lugar mais tranqilo.
- Ento o que a aflige? Foram as ltimas notcias sobre o processo que a perturbaram? Pois direi ao nosso advogado que no venha mais discutir essas questes conosco. 
Pedirei que v  fbrica e resolverei tudo por l. Sei que o assunto ainda a aborrece; tudo  muito recente e deve causar-lhe incmodo; ainda assim, tem de entender 
que meu pai vai inocentar a prpria famlia.
Emilie permaneceu em silncio. Ricardo prosseguiu:
- No precisa se chatear. Foi voc mesma quem afirmou que no queria vingar-se; que apesar de no poder conviver com eles, no desejava vingana.
- E no desejo. Que Deus faa a justia conforme Ele quiser. Todos pagam pelos seus erros, Ricardo, cedo ou tarde, aqui ou na vida depois da morte, todos...
De repente ela parou e arregalou os olhos, em pnico.
- O que foi, Emilie, o que foi? - perguntou Ricardo, espantado.
- So eles.
- Eles quem? Meus pais?
- No. Eles. Outra vez!
- Quem, Emilie? Do que est falando?
- Por favor, no!
- Emilie, o que est havendo?
Emilie encolheu-se na cama, apavorada, enquanto os inimigos espirituais que de h muito a perseguiam se aproximavam. O mais agressivo disse:
- Sbias palavras. Todos pagam pelos seus erros... E voc no  melhor do que ningum! No pense que vai escapar.
Emilie baixou a cabea e comeou a orar, pedindo ajuda. Ricardo, assustado, no tinha a menor noo do que se passava. As entidades se achegavam m ais e mais ao 
rosto de Emilie, uma delas empunhando um cutelo afiado. A moa, percebendo que cada vez estavam mais perto, no ousava erguer a cabea e orava sem cessar. De sbito, 
deixou de sentir a presena dos espritos. Abriu os olhos e viu que haviam desaparecido e que Cntia estava de p, na porta do quarto. Ainda amedrontada, perguntou 
 filha:
- O que faz aqui, querida?
- Vim ver se precisava de mim.
Emilie notou que da menina resplandecia suave luz. Ricardo olhava para a esposa muito assustado. Ao perceber que o marido no via a filha, ela compreendeu que Cntia 
no estava ali fisicamente, e sim com seu corpo espiritual. Ento disse:
- Estou bem, querida, pode voltar. Voc j me ajudou, obrigada.
Cntia retirou-se, obediente, enquanto Ricardo se sentou na beira da cama, aflito:
- Meu Deus, Emilie, o que  isso? Vai comear tudo de novo? Todas aquelas crises, aquelas atitudes anormais?
Ainda sob forte impresso, Emilie procurou acalmar-se e disse:
- Preciso ir s reunies, Ricardo. 
Extremamente irritado, ele ergueu a voz:
- De forma alguma! No vou permitir que faa parte desses grupos de feitiaria! No quero! Seu lugar  aqui, junto de mim e de Cntia. No admito que fique por a! 
Tem responsabilidades. Tenho feito o melhor que posso, mas parece que voc quer sempre mais.
Emilie se calou. Ajeitou-se na cama e tentou dormir. Ricardo, sem saber o que fazer, levantou-se e andou pela casa remexendo papis e caixas, quase at o amanhecer. 
Nos dias que se seguiram Emilie passou a ter pensamentos sombrios e receios de todo tipo. Tinha medo por tudo. Temia que a filha sasse, que o marido sofresse algum 
acidente; temia at que a menina engasgasse quando se alimentava. Os medos iam surgindo do nada e logo tomavam conta da sua mente. Ricardo j se preocupava seriamente 
e pensava que talvez a esposa devesse voltar a consultar um mdico. Quando lhe props isso, Emilie resistiu com vigor:
- No quero nem que toque no assunto. Sei que meu problema no  mdico.
- E o que ?
-  espiritual, j disse. Tenho de participar das reunies na casa de Miguel, sei que elas me faro muito bem.
- No, isso no se discute.
- Por qu? Estou certa de que me faro bem!
- No, no quero voc envolvida com isso outra vez. J chega! Temos de pensar em algo, fazer alguma coisa. Voc estava bem. Todo o tempo em que nos preparvamos 
para vir para esta casa, esteve muito bem. O que aconteceu?
Ricardo refletia, caminhando de um lado a outro na sala. Enfim parou e disse:
- J sei: vamos fazer uma viagem. As coisas na fbrica esto em ordem; tenho pessoas de minha confiana trabalhando ali. O seu depoimento no processo  s para daqui 
a dois meses. Portanto, podemos viajar. Mantendo a mente ocupada, sem dvida voc ir melhorar.
- E os estudos de Cntia?
- Esperaro, Emilie. Nossa vida e nossa felicidade so mais importantes do que tudo.
- Ricardo, querido, voc tem de me ouvir. Tenho tantas coisas a compartilhar com voc!...
- E por que no fala?
- Todas esto vinculadas s experincias que vivi, ao Espiritismo...
- No, esse assunto no.
- Est vendo? Voc no quer me escutar...
- Eu a amo demais e estou feliz por ver Cntia to alegre outra vez. Contudo, no acredito nessas baboseiras e acho que so realmente do demnio. No ateei fogo 
aos livros espritas, mas apoio incondicionalmente o que foi feito. Esses espritas esto iludindo as pessoas.
- Meu Deus, no  nada disso! Levantando-se, determinado, ele disse:
- Vou tomar as providncias necessrias para nossa viagem. Se tudo der certo, partiremos amanh.
- Amanh? E para onde?
- Qualquer lugar, Emilie, qualquer lugar interessante. Vamos s Amricas, o que acha? Uma longa viagem de navio!
-  muito distante, Ricardo.
- Ento vamos  ndia! Um lugar extico vai ser empolgante! Sem esperar resposta, beijou-a na testa e, colocando o pesado casaco, disse:
- Volto assim que resolver tudo.
Sentada no sof, a jovem permaneceu muito tempo olhando pela vidraa que dava para o jardim de inverno. Observava Cntia estudando com o professor contratado. A 
filha estava cada vez mais linda. Emilie admirou seu entusiasmo pela nova lngua que aprendia. Estava absorta em seus pensamentos, quando ouviu voz spera e conhecida 
atrs de si:
- Pensa que vai t-la por muito tempo? No vai, no! Muito em breve a tiraremos de voc.
Emilie virou-se e viu novamente as quatro entidades, que iam em sua direo. A mais revoltada continuou:
- Nunca a deixaremos em paz, entendeu? Nunca! Jamais a perdoaremos pelo que fez.
- Eu no entendo...
-  claro que no! No pode se lembrar da masmorra escura em que nos lanou a todos, pois jamais foi at l ver nossas condies. Deixou-nos na priso, abandonados 
 dura sorte.
- No  verdade!
- Como no, madre superiora? Superiora na maldade, na crueldade!
- No sei do que vocs esto falando, eu no me lembro!
- Pois ns no esquecemos nem por um s instante! Abandonou-nos at apodrecermos naquela cela. E por qu? Apenas porque minha me, minha santa mezinha, era uma 
mulher hbil em manipular ervas e assim ajudava a muitos. Voc acreditou em falsas acusaes e nos enviou para a morte. Agora vai pagar.
Acercavam-se dela cada vez mais. O homem que falara trazia o cutelo nas mos.
- O que querem? Digam-me o que posso fazer!
Com gargalhada sarcstica e estridente, uma das mulheres disse:
- Queremos que sofra pela eternidade. Tiraremos tudo o que voc ama, at que sua vida esteja destruda. Comeando pela menina...
Desesperada, Emilie ajoelhou-se e em pranto implorou:
- Por favor, tenham piedade.
- Piedade? O que voc sabe de piedade? Cale-se!
Emilie chorava angustiada, sentindo o odor ftido que se espalhava pelo ar. Num lampejo, pensou que seria para sempre perseguida por aquelas criaturas. O mais hostil 
chegou bem perto e, alando o cutelo, tencionava crav-lo no corao da jovem. Subitamente a sala se encheu de luz e o ar inundou-se de suave perfume. Logo uma figura 
feminina apareceu, falando com voz doce e firme a um s tempo:
- Por que agasalhar tanto dio no corao, meus filhos? 
As quatro entidades ficaram paralisadas diante do intenso brilho que daquela mulher emanava. Emilie, identificando a voz inesquecvel da amiga e protetora, ergueu 
a cabea e deparou com o semblante luminoso e amado de Lucrcia. Emocionada, desejava saud-la, mas estava igualmente paralisada. Lucrcia se aproximou da entidade 
que portava o cutelo e o retirou de suas mos. Fazendo enorme esforo, o homem disse:
- O que quer aqui? No temos nada com voc. Deixe-nos ir embora! O que est fazendo conosco?
- Precisamos conversar, todos ns.
- Nada temos com voc - insistia o esprito em tristes condies.
- Imagino que no me reconheam, como tambm no os reconheci quando os encontrei, na pequena casa  beira-mar.
Emilie seguia o dilogo em silncio.
- Entendo agora que, apesar de ligados por laos to estreitos, era melhor no nos reconhecermos de imediato. Deus sempre sabe o que faz. No entanto, depois de j 
adaptada  nova vida pude relembrar o triste episdio do nosso passado, sem desequilbrios para o presente, o que se faz imprescindvel ao progresso de todos ns.
Esforando-se para controlar a emoo, ela prosseguiu:
- Meus filhos, aproveitemos a oportunidade que o Divino Pai nos d.
Uma das mulheres gritou desesperada:
- Solte-nos! Nada queremos com voc!
Diante do olhar estarrecido de Emilie e das quatro entidades, Lucrcia se transfigurou;  sua silhueta se sobreps outra, de velha e sofrida senhora com longos cabelos 
e roupas em farrapos. A perguntou:
- Ser que assim sabem quem sou?
A entidade masculina at ento muito agressiva se ajoelhou, gritando:
- Me!? No pode ser! Est havendo aqui algum truque!
- No  truque. Gostariam que eu estivesse assim, em farrapos, como vocs?
- Me! Voc desapareceu! De repente, no a vimos mais. Ficamos presos por tanto tempo naquela masmorra... S muito depois descobrimos que j no fazamos parte do 
mundo dos vivos. E voc no estava mais l. Para onde foi?
- Vaguei sem descanso no espao, envolvida por dor e agonia. Queria reencontrar vocs, mas uma fora desconhecida nos mantinha afastados. Muito tempo transcorreu 
at que sinceramente pedi socorro a Deus e o recebi atravs de amorosos protetores que me acompanhavam de longa data, esperando meu despertar. Ajudaram-me a relembrar 
o passado distante e, compreendendo a imensa misericrdia do Pai, tive nova chance de colaborar na redeno das almas desviadas. Levaram-me at o abismo de dor onde 
se encontrava a madre superiora, que fora instrumento da justia divina sobre ns.
Emilie acompanhava a narrativa como se assistisse a tudo, em uma grande tela mental, cena por cena. Reconhecia-se participando daquela histria e sentia-se desmoronar 
internamente diante da conscincia do passado. Lucrcia prosseguiu:
- Vendo o estado em que ela se encontrava, e aceitando de corao as lies dos instrutores espirituais que me socorreram, finalmente percebi que era indispensvel 
perdo-la. E como somente o bem pode vencer o mal, eu poderia auxili-la a encontrar o caminho de seu dever na prxima existncia. E ela, por sua vez, repararia 
o mal praticado no passado atravs de trabalho rduo e contnuo em favor daqueles que prejudicara, e em benefcio de todos. Seria uma existncia dedicada a tarefas 
sublimes e redentoras. Amparada por amorosos trabalhadores da luz, ela foi resgatada e aceitou trilhar o difcil caminho do bem, passo a passo. Instruiu-se e ento, 
quando todos estvamos preparados, iniciamos a jornada terrena.
Olhando para Emilie com desvelada ternura, Lucrcia recomendou:
- No desperdice essa oportunidade preparada com tanto cuidado. No esmorea. Assuma seu dever e cumpra-o fielmente. Trabalhe intensamente para ajudar a resgatar 
aqueles que um dia, pela sua ignorncia, perderam a f e a confiana em Deus. O servio no bem a aguarda, exigindo renncia e sacrifcio. Mas a paz do dever cumprido 
igualmente a espera. No deixe escapar a ocasio, entregando-se outra vez ao orgulho e  vaidade. Vena a si mesma e siga em frente. Lembre-se sempre de que tem 
responsabilidades assumidas antes de reencarnar, perante muitos companheiros que confiaram em voc e dependem de sua tarefa comear para que possam realizar a que 
lhes compete. Tudo  encadeado e, se voc falhar, outros tero de assumir o seu lugar, de improviso. Se isso acontecer, a perda maior ser sua, Emilie. Estupefata, 
Emilie recordava fatos do passado entre lgrimas de angstia e de arrependimento. Lucrcia dirigiu-se s quatro entidades espirituais:
- E vocs, meus filhos, perdoem tambm. Tenho pedido a Deus, dia e noite, que suas almas endurecidas pelo dio sejam tocadas por Seu amor infinito. Somente com humildade 
conseguiro perdoar. Se abrirem mo dessa vingana que tanto buscam, sero livres para crescer e seguir na caminhada em direo  luz. Quando compreenderem que tudo 
tem uma razo e que apenas o bem pode vencer o mal, poderemos estar outra vez unidos. E este  o maior desejo de minha alma: estarmos todos reunidos, continuando 
nossa marcha eterna. No quero mais v-los estacionados, dominados pela dor e pelo sofrimento, perdendo tempo precioso em que j poderiam estar muito mais felizes, 
fruindo paz e alegria.
- Como pode pedir isso? Como pode perdoar e ajudar essa mulher, essa assassina? Sabe que no s nossa famlia foi por ela destruda. Quantas outras?
- Foi ela quem contraiu esse dbito e ter de arcar com as conseqncias de seus atos. Vocs no imaginam o pesado fardo que ela traz sobre os ombros. No obstante, 
somos todos iguais perante Deus. E todos temos nossos fardos a carregar. Perdoe, meu filho, e sigamos em paz na bendita escalada.
- Jamais perdoarei. Se voc cometeu essa fraqueza, nada posso fazer...
Lucrcia parou a pequena distncia das entidades sofredoras e conclamou:
- Aproveitem a oportunidade que estamos recebendo dos cus. Sempre  tempo de progresso e de crescimento. O Universo  a casa de Deus, onde todos nos aperfeioamos 
rumo ao Criador. Deixem para trs o que no passado ficou. Olhem para o futuro, para a nova esperana que desponta fulgurante, e marchem sem titubear.
- No! No suporto mais! - gritava a outra mulher, que parecia a mais jovem de todos e conservava as mos sobre os olhos, protegendo-se da luz que Lucrcia emitia.
Mais uma vez ela olhou para todos com imenso carinho e disse, desaparecendo lentamente:
- Aproveitem a oportunidade, meus filhos, no a desperdicem.
Logo que a imagem de Lucrcia se desfez, as outras entidades sumiram tambm e Emilie por fim conseguiu se levantar e chegar ao sof. Ainda estava ofegante quando 
Ricardo entrou com alguns papis nas mos. Vendo-a sem cor e banhada em lgrimas, apressou-se em socorr-la:
- O que houve? Est bem? Outro mal-estar?
Com dificuldade, Emilie respondeu:
- No posso mais adiar, Ricardo. A misericrdia de Deus me alcanou e no vou mais protelar.
- No compreendo...
Sem deix-lo continuar, ela disse:
- Infelizmente, Ricardo, no vou viajar. V com Cntia, eu ficarei.
- No tem sentido viajar sem voc, Emilie. Afinal,  por sua causa que quero sair daqui.
- Mas  aqui que preciso estar, Ricardo. Tenho deveres a cumprir.
- Do que est falando? Que deveres tem, alm de estar comigo e com sua filha?
- Tenho tarefas espirituais a executar, e no vou mais adi-las.
- Est me assustando. Do que  que voc est falando?
Emilie silenciou, refletindo. Respirou fundo, ajeitou o corpo no sof e, depois de manter a cabea entre as mos por instantes, fitou-o dizendo:
- Sei que ser difcil para voc aceitar, Ricardo, mas tenho de agir como manda meu corao. Preciso que compreenda e me ajude. Se realmente me ama, vai fazer isso. 
No posso simplesmente esquecer o que houve comigo nos ltimos meses. Isso transformou minha vida, meu interior.  impossvel fingir que nada aconteceu. Foram fatos 
que me colocaram diante do meu destino, das minhas responsabilidades, que agora preciso assumir definitivamente. No ser fcil para nenhum de ns...
- Afinal, Emilie, do que  que est falando? Ser que pode ser mais clara?
Outra vez ela respirou fundo e mentalmente pediu a Deus que a sustentasse. Levantou-se e caminhou at a grande lareira. Depois foi at a vidraa e observou Cntia, 
que estudava compenetrada. Ricardo aguardava em ansiosa expectativa. Emilie voltou a encar-lo e prosseguiu:
- Tenho compromisso espiritual a cumprir, e no posso mais fugir. No posso mais ignorar minhas responsabilidades. Ou melhor, at poderia, s que jamais seria feliz. 
No renasci para desfrutar benefcios e prazeres, para viver uma vida de alegria ilusria e de satisfao do egosmo e do orgulho. Estou aqui para trabalhar por 
aqueles que prejudiquei, e no posso mais me omitir.
- A quem voc prejudicou, Emilie?
- No sei os nomes, porm isso no importa. As tarefas espirituais me chamam.
Plido, trmulo e com a voz embargada, Ricardo perguntou:
- Vai se tomar freira?
Emilie sorriu e exclamou:
- No, querido, no vou ser freira. Vou servir a Deus de outra forma. Ricardo, agora sou esprita, sou mdium e tenho trabalho a executar dentro desse movimento 
que comea a se expandir. Dentre minhas responsabilidades, devo colaborar para a difuso do Espiritismo na Terra, ajudando as almas angustiadas e sofredoras a encontrarem 
a luz de Jesus, atravs da f raciocinada que o Espiritismo proporciona. No sei ainda a que tarefa especfica me dedicarei; vou procurar Miguel hoje mesmo e me 
oferecerei para o trabalho nas reunies de estudo que ele promove.
- Est querendo me enganar, no ? Tem alguma coisa com esse Miguel, eu senti desde o primeiro dia. E vem dizendo que vai trabalhar... Logo depois de receber bilhetinho... 
Voc no me engana. Est com saudade dele,  isso! No vou admitir, Emilie. Se quiser ir, que v embora de uma vez. No vou tolerar esse tipo de conduta.
- No  nada disso, querido. Miguel  um amigo e um orientador espiritual mais experiente, s isso. Meu corao pertence a voc; entretanto, acima de voc e de tudo 
o que temos em comum, est o meu esprito, que necessita de trabalho e evoluo.
Sentando-se ao lado do marido, Emilie segurou suas mos e pediu, quase suplicante:
- Venha comigo, Ricardo, acompanhe-me s reunies e ver que se trata apenas de estudo e trabalho. Assim, perceber que no h motivo para desconfiar. Venha comigo, 
eu ficarei muito feliz!
- Est louca, Emilie? Delira? Pensa que irei freqentar essas reunies do demnio? Nem pensar! Jamais passarei nem mesmo pela porta da casa. E no vou admitir que 
minha esposa seja membro dessa seita maldita!
- No entende, Ricardo? Eu preciso do trabalho! Ele  essencial para mim!
- Voc est enlouquecendo, Emilie. Sempre foi problemtica, e os ltimos acontecimentos a fizeram adoecer de vez. S pode ser isso.
Emilie, com os olhos rasos de lgrimas, manteve-se calada, sem saber o que fazer. Ricardo se levantou e desabafou:
- J basta! Estou cansado de tudo isso. Tenho ido alm de minhas foras para faz-la feliz. Tenho feito de tudo, dado do bom e do melhor, esquecido por completo 
o passado e os problemas que j tivemos. Indispus-me com minha famlia, que no vejo desde que voc retomou. E o que ganho? Voc quer me ridicularizar, me humilhar 
perante toda a sociedade, entregando-se a essas prticas satnicas; e quer que eu aprove, que eu concorde! Pois saiba de uma coisa, Emilie: se insistir nessa maluquice, 
deixarei de ser seu marido. Voc ter de escolher. Ou esquece tudo e se dedica a mim e a Cntia, ou sai desta casa, acaba com nosso casamento e no v Cntia outra 
vez.
- No pode me impedir de ver minha filha!
- Posso e vou. Pense bem, Emilie, pense muito bem! Tem at amanh para resolver. Comprei as passagens e tenho tudo acertado. O navio para a ndia parte depois de 
amanh  tarde e estarei nele com Cntia. Se no nos acompanhar, considerarei que escolheu deixar-nos.
- Mas no sou eu quem est querendo deixar voc, Ricardo; s quero ter a liberdade de realizar aquilo que  necessrio.
- A deciso  sua: ou essa doutrina, ou sua famlia. Pense bem, pois no vou voltar atrs.
Sem dizer mais nada, Ricardo saiu. Emilie ficou sentada no sof, meditando, sem saber o que fazer. Com a cabea entre as mos, chorou copiosamente. Emilie, angustiada, 
passou o resto da tarde com o pensamento distante. Foi o riso alegre de Cntia se despedindo do professor na porta de entrada que a trouxe de volta  realidade. 
Aps fechar suavemente a porta, a menina se sentou ao lado da me, segurou-lhe as mos e disse:
- Mezinha, sabe que a amo muito, no sabe? Emilie a abraou e respondeu:
- Seu amor  o bem mais precioso que possuo, filha.
- E vou am-la sempre, me, acontea o que acontecer. 
Emilie, enxugando a s lgrimas, perguntou:
- Do que est falando?
- No sei, me, mas pensando em tudo o que voc contou sobre suas experincias, sinto muito carinho por Lucrcia, mesmo sem conhec-la. Acredito que ela ficaria 
feliz se voc tambm fizesse algo em favor dos outros. Estou falando no orfanato do tio Fernando. Sempre lembro das crianas, me, e sei que precisam de ajuda. Acho 
que poderamos fazer alguma coisa por elas.
- No  certo que temos de ajudar aqueles que precisam? Pois sei que aquelas crianas precisam muito. Com o tio Fernando preso, quem vai cuidar delas? Ele se importava, 
sabe? Importava-se de verdade. Ele gosta daquelas crianas. No sei direito o que foi que ele fez - vocs no me contam, vivem escondendo as coisas de mim -, mas 
imagino que tenha prejudicado voc de alguma maneira; s que para mim ele sempre foi bom, me. E tambm era muito, muito bom para as crianas do orfanato. Agora 
esto sozinhas, sem ningum que de fato se preocupe com elas.
- Voc no devia se inquietar tanto assim com essas questes,  muito peque na...
Estendendo os braos e acariciando com suavidade o rosto da me, Cntia respondeu:
- Sinto coisas que no sei explicar, me.
Sem saber exatamente o que se passava, apenas supondo que a menina tambm tivesse sensibilidade, Emilie abraou-a outra vez. Depois de curto silncio, Cntia disse, 
soltando-se da me:
- Faa o que deve fazer, me.
- Voc no entende, Cntia. Seu pai no quer... Ele no admite...
- Quem sabe um dia ele compreenda, me? Ajude-o com seu exemplo.
Emilie buscava captar o que estava alm das palavras, que naquele momento eram pobres para traduzir as profundas emoes compartilhadas por ambas. Enfim, disse:
- Sei que terei de enfrentar inmeros sacrifcios e j me sinto preparada. Contudo, no consigo aceitar a idia de me afastar de voc. No posso aceitar!
- Encontraremos um jeito de evitar que isso acontea.
Emilie olhava para a menina de doze anos  sua frente e surpreendia-se com a fora da filha. Percebia que ela sabia do seu drama interior, e procurava auxili-la, 
mesmo sem compreender integralmente a situao. Quando Ricardo chegou, bem mais tarde, encontrou Cntia na sala, tocando piano. Pendurou o sobretudo e o chapu, 
depois aproximou-se e perguntou, beijando a filha:
- Onde est sua me?
- Foi ao grupo de estudos espritas na casa de Miguel.
- O qu? Ela teve essa ousadia?
- Deixe-a fazer o que precisa, pai. Ela j sofreu bastante, no a faa sofrer ainda mais.
- Voc no sabe o que est dizendo, Cntia;  uma criana e no conhece os problemas dos adultos.
- O que sei  que ela ama voc, pai, e que voc a ama tambm. Por que um deveria fazer o outro sofrer?
Sem ter o que responder, Ricardo se calou, pensativo. No esperou pela esposa. Jantou com a filha e informou  menina que viajariam; e que ela deveria estar preparada 
para ir sem a me, caso fosse necessrio. No centro em casa de Miguel a noite foi de proveitoso aprendizado. Diversos espritos sofredores se comunicaram, recebendo 
ajuda e orientao. Benfeitores espirituais portadores de intensa luz tambm se fizeram presentes e muitas orientaes foram transmitidas. Emilie, que ao chegar 
se sentia enfraquecida, ao final das atividades estava refeita e revigorada. Por sua mediunidade muitos irmos desencarnados que sofriam se manifestaram e foram 
atendidos. Depois que todos saram, Miguel se acomodou em uma cadeira e disse:
- E ento? Estou aqui para ouvi-la.
- J me sinto incrivelmente melhor, Miguel. Antes parecia que estava h tempos sem me alimentar. Agora, tendo participado das tarefas e do estudo to construtivo, 
sinto-me com nova energia.
Emilie silenciou, lembrando-se dos problemas que ainda teria de enfrentar. Miguel manteve-se sereno e quieto, aguardando que ela prosseguisse.
- No sei bem o que dizer, Miguel. Tenho tantas coisas passando pela minha mente ao mesmo tempo... Estou confusa. Sinto-me feliz ao lado de Ricardo e Cntia, porm 
isso j no me basta. Sinto que tenho de fazer mais, e no sei por onde devo comear.
Miguel, de olhar distante, como se escutasse algum que no ela, ps-se a falar:
- Posso imaginar o conflito que se estabeleceu dentro de voc, Emilie, agora que conhece o motivo de suas crises. Ser mdium  um presente de Deus, que implica tambm 
grandes responsabilidades.  compreensvel que, consciente dessas responsabilidades, voc no se sinta confortvel em simplesmente ignor-las. S que ao mesmo tempo 
tem sua vida, seus desejos, seus entes queridos, e ainda suas necessidades pessoais, no  assim? Como lidar com tudo isso?
Emilie concordou com a cabea e emendou:
-  precisamente esse o meu conflito. 
Miguel continuou:
- No entanto, Emilie,  preciso lembrar que todo fenmeno medinico tem um objetivo. O magnfico trabalho de pesquisa e organizao das informaes e mensagens espritas 
desenvolvido por Allan Kardec tem deixado isso muito claro. Em suas obras, nos textos que tem publicado, v-se que o objetivo maior do fenmeno medinico  nos fazer 
compreender que a morte no existe, bem como explicitar que o modo como nos conduzimos na curta jornada terrena ir influenciar nosso estado na vida espiritual - 
que  a verdadeira. A conscincia de que a vida continua e tudo o que nos acontece tem uma causa, nunca sendo mero fruto do acaso, nos faz meditar que a finalidade 
da existncia  aprimorar nosso esprito, pela aquisio de valores morais que faro de ns aliados do bem. Assim, Emilie, a mediunidade  ferramenta fundamental 
de conscientizao e transformao, quando exercida segundo os valores eternos que Jesus veio nos ensinar.  preciso renovar nossa mente  luz dos princpios do 
Evangelho.  por essa razo que o Espiritismo assusta tanto e a tantos. Atravs das informaes que os espritos nos revelam, sob a orientao do Mestre Jesus, somos 
convidados a reviver o Cristianismo primitivo, que foi esquecido e sufocado em sua essncia por sistemas religiosos que no fundo defendiam seus interesses materialistas.
Emilie ouvia atenta a seqncia dos esclarecimentos de Miguel:
- No  fcil renovar nossa mente, domar nossos pensamentos. Sem perceber, o homem  prisioneiro de crenas e valores que controlam e dominam sua vida. S que tais 
crenas e valores cada vez mais so impostos ao homem por uma civilizao materialista e ctica, que no fundo no quer a verdade, apenas finge busc-la. O contato 
conosco mesmos e a honestidade em relao ao que encontramos em nosso ntimo tomam muito trabalhosa a renovao to necessria. Por isso voc luta tanto.  difcil 
libertar-se daquilo que acreditava ser bom para voc. Mas no desista.
- E como poderia, Miguel? Vejo os espritos  minha volta o tempo todo. Agora ainda mais do que antes. Se primeiro sentia a influncia deles sobre mim, sem saber 
do que se tratava, hoje posso v-los assim como vejo voc. E eles me torturam. Meu passado  delituoso, Miguel, pude vislumbr-lo de relance e ele me assusta.
- Todos temos um passado manchado pelos erros, Emilie, ou no estaramos mais na Terra e sim usufruindo a beleza e a felicidade em mundos mais elevados. Todos ns 
temos de reparar enganos de outros tempos. No se julgue sozinha nessa empreitada. Ao contrrio: sinta-se amparada e abenoada pela oportunidade sagrada da vida 
que recebeu, quando, alcanada pela Nova Revelao, poder permitir que a luz do conhecimento e da conscincia abra espao nos ranosos pensamentos sedimentados 
h sculos em seu interior. A princpio a luz nos ofusca e assusta, porm  medida que a prendemos a conviver com ela j no conseguimos ignorar o bem que nos traz. 
Sculos de escurido foram impostos aos homens pelos interesses dos detentores do poder. O Cristianismo, luz soberana trazida por Jesus Cristo, poderia ter h muito 
resgatado a Humanidade da dor e do sofrimento. Ao invs disso, os cristos, sofridos e torturados, cederam s presses do poder material e acabaram por ele vencidos. 
No entanto, aquele que arquitetou o Planeta, e depois a ele desceu para ensinar diretamente aos homens o caminho para Deus, jamais nos desampara. Pacientemente continua 
a nos orientar e esperar. E agora nossos olhos gratos observam o nascer de uma nova esperana para os homens - ao menos para aqueles que tiverem a mente e o corao 
preparados para reconhec-la.  o Consolador Prometido que chega, em nossos dias, para dar nova oportunidade a todos.  por isto, Emilie, que amo profundamente o 
Espiritismo: porque compreendo que ele vem resgatar o Cristianismo em sua essncia, no atravs da crena cega, porm  luz da razo e da cincia.  maravilhoso 
poder participar de alguma forma deste momento de renovao. 
Miguel calou-se, emocionado. Emilie o ouvia reverente. Longo silncio se seguiu. Por fim, erguendo-se, ela disse:
- Mais uma vez obrigada, meu amigo. Agora preciso ir. 
Miguel tambm se Levantou, sorrindo:
- Voc nem conseguiu dizer nada...
- Mas esteja certo de que ouvi o que precisava, Miguel. No h mais dvida sobre o que devo fazer.
- A deciso est em suas mos.
- Sim, o livre arbtrio.
-  isso mesmo.
Miguel acompanhou Emilie at a porta e, retirando o casaco do cabideiro, disse:
- Vou lev-la at sua casa. No  bom ficar pelas ruas  noite.
- Obrigada, no h necessidade, Miguel. Tenho um carro com condutor me esperando.
- Tem certeza?
- Claro.
- Aguardo notcias.
- Quando  a prxima reunio de estudos?
- Depois de amanh.
- Estarei aqui.
Miguel despediu-se carinhosamente. Antes de sair, Emilie perguntou:
- Tem notcias de Jairo?
- Ele pretende ficar uns tempos em Marrocos. Recebeu notcias das filhas de Lucrcia e quer verificar pessoalmente como esto, se precisam de algo.
Emilie exibiu um sorriso triste e comentou:
- Gostaria muito de v-lo antes da viagem.
- Ele ficar aqui alguns dias antes de partir; podero encontrar-se.
Emilie se acomodou no banco da carruagem e disse a Miguel, enquanto ele fechava a porta:
- Lucrcia est muito bem.
- Recebeu alguma mensagem?
- Na verdade eu a vi hoje, em minha casa.  um esprito de fora e valor incrveis! Nunca imaginei que algum fosse capaz de tamanha renncia.
Sem poder demorar-se mais, Emilie pediu que o condutor partisse. Miguel sorriu satisfeito, notando que ela estava fortalecida, e ali ficou observando at a carruagem 
desaparecer, ao dobrar a esquina. Quando Emilie chegou em casa, Ricardo j se recolhera. Depois da longa e elucidativa conversa que tivera com Miguel, ela estava 
decidida. Enfiou-se silenciosamente na cama, tentando no acordar o marido. Na manh seguinte, quando ele se sentou para o caf da manh, foi informado pela criada 
de que a esposa j havia sado. Contrafeito e irritado, levantou-se e saiu tambm. Aos primeiros raios de sol, Emilie j estava na cadeia, aguardando para conversar 
com Fernando. Quando lhe anunciaram a inesperada visita, o preso sentiu ao mesmo tempo medo e inquietao. Sabia que seria difcil encarar Emilie depois de tudo 
que lhe fizera; ainda assim, teria certo alvio em poder pedir-lhe perdo diretamente. Logo que a viu entrar, surpreendeu-se com a mudana em sua aparncia. Emilie 
estendeu-lhe a mo:
- Como vai, Fernando?
Hesitante, ele retribuiu o aperto de mo e replicou:
- Creio que recebendo o que mereo.
Emilie olhou-o por alguns instantes, depois no se conteve:
- Por qu?
Fernando respondeu, emocionado:
- Achava que estava protegendo a Igreja, minha famlia, no sei... Emilie, perdoe-me, por favor. Sei que talvez seja pedir demais, mas me arrependo tanto do que 
fiz... Pensava estar agindo corretamente; s que com o passar do tempo as coisas se aclararam aos poucos, e ento comecei a compreender que estava errado em muitas 
questes. Especialmente em relao  forma como encarava a Igreja. Sei que o que fiz est feito, no posso voltar atrs; todavia, daqui em diante me conduzirei conforme 
realmente acreditar, obedecendo  minha conscincia, doa a quem doer.
- Voc foi e est sendo corajoso, Fernando.
- Eu? No, eu fui covarde.
- Pode ter sido, mas agora est sendo muito corajoso. Vejo em seus olhos absoluta sinceridade e est procurando agir segundo pensa, mesmo que isso lhe traga tristes 
conseqncias. Isso  coragem.
-  o mnimo que posso fazer, depois das atitudes criminosas que tive. Por favor, perdoe-me.
Emilie puxou a cadeira e sentou-se.
- Voc tem a minha compreenso, Fernando, e acaba de conquistar o meu respeito. No h nada para perdoar.
- Eu a prejudiquei, Emilie.
- Aparentemente, sim; na verdade, voc me ajudou muito.
- Como? No entendo.
- Essa situao que vocs armaram me levou a grandes sofrimentos, porm atravs deles, pela misericrdia de Deus, pude encontrar respostas que h muito buscava. 
Hoje, depois de tudo o que aconteceu, sei quem sou, sei que sou responsvel pelo meu destino, e sei que eu mesma semeei toda a dor que colhi - no nesta vida e sim 
numa existncia anterior. Sabe que todos vivemos muitas vidas?
- Voc se tomou esprita?
- Sim, e tambm descobri que sou mdium. Por isso os comportamentos estranhos e as sensaes perturbadoras que me acometem desde a adolescncia.
- Mdium? Ento pode falar com os espritos?
- Eles falam comigo e algumas vezes posso v-los. 
Longa conversa se seguiu, em que Fernando e Emilie trocaram experincias. Ele narrou em pormenores o que sentira ao ler O Livro dos Espritos e como, aps finalizar 
a leitura, percebera que um universo se havia descortinado para seu limitado entendimento. Ao final da longa conversa, profundamente impressionada, Emilie perguntou:
- O que pretende fazer quando sair daqui, Fernando?
- Se eu sair, voc quer dizer. Minha tia certamente me odeia e far tudo para me manter preso. Por ora, minha maior preocupao  com as crianas do orfanato. Sei 
que a parquia tem dado alguma assistncia, mas aquele orfanato  minha responsabilidade; eu o montei com meus prprios recursos. Gostaria de estar l, pessoalmente.
- Cntia tambm est preocupada com as crianas.
-  mesmo? E como ela est?
- Est bem, muito bem.
- Ela me ajudou muito com as crianas. Alis, acho que Cntia tambm pode falar com os espritos.
Emilie sorriu, dizendo:
- Tambm suponho que sim.
- Foi por isso que a enviaram para o convento, para tentar silenci-la. Eles sabem, Emilie; sabem que  possvel essa comunicao.
- Cntia esteve no convento?
- Ento no sabia?
- Nem suspeitava. Ela e Ricardo no me disseram nada. Meu Deus! Ainda bem que voltei a tempo de resgatar minha filha.
Seguiu-se longo silncio em que Emilie, surpresa, avaliava os perigos que a filha correra em sua ausncia.
- Agora preciso ir, Fernando.
-  uma pena!
- O guarda j veio aqui umas trs vezes. Antes de ir quero que saiba que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar voc a sair daqui. E acho que posso 
auxili-lo mesmo enquanto estiver preso. A partir de hoje, vou cuidar das crianas no orfanato. Onde fica?
Fernando se levantou trmulo e, segurando-lhe as mos, disse:
- Vai fazer isso por elas? Saiba, Emilie, seremos eternamente gratos a voc.
- No tem o que agradecer, Fernando. Preciso contribuir de alguma forma; quando compreendemos a grandeza de Deus e de Seu amor para conosco, e por outro lado enxergamos 
nossas imperfeies e quanto temos a aprender, ficamos maravilhados com o carinho e a pacincia que nos dedicam os amigos espirituais, mensageiros divinos a nos 
auxiliar. Diante da proteo que nos ofertam, o mnimo que podemos fazer, como atitude de reconhecimento,  nos colocarmos  disposio deles para sermos teis de 
alguma forma, nesse trabalho de iluminao e regenerao da Humanidade em que eles igualmente contribuem com o Criador. Considerando o muito que recebemos, o que 
mais podemos fazer seno nos alistarmos tambm para o trabalho?
Fernando no pde dizer mais nada. Abraou Emilie, que retribuiu e despediu-se, deixando-o perplexo, mas muito feliz. Ela foi diretamente para o orfanato e logo 
ao chegar percebeu a desordem do local: sujeira por toda parte, crianas chorando e algumas machucadas. Foi informada de que restara apenas uma ajudante, que, no 
conseguindo abandonar completamente as crianas, dedicava a elas meio perodo. Assim que se inteirou das condies do orfanato, Emilie vestiu um avental e disse 
 jovem:
- De hoje em diante, estarei aqui todos os dias. Vamos ao trabalho! Temos muito que fazer para pr este lugar em ordem!
Impressionada com aquela mulher rica e linda, que colocava a mo em todo tipo de sujeira, a auxiliar ficou animada e se empenhou ainda mais por toda a manh. Quando 
se despediu, disse:
- Fico feliz que tenha vindo. Pedi muito a Deus que me ajudasse; j no podia dar conta do trabalho e comeava a faltar at alimento para as crianas. Estava trazendo 
alguma coisa de casa, mas meus pais logo iriam notar e talvez me impedissem at de vir.
- Fique tranqila. Fernando tem os recursos para manter o orfanato, e enquanto no consegue moviment-los vou procurar colaborao em outra parte. No faltar o 
necessrio, pode estar certa.
- Agora estou certa, dona Emilie.
- Por favor, me chame apenas de Emilie.
Ao final do dia, depois de localizar uma amiga de Miguel que passaria a noite com as crianas, ela foi para casa. Embora temesse a reao do marido, trazia tal alegria 
tal alma que se sentia com disposio para enfrentar tudo o que estivesse por vir. Ricardo a esperava ansioso. Apesar do recado que ela lhe enviara sobre a visita 
ao orfanato, no esperava que se demorasse tanto. Quando a esposa chegou, quis conversar; Emilie pediu:
- Vamos jantar primeiro, depois conversamos. Ricardo permaneceu calado durante o jantar. Emilie contou  filha sobre o orfanato e as crianas, ocultando de ambos 
a visita a Fernando. Cntia reclamou com a me por no a ter levado, ao que Emilie respondeu:
- No se preocupe, ter muitas oportunidades de vir comigo, filha. Estarei l todos os dias e de quando em quando poder me ajudar.
- Vai trabalhar no orfanato, me?
- Vou, querida.
Ricardo, que ouvira toda a conversa, jogou o guardanapo com fora sobre e mesa e se levantou, irritado:
- Isso  o que voc pensa! Mas vamos ao que interessa: amanh Cntia e eu viajamos para a ndia. Vai conosco?
Emilie suspirou fundo, buscando as palavras:
- No, Ricardo. Quero que v com ela; eu preciso ficar.
- Voc quer ficar, isso sim.
-  difcil para voc entender?
- No quero entender, Emilie.
- Por isso  difcil, Ricardo. Quanto tempo vo ficar viajando?
- Cerca de trinta dias.
- Vai ser bom para ns dois. Tudo aconteceu muito depressa e mal tivemos tempo para refletir. Agora  um bom momento.
- Pois ento aproveite e pense bem.  sua ltima chance. - disse isso olhando para Cntia -, quando voltarmos decidiremos nossa situao de uma vez por todas.
Emilie assentiu com a cabea e Ricardo, perguntou energicamente  filha:
- Suas coisas esto prontas, mocinha?
- Pai...
- Esto prontas?
- Quase. Esperava minha me para terminar.
Emilie se levantou num movimento vigoroso e, demonstrando alegria e entusiasmo, disse:
- Pois ento o que esperamos? Vamos j terminar de arrumar suas coisas. E dormir logo, para amanh estar bem disposta.
Ao se despedir do marido e da filha, Emilie notou no olhar de Ricardo, a despeito da frieza com que fazia questo de trat-la, certa hesitao escondida que lhe 
deu um lampejo de esperana. Ricardo ameaou a esposa mais uma vez; mesmo assim ela se desdobrou em carinho e ternura, pedindo-lhe que mandasse notcias. To logo 
os dois partiram, Emilie seguiu para o orfanato, onde, entregue aos cuidados constantes que as crianas requisitavam, esqueceu-se de si prpria e de seus problemas 
pessoais. Os dias correram. Emilie dividia seu tempo entre o trabalho rduo no orfanato e a participao ativa nas reunies de estudos espritas na casa de Miguel, 
onde sua colaborao se fazia cada vez mais abrangente: recebia mensagens de espritos sofredores, assim como transmitia instrues e palavras esclarecedoras de 
espritos evoludos, que vinham para guiar aqueles que procuravam colocar em prtica os sublimes ensinos de Jesus, elucidados pelos preceitos da Doutrina Esprita, 
que mais e mais se espalhavam pela Espanha. Na verdade, desde a queima de livros, o Espiritismo crescia velozmente na Pennsula Ibrica. As reunies pblicas aumentavam. 
Muitos chegavam e partiam, movidos unicamente pela curiosidade que os fatos notrios despertavam; outros, entretanto, ao tomar contato com os conhecimentos trazidos 
pelos espritos, compreendiam a sua profundidade e tomavam-se trabalhadores e defensores do movimento. Os centros de estudos espritas tambm se multiplicavam rapidamente. 
 medida que novos colaboradores surgiam, mais se sentia a necessidade de multiplicar as matrias de estudo disponveis, e Miguel sabia que era imprescindvel agilizar 
a traduo de obras espritas para o espanhol; se houvesse maior quantidade de livros de estudo, muitos outros se beneficiariam. Miguel se correspondia regularmente 
com a Sociedade Esprita de Paris, mantendo-a atualizada sobre o que ocorria com o movimento em Barcelona. Em uma de suas cartas informou que despontava uma nova 
colaboradora que talvez pudesse contribuir na traduo das obras, acelerando o trabalho. Recebeu uma resposta que o entusiasmou: aconselharam que a pessoa citada 
fosse a Paris, para trabalhar junto deles, de modo a eliminar dvidas que poderiam surgir quanto s questes mais complexas, no decorrer do trabalho de traduo. 
Naquela noite, ao final dos estudos, Miguel comunicou a todos sua preocupao quanto  necessidade de mais publicaes espritas traduzidas para o espanhol. Assegurou 
que seu desejo era ver a doutrina disseminada, esclarecendo e consolando, orientando e iluminando aqueles que estivessem prontos. Afirmou ainda a certeza de que, 
de alguma forma, os espritos providenciariam a pessoa apropriada para ajudar na tarefa e que j tinha as orientaes para a empreitada quando essa pessoa se apresentasse: 
deveria ir a Paris para trabalhar ao lado dos companheiros iniciadores do Espiritismo. Depois que quase todos saram, Miguel se manteve calado, sentado  mesa. Emilie, 
que conversava alegremente com Jairo, em seus ltimos dias em Barcelona antes de retomar temporariamente a Marrocos, observou que o amigo parecia bastante preocupado. 
Aproximou-se dele e perguntou:
- O que foi, Miguel?
- No podemos prescindir dos livros e outros materiais que nos ajudariam e que no temos como utilizar em francs. Sei que as foras contrrias ao nosso ideal no 
sossegam um s instante, porm ao mesmo tempo sei que a soluo vir.
Emilie olhou-o demoradamente e de repente disse:
- Voc acha que poderia cuidar das crianas do orfanato para mim?
- O qu?
- Se eu tivesse de me ausentar por uns meses, cuidaria delas? Miguel sorriu, contente em perceber que Emilie enxergava a oportunidade que ele realmente acreditava 
destinada a ela.
- Se fosse necessrio, daramos um jeito. O trabalho que voc tem feito  respeitado e j tem diversos apoiadores em nosso meio.
- E  somente atravs desse apoio que tem sido possvel manter o orfanato aberto.
- E recebendo novas crianas...
-  verdade, Miguel, elas no param de chegar! Emilie calou-se um instante, depois prosseguiu:
- Poderia cuidar delas, ento?
- Se fosse preciso, sim, mas por que pergunta? Pretende viajar, Emilie?
- Se cuidar das crianas para mim, viajo a Paris. Como sabe, o francs  minha lngua me; e pelos anos que vivo neste pas, alm da facilidade que tive em assimilar 
o idioma, domino igualmente o espanhol. H tempo espero fazer algo para colaborar com a expanso dessa doutrina de luz que me deu tanto consolo, tanto amparo, que 
me fez renascer, enfim. No posso deixar de oferecer-me. Se voc acha que eu posso de alguma forma contribuir, eu me coloco  disposio. Vou para Paris, Miguel.
- E sua famlia? Seu marido, Cntia?
- Ainda esto viajando; chegam em duas semanas. Conversarei com Ricardo. Talvez o convena a me acompanhar. No sei, Miguel... De qualquer maneira, gostaria de contribuir.
Miguel sorriu jubiloso e disse:
- No sabe como me sinto feliz por ouvir isso, Emilie. De fato, essa tarefa lhe pertence, embora eu no tivesse direito de lhe pedir tal sacrifcio. Conheo bem 
as dificuldades que tem enfrentado, sei que est temerosa pelo futuro, pela deciso de Ricardo, e jamais poderia pedir que se sacrificasse. Contudo, sempre senti 
que em suas mos a misso seria bem executada.
- Pois ento est decidido. Temos duas semanas para tomar todas as providncias. Quando Ricardo chegar, preciso ter tudo definido: lugar para ficar em Paris, estrutura, 
suporte para as crianas - enfim, tudo tem de estar pronto.
- Est mesmo disposta a se dedicar a essa empreitada, Emilie? Tenho acompanhado seu trabalho e vejo que progride a cada dia. Tem certeza de que  momento para mais 
esse esforo pessoal?
Emilie o fitou com os olhos cheios de lgrimas e, sob forte emoo, disse:
- De fato no tem sido fcil, Miguel. E s de pensar em me separar outra vez de minha filha, por qualquer motivo que seja, fico apavorada. Por outro lado, nada se 
compara  paz e ao bem-estar que sinto a cada dia, quando cumpro o meu dever. Alm do mais, estou muito mais equilibrada depois que comecei a dedicar-me novamente 
ao trabalho. Preciso trabalhar; s assim poderei viver em paz. Compreendo a importncia dos livros e sei que muitos sero beneficiados pelas tradues. Se tivssemos 
mais material de leitura, aqueles que vm at ns cheios de dvidas e incertezas teriam mais recursos para acelerar o conhecimento e a aprendizagem. No posso pensar 
no sacrifcio, Miguel; devo pensar naqueles que sero favorecidos com os resultados de nossos esforos. 
Miguel abraou a amiga ternamente:
- Pois ento prepararemos tudo. Quero que se concentre no seu trabalho junto s crianas e em selecionar os voluntrios que vou encaminhar a voc. Quanto  viagem 
e suas condies de hospedagem e sobrevivncia em Paris, deixe por minha conta.
Aps saborear suave ch em companhia de Miguel, Jairo e alguns outros amigos ntimos, Emilie regressou pensativa. Perguntava-se, pelo caminho, se de fato estaria 
fazendo a coisa certa. Ao chegar em casa, uma surpresa a esperava. Assim que entrou, a governanta encontrou-a na porta e disse baixinho:
- Eu disse que a senhora iria demorar, mas ela insistiu e me ameaou; no tive escolha. Ela me fez acender a lareira e servi-la, depois deu ordens como se fosse 
a dona da casa. Eu no sabia o que fazer...
Emilie viu Isabel sentada na poltrona da sala e disse, tocando o ombro da jovem governanta:
- No se preocupe, est tudo bem. Deixe que cuido disso sozinha.
- A senhora tem certeza de que no devo procurar ajuda?
- Apenas fique atenta. Se precisar de alguma coisa, eu chamo.
A governanta se afastou e Emilie, com passos firmes, entrou na sala. Isabel, que permanecia sentada, limitou-se a erguer os olhos e atacou:
- At que enfim! Somente uma mulher sem responsabilidade como voc poderia chegar em casa, na ausncia do marido, a uma hora dessas.
Emilie aproximou-se e disse:
- Vamos direto ao assunto, dona Isabel. Qual o motivo de sua visita?
- Vim avisar-lhe que no vou desistir de provar que voc no  a pessoa certa para viver com meu filho nem para cuidar da minha neta. Assim que Ricardo voltar, tomarei 
providncias para que ele decida certo desta vez. Eu vinha esperando ansiosamente uma oportunidade, que voc me entregou de bandeja, com toalha branca e prata de 
lei! A sua ridcula insistncia em prosseguir com as idias demonacas que a dominaram por completo facilitou tudo. Meu filho est de novo fragilizado, em dvida, 
indeciso; e assim voc, estupidamente, o devolveu a mim. Ricardo, que no falava mais comigo, uma semana depois de partir enviou-me uma carta desabafando sua tristeza. 
Percebi que est arrependido de lhe ter dado outra oportunidade. Ele deveria ter aproveitado os fatos a que fui forada para mostrar-lhe quem voc  na realidade 
e...
Nessa altura Emilie interrompeu a sogra, dizendo:
- E quem eu sou, Isabel? Por que me odeia tanto? J pensou nisso?
- Voc me causa repugnncia!
- E j pensou no porqu? Diga-me, Isabel, por qu?
- Ora, no me obrigue a ser direta...
- Estou pedindo que seja. Quero que me diga por que eu a incomodo tanto.
- Ora, no tenho de lhe dar satisfaes sobre meus sentimentos.
- No consegue explicar, no ? De fato voc no entende por que tem tanto ressentimento por mim, no consegue explicar essa repugnncia. Voc no sabe, Isabel, 
no? Pois eu sei e vou lhe dizer: ns duas j estivemos do mesmo lado. J vivemos juntas em outras vidas, agindo de maneira equivocada em relao  religio que 
abraamos.
- Cale-se, sua maluca! No creio nessas coisas!
- No acredita? Ento por que o que estou dizendo mexe com voc? No pode explicar a origem desses sentimentos, mas eu sei que de alguma forma se sente trada por 
mim. Trada porque j no comungo com voc das mesmas crenas e dos mesmos anseios. Sente como se eu fosse uma desertora. No sou mais sua parceira em desatinos 
de toda sorte contra aqueles que, mais fracos, no podem defender-se. Isabel se levantou, visivelmente transtornada. No conseguia compreender por que o que Emilie 
dizia a tocava to profundamente. Irada, gritou:
- Cale-se! No quero ouvir nem mais uma palavra! Vou fazer tudo para afastar voc de meu filho e para tomar sua vida insuportvel, est me ouvindo? Vou perseguir 
voc, no pense que estar livre de mim!
- Acalme-se, Isabel - pediu Emilie, estendendo a mo para o brao da sogra.
- No ouse me tocar! Voc no merece encostar em mim.
- Por qu? O que lhe fiz? Diga-me, o que foi que fiz a voc que a deixa to enfurecida? - dessa vez, segurou o brao de Isabel com fora surpreendente.
- Solte-me! - Insistia ela.
- Somente quando me explicar por que tem essa raiva incontrolvel de mim. Diga-me o que fiz a voc, olhando dentro dos meus olhos.
Agora prendendo Isabel com as duas mos, Emilie tinha os olhos fixos nos seus e ela, subitamente fragilizada, buscava soltar-se, dizendo:
- No sei, no sei. Deixe-me! Voc me assusta!
- Por que, Isabel?
- Eu no sei!
- No percebe? Sem dvida no  a primeira vez que nos encontramos, e certamente j caminhamos lado a lado em outra existncia.
- Isso no existe!  mentira!
- No, Isabel,  verdade! J vivemos outras vidas, e trazemos marcas profundas daquilo que fizemos em encarnaes passadas. Somos hoje o resultado daquilo que fizemos 
aos outros e a ns mesmos. Seu dio sem explicao  um claro sinal. Tudo isso  verdade, Isabel, no podemos mais negar.
- Voc  louca! Est dominada!
- Se estou possuda, como explicar que esteja to serena, tranqila e agindo de forma construtiva? Antes de conhecer e compreender essas verdades sobre a vida depois 
da morte, sobre a possibilidade do contato entre os dois mundos, minha vida estava confusa e vazia. No sabia ao certo quem eu era nem tinha um sentido para minha 
existncia. Desejava apenas ser feliz, desfrutar o maior prazer que pudesse e realizar cada um de meus desejos e caprichos. No entanto, descobri algo muito maior 
e mais belo: descobri a origem de meu desequilbrio e compreendi que tudo o que sofria era resultado daquilo que fizera com minha vida, em outra encarnao. Hoje 
estou no controle do meu destino e quero acertar. Quero servir a Deus, ser vindo antes de tudo aos meus semelhantes. No sei quanto tempo vou levar para reparar 
os erros que cometi no passado, mas vou dedicar minha vida ao Bem, ao Amor e a Deus, para que possa aproveitar a oportunidade que tenho, aqui e agora. E foi voc 
quem me ajudou, Isabel; apesar de todo o mal que pensa me ter feito, voc me ajudou a me encontrar. Se me teme,  porque tambm est perto de descobrir a verdade. 
No relute mais.
Isabel ouvia em silncio. Estava alterada e visivelmente abatida. Todavia, quando Emilie se calou e soltou seus braos, ela disse com voz trmula:
- Voc no vai me envolver em sua teia. Est sob influncia maligna e no quero saber de nada que vem de voc!
Sem falar mais, pegou o casaco e saiu depressa, deixando a porta aberta. Emilie s pde dizer em voz alta, enquanto ela se dirigia quase correndo para a carruagem:
- Pense bem, Isabel. No tem explicao para esses sentimentos!
Isabel entrou rpido na carruagem, que imediatamente desapareceu rua afora. Emilie, intrigada, fechou a porta e voltou-se devagar. A governanta, plida, a aguardava:
- A senhora est bem, dona Emilie? Essa mulher  muito perigosa!
Acomodando-se no sof, Emilie respondeu:
- Eu estou bem. Talvez neste momento dona Isabel esteja mais assustada do que ns, Ismnia.
Fazia vinte dias que Ricardo e Cntia estavam fora; em breve regressariam. Desde a partida de ambos, Emilie dedicava seu tempo ao orfanato, ao estudo e a longos 
perodos de meditao e prece, onde buscava em Deus a fora e a orientao de que precisava. Sabia que em alguns dias teria de tomar uma deciso muito difcil. No 
desejava de forma alguma se afastar da filha, tampouco de Ricardo. Seu amor por eles era imenso. Contudo, sabia que no poderia mais se deter. Estava com medo e 
se sentia angustiada, sem conseguir ver uma soluo. Ricardo se mostrava irredutvel nas poucas cartas que enviara. A visita de Isabel poderia significar um agravamento 
na situao. Se ela decidisse interferir, as coisas se complicariam ainda mais. E Emilie buscava na orao a energia de que necessitava. Nessas horas de recolhimento, 
subia ao seu quarto e, de portas fechadas, sentava-se na beira da cama e punha-se a falar com Deus, deixando que as emoes, os medos, as angstias todas flussem 
de seu ntimo:
- Meu Deus, sei que pode me ajudar. Tudo Lhe pertence, so Seus o poder e toda a bondade. Oriente-me para que saiba agir de maneira correta, conforme  Seu desejo, 
meu Pai. No quero prejudicar meu lar, minha famlia, que so tambm sagrados, Senhor. Mas sinto que devo dedicar minha vida aos meus semelhantes, atravs do trabalho 
incessante no Bem, amparando os que necessitam, bem como contribuindo, ainda que minimamente, para a divulgao dessa doutrina iluminada que vem reviver os princpios 
puros e verdadeiros do Cristianismo. O que devo fazer, Senhor? Meu marido no aceita meus deveres. Como agir, ento? No sei, meu Pai, porm creio em Sua infinita 
sabedoria e sei que v com toda a clareza aquilo que eu nem imagino que possa existir.
Em atitude interior de humildade e submisso, Emilie se emocionava intensamente. Ao final desses momentos a ss com Deus, sentia paz e consolo intraduzveis. Seu 
corao se acalmava e ela saa do quarto revigorada, confiante que da infinita sabedoria de Deus viria a orientao no momento oportuno. Enquanto aguardava o retomo 
daqueles que tanto amava, entregava-se diariamente a esses perodos de orao e meditao. Afinal, aproximava-se o dia em que estariam de volta. Emilie no percebera, 
mas a dedicao amorosa s crianas, o contato freqente com benfeitores espirituais de esferas elevadas e a orao constante conferiam-lhe uma beleza diferente. 
Estava envolvida em uma aura de suavidade e ternura, que dela emanava sem que se desse conta. Ricardo silenciara. Havia duas semanas que no recebia nenhuma carta 
dele e por isso temia o pior. Olhava pela vidraa da sala de estar a cada rudo que escutava, at as cortinas ficarem amassadas e desarrumadas. Estimara a hora em 
que chegariam e esperava ansiosa. Os segundos se arrastavam, e j estavam atrasados. Pedira para a governanta preparar o almoo mais especial que conhecia, ao gosto 
de Ricardo, em cada detalhe. Inquieta, num entra-e-sai pela cozinha, ela perguntava:
- Est tudo pronto mesmo? Tem certeza?
A governanta, achando graa da ansiedade da patroa, sorriu:
-  claro que est, dona Emilie, e j faz tempo. Vamos, fique tranquila.
Esfregando as mos, Emilie sorriu sem graa:
- Estou com muita saudade...
- Eu posso imaginar. Mas tenha calma. A senhora est linda, ele ficar feliz em v-la. Alm do mais, por que se preocupa tanto, se o que tem feito  somente o bem? 
Quando agimos certo, podemos estar em paz. Quando temos a conscincia culpada, nos cobrando algo,  que ficamos feios e entristecidos. A senhora, no!
Emilie sentiu-se intrigada com o que Ismnia lhe dizia. Nunca havia conversado mais intimamente com a governanta e ela parecia compreender seus pensamentos. Foi 
ento arrancada de suas reflexes pelo barulho da porta de entrada se abrindo e correu para a sala. Era o carregador com as malas. Logo atrs vinha Cntia, alegre, 
buscando a me. Emilie correu ao seu encontro e abraou-a:
- Estava com tanta saudade, filha!
- Eu tambm, mame. Foi uma viagem linda, precisava ver os lugares que visitamos!
-  mesmo?
Ainda estava abraada  filha quando Ricardo, formal e srio, entrou. Emilie se levantou limpando as lgrimas e estendeu os braos para ele,  espera do desejado 
abrao. Ricardo olhou-a por um instante e depois, num impulso incontrolvel, abraou-a fortemente. Emilie chorava no ombro do marido, entre feliz e temerosa. Por 
fim, perguntou:
- Foi tudo bem, querido?
- Foi uma linda viagem, pena no ter nos acompanhado. Mas vejo que est muito bem.
-  verdade, me. O que aconteceu com voc? Est linda!
Emilie sorriu feliz ao dizer:
- No tenho feito outra coisa a no ser trabalhar no orfanato e estudar, trabalhar e estudar. E,  claro, pensar em vocs dois. Senti muita saudade.
Ricardo no respondeu. Assim que descansaram um pouco, sentaram-se para o almoo. Ele ficou surpreso com o delicado esmero da mesa, da comida. Emilie nunca fora 
to atenciosa como naquele momento. Almoaram. Cntia falava sem parar, contando tudo que havia visto e vivido. Ricardo sorria, mas falava pouco. Quando terminaram, 
Emilie disse:
- Agora  bom que descansem pelo resto da tarde. A viagem foi longa.
- Cntia precisa mesmo descansar - respondeu Ricardo -, e eu preciso ir at a fbrica, ver como andam as coisas. Tenho me mantido informado, mas preciso ver como 
esto os negcios. Volto no final da tarde e ento vamos resolver nossa situao, Emilie.
Ricardo saiu e ela se deitou junto com a filha. Cntia adormeceu no ombro da me, que, segurando firme suas mos, refletia longamente sobre o que teria de enfrentar. 
Ao final da tarde, Emilie aguardava o marido enquanto tocava piano com a filha. Ricardo entrou e sorriu ligeiramente ao ver as duas ao piano. Sentou-se na sala, 
observando-as por alguns instantes, depois disse:
- Muito bem, Cntia, agora eu e sua me vamos sair. Temos muito que conversar. V para seu quarto e descanse.
- Tenho uma idia melhor, Ricardo. Combinei com alguns amigos para levarem Cntia ao orfanato hoje. Ela quer muito rever as crianas. Assim, poderemos conversar 
com tranqilidade.
- J disse um milho de vezes que no quero Cntia naquele lugar! No quero! O que tem para fazer l?
- Ela gosta de estar com as crianas, de ajudar, de lhes dar ateno. Qual  o problema que v nisso?
E tomando-se muito sria, acrescentou:
- Ao menos estou incentivando-a a fazer aquilo de que gosta. No admitiria jamais que nossa filha ficasse num convento, contra sua vontade, distante de tudo e de 
todos! Isso, sim, iria prejudic-la! E voc, que diz querer o melhor para ela, inclusive afastando-a de mim, permitiu que isso acontecesse!
Ricardo ficou plido. No tinha idia de que a esposa soubesse do ocorrido com a filha. Cntia, que combinara com o pai no contar o fato  me, olhou para ele e 
disse:
- Eu no falei nada, pai, juro! Ns combinamos...
- No foi ela quem me contou, Ricardo.
Subitamente Emilie comeou a narrar quase sem controle todo o drama que a filha vivera. Mencionou cada detalhe: como havia sido arrastada pelo bispo e depois pelas 
freiras; o horror que sentira ao ver a manso desaparecendo de sua viso; como fora abandonada no convento, em uma cela escura, quase sem comida; as inmeras vezes 
que chorara, suplicando a Deus que a tirasse daquele lugar. O relato era to vivo que Ricardo ficou alucinado. Nunca pensara em profundidade no que a filha havia 
passado. Sabia que fora uma experincia difcil, mas jamais imaginara o quanto ela sofrer. Enquanto Emilie narrava, era como se Ricardo vivesse todas aquelas emoes, 
cada uma delas em toda a sua intensidade. Quando finalmente, exausta, Emilie se calou, Ricardo chorava baixinho e dizia:
- Eu no queria, mas no consegui evitar, no tive foras... Emilie, surpresa com a prpria narrativa, ficou quieta por algum tempo. No sabia o que dizer. Estava 
igualmente chocada com o que a filha vivera. Cntia, olhando os dois, aproximou-se do pai e disse:
- Pai, no fique triste assim, sei que no quis que nada de ruim me acontecesse. Agora tudo passou. Estamos bem, juntos, no vamos mais permitir que coisa alguma 
atrapalhe nossa felicidade.
E puxando a me, colocou as mos dela sobre as do pai. Continuou:
- No  por no pensar de forma igual que temos de viver separados. Foi por isso que minha av fez o que fez comigo: porque no suporta que eu seja diferente, como 
no suporta que minha me seja diferente. Mas na realidade somos todos diferentes, e no podemos deixar que isso nos afaste uns dos outros. Somos uma famlia, no 
somos? Por favor, pai, no mande minha me embora, por favor! Precisamos dela! Voc no percebe, pai?
Sem conseguir controlar-se, Ricardo abraou a filha e chorou sentido. Quando se acalmou, olhou Cntia e disse:
- Voc tem razo, filha.
Ento fitou Emilie, esperando por algum apoio. Ela o abraou e disse:
- Deveramos ao menos tentar, e nos esforar de verdade! Ricardo balanou a cabea, concordando. Cntia agarrou- se ainda mais aos dois.
Alguns dias depois, abraada  filha, Emilie contemplava o movimento do mar. Comeava o vero e uma brisa morna bafejava suavemente seu rosto. Cntia, de quando 
em quando, observava a me e sorria. Ao perceber que lgrimas desciam pela sua face ela as enxugou, pedindo:
- Por favor, me, no chore. Abraando a menina com fora, Emilie respondeu:
- No se preocupe, filha. Minhas lgrimas so de gratido. E olhando carinhosamente a casinha onde tanto aprendera, sorriu dizendo:
- Sou muito grata por tudo o que aprendi aqui. Devo muito aos amigos que me ensinaram o verdadeiro significado da palavra amor.
Cntia ouvia atenta e satisfeita s palavras da me. Estava orgulhosa e feliz por v-la transformada e em paz. Sem dizer nada, apertou as mos de Emilie e sorriu. 
As duas continuaram observando o mar quase at o sol se pr. Emilie queria passar naquele recanto iluminado seus ltimos momentos na Espanha. Quando o sol se escondeu, 
ela fechou as janelas da pequena casa. Nunca imaginara que teria tanto carinho por aquele recanto de paz. Quando partiam, viu Lucrcia vindo em sua direo. Estava 
envolta em intensa luz e sorria. Emilie, feliz, escutou suas doces palavras:
- Que Deus a acompanhe e abenoe. H muito trabalho a ser feito. Siga aprendendo e ensinando o Evangelho de Jesus,  luz da doutrina que os espritos esclarecidos 
nos legaram. O caminho  ngreme e rido. Mesmo assim, no tenha medo; muitos no a compreendero nem a apoiaro, mas siga sempre confiante, pois igualmente somos 
muitos deste outro lado, e estaremos com voc. F, pacincia e amor, que a luta est apenas comeando.
Quando Lucrcia fez curta pausa, Emilie disse:
- Querida Lucrcia, quanto devo a voc! Obrigada por todo o carinho que me dedicou. Sua renncia me inspira e foi o seu amor que me ensinou a confiar no amor de 
Deus. Que o Pai a ilumine ainda mais, querida protetora!
Lucrcia aproximou-se de Cntia e, envolvendo-a com ternura, disse:
- Desejei muito abra-la, pequenina.
Emilie observava Lucrcia, ignorando que Cntia podia v-la, e se surpreendeu quando a menina respondeu:
- E eu queria muito abraar voc. Obrigada por cuidar de minha me. Que Jesus a abenoe.
Surpresa, Emilie interpelou-a:
- Pode v-la, Cntia?
- Perfeitamente. Sorrindo, Lucrcia se despediu:
- Preciso ir e vocs tambm. No devem perder o trem que parte de Barcelona para Paris. Lembre-se, Emilie: a luta est apenas comeando, mas se permanecer firme 
no bem, triunfar.
Me e filha sorriram olhando Lucrcia, cuja imagem se afastara e se dissipava pouco a pouco no horizonte, sobre o mar. Resoluta, Emilie fitou carinhosamente a filha, 
com os olhos a brilhar muito, e disse:
- Voc ouviu nossa benfeitora. Vamos, querida, temos muito a fazer.
Sem dizer nada, Cntia seguiu a me. Alcanaram Ricardo, que as esperava na carruagem. Prosseguiram em direo  vila, percorrendo o mesmo caminho que Emilie fizera 
na noite em que tentara pr fim  prpria vida. Ela sentia o corao feliz e agradecido a Deus pela oportunidade de uma nova vida que Ele lhe dera.  medida que 
se distanciava do penhasco, pensava nas responsabilidades que assumira e imaginava as dificuldades mencionadas por Miguel e Lucrcia. No obstante, estava comprometida 
com a expanso dos conhecimentos espritas que a haviam auxiliado e libertado, e que levariam esperana  Humanidade. Finalmente o penhasco ficou para trs e Emilie, 
confiante, como se tivesse renascido, seguia para a nova etapa de lutas e intenso trabalho. Testemunhar a transformao interior que nela se processava foi penoso 
e m muitos momentos. As entidades espirituais que a odiavam a acompanharam por toda parte durante longo tempo, impingindo-lhe dor, angstia e medo em inmeras ocasies. 
Emilie esteve diversas vezes a ponto de desistir de suas tarefas na divulgao dos libertadores princpios espritas. Mas sempre que se sentia fatigada ou desmotivada 
recebia novo alento da Espiritualidade, na figura carinhosa da av Heloise e tambm na de Lucrcia, que por vrios anos trabalhou, j com a ajuda consciente de Emilie, 
na recuperao das entidades que a perseguiam. Entre momentos de dificuldade, dor e renncia, Emilie prosseguia. Naquela noite, especialmente, sentia enorme cansao. 
Depois de quase dois anos colaborando na traduo de livros e artigos, estava exausta. Os trabalhos no orfanato exigiam cada vez mais dela, que permanecia menos 
tempo com a famlia. Alm dos problemas com Ricardo, que continuavam, e do assdio constante de entidades desencarnadas, tinha de livrar-se dos ataques diretos da 
Igreja e de Isabel, que se faziam mais speros e freqentes. Ela no desfrutava um s minuto de tranqilidade. Enquanto se dirigia  casa de Miguel, para os estudos 
da noite, pensava em como encontraria foras para prosseguir; indagava-se por que s vezes tudo lhe parecia to difcil e penoso. Mesmo relembrando a revelao dolorosa 
que Lucrcia fizera quanto ao seu passado, sentia que s vezes as dificuldades excediam os problemas pessoais, como se algo maior do que suas mazelas particulares 
estivesse em questo. Demonstrava abatimento e cansao quando encontrou Miguel. Ele, entretanto, estava radiante. Recebeu-a  porta e disse:
- Que bom que chegou Emilie. Esta noite ser especial!
- O que houve Miguel? - Perguntou, tentando animar-se. Olhando-a nos olhos, ele disse:
- Parece cansada... Emilie sorriu e disse:
- So as pedras do caminho, Miguel.
- Tambm me sinto cansado, s vezes. Mas hoje temos motivo mais do que justo para nos alegrar, para revigorar nossas energias e renovar nossas esperanas.
- O que houve?
Ele passou s mos de Emilie um pacote semi-aberto:
- Chegou hoje da Sociedade Esprita de Paris. Trata-se do mais novo livro de Allan Kardec.
Emilie abriu o pacote e leu na capa o ttulo: Imitao do Evangelho1. Folheou o livro e, ao ler pequenos trechos, ergueu para o amigo os olhos rasos de gua, dizendo:
- Que coisa maravilhosa, Miguel!
- Esta mensagem, que est contida na obra, veio em separado. Vamos l-la na reunio de hoje. Creio que ir ajudar a todos ns.
Naquela noite os estudos se realizaram com notvel leveza no ambiente. Ao final, trechos do livro recm-chegado foram lidos. No semblante dos participantes, nova 
luz parecia se acender, como se sutil energia os acalentasse. Depois, Miguel passou s mos de Emilie a mensagem que viera destacada e pediu, sorrindo:
- Por favor, Emilie, leia para todos ns.
Em p, colocando-se em profunda reverncia, ela comeou a ler:

"Erasto, Paris, 1863.

No percebeis desde j a formao da tempestade que deve assolar o Velho Mundo, e reduzir a nada a soma das iniqidades terrenas? Ah, bendirei o Senhor, vs que 
tendes f na sua soberana justia, e que, novos apstolos da crena revelada pelas vocs profticas superiores, ides pregar o dogma novo da reencarnao e da elevao 
dos Espritos, segundo o bom ou mal desempenho de suas misses e a maneira por que suportaram as suas provas terrenas.

1 - Ttulo dado ao livro O Evangelho Segundo o Espiritismo em sua primeira edio. (Obras Pstumas - Traduo de Joo Teixeira de Paula, Lake, p.151)

Deixai de temores! As lnguas de fogo esto sobre vossas cabeas. Oh, verdadeiros adeptos do Espiritismo: vs sois os eleitos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. 
 chegada a hora em que deveis sacrificar os vossos hbitos, os vossos trabalhos, as vossas utilidades,  sua propagao. Ide e pregai: os Espritos elevados esto 
convosco. Falareis, certamente, a pessoas que no querero escutar a palavra de Deus, porque essa palavra os convida incessantemente ao sacrifcio. Pregareis o desinteresse 
aos avarentos, a abstinncia aos dissolutos, a mansido aos tiranos domsticos e aos dspotas: palavras perdidas, bem sei, mas que importa!  necessrio regar com 
o vosso suor o terreno em que deveis semear, porque ele no frutificar, no produzir, seno sob os esforos incessantes da enxada e da charrua evanglicas. Ide 
e pregai! Sim, vs todos, homens de boa-f, que tendes conscincia de vossa inferioridade, ao contemplar no infinito os mundos espaciais, parti em cruzada contra 
a injustia e a iniqidade. Ide e aniquilai o culto do bezerro de ouro, que dia a dia mais se expande. Ide, que Deus vos conduzi Homens simples e ignorantes, vossas 
lnguas se soltaro, e falareis como nenhum orador sabe falar. Ide e pregai, que as populaes atentas recebero com alegria as vossas palavras de consolao, de 
fraternidade, de esperana e de paz..."
Emilie no pde continuar. Envolvida pelas energias vibrantes e renovadoras das palavras que lia, no conseguiu conter a emoo e se entregou a copioso pranto reparador 
que no era de dor, e sim de profunda gratido queles espritos sbios e amorosos, que faziam chegar na hora certa tudo aquilo de que necessitavam. Ela se sentia 
constrangida diante do amor, do carinho e do cuidado com que os benfeitores espirituais cercavam a todos eles. Precisou de algum tempo para se recompor e s ento 
terminou a leitura da mensagem. Fora da casa de Miguel, a vida noturna em Barcelona prosseguia pulsante. Naquela mesma hora, inmeros agrupamentos de artistas e 
intelectuais discutiam idias revolucionrias e novos conceitos para o progresso da sociedade. Do grupo reunido na casa de Miguel emanavam raios luminosos que envolviam 
o ambiente e se expandiam por toda a cidade, estendendo-se ao infinito. Nascia uma nova era de conhecimento, luz e esperana para a Humanidade. Belm "A Casa do 
Po Entre, Descanse, e siga em paz. O Grupo Cristo Assistncia! Casa do Po XXXI  uma entidade sem fins lucrativos, situada no bairro do Maracan, regio carente 
da periferia da cidade de Atibaia. Desde 1998, temos como misso atuar na base da formao da criana e adolescente ajudando-os a descobrir e desenvolver seu potencial. 
Para isso buscamos auxiliar as crianas e suas famlias atravs da distribuio gratuita de alimentao, roupas e xaropes fitoterpicos, alm do atendimento odontolgico. 
Para contribuir com o desenvolvimento do potencial das crianas, implantamos na Casa do Po o projeto Centro da Juventude Anlia Franco, que oferece apoio psicolgico 
e educacional atravs das atividades de diversas oficinas, como: marcenaria, padaria, apoio escolar, entre outras. Atualmente so cerca de 110 famlias atendidas 
e o projeto Centro da Juventude trabalha com mais de 40 crianas. Venha fazer parte desta famlia. Trabalhemos, que o cu nos ajudar! Unam-nos e nada poder suplantar 
a nossa fora! E amemo-nos para que Jesus possa se expressar atravs de ns. Somente assim estaremos realmente cooperando para que a caridade suavemente caminhe 
estabelecendo o amor na face da Terra. Seja um apoiador da Casa do Po ou tome-se um voluntrio. Venha nos visitar. Rua Alberto de Almeida Brando, 187 - Maracan 
- Atibaia - SP. Fone: (11) 4415 1500.
"Faze por um dia ou por semana um horrio de servio gratuito em auxlio aos companheiros da Humanidade".

Emmanuel
